Acho interessante a maneira como, aqui na Espanha, a palavra “protótipo” está muito presente em diferentes iniciativas de coletivos ativistas (ambientais, urbanistas, hackers, culturais etc) e como este termo é utilizado por instituições públicas e não-governamentais. Investigar e problematizar a genealogia desse termo daria uma ótima tese (lançada a sugestão). Gosto da idéia de protótipo por algumas razões, por isso comecei a utilizá-la há algum tempo para descrever algumas práticas em que estou envolvido.
Na minha experiência, se a memória estiver correta, comecei a escutar esse termo nos primeiros anos do século XXI (2003…2005?), em grupos da então chamada “cultura digital” (bons tempos com midiatática, submidialogia, metareciclagem, midiaindependente…). Naquele contexto, acho que a palavra vinha mesmo da turma que estava mais imersa na cultura de desenvolvedores de softwares (seja por experiência profissional ou de formação). Ali, a noção de protótipo trazia vínculos de origem com a criação de produtos ou serviços – empresarial, corporativa ou mesmo de programadores entusiastas do software livre – que deveriam ser colocados rapidamente em circulação para que pudessem ser testados e aperfeiçoados.
Ao invés de ficar desenvolvendo um produto até sua conclusão, a ideia do protótipo valorizava o inacabado e a importância da abertura para que se receber rapidamente novos inputs e melhorias, dando relevância aos modos de uso e apropriação para experimentar suas possíveis trajetórias e adequações. Em suma, ele reúne elementos que reconhecem o caráter contextual de qualquer criação. Ao mesmo tempo, a maneira como o ambiente, as infraestruturas e as relações sociais participam do arranjo que surge com o protótipo em uso é parte indissociável do próprio protótipo. Isso que parece um pequeno detalhe faz muita diferença quando exploramos algumas das implicações políticas desta concepção. Talvez por isso, o termo tenha deslizado tão facilmente para outros contextos. Farei um pequeno comentário sobre os possíveis sentidos da noção de protótipo em dois campos: (1) produção de conhecimento; (2) prática política.
(1) Prototipar como forma de conhecer
Quando a ideia de protótipo refere-se a uma prática de conhecer surgem coisas interessantes. Em primeiro lugar, significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer.
Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem.
Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes.
Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.
(2) Protótipo e ação política
Quando a noção de protótipo é mobilizada por coletivos ativistas ela pode indicar outras formas de ação política, que também encontramos no repertório de alguns movimentos sociais. A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto idealizado e acabado de um modo de vida ou sociedade futura, pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja. Pode-se estabelecer aí uma relação com o conceito de política “pré-figurativa” tão presente em alguns movimentos contra-culturais (anos 60-70s) e nos movimentos alter-anti-globalização (2000’s).
É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).
A criação de protótipos nos “laboratórios cidadãos” é traduzida por Antonio Lafuente numa boa expressão: do protesto à proposta. Ou seja, ao se engajarem na produção de protótipos esses coletivos afirmam e experimentam positivamente a possibilidade de construção situada (contextualizada, implicada, parcial) de alternativas concretas para aquilo que reivindicam. Ao fazerem isso dão a ver de maneira mais clara o comum ameaçado, apropriado, e os mecanismos de reprodução social em sua micro e macro-política.
A criação de um protótipo, no contexto de uma intervenção ativista, também indica a valorização de ações práticas, em detrimento das armadilhas das escolhas excessivamente ideologizados que se descolam das condições de ação no presente. Evidentemente, toda prática é portadora de princípios e valores, mas quando deslocamos o foco para a construção de uma ação prática somos obrigados a criar soluções que tornem aquela ação possível. É portanto, um outro estado de presença corporal, onde aprendemos a pensar e praticar uma política sensível com o corpo que temos no mundo que habitamos. Em suma, indica-se uma outra concepção de mudança social.
Veja o artigo: 2016. Corsín Jiménez, Alberto & Adolfo Estalella. ‘Ethnography: a prototype.’ Ethnos, online first, DOI: 10.1080/00141844.2015.1133688. Special Issue, Obstruction and Intervention, edited by Rane Willerslev, Lotte Meinert and George Marcus. Pre-print available here
Em 2015, o encontro anual do grupo de trabalho em Ciência Aberta ocorre em parceria com a OpenCon 2015, conferência mundial de uma nova geração de acadêmicos para avançar práticas científicas. Também sediará um seminário internacional organizado pelo Núcleo de Pesquisa e Tecnologia em Produção Científica da ECA-USP. Com atividades acadêmicas de capacitação, informação e reflexão, ao longo dos quatro dias os participantes compartilharão suas práticas abertas e análises dessas dinâmicas de produção.
Dias 25 e 26: laboratórios de capacitação na Universidade de São Paulo e Garoa Hacker Clube
Dias 27 e 28: seminário internacional na Universidade de São Paulo
Apresentamos nosso trabalho na sessão dedicada à Ciência Cidadã, junto a outros projetos muito interessantes:
Ciência Aberta Ubatuba e desenvolvimento local – SLIDES-Ciencia-Aberta-USP-2015
Henrique Parra (UNIFESP / OCSDNet)
Blogs e vlogs científicos no Brasil: em que pé estão?
Rafael Bento (Scienceblogs Brasil / NuminaLabs)
Laboratório de ciência cidadã para o uso de drones como tecnologia social
Pablo de Soto (ECO – Ufrj)
A experiência de um evento entre a sabedoria coletiva e o conhecimento científico
Nilton Bahlis dos Santos (Next – Fiocruz)
Alana Moraes, Bruno Tarin e Jean Tible, publicaram o livro “Cartografias
da Emergência: novas lutas no Brasil”, com apoio da FES – Friedrich
Ebert Stiftung.
Cada capítulo apresenta uma iniciativa que tem fomentado novas formas de
atuação política. Participo entrevistando o Silvio Rhatto do coletivo
Saravá, falando sobre tecnopolítica e organização social.
Apresentação: trabalho com tecnologias digitais e regimes de produção de conhecimento
Dois projetos: veja http://prototype.pimentalab.net
-Ciencia Aberta e Desenvolvimento Local: examina as relações entre práticas de colaboração na produção científica e as dinâmicas socioeconomicas;
-Tecnopolítica, Ação Coletiva e Saberes Situados: questões relativas à privacidade, segurança da informação, condições de acesso ou bloqueio no acesso à informação.
Efeitos da mediação das tecnologias digitais em duas direções:
-Abertura, Transparência e Colaboração
-Controle, Privacidade, Vigilância
Proposta para o Congresso da Unifesp (2014):
Deve o Conhecimento ser livre? Sim!
Para desnaturalizar as noções de propriedade intelectual, tomarei um exemplo bem atual sobre a possibilidade de Propriedade Privada Extra-terrestre
Fonte destes fragmentos: “Propriedade privada sobre as riquezas dos asteroides?”
De: José Monserrat Filho: Vice-Presidente da Associação Brasileira de Direito Aeronáutico e Espacial (SBDA), Diretor Honorário do Instituto Internacional de Direito Espacial, Membro Pleno da Academia Internacional de Astronáutica (IAA) e Chefe da Assessoria de Cooperação Internacional da Agência Espacial Brasileira (AEB).
Lyndon Johnson, então Presidente dos Estados Unidos, sobre o Tratado do Espaço, em 1967
“Hoje, o espaço é livre. Não tem cicatrizes de conflitos. Nenhuma nação detém uma concessão lá. Essa situação deve permanecer como está. Nós, dos Estados Unidos, não reconhecemos a existência de proprietários do espaço exterior, que se julguem competentes para negociar com as nações da Terra sobre o preço do acesso a este domínio…”.
Argumento do projeto apresentado pelos deputados norte-americanos Bill Posey, republicano da Flórida, e Derek Kilmer, democrata de Washington, ao Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, em 19 de maio de 2015:
“Quaisquer recursos de asteroide obtidos no espaço exterior são propriedade da entidade que obteve tais recursos, a quem devem ser atribuídos todos os direitos de propriedade daí decorrentes, de acordo com os dispositivos aplicáveis da Lei Federal.”
Tratado do Espaço de 1967: O espaço exterior e os corpos celestes são espaço comum de todos os países. Logo, nenhum país em particular tem o direito de instituir o regime de propriedade dos recursos espaciais e de sua exploração industrial e comercial. É uma ação unilateral e arbitrária que usurpa o direito dos outros países a explorar e usar livremente o espaço e os corpos celestes, além de violar o princípio da não-apropriação.
O que é propriedade intelectual => instrumento jurídico que estabelece direitos de monopólio aos seus detentores para sua exploração (econômica) exclusiva. Trata-se de um artifício jurídico-econômico que produz escassez sobre um bem de natureza não escasso, nao-rival, intangível, e que cujo uso pode gerar externalidades positivas.
Comparar a natureza econômica de um bem material.
Inovação => aqui entendido como a criação de um novo processo, objeto ou substância que pode ser inserida numa atividade econômica gerando ganhos positivos (produtividade, retornos financeiros, etc).
[Importante destacar que este é um sentido bem limitado de inovação => outra perspectiva => tecnologias sociais ou organizacionais, em que os ganhos de eficiência ou produtiva são avaliados em termos sociais. Cidades na Alemanha que utilizam carros alugados]
As relações entre Inovação e Propriedade Intelectual, neste contexto, é onde a produção de conhecimento (científico, tecnológico ou de outro tipo) encontram-se com as dinâmicas econômicas.
Nessa perspectiva, a discussão sobre Propriedade Intelectual fundamenta-se em argumentos relativos a: importância de sistemas de incentivo à criação (estimulo economico aos criadores ou investidores); sistemas de controle sobre investimentos (visando garantir possibilidades de retorno futuro); mecanismos de gestão da competição entre empresas ou mesmo entre nações.
É uma discussão que também envolve as formas jurídicas nacionais (as leis precisam ter validade num território), legislações e organismos internacionais, com todas as complexidades relativas à arbitragem (quem faz as leis, onde elas valem, quem tem condições de impor sanções etc…).
Interessante destacar: OMPI-1967, acordos internacionais sobre propriedade intelectual surgem juntamente à emergência da chamada Sociedade da Informação => momento em que parte significativa da geração de valor das atividades econômicas desloca-se das atividades ditas materiais para uma camada imaterial (design, marca, tecnologia agregada…)
Faço este breve introdução apenas para indicar como o sistemas de propriedade intelectual e as políticas de inovação, possuem história e fazem parte, portanto de modelos possíveis de desenvolvimento econômico, social, compondo assim, estratégias de desenvolvimento de países ou blocos de países.
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Em se tratando de um regime de propriedade sobre bens cuja característica é não-rival e intangivel, e cuja origem e circulação é de difícil delimitação (como controlar as idéias? Quem são, afinal, os criadores originais?) os problemas relativas à propriedade intelectual são parecidos, de certa forma, aos dilemas que enfrentamos sobre a gestão de recursos naturais comuns, como a água, o ar, etc (claro que recursos materiais são finitos e isso faz uma grande diferença). Como se dão as fronteiras de recursos marítmos? Ou do ar que respiramos? Quanto de ar podemos usar ou poluir em determinada atividade econômica?
Ao criarmos formas de gestão da produção e da circulação de conhecimentos numa sociedade estamos desenhando um “ecossistema” onde a forma de acesso ao conhecimento, enquanto recurso produtivo, pode ser modulado entre dois extremos: ambientes de fácil acesso ao conhecimento X ambientes de acesso mais restrito ao conhecimento.
A propriedade intelectual é um mecanismo para tentar gerir (positivamente ou negativamente) essas fronteiras e criar condições de estímulo ou de desistimulo à criação.
Nesse sentido, podemos pensar em “modelos de sociedade”, onde as atividades econômicas, sociais e políticas irão se desenvolver de forma diferente, a depender da “ecologia de conhecimentos”.
Essa ecologia de conhecimentos e também desenhada pelos recursos de comunicação que temos em cada época: basta pensarmos em como o surgimento da imprensa, do radio, televisao e mais recentemente da internet, produz ambientes para produção e circulação de conhecimentos muito distintas, modificando profundamente as relações de poder, as atividades econômicas e as formas de acesso à informação numa sociedade.
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Para exemplificar melhor essa idéia de “ecossistemas” e a maneira como o conhecimento, mediado pelas formas de expressão (tecnologias de comunicação, por exemplo), participa das atividades socioeconomicas e politicas, tomarei dois exemplos:
Um exemplo radical: nossa língua (o portugues) é um recurso cognitivo de uso comum que não está sujeito a um sistema de propriedade. Com isso, todos aqueles que dominam o código podem fazer uso dele sem ter que pagar por isso. Evidentemente, novas formas de estratificação social irão se estabelecer a partir das diferentes condições de apropriação deste código e das competências correlatas. Nesse sentido, a capacidade de comunicação em portugues é um recurso cognitivo que participa de toda atividade econômica sem ser exatamente contabilizado (é quase uma externalidade).
Todavia, cada vez mais, o domínio de recursos cognitivos funcionam como vetor de diferenciação quando inseridos nas atividades produtivas.
Por exemplo, o diploma universitário é um sistema de certificação sobre conhecimentos específicos que, em nossa sociedade, tornarem escassos e constituem um mercado de trabalho. Em certo sentido, podemos dizer que o diploma funciona como um tipo de certificação que confere direitos de uso/usufruto econômico sobre a posse de um conhecimento cuja domínio (ou posse) é rara.
Com isso, quero indicar que temos diferentes formas de combinar livre acesso a recursos cognitivos (ou conhecimentos) com formas “proprietárias” ou “certificadas” que garantem condições exclusivas de uso daquele conhecimento.
Com isso podemos ter modelos em que a inovação tecnológica está mais concentrada em poucos atores que detém maior acesso a conhecimentos e poder econômico; ou modelos em que a inovação está mais dispersa em redes ou grupos porque os recursos cognitivos ou materiais para inovação são de “baixo” custo de entrada.
Atualmente, há fortes debates acadêmicos sobre se os dispositivos de propriedade intelectual estão realmente funcionando como mecanismos de estímulo à inovação ou se, ao contrário, tornarem-se recursos importantes de bloqueio à inovação.
Isso ocorre em parte porque:
-aqueles que se estabeleceram primeiramente no interior do sistema de propriedade intelectual, estão em condições favoráveis economicamente e politicamente no tabuleiro. São eles que ditam as regras do jogo.
-criar e manter um sistema de gestão da propriedade intelectual é custoso.
Tal situação tem propiciado a emergencia de guerras de patentes, onde quem tem mais recursos para bancar as batalhas jurídicas acaba ganhando.
Já se utilizam, ha muito tempo, por exemplo, patentes defensivas ou preventivas.
Diante disso, na universidade, precisamos discutir qual “ecologia de conhecimentos” desejamos incentivar e quais modelos de interação entre o conhecimento produzido na Universidade e as atividades economicas e sociais extra-universidade queremos fomentar.
Quando pensamos em politicas de inovação tecnológica para o desenvolvimento socioeconomico em termos nacionais (política pública de ciência, tecnologia e inovação) devemos avaliar como o uso combinado de dispositivos de propriedade intelectual podem ser combinamos com formas de livre acesso ao conhecimento. As escolhas devem levar em conta a maneira como os conhecimentos produzidos participam na dinamica social e econômica, em que escala da sociedade (micro, macro), e em que locais de uma cadeia produtiva.
Neste sentido, penso que é estratégico discutirmos quais conhecimentos, e quais são as interações que este conhecimento produz em contextos específicos, para podermos avaliar qual forma de regulação pode potencializar o desenvolvimento social e econômico.
Só para citar exemplo desses desenhos estratégicos: “Fair Use” nos EUA => EUA tem política restritiva da P.I para fora do país, e internamente tem mecanismos mais flexíveis – com isso, consegue criar ambiente mais favorável de inovação, enquanto utiliza os mesmos dispositivos para bloquear a inovação em empresas ou países concorrentes.
Numa outra direção, muito do que temos hoje em termos de inovação tecnológica apoia-se em modelos de inovação aberta:
-internet => Tim Berners-Lee criados dos protocolos http:// , www
A internet funciona como um ambiente sociotécnico de natureza aberta à inovação que se dá nas pontas.
Antes de termos esta internet, outros modelos (tanto estatais – Minitel Frances) como modelos proprietários de algumas empresas) não foram capazes de competir com o modelo aberto proposto, baseado no TCP/IP.
Da mesma forma, os computadores da IBM, para que pudesse ficar mais baratos e competitivos, optaram por uma arquitetura aberta dos componentes, permitindo que muitas fábricas produzissem as peças necessárias para um computador.
É diante desses dilemas, e combinados à novas práticas de colaboração e uso das tecnologias digitais que temos observado o surgimento de muitas experiências interessantes de inovação aberta na área científica e tecnológica.
Este texto é a introdução do livro JUNHO: Potência das ruas e das redes, editado pela Fundação Friedrich Eber. A introdução foi escrita de forma coletiva por Hugo Albuquerque, Jean Tible, Alana Moraes, Henrique Parra, Salvador Schavelzon e Bernardo Gutiérrez. O livro é uma compilação de relatos das jornadas de junho e desdobramentos da maioria das regiões do Brasil.
O vídeo abaixo é a apresentação do livro realizada o passado dia 04 de março em São Paulo.
Em uma era na qual a morte de quase tudo – de deus até a filosofia, dos heróis às celebridades do momento – é decretada, antecipada ou mesmo inventada, a História dificilmente passaria incólume: ela teria encontrado o seu desfecho com a queda do muro. Fim de papo, agora nos restava carregar o seu pesado caixão, em um caminho único, até uma cova bem rasa. Com a História, morriam juntos, no mesmo incidente, a utopia, o porvir e o horizonte. Mas tal como ocorreu com Mark Twain, os boatos sobre sua morte se mostraram um exagero.
Já nos anos 1990, o ciclo de lutas antiglobalização dera mostras de que não era bem assim. Outros mundos eram possíveis e, acima de tudo, desejados. No começo do século XXI, as manifestações antiguerra também interrogavam os caminhos que se apresentavam como inevitáveis. A crise financeira de 2008 nos EUA e na Europa e os diversos protestos e movimentos que aí germinaram; os levantes da Primavera Árabe, dos Occupy, as largas manifestações na Rússia nos fins de 2011, as manifestações espanholas e gregas e uma miríade de outros processos multitudinários indicariam um novo ciclo em relação aos conflitos do final do século XX. Quais as continuidades e rupturas? Quais são os repertórios, as formas de organização, as reivindicações e concepções políticas em jogo? Quais as disrupções?
O Brasil, no fim das contas, dificilmente ficaria ilhado. Depois de um ciclo de ascensão democrática e popular ímpar na história do país, marcada por um processo sem precedentes de inclusão socioeconômica na década de 2000, as transformações selvagens que abalaram as estruturas do Brasil passaram a ser enquadradas por uma política gerencial, com preocupações quase que exclusivamente econômicas – as quais se encontram delineadas na forma do “desenvolvimentismo”. Nessa esteira, um ar de imutabilidade capturava nossas imaginações políticas e uma inércia tomava cada vez mais as nossas vidas.
Foi por muito pouco – aparentemente “apenas” por alguns centavos – que o copo transbordou. O baixo valor objetivo tinha uma enorme, e ignorada, dimensão subjetiva. A névoa de normalidade e estabilidade plena se desfez. A revolta contra o aumento da passagem traduzia naquele momento, em um só golpe, formas elementares de opressões e cerceamentos da vida cotidiana que já não nos dávamos conta: mobilidade, acesso à cidade, a necessidade de ocupar as ruas, de nos afetar com os encontros, de exigirmos uma distribuição radical das terras latifundiárias da política. A explosão veio quando as manifestações metropolitanas, iniciadas em capitais como Natal, Porto Alegre e Goiânia se viram em meio a levantes contra os reajustes tarifários do transporte público e se espalharam para outras cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
A história sobreviveu, se fez presente. Desta vez, no entanto, a História não teria um único embandeirado-sujeito carregando-a até um destino final previamente definido (a revolução, o poder, uma reforma constitucional). Em Junho, a história perderia o H maiúsculo. Longe da transcendência e do universal, as manifestações produziriam um enxame de redes e afetos, nem sempre encolunados numa subjetividade do Um e dos relatos clássicos da emancipação. A história caminharia na cidade e se conectaria com florestas e territórios indígenas, com corpos periféricos e desviantes, subverteria as gramáticas tradicionais das identidades fixas e fixadas, se desconectaria das instituições, não mais lugar exclusivo da política. Uma política corajosa e até então desconhecida, encontraria vetores de transformação e ar fresco em histórias outras, no espaço do comum que encontros novos abririam.
Dos atos ao acontecimento
Vamos fazer um flashback para tentar entender o furacão político das jornadas de junho: dia 13 de junho, quarto ato do Movimento Passe Livre (MPL). O protesto enfrenta por horas uma repressão policial pesada. Até então, a grande mídia estava ignorando a repressão policial, mas centenas de cidadãos registravam em tempo real com seus celulares o uso abusivo de gás lacrimogêneo e balas de borracha. A raiva explode. O dia 13 foi o ponto da virada. O rumo da onda de protestos que começou com o primeiro ato do MPL (06 de junho) havia mudado. Um estudo de Interagentes mostra que o MPL perdeu a liderança nas chamadas e conversas online após a violência policial. Perderia também o protagonismo das ruas a partir do ato do dia 17 de junho. O Brasil registrou, entre o 13 e o 17 de junho, um dos maiores volumes de tuítes da história. Um estudo de PageOneX.com visualiza uma explosão gigantesca, uma poderosa onda subjetiva e emocional nas chamadas mídias sociais. A mídia brasileira vinha falando dos “vândalos” desde o início dos protestos, criminalizando os manifestantes. Mas, como aconteceu na Turquia, onde os manifestantes do Gezi Park foram chamados de “chapullers” (vândalos), a indignação tornou-se empoderamento. No Brasil, em reação à manipulação midiática que insistia em contrapor os manifestantes “cidadãos” aos “vândalos criminosos”, muitos assumiram o nome múltiplo de vândalos ou baderneiros: “v de vinagre”, “v de vândalo”, “Maria Baderninha”, “Pedro Baderneiro”. Junho também produziu uma guerra de classificações e como consequência, uma demanda urgente pelo direito à autorrepresentação. O estudo de PageOneX.com mostra claramente como a violência policial deu passo à indignação. Posteriormente, o empoderamento emocional transformou o protesto pelo transporte em uma revolta coral, plural e fragmentada a serviço de novos imaginários: “por uma vida sem catracas”, “não é por vinte centavos, é por direitos…”.
No sábado, dia 15, aconteceu um episódio importante, que depois passaria despercebido em meio ao caldeirão emocional da revolta “vândala”. Alguns movimentos sociais mais tradicionais – entre eles a Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa (Ancop) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) – fizeram manifestações em Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro contra a Copa das Confederações. A novidade foi que alguns membros destes movimentos pediram colaboração a alguns hacktivistas do Anonymous. Teve lugar uma reunião na rede de chat encriptado CryptoCat, em uma sala chamada Garrincha, entre hacktivistas e militantes. Ninguém dos movimentos clássicos que estava dialogando na sala Garrincha sabia que o nível de viralização, dentro do contexto da onda do Passe Livre, iria ser galático.
A manifestação de 17 de Junho (# 17J), que acabou na ocupação do teto do Congresso Nacional em Brasília e com milhões de pessoas nas ruas do Brasil todo, já é parte da história. A inédita confusão do “juntos e misturados” foi a praia comum durante vários dias, algo inédito na história recente do Brasil, mais acostumado com o “juntos e não misturados”. Curiosamente, um novo embate político se estabeleceu entre a diversidade de sentidos da potência das ruas e a agenda da mídia.
Outro corte: 20 de junho de 2013, Recife. A capital pernambucana viveu uma das maiores manifestações de sua história. A diferença do resto das cidades brasileiras, que já haviam tomado massivamente as ruas no dia 17 de junho, era a primeira grande manifestação de Recife nas jornadas de junho. The Sign of the Brazilian Protest, um infográfico interativo do jornal The New York Times feito a partir de uma fotografia aérea da manifestação, é uma boa metáfora da “fase II” das jornadas, quando o transporte deixou de ser a única pauta das redes e das ruas. Na foto observamos dezenas de cartazes, de gritos, de lemas. E nenhuma bandeira de partido. De todos eles, um cartaz especialmente simbólico: “Há tanta coisa errada que não cabe neste cartaz.” Ao longo de todas as manifestações de junho vimos muitos cartazes nessa direção. Mensagens não programáticas, mas agregadoras, como: “neste cartaz cabem todos os gritos”. Outros, destacavam a vida para além das redes digitais: “saímos do Facebook.”
O trem da multidão teve seu auge naquele mesmo 20 de Junho, na Avenida Paulista de São Paulo, tomando de assalto a palavra, desestabilizando a política da previsibilidade e a agenda do “que é possível pra hoje”. Ao lado esquerdo da Avenida Paulista, perto de Consolação, manifestantes muito heterogêneos (skatistas, coletivos LGBT, máscaras de Anonymous, famílias) caminhavam rumo ao MASP sem bandeiras nem símbolos de partidos. Paradoxalmente, no lado direito, organizações e movimentos da esquerda organizada – principalmente militantes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), grupos universitários libertários e trotskistas e de movimentos sociais – marchavam acenando bandeiras vermelhas, alguns deles estavam lá desde as primeiras manifestações, outros aderiam naquele momento.
Era “tudo junto e misturado”. Na avenida Paulista não tinha um só grito. Nem sequer um só inimigo. Havia, isso sim, muito mais cartazes contra Dilma Rousseff que nos primeiros atos convocados pelo Movimento Passe Livre (MPL). Não à toa, a ocorrência de confrontos entre os dois lados da Paulista se registrou naquele dia. Algumas pessoas tinham transformado a música “Vem pra rua vem contra o aumento” dos primeiros atos em “vem pra rua vem contra o Governo”. O que aconteceu desde o primeiro ato pela redução da tarifa do transporte puxado pelo MPL-SP no dia 06 de junho?
Nas tentativas de entender os grandes acontecimentos de mobilização e luta, nos passam pela cabeça certas imagens: Maio de 68, o 15M espanhol, o 19 e 20 de dezembro na Argentina ou as milhares de cidades ocupadas no contexto do movimento Occupy. A questão que sempre retorna: Qual é o saldo político? Quais eram as demandas e até que ponto o sistema político as atendeu? Qual o acúmulo de cada força política e quanto delas foi dissipado sem continuidade em projetos políticos institucionais? Por trás das perguntas, sempre uma tentativa de buscar resultados em termos do tempo político normal, que justamente esses eventos modificam.
A distância entre a energia que circula nas ruas e nos imaginários dos protestos e, do outro lado, a tentativa de tradução em termos de organização política é sempre abissal. De fato, não é incomum que as imagens de praças e avenidas lotadas se sobreponham às da represão, da retomada conservadora e refluxo de movimentos. O Termidor sempre se apresenta na volta da esquina. É nesse momento que os apressados do desencantamento sempre dirão: “a revolta fracassou”, “a ordem foi estabelecida”, “não deu em nada”.
Os acontecimentos que se relacionam e revertem o tempo político são reconhecidos apenas como momentos “efêmeros”, os desejos e vontades se reduzem a “impulsos imaturos da juventude”, “utopia” ou “falta de sensatez”. “Está na hora de voltar pra casa”, algumas vozes disseram em Junho, “concordamos com vocês, mas as reformas que vocês querem não são possíveis”. Nesse momento, se impôs também uma leitura reducionista, onde os protestos eram lidos como antiprogressistas, como golpistas até – em algumas versões que circularam nas imprensas de países vizinhos – na tentativa apressada de devolver ao Estado a iniciativa, no que seria o espaço exclusivo da política. Continuar nas ruas era desestabilizar a democracia e questionar a legitimidade das instituições como lugar natural onde todo protesto deve se desvanecer.
Pensar um Junho que está sendo; pensar um, dois, três anos de Junho, de estar em Junho – e não apenas, o que se passou desde junho — faz parte de uma visão política ampla que resiste em decretar o fracasso dos acontecimentos que atualizam a História, que resiste a negar a potência da ação coletiva no imaginário político, apenas pela falta de institucionalização da revolta. Não vemos que a explosão de afetos, encontros e conexões das ruas deva ser necessária e inexoravelmente reduzida à representação e ao avanço da política profissional sobre a espontaneidade múltipla da irrupção política do fora. Foi justamente nas beiradas, na espontaneidade, nos laterais dos protestos iniciais e em alguns desdobramentos onde o ‘Brasil gambiarra’, híbrido e informal, alegre e transversal, manifestou que ainda existe ou que existirá. A história é feita no nível da fala, nesse momento onde a língua reconhecida e oficial é subvertida e os símbolos correm o risco de perder o seu sentido primordial.
Junho parou máquinas da política que pareciam imutáveis. Junho teve consequências concretas no sistema político e na multiplicidade de projetos políticos locais que terão presença na política brasileira por décadas. Além disso, Junho afetou de forma irreversível a gramática da produção de consensos, acelerou a reflexão sobre a urgência de uma política mais distribuída, alterou a rota segura e impávida da narrativa desenvolvimentista do crescimento, produziu doses intensas de desenfeitiçamento. Junho emergiu como um dispositivo disruptivo que quebrou o relato político e social prévio sem destruí-lo completamente. Junho também se insere em narrativas anteriores, como a de que Junho é pedir para avançar mais a partir do já feito. Mas Junho não emerge como uma meta narrativa rígida e categórica. O novo relato é um mosaico de fragmentos, de micro-utopias conectadas, de indignações distribuídas, de sonhos prévios, de novas sensibilidades. A multidão, transbordando as fronteiras do institucional, questionou o consenso, a realpolitik do pemedebismo como única política do possível.
A vigência de Junho, a possibilidade do impossível e do improvável na política do Brasil, está presente nos textos que aqui apresentamos. Eles trazem o ar respirado por subjetividades políticas que hoje e para sempre formam parte das capas geológicas onde a vida social reinicia e dá continuidade às lutas. Em diálogo direto com a profundidade da história, tão perto e tão longe da política e da gestão, vemos junho como produto e gerador de um novo tempo de desejos e mundos políticos que encontra nas ruas e nos gritos de um Brasil menor, radicalmente diferente do Brasil potência. O impacto simbólico, subjetivo, de junho vive ainda no “por uma vida sem catracas” que permeia as novas sensibilidades políticas.
No bojo dessas revoltas, surgiram novas formas de luta, novas táticas de insurgência, mas, também, novas tecnologias de repressão. Não se trata de um evento épico, ele é polifônico por natureza, logo, dramático. E seus contrastes, dobras e ambivalências nos levam não a um drama barroco, mas um drama histórico sobre uma situação barroca: deus e o diabo se encontram na Terra do Sol.
A nova luta, sem líderes, sem verticalidade e sem rosto emerge contra um aparato novo policial – no qual, além da própria polícia propriamente dita, se incluem também a mídia, o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. Ele está pronto a identificar, rastrear redes, prender e punir – não raro, fazer sumir, como no caso Amarildo.
Além da disputa do grande Estado-polícia contra o movimento, fenômenos outros pipocam. Em grau molecular, e fora do Estado, é possível ver fenômenos perturbadores como o (re)aparecimento de fascismos variados, os quais literalmente mostram a cara – e as garras! – no saudosismo de uma ditadura que sequer viveram. Em contraste – e até em oposição –, jovens pobres e muitas vezes negros resolvem cobrar a promessa não cumprida de liberdade e profanam os templos do consumo, na era da religião do deus dinheiro, com os chamados rolezinhos. Com Junho, o conflito floresce de forma intangível e a imagem de uma sociedade pactuada e integrada se desfaz: “a classe média agora entendeu a repressão policial que os negros e pobres sofrem todos os dias”.
As direitas e a grande mídia também tentaram se apropriar do poderoso grito de junho, dirigindo as ruas contra o Governo Dilma, depois da grande explosão do dia 17 de junho. A esquerda institucional também tentou emplacar suas estruturas e narrativas sobre junho. O “Dia Nacional de luta”, promovido pelo movimento sindical e outros movimentos sociais no dia 11 de julho de 2013, com carros de som, falas intermináveis, lutas por inscrições dos representantes na Avenida Paulista e na Av. Presidente Vargas no Rio, apenas mostrava que os formatos tradicionais das lutas precisavam ser radicalmente repensados. A retomada estatal (os 5 pactos da Dilma) chegou com a ideia de “estamos faz tempo trabalhando nisso ai que vocês agora pedem nas ruas”. O Governo e o Governismo não dialogavam de forma honesta com o acontecimento, muitas vezes o acusando de “conservador” e “manipulado pela direita”. Só conseguiram fabricar um storytelling artificial que buscava se inserir na linguagem da TV e no marketing político. Porém, os relatos únicos sobre junho fracassariam, diluídos na coreografia plural das redes e das ruas.
No entanto, Junho seguia afetando mesmo os mais céticos. Setores importantes da esquerda começavam a incorporar as pautas da desmilitarização da Polícia Militar, a luta pelo direito da livre manifestação, a radicalização contra os monopólios dos poderes locais, a pressão pelas auditorias das empresas de ônibus. Todas as pautas que justamente emergiam com força das ruas e que passavam a ser “levadas a sério” com mais centralidade pelas esquerdas e pelos movimentos sociais mais consolidados.
O acontecimento Junho criou e ao mesmo tempo descobriu um novo Brasil. Seja por trazer novos atores para cena ou, quem sabe, por mostrar o que há por trás das cortinas da própria encenação. O processo em curso suscitou inúmeras inquietações, criando algumas delas ou fazendo-as chegar à superfície.
Quando Dilma Rousseff chamou o Movimento Passe Livre para dialogar, eles disseram que seria melhor se ela convidasse as periferias, negras e negros, povos indígenas. A multidão não tinha rosto. As lideranças rejeitavam ser portavozes das ruas. A volta da História seria, assim, a proliferação de histórias diferentes, lutas que se encontram e começam a interagir. Seria também um novo tempo contra a História, de mundos que nascem ou resistem ao desaparecimento. Um reencontro da política com as ruas, que imediatamente se conecta com territórios indígenas, com ocupações de praças e diferentes territorializações, que para a política de cima e de gabinetes fechados é uma não-história, um passado remoto, algo que não existe nem se vê.
Grupos, Redes ou Movimentos?
Por algum motivo, a multidão de Junho não tomou a forma de um novo movimento nacional, como aconteceu no Diren Gezi turco, no 15M espanhol ou no #YoSoy132 mexicano. Curiosamente, são muitos os que ainda falam “do movimento”. Os participantes do OcupaAlckmin, que acamparam na frente do Palácio de Governo de São Paulo, reconhecem que não são mais um grupo, mas sim uma rede. Junho é também uma rede criada. Uma rede de afetos, uma rede comunicacional, uma rede de troca de experiências. Um novo ecossistema social que não substitui o ecossistema prévio, mas que convive com ele. Os novos atores como Ocupa Estelita dialogam com Resiste Isidoro em BH, Ocupa Cais Mauá de Porto Alegre ou a Casa Amarela de São Paulo. Mas também trabalham junto ao MTST e os movimentos clássicos de moradia. O novo não anula o velho mas convive. Junho produziu também coexistências potentes e interessantes.
A multidão não tem nome. “O movimento” não tem nome. Tanto faz. Junho provocou o surgimento de um novo sistema de ação social. Um sistema-rede no qual convivem novos atores (perfis, coletivos, movimentos, redes, identidades coletivas) e estruturas tradicionais (movimentos, partidos, sindicatos). Esse diálogo e convívio possibilitou, por exemplo, o sucesso da greve dos garis do Rio de Janeiro de 2014, por fora das estruturas das direções sindicais.
Junho – seja movimento, ecossistema, sistema rede ou nova gramática social – não é unicamente antagonista, “contra”, um dispositivo destrutivo. Junho resiste, mas também constrói. Os novos atores, dialogando com o que já existia de lutas, criam novos espaços de construção política. Junho constrói trilhas, caminhos, seja na Assembleia Popular e Horizontal de BH, ao redor do Parque Augusta de São Paulo, no Ocupe Estelita de Recife, no movimento Casa no Campus em São Luís, no “Fora Feliciano” ou em plataformas de mídia livre.
De fato, não foi o “Facebook”, uma plataforma bastante centralizada, a responsável pelo levante. Contudo, a maneira com a ferramenta, apesar de suas limitações, foi reinventada pela rede real das ruas teve efeitos relevantes. Os eventos criados na plataforma ganharam significado: se tornaram espaços autônomos de diálogo dentro do rígido Facebook, muitos destes vitais para tomar as ruas como mecanismo de convocação, cobertura em tempo real e troca de dados em geral.
Junho não teria sido possível sem a cultura de redes constituída ao longo dos últimos anos, e pela própria militância virtual durante o levante, mas tais redes devem ser pensadas como um agenciamento: humano/máquina, redes “concretas”/rede “virtual”; não a ferramenta em si, como se ela fosse dotada de poderes mágicos e autônomos, mas dos significados e subversões promovidos pelos ativistas.
As redes centralizadas clássicas (mass media, Governos, partidos) saíram vivas de Junho, mas tomaram um susto gigantesco. As diferentes topologias de rede conviveram, desfazendo consensos, inércias, fluxos lineares do passado. A maneira como os grandes jornais mudaram de opinião expõe muito bem isso: de repente, os editorais dos grandes jornais paulistanos pediam a repressão aos “vândalos”, mas rapidamente a “opinião pública” foi desdita pela construção em rede de uma verdade narrativa sobre o que aconteceu: editoriais desesperados expressando mudanças de opinião, colunistas conservadores pedindo desculpas pela condenação aos movimentos proliferaram.
O saber coletivo expresso em rede desmentiu versões oficiais, trouxe provas concretas de violações perpetradas por autoridades, promoveu enxames de links com streamings etc. Uma “nova verdade”, a partir da ótica dos oprimidos organizados em rede, desafiando a velha mídia. Da política mais tradicional, ao mesmo tempo, esperava-se o momento da necessária institucionalização: a rede era valorizada como um “momento de explosão das ruas”, mas o desfecho, segundo essa visão, deveria ser inexoravelmente institucional. A rede, no entanto, resistiria a tentativas apressadas de desconfigura-la. Uma vez com vida, ela não deixaria de tecer articulações e incluir nós horizontais em sua trama.
Junho está sendo
Os efeitos das jornadas que transformaram a política desde baixo estão em curso. A intersecção da realidade específica do Brasil com o ciclo global de lutas produz efeitos que ecoam com muita força há mais de um ano. Só uma cartografia das lutas pode nos fazer avançar sobre o terreno pantanoso das confusões, propositais ou não, acerca dos seus significados. Mas é preciso fazer uma cartografia que vá para além dos espaços e dos tempos, fornecendo um panorama real das lutas e dos modos que o movimento assume em realidades específicas. Uma cartografia, sobretudo, destes desejos, pois é disso que se trata a questão.
Fazer ecoar as vozes dos protagonistas multitudinários, anônimos e persistentes do fenômeno em curso é um pequeno – e imprescindível – passo nesse sentido. É o desafio aqui posto e por onde iniciamos. O desejo, sua potência e suas armadilhas, consiste no enigma que perpassa Junho; e justamente por isso Junho não se encerra em si, ele se ultrapassa. Ele não é, ele está, seu ser é movimento, ele está sendo.
Neste contexto, o livro Junho: Potência das Ruas e das Redes apresenta um conjunto de relatos das jornadas e dos desdobramentos daquela primeira onda de protestos. Sem pretensão de totalidade, o livro traz uma série de relatos descontínuos e livres que indagam os acontecimentos e seus desdobramentos em narrações de protagonistas e observadores de primeira mão. Eles transmitem a multiplicação espontânea, a ocupação e reinvenção de espaços urbanos; a experiência inesquecível de ganhar uma praça, ocupar uma ponte, pular catracas e queimar símbolos do poder. Os textos relatam e analisam; tecem hipóteses e apresentam o tempo de outras ontologias políticas que tensionam a cidade, o país em toda sua diversidade.
A maioria dos textos do livro é de relatos hiper-locais. A paisagem é urbana. O ângulo de câmera quase sempre é fechado: não conseguimos enxergar um horizonte nacional, embora este se adivinhe na combinação de relatos que o supõem. O Brasil é, no máximo, uma hipótese. Todos sentem um pertencimento novo, emocional. Alguns falam do “movimento”, nomeando algo maior, claramente brasileiro, talvez global. As jornadas de junho colocaram sobre a mesa de cada região os problemas locais. Problemas urbanos, tensões contra as elites predatórias regionais que castigam o comum, as necessárias conexões emergiram afetando a todos e todas. Corpos afirmando suas existências nas ruas e produzindo coexistências. A indignação explodiu depois da truculência policial que sentimos nas ruas de várias cidades. Essa indignação conectou as diferentes cidades do Brasil. O desejo de maior participação política permeou tudo, transbordou.
Junho está sendo, junho é, junho será. Está vivo, dentro de nós, diluído nas novas subjetividades, flutuando sobre um novo ecossistema social, criando novos espaços de política lateral. Junho será, nas redes e nas ruas. Junho é. Vive nas micropolíticas, nos muitos projetos-processos sonhados de forma coletiva: nas cidades, favelas, universidades, nos quilombos, nas florestas, nos corpos que procuram liberdade. Chegará de surpresa, como uma nova explosão emocional, como nova gramática social.
Abaixo, o link para um artigo que publiquei na coletânea.
ARTIGO: Parra, Henrique Z.M. (2012). Controle social e prática hacker: tecnopolítica e ciberpolítica em redes digitais. Sociedade e Cultura, Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiânia, v. 15, n. 1, p. 109-120, jan./jun. 2012.
Resumo: Ao analisar alguns casos concretos, relativos às possibilidades de controle e acesso à informação em redes digitais, discutiremos como essas situações dão forma à política na cibercultura. Trata-se de pensá-la simultaneamente como o conflito pelas configurações sócio-técnicas das tecnologias digitais (tecnopolítica), e as dinâmicas da política ciberneticamente mediada (ciberpolítica).Ao articular essas duas dimensões analisaremos como a constituição e os modos de apropriação desses dispositivos definirão o que adentra ou não o campo do visível e do enunciável, portanto, o campo da regulação pública e do controle, dando forma a novos territórios de direitos, resistência,conflitos sociais e exploração econômica.
Imagem – Fotomontagem com 2 quadros: esquerda filme do BOPE, à direita jogo Counter-Strike.
Acaba de sair o último número da Revista Intexto do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (PPGCOM) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publiquei o artigo abaixo:
PARRA, Henrique Z.M. Conhecimento e Tecnologias Visuais: Dimensão Sócio- Técnica, Linguagem e Limites do Humano. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n.26, p. 64-80, jul. 2012.
Analisaremos as dinâmicas sócio-políticas que pré-configuram o contexto de visibilidade e comunicação em mídias digitais, tendo como foco a relação humano-máquina e os limites do Humano. Trata-se de uma abordagem teórica, dividida em três movimentos, onde sintetizamos os argumentos de diferentes autores sobre o tema. Na conclusão apontamos como esses processos estão imbricados com uma tensão que tem os modos de subjetivação e as formas de conhecimento sensível como território atual de disputa política.
Aqueles que utilizam a web há alguns anos e que já construiram sites ou projetos na Internet sabem a tristeza que é quando um longo trabalho se perde na rede. A preservação da memória digital e da história na Internet é um grande desafio para pesquisadores, bibliotecários, infotrabalhadores, historiadores etc.
Durante meu doutorado resolvi construir um site (usando Plone) para fazer um percurso aberto de investigação. Ao criar o “Xamã“, minha idéia era compartilhar dados brutos e sistematizados, pedaços da tese e artigos ainda em redação, para tornar a trajetória de pesquisa mais colaborativa. O resultado foi muito satisfatório, e acredito que foi graças à metodologia adotada que consegui avançar sobre novos temas de estudo com relativa velocidade.
Para viabilizar tal empreitada utilizei-me na época (2005-2009) de um serviço gratuito de hospedagem oferecido pela FAPESP, denominado Incubadora Virtual – IV (atualmente fora do ar, mas que pode ser visualizado no WaybackMachine).
Este projeto – IV – era uma iniciativa inovadora que oferecia infraestrutura tecnológica em software livre para diversos projetos de pesquisa. Se não me falha a memória, no ápice do programa a Incubadora chegou a hospedar cerca de 530 projetos. O “Xamã”, nosso projeto, era apenas um deles.
A Incubadora Virtual fez parte de um conjunto de iniciativas promovidas pelo cientista da computação Imre Simon, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP e considerado um dos “pais” da informática no Brasil. Porém, aos poucos, a Incubadora Virtual foi perdendo apoio e continuidade no interior da FAPESP. A perda do professor Imre é apenas um dos fatores que pode ter contribuído para o encerramento daquela importante iniciativa em software livre.
Já no final de 2009 a Incubadora começa a apresentar problemas técnicos. O suporte técnico já não é contínuo e diversos projetos hospedados começam a ficar com o acesso comprometido. Não me lembro ao certo em que momento a Incubadora saiu definitivamente do ar. Infelizmente, não houve uma política de desligamento gradual para que todos pudessem fazer uma transição tranquila para outras plataformas ou mesmo um backup dos conteúdos hospedados. No meu caso, todos os materiais organizados durante os quatro anos do doutorado ficaram perdidos. Felizmente, alguns anos depois, consegui contactar alguns dos responsáveis e eles conseguiram localizar e disponibilizar um backup.
Isso tudo me faz pensa na importância do registro da memória e de nossa história num contexto em que cada vez mais nossas informações e conhecimentos estão abrigados em ambientes digitais. Quem está coletando e organizando isso? Quem são os grandes “bibliotecários”? Quais as políticas de indexação e disponibilização dessas informações? Quem tem e terá acesso e sobre que condições? Como sabemos, tais questões são fundamentais na definição do passado, do presente e do nosso futuro.
Finalmente, e felizmente, hoje uma boa parte do site Xamã está de volta ao ciberespaço. Isso só foi possível graças ao colega Rhatto (que restaurou os dados), ao coletivo de tecnoativistas Saravá que apoia os projetos do Pimentalab, e também a esta iniciativa chamada “WayBackMachine“, mantida pela fundação Internet Archive, que tem feito um grande esforço para registrar e dar livre acesso a uma boa parte da internet que já foi “deletada” da história.
Uma entrevista muito interessante com a professora, pesquisadora e ativista Alison Hearn.
Boas questões sobre política na universidade, relação professor-aluno e pedagogias alternativas.
Teaching and Organizing in the Ruins of Universities: An Interview with Alison Hearn
Summary: From the wilderness of adjuncting to university occupations and the Quebec student uprisings, professor Alison Hearn (U. of Western Ontario) discusses how we can create organizing grounds in the ruins of universities. The classroom presents possibilities for connecting pedagogy with organizing, while grappling with the tensions of context, faculty authority, and student resistance. Rather than falling into either authoritarian or hippy-dippy, de-professionalized modes of teaching, Hearn talks about how an ethically responsible approach can escape the academic capitalist rat race and build relationships across divisions of workers and students.
Quebec Student Uprisings: The University is Ours
CW: The Quebec student uprisings are awesome. Has any of that affected Toronto?
Alison: There have been a lot of solidarity rallies. In fact I’m going to one tonight. They do this thing every night in Quebec now, it’s called the Casseroles, where they go out in the street and bang on pots and pans, and that started to happen in the wake of the introduction of this law, Law 78, which is incredibly repressive and outlaws demonstrations. It was brought in response to the student strikes and the demos they were doing, and it just ended up enflaming the general public, so there have been a lot of solidarity rallies. I think in Ontario now, with the Canadian Federation of Students—a union, which started as a student solidarity network—I think the goal is to try to put structures in place around tuition fees and, not call a strike, but basically start to build in the same way they did in Quebec. The events in Quebec took years to build, the kind of infrastructure that was there and the student union movement took a long time, at least a couple of years if not longer.