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  • Radio Digital – o que está em jogo?

    Radio Digital – o que está em jogo?

     

    Publicamos aqui um artigo enviado por Thiago Novaes

    Rádio Digital no Brasil: a voz e a vez do ministro Gilberto Kassab

    Em visita à Curitiba, o atual ministro Gilberto Kassab anunciou no dia 6 de junho de 2017 que o governo brasileiro “prepara uma nova etapa de modernização do setor de radiodifusão”: trata-se da digitalização do rádio, processo iniciado em 2010, que criou o Sistema Brasileiro de Rádio Digital, o SBRD.

    http://www.mcti.gov.br/noticia/-/asset_publisher/epbV0pr6eIS0/content/governo-prepara-nova-etapa-de-modernizacao-do-setor-de-radiodifusao-diz-ministro

    O anúncio foi feito em um evento de promoção da controversa migração das emissoras AM para FM, ação desnecessária com a digitalização de todas as faixas de transmissão, conforme prevê a portaria 290 que orienta o SBRD. Revitalizando o AM, não apenas a qualidade do áudio desta faixa se equipara ao FM, como permite um alcance muito maior, com novos serviços e grande capilaridade para transmissão de dados digitais, considerando as características de propagação das ondas médias.

    Os estudos para um sistema de rádio digital brasileiro já se prolongam há mais de dez anos. Em março de 2007, foi criado o Conselho Consultivo do Rádio Digital com o objetivo de auxiliar na avaliação e planejamento da implantação do Rádio Digital no país sendo integrado por 19 conselheiros, 7 representantes de órgãos/entidades públicos, 2 parlamentares, 7 entidades representativas do setor de radiodifusão; e 3 do setor industrial. A sociedade civil e a academia ficaram de fora da representação junto ao Conselho.

    Em 2010, foi instituído o Sistema Brasileiro de Rádio Digital (SBRD), por meio da Portaria nº 290, e em 13 de junho de 2011 foi aberta uma chamada para sistemas de rádio digital se candidatarem a testes no Brasil, quando dois sistemas se apresentaram: o DRM e o HD Radio. Em parceria com emissoras executantes dos diferentes serviços de radiodifusão, o MCTIC tem realizado testes técnicos para verificar o desempenho dos diferentes modelos existentes. Esses testes são fundamentais para garantir o caráter e alcance universal do rádio tal como existe hoje e também a segurança para as emissoras.

    O que significa Digitalizar o Rádio?

    A digitalização do rádio traz grandes inovações. Primeiro, representa a oportunidade de melhor aproveitamento do uso do espectro de radiofrequências, pois o sinal digital é comprimido, podendo ampliar a cobertura com menor gasto de energia. Com isso, a interferência deixa de ser um obstáculo para ocupação de canais vizinhos, ampliando enormemente a possibilidade de haverem mais emissoras no espectro.

    Com o digital, cada emissora pode se valer da multiprogramação, onde um mesmo transmissor pode enviar mais de um programa, o que pode ser especialmente útil para emissoras públicas e comunitárias. Novos serviços, uma qualidade de áudio superior e a possibilidade de transmissão de dados adicionais configuram finalmente esse novo ambiente digital como uma nova oportunidade de negócio para as emissoras, revitalizando o rádio enquanto uma plataforma de mídia convergente ainda a ser descoberta.

    No caso brasileiro, uma outra característica chama a atenção: a interatividade. Assim como na TV Digital, que conta com a presença do middleware GINGA que permite a interatividade na TV – e foi desenvolvido no Brasil pelo Laboratório TeleMidia da PUC RJ sob a liderança do prof. Luis Fernando Soares (in memorian) -, o rádio também pode ser interativo e utilizar o GINGA. Uma das utilidades do GINGA é permitir que os dados, incluindo a transmissão de vídeos, cheguem aos recepetores por diferentes meios, tornando o rádio uma plataforma convergente com a Internet, por exemplo. Mas, diferentemente da Internet, a circulação do conteúdo digital do rádio continuaria aberta e gratuita, valendo-se do espectro público para se propagar.

    Testes

    Atualmente, dois padrões de rádio digital estão sendo considerados para servir como base técnica para o SBRD: O DRM e o HD Radio.

    Características dos padrões DRM e HDRadio

    O DRM (Digital Radio Mondiale), em português, Rádio Digital Mundial, é um padrão de rádio digital desenvolvido por um consórcio global de nome DRM, com sede na Suíça e representações em vários países.

    É um padrão aberto, sendo o único padrão de rádio digital reconhecido pela UIT (União Internacional de Telecomunicações) que pode funcionar em todas as bandas de radiodifusão sonora terrestre: Ondas Médias, Ondas Tropicais, Ondas Curtas e o VHF (faixa das rádios FM).

    Apresenta-se como um padrão de última geração, que começou a ser pensado em 1999 e, hoje em dia, está sendo testado em várias partes do mundo, inclusive no Brasil e já em fase de implementação na Rússia e Índia. O DRM foi criado com o objetivo de ser um padrão mundial e aberto, não de um país ou continente específico.

    O HD Radio é o padrão utilizado nos Estados Unidos e desenvolvido por uma empresa chamada Ibiquity. Esse padrão não tem modo de operação para transmitir na faixa de Ondas Curtas e tem a característica de possuir segredos industriais em sua norma. Além dos Estados Unidos, apenas o México adotou este padrão.

    Economia

    A indústria nacional já incorporou todos os aspectos tecnológicos da TV Digital. Hoje em dia, empresas brasileiras (como a Linear) vendem mais transmissores do que a japonesa NEC em território brasileiro. Não há razão para que a implantação do SBDR com DRM, por exemplo, não siga o mesmo caminho da TV Digital. Por ser um padrão aberto, o DRM permite que possamos desenvolvê-lo totalmente em território nacional. Além disso, existem implementações da demodulação, decodificação e codificação do sinal DRM em software livre.

    Possibilidades que a indústria nacional pode incorporar:

    • Fabricação de chipset para recepção DRM (inclusos AM e FM);
    • Fabricação de receptores móveis, portáteis e automotivos;
    • Integração do receptor em aparelhos celular, tablet e GPS;
    • Fabricação de moduladores, Content Servers e transmissores;
    • Fabricação de equipamentos de análises e medições.

    Já na área de serviços, as possibilidades são infinitas, semelhantes às possibilidades apresentadas pela TV Digital. Dentre elas, podemos citar o desenvolvimento de aplicativos e tecnologias em educação, cultura, serviços de interesse público, publicidade e produção de conteúdo em geral, podendo ser desenvolvidos tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada, centros de pesquisa, universidades, e organizações da sociedade civil.

    O Ginga, conforme já dissemos, poderia ser também adotado como o padrão de interatividade para o Rádio Digital necessitando apenas de pequenas adaptações.

    Com a adoção do DRM e a participação da indústria nacional neste processo, abrem-se as portas para mercados internacionais, notadamente na América do Sul e demais países que adotarem o padrão DRM, como África e Ásia. Apenas o Brasil já contribuirá com mais de 10 mil emissoras de rádio para digitalização global. Sem dúvida alguma o rádio é o meio de comunicação mais presente no cotidiano da população.

    Tecnologia

    O DRM usa o estado da arte em transmissão digital, sendo reconhecido pela UIT, fazendo o uso de tecnologias estabelecidas como o codec de áudio AAC – o mesmo já utilizado no padrão de TV digital brasileira. Esse fato permite a interoperabilidade entre os sistemas de tv e rádio digitais.

    Proposto como padrão mundial, o DRM é o único padrão de rádio digital que transmite em Ondas Curtas e Ondas Tropicais, característica que possibilita o fornecimento de serviços com boa qualidade para áreas vastas, como faz a Rádio Nacional da Amazônia, com cobertura em todo o norte do país, por exemplo.

    O sistema HDRadio, por outro lado, usa um codec de áudio que é “segredo industrial”, propriedade de uma empresa privada, inexistindo norma internacional que o descreve em sua totalidade.

    O DRM possibilita a otimização do espectro de forma a permitir que mais emissoras possam transmitir simultaneamente. O DRM, assim como o HDRadio, permite a multiprogramação e a transmissão de dados digitais de qualquer natureza.

    Para a faixa de Ondas Médias (AM), o DRM permite sua revitalização através da melhoria da qualidade do áudio e da agregação de serviços. Para faixa do VHF (FM), permite todas as qualidades de um amplo sistema de rádio digital como áudio estéreo, surround 5.1, multiprogramação, já citados anteriormente. Somente o DRM tem incluso em seu sistema a possibilidade de se fazer transmissão de vídeo em baixa resolução.

    A faixa dos canais de TV VHF (após o apagão da TV analógica em 2016) também poderá ser utilizada para o rádio digital de forma que novos tipos de radiodifusão possam ter espaço para emergir.

    O DRM está homologado pela UIT para ser utilizado como um sistema mundial de rádio digital terrestre para qualquer frequência entre 0 e 174 Mhz. Portanto, o DRM já está pronto e é o único sistema digital permitido para ser utilizado nas possíveis novas faixas de rádio, como a já sugerida faixa estendida do VHF, o “eFM” (76 a 88 Mhz).

    No Brasil, uma empresa de nome TellHD S/A seria a detentora dos direitos do HD Radio no Brasil. Em reuniões do Conselho Consultivo do Rádio Digital (CCRD) representantes da empresa afirmaram que as emissoras brasileiras não iriam pagar taxas, que o sistema seria adaptado para utilizar somente um canal adjacente, que rádio comunitárias não iriam pagar pelo equipamento e que o sistema seria adaptado para funcionar em Ondas Curtas. Atualmente essa empresa aparentemente desapareceu (Vide http://tellhd.com.br/), e seu antigo diretor executivo, Alexandre Romano, foi preso pela Operação Lava Jato.

    Adequação dos padrões de rádio digital à Portaria 290

    O documento que orienta a escolha do Sistema Brasileiro de Rádio Digital é a portaria ministerial 290, de 2010. Na Câmara dos deputados, foi instituída uma Subcomissão para avaliar os padrões de rádio digital  que se apresentaram ao Brasil, e o relator foi o dep. Sandro Alex.

    Após ter seu primeiro relatório amplamente rejeitado, onde o deputado Sandro Alex defendia a adoção do HD Radio, e propunha que o Brasil considerasse o funcionamento no país de mais de um padrão tecnológico de rádio digital – um para o FM e outro para Ondas Médias –  a pergunta sobre qual o padrão de Rádio Digital o Brasil irá adotar reaparece para o debate público e tem implicações muito sérias sobre o futuro da comunicação social do país.

    Considerando que o HD Radio não funciona de maneira a “possibilitar a operação eficiente em ambas as modalidades do serviço” (Art. 2o) de Ondas Médias e Frequência Modulada, (pois o HD Radio não funciona no AM, nem em Ondas Curtas, faixa de nossa Rádio Nacional da Amazônia, por exemplo), nem está apto a “promover a inclusão social, a diversidade cultural do País e a língua pátria por meio do acesso à tecnologia digital, visando à democratização da informação” (Art. 3o, I) como seu concorrente, o Rádio Digital Mundial, que é de baixo custo, otimiza o uso do espectro e democratiza o acesso aos meios de comunicação; o HD Radio também não pode “propiciar a transferência de tecnologia para a indústria brasileira de transmissores e receptores, garantida, onde couber, a isenção de royalties” (Art 3o, IV) , pois é propriedade de uma única empresa, a Ibiquity, norte-americana, baseando seu negócio na cobrança de royalties, dificultando, e não possibilitando “a participação de instituições brasileiras de ensino e pesquisa no ajuste e melhoria do sistema de acordo com a necessidade do País” (Art 3o, V).

    O HD Radio não está voltado para “incentivar a indústria regional e local na produção de instrumentos e serviços digitais” (Art 3o, VI), pelas razões já apresentadas, nem tampouco pode, com sua atual capacidade técnica, “proporcionar a utilização eficiente do espectro de radiofreqüência” (Art 3o, VIII), não sendo mesmo capaz de “possibilitar a cobertura do sinal digital em áreas igual ou maior do que as atuais, com menor potência de transmissão” (Art 3o, X) como já demonstrado pelo Rádio Digital Mundial, em testes realizados em uma Rádio Comunitária, no DF.

    Além de todas essas ponderações, é ainda o Rádio Digital Mundial que pode “viabilizar soluções para transmissões em baixa potência, com custos reduzidos” (Art 3o, XIII), pois é considerado um padrão verde, economizando até 80% de energia e alcançando um maior raio atuação, muito melhor que o HD Radio, que não funciona em baixas-potências, como já alertaram pesquisadores brasileiros sobre a digitalização do rádio. E, finalmente, é o RDM o mais apto a “propiciar a arquitetura de sistema de forma a possibilitar, ao mercado brasileiro, as evoluções necessárias(Art 3o, XIV), pois opera em software livre, um tipo de software que tem como princípio uma evolução técnica permanente, como prevê a portaria ministerial 290, que instituiu o Sistema Brasileiro de Rádio Digital (Art 1o), de 2010.

    Surpreende a todos que vislumbram um papel de liderança para o Brasil junto aos parceiros da América Latina e do Sul Global o atual empenho do governo brasileiro em migrar as emissoras AM para FM quando a digitalização do rádio pode revitalizar o uso da faixa AM, permitindo uma qualidade de áudio comparável a de um cd. Tal migração leva adiante o Decreto Presidencial, o 8.139, de 7 de nov de 2013, que visa extinguir a faixa de AM das emissoras locais (Art 1o), desconsiderando que o padrão RDM atende a todas as faixas, inclusive a que se quer extinguir. Ainda mais supreendente é o fato de que as Rádios Comunitárias vêm reivindicando mais espaço no dial FM desde 1998, tendo-lhes sido atribuída uma única frequência, sob o argumento de que não havia espaço para mais emissoras: subitamente, quase 2 mil rádios AM possuem espaço para migrar para o FM. Isso sem falar no duplo custo envolvido nessa migração: a proposta é que as emissoras AM comprem transmissores FM, de média e alta potência, para depois comprarem seus transmissores digitais. Quanto desperdício de recursos e de tempo!!

    Resumo

    1. O Rádio Digital Mundial (Digital Radio Mondiale) opera com qualidade tanto nas bandas do AM (Ondas Médias e Ondas Curtas) quanto na faixa do FM, satisfazendo a exigência do MiniCom (Portaria 290).

    2. O Rádio Digital Mundial é extremamente flexível, possibilitando às emissoras adaptarem a robustez do sinal de acordo com a área de cobertura desejada. Sua capacidade de operar na faixa de Ondas Curtas permite um alcance continental potencializando a integração regional (América Latina e Caribe) e intercontinental (Sul Global).

    3. O Rádio Digital Mundial não representa apenas a atualização tecnológica do rádio, mas se configura como uma nova plataforma multimídia que pode ser incluída em diversos dispositivos eletrônicos como telefones celulares, tablets e GPS, permitindo novos serviços comerciais a já conhecida radiodifusão.

    4. Com o Rádio Digital Mundial, o Estado brasileiro potencializa sua comunicação e serviços, ampliando o alcance das emissoras públicas, comunitárias e educativas, algo que nenhum dos outros padrões permite.

    5. O Rádio Digital Mundial é um padrão global reconhecido pela ITU (agência da ONU para tecnologias de informação e comunicação), desenvolvido e gerido por um consórcio internacional aberto. Já o outro padrão considerado para adoção pelo Brasil, o HD Rádio, é propriedade de uma empresa estadunidense, a Ibiquity. Este sistema, além dos royalties envolvidos, contém segredos industriais como o codec de áudio, que é uma “caixa preta”.

    6. O padrão técnico Digital Radio Mondiale é aberto. Considerando que já existe desenvolvimento em software livre para sua implementação, permite que universidades, centros de pesquisa e empresas possam facilmente inserir novas funcionalidades ao sistema.

    Acreditamos, portanto, que o DRM é a melhor opção para o desenvolvimento do Sistema Brasileiro de Rádio de Digital – SBRD.


    Sobre a Migração das emissoras AM para o FM ver:

    http://www.drm-brasil.org/content/migra%C3%A7%C3%A3o-para-do-am-para-o-fm-quem-interessa


    Artigo sobre o potencial do Rádio Brasileiro Digital Interativo, ver (em inglês):

    http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3768

    RESUMO 
    Este artigo se volta para a iminente definição do Sistema Brasileiro de Rádio Digital (SBRD), tendo como objeto privilegiado de análise o middleware Ginga, desenvolvido para a TV Digital Interativa Brasileira. Aponta para a importância da pesquisa colaborativa e independente dos cidadãos envolvidos na defesa da Digital Radio Mondiale como padrão para o Rádio Digital Brasileiro e argumenta que o surgimento de uma nova gestão dinâmica do espectro torna obsoleto o seu uso exclusivo, regido historicamente por regimes de concessão. Por fim, observa criticamente a mercantilização do espectro como o principal obstáculo à transição do analógico para o digital e afirma a emergência de um novo paradigma do espectro, abundante, como bem comum tecnológico.
    Palavras-chave:
    Televisão Digital; Rádio Digital; Middleware Ginga; Espectro; Paradigma.

  • Introdução Dossiê Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos

    Introdução Dossiê Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos

    Ciência Cidadã, Laboratórios Cidadãos e Produção do Comum

    Henrique Zoqui Martins Parra
    Mariano Fressoli
    Antonio Lafuente

    O dossiê Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos logrou reunir um conjunto expressivo de artigos, resultando numa instigante caracterização desse campo de práticas. Além da diversidade de origem geográfica (Europa, África, América Latina e do Norte), os autores e autoras possuem inserções que transitam entre universidades, organizações comunitárias e não governamentais, movimentos sociais e coletivos ativistas. Interessante destacar que a maior parte dos trabalhos recebidos nesta chamada é de relatos de experiências empíricas empreendidas pelos próprios autores. Os artigos de análise teórica, por sua vez, realizam problematizações mais amplas acerca dos desafios acumulados sobre essa diversidade de experiências em diferentes contextos. A combinação desse esforço de análise teórica e descrição de experiências reforça a percepção de que estamos diante de um fenômeno heterogêneo, dinâmico e com efeitos ainda pouco conhecidos.

    Essa multiplicidade de práticas e de espaços alternativos de produção de conhecimento recompõe as fronteiras e as identidades entre cientistas experts e os diversos públicos, mas também entre o laboratório acadêmico e o laboratório cidadão. As tecnologias de informação e comunicação digital, com sua presença ubíqua em diferentes domínios da vida social, as interseções entre a cultura hacker, a cultura científica e as novas formas de ativismo, compõem essa paisagem. Tais mutações não podem ser dissociadas das transformações e intensa crise pela qual os sistemas de representação política em diversos países estão passando. Nesse sentido, as noções de “ciência cidadã” e “laboratórios cidadãos” criam novas tensões e composições entre a ciência e a política: amplia-se o campo das práticas e espaços estabelecidos de produção de conhecimento científico; ao mesmo tempo em que se interrogam as formas de participação política.

    TEXTO INTEGRAL

    e aqui também: PDF.

     

  • Dossiê Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos – Revista LIINC – IBICT

    Dossiê Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos – Revista LIINC – IBICT

    É com alegria que anuncio que está no ar o Dossie Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos, na revista LIINC do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia.

    O dossie resulta de um intenso trabalho coletivo de meses. Realizei a coordenação editorial junto com Mariano Fressoli (Conicet – Cenit – Buenos Aires) e Antonio Lafuente (CSIC – Madrid). Contamos com o apoio da Sarita Albagli (IBICT) e Maria Lucia Novo Maciel (UFRJ) responsáveis pela LIINC, e com o trabalho cuidadoso da equipe de editoração, revisão e tradução (Christine Alvarez, Benjamin Albagli e Helena Faia). A participação de inúmeros pareceristas (no mínimo dois por artigo) também foi essencial para a qualidade do trabalho (estão todos listados nos agradecimentos do dossie).

    Publicamos uma bela e grande seleção de 19 trabalhos, com textos provenientes do Brasil, América Latina e do Norte, Europa e África, em português, espanhol e inglês. Neste percurso de edição e com os pareceres que foram chegando, acabamos organizando os textos aprovados e revistos em dois grandes blocos: artigos (enfase mais teórica) e relatos empíricos de experiências.

    Espero que o dossiê contribua para disseminar este debate aqui no Brasil e também para inspirar outros arranjos possíveis para produção de conhecimento científico, acadêmico e extra-acadêmico.

     

     

     

  • Livro – Democracia Digital, Comunicação Política e Redes

    Livro – Democracia Digital, Comunicação Política e Redes

     

    Escrevi Junto com Alexandre Abdo um capítulo – Tendências democráticas e autoritárias, arquiteturas
    distribuídas e centralizadas – para o livro  Democracia digital, comunicação política e redes : teoria e prática. Organizado por Sivaldo Pereira da Silva; Rachel Callai Bragatto e Rafael Cardoso Sampaio. O livro está disponível na integra em web.

     

     

     

  • Aula – Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos – curso de extensão

    Aula – Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos – curso de extensão

    Aula ministrada no Minicurso Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

     

    Vídeos: Parte 01 / Parte 02

    Slides apresentados: slides-aula-ciencia-cidada-laboratorio-cidadao

     

    Leitura:

    PARRA, Henrique Z. M. Ciência Cidadã: modos de participação e ativismo informacional. In: Sarita Albagli, Maria Lucia Maciel e Alexandre Hannud Abdo (orgs.). Ciência aberta, questões abertas , Brasília: IBICT; Rio de Janeiro: UNIRIO, 2015. http://livroaberto.ibict.br/handle/1/1060

    RIESCH, H.; POTTER, C.and DAVIES, L. “Combining citizen science and public engagement: the Open Air Laboratories Programme”, JCOM 12(03) (2013) A03 https://jcom.sissa.it/sites/default/files/documents/JCOM1203(2013)A03.pdf

    HARAWAY, Donna. Saberes Localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pago, n.5, 1995, pp.7-41. http://www.clam.org.br/bibliotecadigital/uploads/publicacoes/1065_926_hARAWAY.pdf

    Bibliografia complementar:

    BONNEY, R. BALLARD, H. , JORDAN, R. et al. Public participation in scientific research: defining the field and assessing its potential for informal science education, Centre for Advancement of Informal Science Education (CAISE) Washington, U.S.A. 2009. http://www.birds.cornell.edu/citscitoolkit/publications/CAISE-PPSR-report-2009.pdf

    FECHER, Benedikt. Impact of Social Sciences – The great potential of citizen science: restoring the role of tacit knowledge and amateur discovery. http://blogs.lse.ac.uk/impactofsocialsciences/2014/11/05/the-great-potential-of-citizen-science/2014.

    HALAVAIS, Alexander. Home made big data? Challenges and opportunities for participatory social research. First Monday, Vol. 18, n.10, 7 october 2013. http://firstmonday.org/article/view/4876/3754

    SINTOMER, Yves. Saberes dos cidadãos e saber político. Revista Crítica de Ciências Sociais (online), 91/2010. Disponivel em: http://rccs.revues.org/4185

    STILGOE, J. Citizen Scientists: reconnecting science with civil society, Demos, London, U.K, 2009. https://www.demos.co.uk/files/Citizen_Scientists_-_web.pdf

    ZOONEN, Lisbet van. I-Pistemology: changing truth claims in popular and political culture. European Journal of Communication, 2012, 27:56. http://journals.sagepub.com/doi/abs/10.1177/0267323112438808

  • Experiências da infância e bens comuns

    Experiências da infância e bens comuns

    Hoje, depois de quase 30 anos, fiz um passeio de bicicleta que costumava fazer na minha infância. Em alguns domingos, meu pai chamava a mulecada toda do quarteirão para fazer uma “expedição” na fazenda do Estado. Juntávamos uma turminha com suas bicis, garrafas de água e frutas para o trajeto de algumas poucas horas. O percurso envolvida sair do que na época era um dos limites urbanos da cidade de Pindamonhangaba e entrar nesta fazenda experimental do Governo do Estado de S.Paulo. Era uma área ótima pra passear, com estradinhas de terra e muitas árvores. No trajeto passavamos pelo centro de pesquisa em piscicultura e alguns estábulos onde os técnicos e pesquisadores desenvolviam suas pesquisas. O ponto de parada para abastecimento da moçada era um grande açude, o mesmo aí dessa foto.

    Passados muitos anos sinto que esses passeios foram muito importantes para diversos aprendizados: tínhamos que andar em grupo, cada um cuidando dos outros amigos; tínhamos um contato com a natureza muito gostoso que certamente contribuiu para uma certa sensibilidade e percepção de mundo. E nisso tudo, acontecia uma experiência onde afetos, coletividade e natureza criavam um entrelaçamento muito constitutivo de nossas experiências como crianças. Hoje, acho que ter acesso a essas memórias e ainda poder vivenciar na prática um contato com esses lugares, contribui para fortalecer aquela sensibilidade.

    Em parte, tudo isso só foi possível porque a população da cidade tinha acesso a esse parque. É muito difícil mensurar o valor e a contribuição social dessas áreas de uso comum. Parques, estações de pesquisa, áreas experimentais, florestas públicas são um importante patrimônio da nossa sociedade.

    Infelizmente, muitas dessas estações de pesquisa estão sofrendo muito com o abandono e falta de investimento público por parte do Governo do Estado de São Paulo. Isso não é de hoje. Já faz mais de uma década que o desinvestimento é crescente. Com isso, o importante trabalho de agrônomos, veterinários entre outros profissionais que tanto contribuem para o avanço do conhecimento e da produção agropecuária, vai sendo destruído. Uma vez sucateado, é fácil dizer que ele é inútil. Hoje, há uma nova ameaça que pesa sobre essas áreas de pesquisa e os parques estaduais.

    Para quem não sabe, desde o ano passado o Governo Alckmin decidiu privatizar a gestão (ou como dizem concessões) de muitos parques estaduais e vender algumas florestas e áreas públicas de pesquisa, para fins diversos, entre eles exploração madereira. Essa semana, o Ministério Público Estadual, vetou temporariamente o processo de venda dessas florestas [1], mas tenho sérias dúvidas se conseguirão barrar a disposição do Governo em privatizar e vender essas florestas. Para conhecer melhor a controvérsia, recomendo a leitura de um conjunto de reportagens feitas pelo jornal Estado de S. Paulo. Selecionei alguns links abaixo [2].

    O que está em jogo é muito mais do que a chamada eficiência na gestão pública. Trata-se da possibilidade presente e futura do usufruto coletivo de bens comuns como nossas florestas, os recursos hídricos, nosso contato com a natureza, a qualidade do ar, a pesquisa científica, entre outros. Estamos cansados de ver o patrimonio público ser entregue a empresas privadas cujos acordos com governos e partidos são totalmente opacos ao controle cidadão. Espero que a população de Pinda fique de olho no futuro deste patrimônio socioambiental e saiba lutar pela sua preservação. Evidentemente, há muitas alternativas que poderiam ser construídas para se viabilizar a manutenção dessas áreas como um bem comum, mas infelizmente sem pressão social não haverá disposição dos governantes em viabilizar outros caminhos [3].

    —–Referências citadas—–

    [1] A Justiça paulista acatou um pedido do Ministério Público Estadual e concedeu liminar nesta terça-feira, 25, suspendendo o chamamento público de interessados na venda e concessão de 34 áreas do Instituto Florestal, como estações experimentais, florestas e hortos. A liminar também susta a aplicação de lei estadual (16.260/16) aprovada no ano passado que já autorizava a concessão para exploração comercial madeireira de alguns desses locais: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,justica-suspende-chamamento-para-venda-de-florestas-em-sp,70001753368

    [2] A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou na tarde desta terça-feira, 7, projeto de lei que autoriza a concessão de 25 parques públicos do Estado à iniciativa privada. Pelo texto, ficam autorizados, por 30 anos, o uso para ecoturismo e a exploração comercial madeireira ou de subprodutos florestais: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,assembleia-aprova-projeto-que-privatiza-25-parques-de-sp,10000055809

    O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou nesta quinta-feira, 30, o projeto de lei que autoriza a concessão à iniciativa privada de 25 parques públicos do Estado: http://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/alckmin-sanciona-projeto-que-libera-concessao-de-parques/

    MP abre inquérito de improbidade contra secretário de Meio Ambiente: http://sustentabilidade.estadao.com.br/noticias/geral,mp-abre-inquerito-de-improbidade-contra-secretario-de-meio-ambiente-de-sp,70001669920

    Governo de SP fez reunião fechada sobre venda de florestas, dizem pesquisadores: http://www.diretodaciencia.com/2017/03/26/governo-de-sp-fez-reuniao-fechada-sobre-venda-de-florestas-dizem-pesquisadores/

    [3] Indígenas, quilombolas e caiçaras querem autogerir áreas que Alckmin deve privatizar: http://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2016/06/indigenas-quilombolas-e-caicaras-reivindicam-autogestao-das-areas-que-alckmin-quer-privatizar-6758.html

    O alerta que tentaram enviar a Alckmin pelos reis da Suécia: http://www.diretodaciencia.com/2017/04/06/o-alerta-que-tentaram-enviar-a-alckmin-pelos-reis-da-suecia/

     

  • A periferia contra o estado? Para escapar das ciências tristes! Criemos outras possibilidades

    A periferia contra o estado? Para escapar das ciências tristes! Criemos outras possibilidades

    Por Alana Moraes, Henrique Parra, Hugo Albuquerque, Jean Tible e Salvador Schavelzon | Imagem: Gavin Adams

     

    Cagaram mil e uma regras de conduta
    Eu mandei pra puta que pariu
    E sorri, feliz.
    Jenyffer Nascimento

     

    No último dia 25 de Março, a Fundação Perseu Abramo apresentou os resultados da pesquisa Percepções na periferia de São Paulo, trabalho que era destinado, nas suas próprias palavras a “compreender, de forma profunda e detalhada, os elementos que têm formado a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo”. Dentre suas conclusões, o estudo considerou que “a mistura entre valores do liberalismo, do individualismo da ascensão pelo trabalho e do sucesso pelo mérito, com valores mais solidários e coletivistas relacionadas à atuação do Estado, à universalização de direitos, à ampliação da inclusão social, permeiam a visão de mundo e o imaginário dessa nova classe trabalhadora das periferias de São Paulo”, gerando intensos debates e conclusões peculiares. A pesquisa da FPA foi movida por uma pergunta inicial: “por que os pobres não votam mais no PT?”.

    A pesquisa diz muito mais sobre si mesma e sobre a “visão de mundo” que a informa, do que potencializa novas perguntas e entendimentos sobre os processos sociais em curso. Curioso observar as leituras que surgiram dos resultados publicados. De uma lado, uma esquerda que se apresenta esgotada, sem assumir uma crise de paradigma constata que o território que pensava como próprio foi ocupado pelo inimigo.De outro lado, aparece uma direita triunfalista, que celebrou com matérias ou editoriais nos grandes jornais os resultados da pesquisa da FPA, no que aparece para eles como capitulação do estatismo de horizonte socialista frente a um liberalismo que é pano de fundo de uma sociedade aberta, do livre mercado, o mérito e o encerramento do conflito ideológico no campo social.

    A pesquisa serve a ambos os propósitos. Porém, outras possíveis leituras se abrem nas fissuras que permitem escapar de um mundo de binarismos, homogeneizações, e guerras culturais ancoradas nas disputas ideológicas do século 20. Esses lugares são os que mostram que a história não acabou, mesmo que algumas formas de construção política de fato não sejam mais possíveis. Bairros organizados para lutar por moradia e transporte, respostas políticas da população que não necessariamente se alinham com escolhas eleitorais. Um tránsito sinuoso, de ondulações e curvas, mostra também a possibilidade de outra ciência e outra política, que não pretende completar o trabalho da civilização ou do catequismo, e não assume como episteme as fronteiras impermeáveis de um indivíduo-cidadão, da sociedade organizada pelo Estado, nem do mercado, do trabalho e da propriedade privada como únicos, permanentes e estáveis de organização.

    Todo o debate gerado em torno da pesquisa, nos fez pensar também que disputar o que “são” os pobres é uma armadilha que só pode ser desativada por outras práticas de pesquisa, outros lugares de posicionamento. Essa inquietação a respeito do fundo no qual as questões foram postas nos parece um bom problema de partida: que modos de conhecer podem contribuir para a criação e potencialização de projetos coletivos de autonomia?

     

    Descer a torre e pensar pelas frestas: ritos de desautorização

    “Por que os pobres não acreditam mais em nossa promessa de salvação?”. É uma pergunta que ecoa através das décadas. Nas teorias clássicas do populismo, ao menos na sua primeira geração, os pobres eram “cooptados”, imersos em uma cultura rural e atávica cujo sentido era conferido pelas relações clientelistas. Estavamos fadados a ter uma classe trabalhadora vulgar, sem consciência, movida por interesses econômicos, quase sempre manipulada. As teorias sociológicas estavam lá para comprovar – isso, é claro, até migrantes nordestinos do ABC paulista restituirem de vez a dignidade da classe contra a teoria. Na cidade de São Paulo, o sindicalismo da oposição metalúrgica, nesse mesmo período, produzia intelectuais-operários e convocava intelectuais das universidades para pensar as possibilidades de luta e autonomia dentro das fábricas. A explosão do movimento operário nos anos 70/80 em São Paulo, assim como os movimentos populares de bairro, emergiam na cena política questionando a velha divisão entre sujeito e objeto, que em um dos seus desdobramentos, também se expressa na divisão que separa a vanguarda política da classe trabalhadora. O desejo de radicalização democrática se insurge também contra as fronteiras do pensamento e a autoridade de enunciação.

    De volta a um período de fechamento democrático, com intensificação das práticas autoritárias estatais, surge também uma necessidade renovada de pensar outras formas políticas que, dentre outros deslocamentos, consiga mais uma vez questionar as formas de produção de conhecimento. Nos deparamos hoje com um mundo em intensa transformação: as formas do trabalho mudaram radicalmente assim como as formas de representação, que hoje econtram-se em crise.

    O que propomos aqui é uma investigação coletiva que seja demandada pelos problemas que surgem de um novo ciclo de resistência, e que possa assim contribuir para desestabilizar a separação hierarquizante das formas de pensar e agir no mundo. Nossa proposta é simples: uma prática de pesquisa que atue pelas demandas concretas das resistências ao modo de vida neoliberal. É preciso também rejeitar a crítica ao “pensamento intelectual” que vem ecoando entre nós mesmos, lutadores e ativistas. Para superar esses impasses, nosso desafio é ainda maior: afirmar que é da luta e das criações de novas formas de vida que podem nascer reflexões intelectuais criativas e potentes. Da mesma forma, afirmar que não há potência de pensamento que não esteja fortemente implicado em processos coletivos de transformação. Não há pensamento criador sem luta, como não há luta sem produção de conhecimento.

    Assumir uma prática de pesquisa na qual estamos todos posicionados, implicados em causas e processos coletivos. Não nos é mais permitido fazer uma ciência ingênua. As feministas bem sabem que sem o corpo, sem a compreensão da economia de relações que fazem os próprios “sujeitos”, suas vulnerabilidades, sofrimentos e cotidianos não é mais possível fazer conhecimento, muito menos política. A crença na existência de sujeitos prontos – seja ele o sujeito da classe, seja ele o novo sujeito periférico é uma crença masculina que nunca leva em conta todo o trabalho anterior de relações, vínculos, alimentação, pertencimentos que produz pessoas, pensamentos, “opiniões”. Trabalho esse muito mais imprescindível em contextos populares. O movimento negro emergente no Brasil também tem produzido formulações imprescindíveis para pensar as formas de ciência. Pensar, por exemplo, como o racismo atua profundamente nas subjetividades, impedindo de forma violenta com que os sujeitos tenham acesso a sua própria fala: como levar à sério essas formulações nas práticas de “aplicação de questionários”, por exemplo?

    A dinâmica dos questionários pode ser muito cruel quando ele se torna uma inquisição averiguadora de “valores” dos pobres. Se a aposta for no mundo do discurso sobre a realidade, não tenham dúvida, ao menos no mundo ocidental, ele sempre estará do lado dos valores dominantes – da periferia de São Paulo ao Bronx. Uma política renovada precisa pensar outras formas de conhecimento sobre a realidade que não estabeleça tribunais, mas ao contrário, que se afete pelos interstícios, pelos escapes – que não negue a dominação, mas que consiga pensar apesar dela.

    Uma ciência que se compromete com a epistemologia das classes dominantes não pode ser outra coisa que não um retrato triste do pensamento colonial e da impotência política, ora pacificando as experiências dos pobres em categorias estranhas como o “liberalismo popular”, ora culpando os próprios pobres por não entenderem nunca as engrenagens da sua própria dominação. É também a expressão de um mundo intelectual que só consegue pensar a si próprio como a vanguarda iluminada da classe – distante, pedagógica, mas intacta em suas certezas.

    No entanto, a vanguarda nunca está lá – se estivesse, saberia, por exemplo que o apelo a imagem do “empreendedorismo” é evocada entre várias camadas de experiência: do pragmatismo das “virações” cotidianas de quem sempre foi excluído do assalariamento (especialmente mulheres) até o desejo de poder trabalhar sem um patrão. Quando a pesquisa identifica no “empreendedorismo” um “liberalismo popular” joga fora, de uma vez só, toda uma experiência de classe forjada entre migrações, industrialização e desindustrialização, desempregos constantes, assim como toda a dinâmica pragmática de uma economia popular feita por cabeleireiras, motoboys, faxineiras, ambulantes, as pessoas dos “serviços gerais”, a classe que vive do cuidado.

    A pesquisa dispensa também os intelectuais da classe que pensam a periferia porque sentem o que isso quer dizer e desobedecem, mais uma vez, as cercas que pretendem separar “pensadores” de “objetos” de conhecimento: movimentos populares, os artistas periféricos ou que constrõem relações com a periferia, as redes de cursinhos populares, movimento negro, feministas, secundaristas, aqueles que fazem as novas batalhas de slam, os saraus – deixam de pensar também a partir das tensões geracionais que hoje explodem dentro da própria classe. Uma pesquisa sobre os “pobres” que se pretende crítica dos poderes dominantes – da ciência ao golpismo – deveria convocar aqueles que estão produzindo pensamento na periferia, nos emaranhados de suas contradições e modos de vida, para pensar desde as hipóteses iniciais até às interpretações dos dados. Toda pesquisa deve ser também a possibilidade de encontros.

    Uma das consequências não previstas da ampliação do acesso à universidade no Brasil, com todos os limites desse processo, das transformações recentes na sociedade brasileira, foi a entrada massiva dos mais pobres, negros e mulheres nas universidades; a proliferação de coletivos feministas, coletivos negros, a luta por melhores condições nas universidades. Um processo não desprezível de tomada de assalto dos lugares de enunciação do conhecimento e que estabelece, pouco a pouco, ritos de desautorização da figura do homem branco intelectual portador da ciência. Desautorizam também as arenas de disputas em torno do que são ou devem ser os pobres. Nos convidam, mais uma vez, a embaralhar as fronteiras que separam pensamento e luta, transformar as práticas de fazer conhecimento.

    Não queremos afirmar a “experiência” como um lugar de autoridade: ela é um campo atravessado por inúmeros fatores e circunstâncias. Ela também é produzida por poderes e contra-poderes, violência, a vaga na creche que nunca chega, a passagem que aumenta novamente. No entanto, uma prática transformadora de conhecimento deve por isso apostar na fricção com a experiência ao mesmo tempo que deve também recusar, sempre que possível, a autoridade de um saber “explicativo” e especializado. A pesquisa do Eder Sader sobre a periferia de São Paulo nas décadas de 1970-80, por exemplo, já levava muitas dessas questões e era movida tambem por um espírito de criação emancipadora e coletiva que apostava na relação orgânica com a classe para pensar outros caminhos de ação. Aliás, naquela época, a desconfiança dos pobres em relação ao Estado já era evidente. No entanto, muitos intelectuais petistas como Eder Sader extraíam dessa desconfiança, proposições radicais sobre novas formas democráticas.

    Para derrotar o modo de vida neoliberal, precisamos voltar a perseguir problemas complexos. Eles estão por todos os lados, são produtos também das próprias praticas de resistência. Seria um problema muito mais interessante, por exemplo, pensar como é possivel que essa fração de classe que a pesquisa identifica como “liberal” e “solidária aos seus empregadores” seja também aquela que compõe a base social de movimentos sociais como o MTST. Pensar os problemas levantados pelas experiências de arranjos comunitários em curso: cozinhas coletivas, práticas de educação popular, produções artísticas que vem construindo novas linguagens e dispositivos de “politização” mais horizontais, as novas experiências de clínicas públicas de psicanálise, os coletivos de comunicação e midiativismos periféricos. É que as verdadeiras questões dão trabalho (nascem do trabalho de toda construção coletiva!) e, no fundo, precisamos escolher se vamos pensar com a classe (a classe preta, mulher, jovem, universitária), sobre ela ou contra ela. Pensar, finalmente, como a classe é feita e não dada.

     

    Para além do binarismo Estado X Mercado

    A esquerda que só se concebe do lado do Estado, e contra o mercado, também pode ser produtora de subjetividade neoliberal, criando condições para que, no final do caminho, o sujeito revolucionario transmutado em consumidor do mercado, dispense suas vanguardas e padrinhos, sem que a transição a um governo abertamente pro mercado, por mais diferente, não se constitua em clivagem determinante para a vida das famílias da periferia.

    O estudo da FPA conclui inequivocamente que a recusa ao Estado, e afirmação de alternativas a ele, são liberalismo. As massas pobres das periferias só poderiam estar alienadas, embebidas no sonho do mercado. A resposta, e antes dela, a pergunta, diz mais, novamente, sobre quem a fez do que quem a respondeu. Os pobres sujeitos à repressão sistemática do Estado mediante o aparato de segurança e, por outro lado, excluídos dos modos de autopreservação e cuidado público – a educação, a saúde etc – deveriam amar o Estado – e ainda que este funcione mal, talvez, deveriam ter a consciência do seu funcionamento ideal. Deveriam?

    A mesma conclusão esbarra em uma armadilha conceitual: como poderia o liberalismo ser contra o Estado? Não foi sob o regime neoliberal que se constituíram enormes redes de repressão policial, desenvolvimento bélico, apropriação dos fundos públicos e expropriação do patrimônio coletivo, espionagem de cidadãos e de fantásticos aparatos de aprisionamento e punição? O liberalismo, ainda que conteste o “Estado grande”, jamais atuou no sentido de sua abolição, tampouco advogou pela sua diminuição de garantidor da ordem capitalista.

    As multidões periféricas, ao conseguirem habitar, cuidar de sua saúde e se proteger da violência física perpetrada pelo Estado, podem ser mais anti-liberais do que as tais estruturas anti-liberais: a ideia vã de uma dicotomia entre Estado e Mercado, quase como uma batalha do fim do mundo, gera um sistema no qual em um polo está um Mercado planejado pelo Estado e, no outro, um Estado a serviço de um Mercado — a despeito dos arranjos e das gradações, Estado e Mercado estão sempre ali, interdependentes.

    O liberalismo pode ser inclusive interpretado como provocação e resposta dos pobres, frente ao Estado da esquerda que não oferece saídas políticas viáveis, nem projetos de sociedade sedutores, e menos ainda o mercado, frente ao qual os pobres sabem, sim, reivindicar o Estado ou, quem sabe, um outro lugar para além da representação e burocratização da vida.

    O binômio Estado X Mercado apresentado pela pesquisa perde de vista uma das principais engrenagens do modo de funcionamento do neoliberalismo que, para avançar, precisa que mercado e Estado produzam uma coexistência intrinseca: seja nas ações publicas orientadas por critérios de “produtividade” ou “eficácia”, a “gestão de resultados” ; seja no papel crescente das polícias como garantidoras extra-legais da propriedade privada, da especulação imobiliária e na criminalização dos movimentos questionadores da ordem de mercado.

    Se a romantização dos pobres e da pobreza é um equívoco, isso não pode ser dito nem pensado sem uma necessária desromantização do saber técnico, neutro e, literalmente, iluminado da ciência pura que se pressupõe, ainda hoje, uma espécie de demiurgo, de ente transcendental capaz de organizar o mundo a partir de seu local privilegiado de observação.

     

    Uma ciência comum para uma política do comum

    Toda ciência fabrica mundos. Um ato de descoberta científica produz novos objetos, novos processos, novos sujeitos e com eles surgem outras recomposições do mundo. É por isso que podemos dizer que a ciência é também política, no seu melhor sentido. Ela cria novas partições, novas dobras e novos pertencimentos com o real. Na sua versão etnocêntrica e colonial, no entanto, a ciência é política no mal sentido; ela fecha mundos, se interpõe sobre caminhos divergentes, ela “limpa”, “barra” as diferenças, classificando e organizando tudo no lugar narcisista do Eu. É política do poder, da ordem e do progresso.

    O desafio de construir outras formas de produção de conhecimento exige também a invenção de outras formas políticas. Como seria essa ciência comum potencializadora de outros mundos compartilhados? E o que pode acontecer se partirmos de uma perspectiva parcial, situada e incorporada e que fosse movida pelos problemas dos modos de existência? O que acontece se renunciarmos de partida às ambições projetivas e as totalidades pré-constituídas ou mesmo à eleição de um ponto de vista privilegiado a partir do qual explicamos todo o ordenamento do social? Se todo saber é também poder, como seria produzir um saber insurgente de uma forma política também desconhecida?

    Inspiramo-nos aqui na experiência de diversos movimentos sociais, comunidades afetadas (por problemas de saúde, desastres, conflitos etc), minorias organizadas que a partir de sua experiência e saberes produzem junto a outros atores cognitivos e políticos (pesquisadoras e pesquisadores profissonais ou amadores, ativistas, gestores engajados entre outros), novas formas de organização e luta simultaneamente à produção de conhecimentos contra-hegemônicos. Neste processo, surgem também novos sujeitos políticos. Encontros de saberes e formas diferentes de vida interessadas na co-criação de mundos. A experiência de mulheres que se organizam e que produzem saberes que interrogam as práticas e protocolos médicos, num ataque direto à biopolítica dos sistemas de saúde; os trabalhadores então invisibilizados ou silenciados que criam seus centros de pesquisa e documentação e confrontam as estatísticas oficiais (como foi a criação do Dieese); indígenas e quilombolas cujos saberes são indissociáveis da produção das formas de suporte à vida em comum; hackers e suas comunidades cujas práticas modificam o regime de visibilidade da vida contemporânea tecnicamente mediada, produzindo política através de tecnologias aparentemente neutras, criando clivagens que dão a ver os novos processos de produção de valor e as técnicas renovadas de governo das populações.

    Se criamos espaços de escuta novas linguagens podem ser inventadas (ao invés de ficarmos operando mediações que encaixam o pensamento dos outros em nosso mundo). Talvez seja mais do que tradução, mas a pura invenção de uma outra linguagem comum, por isso, também criadora de outras comunidades políticas. Os regimes de subjetivação que nos constituem são muito heterogêneos. Se desejamos criar novos entendimentos, capazes de fazer proliferar a multiplicidade do real, teremos que aceitar as indeterminações e os trajetos experimentais. Disputemos a imagem do laboratório! Ao invés da sala limpa, pensemos num laboratório contaminado. Nossa hipótese é de que podemos constituir um novo laboratório (que fabrica novos sujeitos, novos objetos, novos mundos) junto àqueles que estão produzindo novas formas de vida em comum, agindo contra o desmanche de algo que é comum e encontra-se ameaçado pelas forças em jogo. Porém, este comum não é necessáriamente conhecido ou visível. Ele é aquilo que é produzido entre todos, e não para todos. Mas justamente por isso, é frequentemente imperceptível. Ele pode ser o silêncio da noite, a qualidade do ar que respiramos, o tempo que temos para cuidar dos próximos, nossos trajetos na cidade e até o trabalho que temos (como é difícil definir hoje as bordas do trabalho e do não-trabalho!).

    Como seria a política dessa forma de conhecer? Talvez, ela também seja inventada justamente ali onde se produz a vida mais ordinária. Nossa hipótese, é que esta forma de conhecer surge simultaneamente à formação de novas comunidades políticas que, para além do regime da representação, produzem a política de forma imanente à vida. Se ela realiza no presente sua política, não é que ela seja prefigurativa da forma política a se construir noutras escalas. Sua política é da ordem de uma singularidade. Ela é menor, situada, parcial, incorporada, da mesma forma que o conhecimento que a produz.

    Apostamos que nesta forma de conhecer por meio desta política do comum, novas individuações coletivas – de ordem transindividual – podem emergir. Por isso, não há forma política a ser preenchida. E isso é o mais difícil no atual momento. Manter os canais de enunciação, de práticas cotidianas, de formas multiplas de pertencimento, todos abertos à proliferação de outras formas de vida (mais solidárias, mais emancipatórias, mais autônomas etc) também demanda a capacidade de lutar contra todas as formas de opressão, homogeneização, sujeição e exploração. Essa forma de conhecer que desejamos praticar com essa política, é sempre feita a favor de algo e contra algo.

     

    Conclusões tão precárias como a classe: por outras práticas de pesquisa-luta

    Uma ação política emancipatória que realmente queira sair de seu beco sem saída precisa, sem dúvida, atravessar os muros que nos separam não apenas fisicamente, mas os muros que interditam o desejo, o pensamento, as práticas de existência em comum

    O problema da liberdade e da emancipação coletiva, da construção de mundos que buscam superar opressões e muros, é um problema que nos situa, todos e todas, em um terreno comum. Isso quer dizer que, apesar de todas as experiências de lutas, das mais vitoriosas até as derrotadas, apesar de todas as teses, ensaios, questionários, não há fórmula-guia que possa nos confortar e mostrar a salvação. Não sabemos. Ou apenas sabemos que nosso saber não pode ser interposto a outros saberes. Não há um plano pronto a ser executado e nesse sentido, toda pesquisa que se pretende comprometida com um projeto de transformação deve conter, desde o início, a possibilidade de experimentações e criações. A relevância de uma pesquisa engajada pode ser testada pela possibilidade que ela oferece de fazer sentido para as pessoas, em suas vidas comuns, para a produção de novos mundos.

    Perseguimos a hipótese de que um conhecimento ativo pode ser produzido a partir dos ruídos com a experiência, extrapolando os lugares de autoridade e ser o resultado de alianças e relações entre diferentes saberes situados e desejantes de um projeto comum. Não é mais permitido (ou legítimo) produzir um saber sobre os “outros” de modo instrumental, reificado e não-solidário. Nossa prática de investigação se deseja híbrida e acontece no meio, no entre pesquisa-luta, sua terceira margem. Em certo sentido, é uma forma de conhecer antiga, mas que no atual contexto adquire novas configurações graças às metamorfoses nos regimes de poder e suas formas de saber: os antigos centros de produção de verdades e seus dispositivos, multiplicaram-se e há também novas concentrações, fazendo emergir novos campos de lutas.

    Um laboratório ocupado por corpos e saberes interpelados pelo problema da fabricação de um mundo em comum. Pesquisadoras, pesquisadores que sejam capaz de farejar onde estão as dobras que podem nos mover, as questões que os poderes dominantes tentam esconder a qualquer custo, que possam produzir interferências no sistema hierarquizado de saberes e que possam, de fato, sonhar com outros mundos mas também praticá-los. Enfim, abandonar o delirio de fazer uma ciência neutra que revele as “percepções” dos pobres (pra quê? pra quem?) e ensaiar novos laboratórios povoados de corpos, afetos, interferências.

    Fazer mundos exige escuta, é entender com outros, exatamente o que precisa ser feito: novas infraestruturas para a vida coletiva; espaços que possibilitem decisões coletivas sobre a vida comum, pensar o compartilhamento dos cuidados, gerir o problema do desemprego e produzir novas sustentabilidades, criar novas práticas de co-formação que possam se multiplicar, redes de proteção contra violência do estado, novas linguagens e, dessa forma, apontar para outras formas de vida que não estejam encerradas no binarismo Estado X Mercado. Pensar com outros – levar à sério as diferenças, suas contradições, formas de vida, práticas de existência. A classe sempre está por fazer-se, não há uma susbtância a ser revelada.

    Contra a melancolia da vida neoliberal e suas práticas de conhecimento impotentes, cultivemos os afetos alegres de uma ciência implicada e comprometida com a produção de formas de vida em comum, mais solidárias e emancipatórias.

    Publicado também em: http://outraspalavras.net/brasil/quer-dizer-entao-que-a-periferia-e-liberal/

  • Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

    Minicurso Diálogos de Pesquisa
    Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

    Realização: Grupo de Pesquisa em Ciência Aberta do Liinc

    Programação completa e inscrições: http://www.liinc.ibict.br/eventos/mini-curso-dialogos-de-pesquisa/

    As sessões contarão com transmissão ao vivo no canal do Liinc no YouTube disponível no endereço https://www.youtube.com/LiincVideos

    Programação:

    27/03 – Abertura em questão: ciência aberta e ciência comum
    03/04 – Produção Colaborativa em Debate
    10/04 – Comunicação Científica e Publicação Aberta
    17/04 – Visualização de Dados na Ciência Aberta e na Ciência Cidadã
    24/04 – Regimes Emergentes de Apropriação do Conhecimento
    08/05 – Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos
    15/05 – Dados Científicos Abertos
    22/05 – Ciência Aberta e Humanidades Digitais

  • Migrar é preciso, êxodo Academia.edu

    Muitos de nós, pesquisadores, acadêmicos, cientistas profissionais e amadores, estamos lá e adoramos: Academia.edu. Tal plataforma se tornou rapidamente o equivalente profissional do nosso Facebook. E com o passar do tempo, as similaridades só crescem. Temos um feed, seguimos pessoas, recebemos sugestões interessantes de textos e sobre a produção de outras pessoas algoritmicamente selecionadas.

    Sim, estou em ambos. E agora, organizando meu próprio êxodo. Neste processo, compartilho as razões, as informações coletadas e algumas alternativas que vou encontrando pelo caminho.

    No final de 2016, para surpresa de alguns, Academia passou a cobrar uma pequena taxa para que os usuários possam acessar serviços diferenciados. Por exemplo, para saber quem está baixando seus arquivos. Antes disso, já havia introduzido publicidade em suas páginas.

    A plataforma, apesar do domínio .EDU é, na realidade uma .COM, ou seja, uma empresa. E da mesma forma como o Facebook ela faz fortuna com seu banco de dados.

    A depender do serviço que utilizo na rede acho razoável pagar pela sua utilização. Afinal, a questão de sustentabilidade econômica de iniciativas no mundo digital é absolutamente “material”. Neste ambiente, como disse alguém que já não me lembro, “quando o serviço é gratuito, o produto é você”.

    Em se tratando de uma plataforma destinada a colocar em contato pesquisadores, armazenar a produção científica, e estimular a interação entre os usuários, devemos nos preocupar com a maneira como nossos dados e as nossas interações estão sendo geridas.

    Entretanto, quando estamos num ambiente de propriedade corporativa não temos acesso nem aos próprios dados e metadados que produzimos, muito menos ao código dos algoritmos que passam a governar o que lemos, com quem somos colocados em contato, para quais congressos somos convidados e por aí vai. Integrando nossos dados com outros bancos de dados disponíveis no amplo mercado dos data-brokers, começamos a receber emails personalizados, etc. Agregando agora novas camadas de estratificação no acesso mediante cobrança por serviços, amplia-se também o fosso entre pesquisadores e comunidades científicas que estão em situação financeira muito distintas, aumentando também problemas de ordem geopolítica.

    E agora, também está em curso uma disputa pelo mercado de indexadores, indicadores e métricas de reputação, orçado em muitos bilhões de dólares. Além das 4-5 grandes corporações que controlam o mercado editorial acadêmico, agora temos outras gigantes do mundo digital, como Google, disputando a indexação acadêmica e oferecendo novos indicadores de visibilidade (como o Google Schoolar). Academia.edu, da mesma forma, revela em suas propagandas como os cientistas podem usar as métricas oferecidas pela plataforma como indicadores de impacto que podem ser úteis em seus departamentos para a progressão na carreira.

    E assim, voluntariamente, enamorados pelos pequenos benefícios que recebemos através da utilização dessas plataformas (são úteis e práticas, ajudam a ampliar a visibilidade do meu trabalho, tenho mais leitores e entro em contato com pessoas interessantes) vamos pouco a pouco produzindo um grande Leviatã.

    Podemos investir nosso tempo em habitar outros ambientes que já existem. E se não são adequados, podemos rapidamente torná-los lugares mais interessantes para compartilhar nossos trabalhos. Para a livre produção de conhecimento científico, devemos ter pleno controle de nossos dados e metadados; as plataformas devem oferecer interoperabilidade com repositórios científicos institucionais; deve-se utilizar software livre para garantir a possibilidade de escrutínio público e científico dos sistemas de indexação e de produção de métricas, entre outras coisas.

    A criação de uma comunidade acadêmica autônoma não pode funcionar como um condomínio de jardins murados, submetido a um sistema de decisão e regras absolutamente opacas, como no caso das plataformas corporativas.

    E talvez, o mais difícil nisso tudo, seja tornar tangível os efeitos futuros da  governamentalidade algorítmica em curso sobre o ecossistema de produção de conhecimento científico. Como podemos desenvolver outras práticas sociais capazes de interrogar nosso modo de subjetivação, nossa servidão maquínica, nossa captura cotidiana provocada por esses dispositivos tão sedutores? Neste mundo cibernético somos totalmente livres para produzir silenciosamente nossa própria servidão.

    O que fazer? Não sei, seguimos praticando e pesquisando! Escrevo nos sites/blogs que mantenho; faço uso de licenças autorais livres; deposito meus trabalhos em repositórios institucionais de livre acesso (open access); organizo parte de minhas atividades de ensino e pesquisa na Wikiversity.org ; recuso escrever e fazer pareceres para periódicos que não são de acesso livre; e agora estou organizando meu êxodo para fora do Facebook e da Academia.edu.

    Uma coisa fácil de se fazer, e isso poderia ser uma exigência institucional (ao menos nas universidades públicas), é o depósito de nossas publicações nos repositórios da instituição. A Unifesp, onde trabalho, está implantando o seu: http://repositorio.unifesp.br . Vou começar a colocar minhas publicações neste repositório. Ele gera links persistentes que podem ser utilizados para divulgação em outras plataformas.

    Ao invés da Academia.edu vou começar a utilizar o http://zenodo.org e testar o https://www.scienceopen.com/ Agradeço se tiverem outras sugestões. Por fim, listei abaixo, alguns artigos que li nas últimas semanas sobre o Academia.edu. Recomendo a leitura para ajudar no debate.

    Evento: Por que não estamos boicotando Academia.edu?
    http://disruptivemedia.org.uk/why-are-we-not-boycotting-academia-edu/

    Um relato sobre o evento:
    https://thewinnower.com/papers/5014-event-report-why-are-we-not-boycotting-academia-edu

    Análise crítica sobre o Academia.edu:
    http://www.plannedobsolescence.net/academia-not-edu/

    Outra análise sobre ResearchGate e Academia.edu
    http://blogs.discovermagazine.com/crux/2017/02/01/who-isnt-profiting-off-the-backs-of-researchers/#.WJsJr7Mtjrc

    Tutorial e software para migrar seu conteúdo do Academia.edu para o ZENODO.org
    http://numismatics.org/pocketchange/open-access-academia-edu-and-why-im-all-in-on-zenodo-org/