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  • A política do comum e do protótipo. Duas alternativas ao mal-estar contemporâneo

    A política do comum e do protótipo. Duas alternativas ao mal-estar contemporâneo

    Entrevista com Henrique Parra por: Patricia Fachin | 27 Novembro 2017

     

    O mal-estar do sistema político, sentido em diversos países, é consequência do “modo de existência contemporâneo”, que “é dependente de grandes arranjos sócio-técnicos cuja possibilidade de governo nos escapa”, especialmente em áreas que são fundamentais, como a produção de energia, o abastecimento de água, o sistema de saúde, o sistema financeiro, diz o sociólogo Henrique Parra à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

    Outros fatores que geram esse mal-estar, diz, são a “corporatização e financeirização do Estado”, que é um “vetor de subordinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle das grandes corporações”, e o fato de que as “nossas instituições se tornaram incapazes de produzir canais de mediação e tradução dos conflitos complexos que temos”.

    Para superar a crise do sistema político, sugere, “precisamos experimentar e inventar formas de governo à altura dos problemas que temos diante de nós”. Como alternativa, o sociólogo aposta em um modelo político que seja fundamentado numa “política do comum” e numa “política do protótipo”. O comum, explica, “oferece uma ética e uma prática que se contrapõem à expansão do modo de existência neoliberal. Onde a ordem neoliberal diz: mais competição, o comum é cooperação; mais independência, o comum é interdependência; mais autorregulação do mercado, o comum é o autogoverno pelos cidadãos; mais propriedade exclusiva, o comum reivindica mais bens comuns de posse e uso coletivo; onde o neoliberalismo diz mais investimento de si, o comum é cuidado e corresponsabilidade…”.

    Nesse sentido, explicita, o comum, “como relação, é o ‘entre’, é aquilo que produzimos entre todos, o que é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém. É outro regime de participação e de partilha. O comum é parte da produção e sustentação da vida (a linguagem, o cuidado, mas também o ar, a água, o conhecimento…)”. A atual dificuldade acerca de uma política do comum, diz, é como torná-la institucional. “Agora, outro problema é como a ‘política do comum’ se traduz em termos institucionais. Neste sentido, se tomarmos os exemplos acima, a política do comum pode se manifestar como a luta para inscrever nas instituições existentes os marcos regulatórios e protetivos deste comum ameaçado. Mas, o que são as ‘instituições do comum’, é um ótimo problema teórico e político que estamos todos investigando”.

    Parra também tem trabalhado com a noção de “protótipo”, a partir de suas recentes pesquisas junto aos “laboratórios cidadãos”, que atuam na Espanha. Partindo dessa ideia, avalia, seria possível buscar uma alternativa à crise política e um outro tipo de participação social, baseada em processos e não mais em ações reivindicativas que seguem um único modelo. “Os ativistas de movimentos e centros sociais a partir de um certo momento (seria interessante investigar essa genealogia) passam a falar de suas ações em termos de ‘hipóteses’. Ao invés de afirmar um grande plano estratégico, eles lançam hipóteses (hipótese 15M, hipótese ocupa…), as quais precisam ser examinadas, investigadas na prática. Muitas vezes, a maneira de verificar, testar essa hipótese é através de um protótipo. Ou seja, em vez de uma ação apenas reivindicativa, os movimentos passam a criar protótipos de soluções para os problemas que querem denunciar. No caso das iniciativas dos laboratórios cidadãos, a noção de protótipo tem outro contorno. O foco está mais no processo do que no resultado; o protótipo está mais orientado para a aprendizagem e para a produção de comunidades. Em certo sentido isso também acontece nos coletivos ativistas, porém neste último o protótipo tem um caráter mais instrumental, pois será desenvolvido visando um determinado impacto”.

    Na entrevista a seguir, Henrique Parra também comenta a atual situação política da Catalunha e o seu processo separatista da Espanha. “Até agora, quem está colhendo os melhores resultados na Catalunha, mas principalmente no governo Espanhol, são os partidos e grupos mais conservadores. As inovações políticas do ciclo 15M e suas novas institucionalidades experimentadas (iniciativas municipalistas, redes de participação local e direta, as confluências…) são, a meu ver, o principal alvo de ataque deste conflito”, resume.

     

    Henrique Z. Parra é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Sociologia pela mesma universidade e doutor em Educação pela Universidade de Campinas – Unicamp. É professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e atualmente realiza pós-doutorado no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, no Rio de Janeiro, e no Instituto de História do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC, em Madrid, Espanha [1].

    Confira a entrevista.

    IHU On-Line – Hoje fala-se muito, em todas as partes do mundo, da crise política. Como você compreende essa crise? Quais diria que são as razões da atual crise política que se manifesta em vários países?

    Henrique Parra – O atual sistema político está fazendo água por todos os lados. Sentimos este mal-estar em diversos países. Dentre os vetores desta crise destacaria:

    1) Nosso modo de existência contemporâneo é dependente de grandes arranjos sócio-técnicos cuja possibilidade de governo nos escapa (produção de energia, abastecimento de água, sistemas de saúde, finanças, produção científica e tecnológica etc). São grandes máquinas que atravessam desde os mínimos detalhes da vida cotidiana e que se conectam com dinâmicas transnacionais. Como democratizar aquilo que se apresenta como infraestrutura da nossa existência?

    2) Corporatização e financeirização do Estado é outro vetor de subordinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle das grandes corporações. Como desprivatizar o público e submetê-lo ao autogoverno dos cidadãos?

    3) Nossas instituições tornaram-se incapazes de produzir canais de mediação e tradução dos conflitos complexos que temos; há sérios problemas de participação e deliberação. Diante da multiplicidade das forças em jogo, o modelo atual de governo opera pela extrema redução a conflitos binários que só favorecem quem controla o tabuleiro, esvaziando ainda mais o campo da política.

    Em alguns lugares observamos, ainda que de forma pontual, experimentos interessantes de inovação institucional: democracia por sorteio, mecanismos de democracia direta, jurados cidadãos para controvérsias de grande impacto social, processos legislativos abertos e colaborativos, entre outros. Precisamos experimentar e inventar formas de governo à altura dos problemas que temos diante de nós.

    IHU On-Line – Como você percebe a crise política desde Madrid, onde reside atualmente? Pode nos falar um pouco sobre a atual situação política no país, especialmente sobre o processo de independência da Catalunha? Quais diria que são as vantagens e as desvantagens da separação?

    Henrique Parra – Estamos diante de um desastre. Até agora, quem está colhendo os melhores resultados na Catalunha, mas principalmente no governo Espanhol, são os partidos e grupos mais conservadores. As inovações políticas do ciclo 15M e suas novas institucionalidades experimentadas (iniciativas municipalistas, redes de participação local e direta, as confluências…) são, a meu ver, o principal alvo de ataque deste conflito. Seja pelo independentismo de alguns setores da Catalunha, seja pelo nacionalismo mobilizado pelo governo Espanhol, vemos como a imagem da soberania se transforma numa armadilha para a experiência política que emergia do 15M. O mundo atual exige que pensemos em termos de interdependência, como vamos viver juntos? Como fazer para que a experimentação municipalista e as formas de participação popular abram outros horizontes de governo e democracia no interior e para além do estado nacional, sem reproduzirmos a forma-Estado noutras escalas?

    IHU On-Line – Especificamente na Catalunha, parte da população é favorável à separação, mas parte não. Como, por via da política, seria possível resolver esse tipo de conflito?

    Henrique Parra – Com Política, ou seja, enfrentando a questão de como vamos coletivamente decidir sobre os assuntos que dizem respeito a todas e todos que habitam um mundo comum. As nações, já sabemos, são sempre imaginadas e fabricadas. O crescimento do independentismo Catalão e o fortalecimento do nacionalismo Espanhol são simétricos neste percurso recente. Neste conflito, o esforço de produzir maiorias submetidas ao cálculo de governo sob uma lógica eleitoral cria, na realidade, grandes minorias excluídas. Os mecanismos identitários se fortalecem, a base conservadora se expande com maior velocidade e o conflito social se dicotomiza. A lógica amigo-inimigo destrói o tecido social e esvazia a possibilidade de construção política. Neste cenário, quem tem levado a melhor são os setores mais reacionários, em toda parte. Esta fórmula é explosiva, por isso estamos à beira do abismo.

    IHU On-Line – Em suas análises sobre política, você recorre com frequência ao conceito de “comum”. Por que esse conceito é importante na análise política e que autores são referência para você pensar sobre o comum?

    Henrique Parra – O comum oferece uma ética e uma prática que se contrapõem à expansão do modo de existência neoliberal. Onde a ordem neoliberal diz: mais competição, o comum é cooperação; mais independência, o comum é interdependência; mais autorregulação do mercado, o comum é o autogoverno pelos cidadãos; mais propriedade exclusiva, o comum reivindica mais bens comuns de posse e uso coletivo; onde o neoliberalismo diz mais investimento de si, o comum é cuidado e corresponsabilidade… É o caminho do “entre-todos” (diversamente do “para todos” público-estatal), é prático e cotidiano; é corpóreo, afetivo e também maquínico. Em suma, é uma cosmopolítica: alimenta outro imaginário social, atravessa práticas concretas e depende da existência de uma comunidade que seja corresponsável pela sua produção e manutenção.

    O Comum como relação

    Esta noção é, todavia, vaga e adquire contornos distintos conforme a filiação teórica. Meu primeiro contato foi através da produção da Elinor Ostrom e no debate sobre economia política informacional (Yochai Benkler, James Boyle e outros). Neste caso, o comum é “commons“, “bem comum“, um recurso que pertence a uma comunidade e cujo usufruto é coletivo. Mas quem fisgou minha atenção para a força desta noção foi mesmo Antonio Lafuente, físico e historiador da ciência, que aborda o assunto na tradição do “procomún“. O prefixo “pro” denota a necessária existência de uma comunidade que promova e sustente o comum, sem a qual ele não existe. Nesta direção, o comum é sempre relacional, recusando sua reificação (enquanto bem, recurso ou coisa comum). Em Lafuente, assim como na filósofa Marina Garcés, o comum também se manifesta como a ligação intercorpórea, prática, anônima, para além do sujeito individual; o comum que produzimos em relação uns aos outros e que sustenta nossas vidas (o cuidado, os afetos, o sensível…).

    Mas também o comum que dá forma ao ambiente e às infraestruturas da vida ordinária. Pode parecer intangível, mas é na realidade muito material, pois resulta do trabalho de nossos corpos. Neste caminho, encontramos ressonâncias nas reflexões de Antonio Negri, Michel Hardt, Paolo Virno e Maurizio Lazzarato sobre o capitalismo cognitivo. Negri e Hardt referem-se à “produção do comum” para indicar a interdependência nas relações de (co)produção e também o comum em sua forma substantiva. Tal percurso é importante, pois permite visibilizar e politizar o “comum”, destacando os mecanismos contemporâneos de produção e extração de valor nas relações capitalistas. Mais recentemente, o “Comum” de C. Laval e P. Dardot é talvez a obra que alinhava de maneira mais completa as diversas abordagens teóricas sobre o Comum. Acho que a principal contribuição de Laval e Dardot, em sua análise histórica do comum, é estabelecer uma narrativa capaz de dar forma a um horizonte político alternativo.

    Em resumo, sinto-me implicado em pensar o “comum” como relação, é o “entre”, é aquilo que produzimos entre todos, o que é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém. É outro regime de participação e de partilha. O comum é parte da produção e sustentação da vida (a linguagem, o cuidado, mas também o ar, a água, o conhecimento…); sua produção anuncia o trabalho de uma dimensão infraindividual e supraindividual, e por isso permite que pensemos a noção de agência em outros termos. Por um outro caminho, o autor que nada fala deste “comum”, mas muito me inspira a pensar essas questões sob uma outra perspectiva, é Gilbert Simondon.

    IHU On-Line – Hoje, uma das suas áreas de pesquisa é o que você denomina de tecnopolíticas, que relaciona tecnologia, política e conhecimento. Por que a inter-relação entre essas três áreas é importante?

    Henrique Parra – Tecnopolítica, de forma ampliada, significa reconhecer a indissociabilidade prática entre técnica e política, meios e fins, técnica e cultura. No rastro de Foucault (e outros) e com os estudos sociais em ciência e tecnologia, analiso como a emergência de novas formas de saber relaciona-se a novas formas de exercício do poder no contexto das relações tecnicamente mediadas, principalmente das tecnologias digitais. Nesta trama tenho adicionado as reflexões sobre o comum, pois é sobre ele que os novos saberes e poderes adquirem contornos específicos e pouco conhecidos. Neste cenário, parte do problema que temos é que as grandes corporações souberam se antecipar e agora estão em situação de grande vantagem ao controlarem as principais infraestruturas que servem de apoio à nossa vida cotidiana.

    Graças à crescente digitalização e mediação das tecnologias cibernéticas, a expansão do codificável infiltra-se nos ínfimos interstícios da vida individual e coletiva. Com a indicialidade e rastreabilidade da interação digital, surgem novos modos de conhecer: as ciberciências, o conhecimento simulacional, a estatística preditiva, a modulação existencial. Foucault descreveu o surgimento dos saberes populacionais e a biopolítica; Deleuze anunciou a sociedade de controle. É sobre essas camadas que Antoinette Rouvroy descreve a nova governamentalidade algorítmica. No Brasil, Fernanda Bruno, Sergio Amadeu e outros pesquisadores da LAVITS examinam o mesmo problema em termos dos regimes de visibilidade, controle e economia da vigilância.

    No terreno da economia, o capitalismo informacional cria formas de extração e converte a livre interação e colaboração em rica fonte de valor. Os novos saberes e sua economia desenvolvem-se sobre o comum que produzimos de forma transindividual: simultaneamente na dimensão infraindividual (os rastros e índices da expressão pré-individual) e supraindividual (dados agregados, os perfis potenciais). Por isso, é um saber e um poder que está para além do indivíduo e da população. O conhecimento simulacional gera técnicas de modulação do ambiente de forma a alterar o horizonte dos possíveis, modificando o campo probabilístico para a ação futura, e tudo de maneira doce e imperceptível (ou sem fricção, nos termos da tecnofilia do Vale do Silício).

    Imagino, portanto, uma política do transindividual como prática de resistência e criação, onde o comum é tanto o modo de existência onde as lutas se reconfiguram, como o próprio elemento sob disputa. Minha hipótese é que parte da política do comum desenvolve-se junto ao transindividual. A contribuição da noção de “transindividual“, neste caso, é destacar os aspectos pré-individuais e supraindividuais, dimensão maquínica da ação humana e da nossa interação com o não humano, ampliando, portanto, a noção de agência (é um exercício de tramar com Latour, Simondon, Stengers, Lazaratto e outros).

    IHU On-Line – O que significa falar em construção de uma política do comum? Essa seria uma via alternativa à política nas democracias atuais? Por quê?

    Henrique Parra – O comum está aí há muito tempo. Sua política refere-se às configurações de mundo e lutas em torno da produção e manutenção do comum de uma determinada comunidade. Quando dizemos “política do comum” afirmamos a existência de algo comum que está sob disputa. Não há comum sem uma comunidade que lhe dê existência (difere, portanto, das comunidades identitárias). Nesta perspectiva, a água, por exemplo, só é comum quando surge um campo de relações entre diferentes atores (podendo incluir agentes não humanos) para regular o uso coletivo deste comum. Nesta interpretação mais relacional, o “comum” difere de uma acepção essencialista de “coisa comum“, “bem comum“, “recurso comum” ou mesmo “commons” para alguns autores.

    Temos também, por exemplo, uma política do comum em torno do cuidado. O cuidado acontece em todas nossas relações interpessoais. É algo aparentemente intangível, porém ele se manifesta sempre de forma muito concreta, é fruto de um trabalho emocional e material de nossos corpos. As lutas feministas afirmam com muita clareza a dimensão corpórea e física deste trabalho (Alana Moraes me apresentou este debate). Este comum pode tanto ser apropriado sob um vetor capitalista que coloca o cuidado para funcionar numa direção que beneficie a produção e a extração de valor, como pode ser um campo de lutas de resistência, quando o cuidado é utilizado para gerar maior autonomia para aqueles que o coproduzem. Neste sentido, a política do comum implica também no fortalecimento dos laços de interdependência, de corresponsabilidade, de coprodução.

    Neste momento em que estou tentando delinear a relação entre esses conceitos (comum e o transindividual), tenho a impressão de que o transindividual só se aplica a alguns casos do “comum”, como, no exemplo do “cuidado”. Não estou seguro. Quando observamos as relações mediadas pelas tecnologias digitais, terreno em que me sinto mais confortável, os casos de sobreposição entre o comum e o transindividual abundam. Por exemplo, minha disposição de comunicar e tecer redes de amizade, numa plataforma corporativa, converte-se imediatamente em capital informacional para quem controla a rede. O chamado capitalismo de plataforma ou capitalismo de vigilância, apropria-se do comum gerado pela nossa vida cibermediada. A luta contra a apropriação, extração e cercamento deste comum são formas da política do comum.

    Empresas como Airbnb convertem a confiança social em ativo monetizável, corroendo em alguns cenários a livre colaboração e a economia da dádiva. Não à toa, em algumas cidades, comunidades de vizinhos estão se organizando contra os abusos dessas empresas que ameaçam as relações de convivência existentes num certo território. De repente, os habitantes se dão conta de que a qualidade de sua vida num edifício é um “comum” importante, ou as relações de vizinhança, o tipo de comércio, os vínculos de apoio mútuo no território só acontecem porque há algo comum que torna possível seu modo de vida.

    Política do comum traduzida em termos institucionais

    Agora, outro problema é como a “política do comum” se traduz em termos institucionais. Neste sentido, se tomarmos os exemplos acima, a política do comum pode se manifestar como a luta para inscrever nas instituições existentes os marcos regulatórios e protetivos deste comum ameaçado. Mas, o que são as “instituições do comum“, é um ótimo problema teórico e político que estamos todos investigando. Laval e Dardot propõem que essas instituições são formas de autogoverno do comum. Trata-se de modificar a própria arquitetura e os elementos que ordenam o modelo de contrato social existente. Em termos de participação e deliberação, isso significa que todos os implicados ou afetados por uma decisão devem participar em sua deliberação.

    Outra característica institucional seria o arranjo capaz de incluir no “cálculo” político e econômico todas as externalidades, ampliando o reconhecimento daquilo que participa da produção do mundo, mas que é tratado como externalidade: a qualidade do ar que respiramos; o trabalho invisível da reprodução da vida doméstica; o direito aos comuns urbanos… Neste caso, podemos compreender como a noção de “comum” transborda a dicotomia público-privado. Que instituições necessitamos para “comunalizar” o público-estatal e o privado? Quais são os princípios, práticas, tecnologias, protocolos, cultura que dão suporte ao comum?

    IHU On-Line – O que é a política do protótipo? Como essa ideia de política do protótipo pode contribuir para repensar a política e as manifestações sociais?

    Henrique Parra – Comecei a trabalhar com a noção de protótipo há pouco tempo, mais especificamente a partir da análise dos chamados “laboratórios cidadãos” na Espanha. É aqui que cruzo novamente com as contribuições de Antonio Lafuente, que fora responsável pela concepção do Laboratório do Procomún no Medialab-Prado. Em diversas iniciativas aqui na Espanha, mas também noutros países, o termo “protótipo” está presente nos discursos e intervenções de coletivos ativistas e também no vocabulário de pesquisadores e cientistas que atuam no campo dos estudos urbanos, ciência aberta e estudos sociais em ciência e tecnologia.

    Os ativistas de movimentos e centros sociais a partir de um certo momento (seria interessante investigar essa genealogia) passam a falar de suas ações em termos de “hipóteses”. Ao invés de afirmar um grande plano estratégico, eles lançam hipóteses (hipótese 15M, hipótese ocupa…), as quais precisam ser examinadas, investigadas na prática. Muitas vezes, a maneira de verificar, testar essa hipótese é através de um protótipo. Ou seja, ao invés de uma ação apenas reivindicativa, os movimentos passam a criar protótipos de soluções para os problemas que querem denunciar. No caso das iniciativas dos laboratórios cidadãos, a noção de protótipo tem outro contorno. O foco está mais no processo do que no resultado; o protótipo está mais orientado para a aprendizagem e para a produção de comunidades. Em certo sentido isso também acontece nos coletivos ativistas, porém neste último o protótipo tem um caráter mais instrumental, pois será desenvolvido visando um determinado impacto.

    Política do protótipo

    Apesar das diferenças, há elementos que podemos conectar entre ambos os campos (científico e ativista) e que a meu ver dão forma a esta “política do protótipo“, simultaneamente como formas de conhecer (dimensão epistêmica-cognitiva) e formas de produzir o mundo (dimensão política).

    Em primeiro lugar, o destaque para uma dimensão experimental e pragmática. O desafio de realização de um protótipo implica em fazer, em criar coisas, criar relações. Ela é tentativa, não tem a pretensão de ser a resposta verdadeira ou a melhor resposta. Ao invés de investir muita energia na definição de fronteiras e categorias políticas abstratas para conceber um programa de ação, ao prototiparmos somos obrigados a compreender como as coisas funcionam no mundo aqui-agora. É uma ação menos orientada ideologicamente (evidentemente há sempre valores envolvidos) e mais prática.

    Ao realizarmos o protótipo, novos problemas emergem, a realidade se torna mais complexa, colocamos o protótipo em movimento e aí já podemos experimentar as dificuldades para sua existência no mundo, e assim tornamos mais visível as forças e conflitos em jogo. Ao mesmo tempo, para fazer um protótipo temos que criar uma comunidade, e ao fazer isso aprendemos a caminhar juntos. Pode parecer banal, mas essa habilidade (fazer junto) é um recurso escasso em muitos locais.

    No centro da produção do protótipo está a experiência. E digo experiência no sentido forte do termo, “sofrer uma experiência”, “ter uma experiência”, como nos ensina Jorge Larrosa. Ao fazer um protótipo colocamos nossos corpos em ação, e ao fazer isso outros saberes, afetos e poderes entram em cena. O protótipo reforça um sentido de abertura, indeterminação, sujeito à continua transformação. Em resumo, uma política do protótipo é também a passagem de um movimento reivindicativo para um movimento propositivo e pré-figurativo, que experimenta no presente a criação de outros modos de relação e outros mundos possíveis.

    No contexto de fortalecimento da sociedade de controle e da governamentalidade algorítmica, o saber que lhes dá sustentação é o conhecimento simulacional. A capacidade de análise e de produção de cenários futuros é um dos principais campos de disputa: Como o mercado vai reagir? Como os eleitores vão se comportar? Como o governo irá modificar uma política? A política do protótipo intervém aí numa dupla direção: em primeiro lugar um protótipo é um novo artefato, uma nova relação ou arranjo sócio-técnico, e assim ele produz imagens, cenários que modificam o horizonte dos possíveis, interrogando as imagens disponíveis sobre o futuro; em segundo lugar, ao dar centralidade à noção de experiência, ele ativa uma potência corpórea como um importante território de disputa face aos modos atuais de sujeição social e servidão maquínica.

    IHU On-Line – Muitos dizem que a esquerda política — os partidos — é incapaz de impulsionar um novo programa para a esquerda mundial e que essa tarefa caberá à esquerda social, ou seja, aos movimentos sociais. De outro lado, fala-se que os movimentos sociais não têm força política para fazer mudanças. Como você vê esse quadro entre a política tradicional e os movimentos? Também aposta na força dos movimentos? Por quê?

    Henrique Parra – Não resta dúvida de que os que controlam nossas instituições governamentais não farão as mudanças que colocam em risco sua posição. Mas isso não significa que bastaria trocar o grupo que está “no poder” das instituições. Já experimentamos isso, não? É claro que atuar no campo da disputa eleitoral é relevante, mas não é suficiente. Sabemos das limitações concretas enfrentadas por todos aqueles que tentam implementar uma ação de governo que promova a justiça social. Imediatamente, nos damos conta das inúmeras determinações jurídicas, materiais, culturais, financeiras, logísticas etc, que fazem com que a mudança social seja praticamente bloqueada.

    Voltamos à sua primeira pergunta. De repente nos damos conta de que nossa dependência dos grandes arranjos sócio-técnicos, que servem de infraestrutura para a vida comum, também determina nosso modo de existência. Não basta ganhar eleições, é preciso democratizar a produção científica e tecnológica, a geração de energia, democratizar a economia… mas para isso também precisamos ter experiências sobre o que pode ser colocado no lugar.

    Cultura tecnopolítica

    Num post recente, discorro sobre a importância da tessitura de uma cultura tecnopolítica. Por exemplo, como podemos expandir o acesso de todos à energia elétrica como um direito básico sem depender do modelo das grandes hidrelétricas, que colocam em movimento uma série de agenciamentos: grandes empreiteiras, destruição do meio ambiente, remoção das populações, financiamento de campanhas eleitorais etc. Neste sentido os movimentos sociais ocupam um lugar importante para propor e pressionar por outras políticas. Porém, tradicionalmente, os movimentos sociais são principalmente reivindicativos. Isso é importante e necessário, porém, compreendemos que isso não é suficiente. É fundamental a luta pela ampliação e conquista de direitos. Sem os movimentos sociais, muito (e pouco) do que temos como direitos não existiria. Veja o exemplo dos movimentos por moradia urbana. A maior parte deles não consegue manter a disposição organizativa uma vez que os moradores estejam instalados nos apartamentos de um edifício: a arquitetura do prédio, a gestão do condomínio, a distribuição das cozinhas etc, tudo isso participa da produção de um modo de vida.

    Neste sentido, acho importante reconhecer a existência de uma multiplicidade de novas formas associativas que também se constituem como agentes políticos. Há muita disposição entre as pessoas para se engajarem em atividades políticas (para o bem e para o mal). Para além de uma renovação de nossas instituições políticas, também devemos imaginar uma transformação nos movimentos sociais existentes e apostar na constituição de novos atores políticos que estão para além da arquitetura estadocêntrica, para além dos partidos, para além dos movimentos sociais reivindicativos, das ONGs de lobby etc.

    Assim, a própria palavra “programa”, expressa na pergunta, torna-se controversa e com ela a noção unitária de estratégia. São muitas as frentes e campos de ação política relevantes. Voltando à questão sobre “minha aposta”: estou interessado em praticar e investigar os modos de associação e as tecnologias de produção do comum. Mais especificamente, os arranjos (sociais e técnicos) que alguns coletivos, organizações e movimentos já praticam em alguma esfera da reprodução do seu cotidiano, para sustentar o comum que eles julgam ameaçado e, portanto, necessário para um certo aspecto de sua existência. Isso significa que eles inventam soluções práticas (com valores, protocolos, tecnologias, infraestruturas…) que são suficientemente eficientes para existir no mundo atual.

    Essa passagem do protesto para a proposta (Lafuente e outros autores usam esta expressão) também estava presente como política pré-figurativa em movimentos sociais e contraculturais do século passado. Também encontramos isso em alguns movimentos feministas e ecologistas, em algumas iniciativas presentes no início do Fórum Social Mundial e, mais recentemente, em coletivos hackers para autonomia tecnológica, comunidades de práticas de grupos afetados, redes de agroecologia ou de economia social/solidária, moedas sociais… Essas iniciativas são importantes porque produzem formas associativas que sustentam este “comum” (o que por si só é de grande valia num mundo em que o tecido social é destruído pela governamentalidade neoliberal). E para isso elas também criam os arranjos de modo que suas práticas “funcionam” no presente, promovendo outros critérios de eficiência. Porém, isoladamente, essas experiências também têm os seus limites.

    Contexto espanhol

    Voltando às questões sobre o contexto espanhol, muitos dos que participaram das inúmeras iniciativas que foram produzindo o caldo de práticas e cultura política em que o 15M eclodiu, estão muito apreensivos com o atual cenário político. Há uma certa sensação de que as invenções e os modos de subjetivação política que ali emergiram não lograram criar formas políticas capazes de enfrentar o atual conflito. É certo que houve muito aprendizado democrático, que inúmeras redes se formaram e que muitas delas seguem ativas e outros num estado de latência. As novas experiências municipalistas, as confluências, as mareas, são evidentes desdobramentos daquele momento.

    A mesma pergunta que lançam sobre o 15M pode ser aplicada ao Junho de 2013 brasileiro (guardadas suas diferenças e seu contexto): quais são as formas políticas e institucionais desses movimentos? Essa é uma pergunta grande demais e muitos estão investigando este problema. Em certo sentido, a política do protótipo e do comum que imagino não pretende responder a essa pergunta, mas sim investigar e praticar uma ética, uma cultura, as tecnologias, as infraestruturas que contribuem para a produção e manutenção do comum. Imagino um caminho de ação política que não é exclusivo e que não está em oposição às outras formas de luta. Gosto de pensar a política do comum como uma luta “menor”, mais anônima e impessoal, porém imanente à vida. Ao invés dos grandes sujeitos políticos, a criação de um comum entre os quaisquer (na expressão do Agamben). Sempre de maneira prática e experimental, ela seria capaz de fomentar uma cultura e as infraestruturas que a sustentam, podendo atravessar e reforçar as outras formas de ação política. O importante, parece-me, é que sejamos capazes de manter a coexistência dessas várias formas.

    Nota:

    [1] O pós-doutorado tem apoio da CAPES (88881.119261/2016-01). (Nota do entrevistado)

  • Escalera: dispositivo tecnopolítico para o comum urbano

    Escalera: dispositivo tecnopolítico para o comum urbano

    Fizemos um experimento. Um dos desafios que temos enfrentado em Madrid é a criação de uma rede de sociabilidade infantil para nossa filhota. No pequeno prédio em que moramos há poucas crianças, não conhecemos os vizinhos e após dois meses de residência tivemos pouco contato com os demais moradores. Assim como em São Paulo, a vida em apartamentos num edifício de uma grande cidade não produz diretamente relações de vizinhança.

    Noutro post [Pequenas infraestruturas da vida em comum] contei como à noite, na hora de colocar a Mai para dormir, podíamos ouvir bem baixinho uma outra família contando histórias para seu filho (assim como nós). Falando com a Mai sugeri que podíamos fazer uma carta ou algo do gênero pra colocá-la em contato com aquela outra criança. Mas como fazer contato, sem saber ao certo os protocolos ou as sutilezas da cultura local?

    Inspirando-me no projeto Escalera (tema deste post), decidi fazer um pequeno cartaz para coloca-lo na escada de entrada do prédio, bem ao lado das caixas de correio.

    O resultado foi muito animador. Alguns dias depois fomos procurados pelas duas famílias que tem crianças no prédio e demos início a uma aproximação gradual entre elas. Mai ficou mais feliz, ela agora conhece seu vizinho! Esta simples experiência me faz pensar em muitas coisas.

    A vida em apartamento numa grande cidade é um vetor importante no desenho de nossas vidas. Muito se fala sobre a maneira como a vida organizada por este tipo de arquitetura influencia nossas rotinas, nossos vínculos sociais e maneira como nos relacionamos com a rua, o bairro e a própria cidade. Em suma, a vida em apartamentos é parte do fenômeno urbano. Ao mesmo tempo, é interessante observar a diversidade encontrada nas relações de vizinhança em diferentes condomínios de edifícios. Se por um lado ouvimos que as reuniões de condomínio e brigas entre vizinhos são um tema frequente de aborrecimento, por outro, conhecemos pessoas que moram em edifícios em que as relações de convivência são mais agradáveis, onde existe algum tipo de apoio mútuo, solidariedade e alegria em partilhar o mesmo espaço. Assim, se a infraestrutura arquitetônica é um importante fator de influência no desenho de nossas relações sociais, ele está longe de ser um vetor exclusivo na determinação de nossas relações. Há muitas coisas em jogo, e a investigação desses vários fatores é um bom exemplo de um  problema dos arranjos sociotécnicos.

    É justamente nesta brecha, nessa margem de indeterminação, que o projeto Escalera se insere como uma intervenção micropolítica que almeja disparar outros processos instituintes da forma e conteúdo de nossas relações sociais urbanas.

    O projeto nasce de um incômodo partilhado por muitas pessoas. A pergunta disparadora do projeto é: “A vida é um problema comum. Podemos resolvê-lo em comunidade?”. Essa sensação, que ressoa em muitos de nós, manifesta um grave problema de fundo relativo à perda de sentido da vida em comum, compartilhada. O sentimento de isolamento, as dificuldades de sustentar a vida cotidiana de forma independente sem o pequeno apoio de pessoas próximas, a intensificação de problemas de saúde mental e física, entre outros, são sintomas de um comum que foi perdido, destruído e expropriado pelo nosso modo de vida contemporâneo.

    Só nos damos conta de que existe uma matéria muito sutil, um tecido que sustenta nossas vidas em seus mínimos detalhes, quando nos confrontamos com sua perda. O projeto Escalera atua para tornar visível as fagulhas que compõem este comum, que só existe junto à uma comunidade que o sustenta. Neste sentido, na acepção em que estou investigando, o projeto Escalera é um verdadeiro laboratório do procomún.

    Sua ação é simples e complexa ao mesmo tempo. O projeto fornece um kit de adesivos e cartazes customizados para que um (ou mais) moradores do prédio, interessado em implantar o projeto em seu edifício, possa colar pequenas mensagens em locais visíveis. As mensagens sinalizam pedidos simples ou ofertas de apoio gratuito: coisas como “preciso de alguém me ajude na escada a carregar as compras de supermercado”, ou “me ofereço para dar água para as plantas”, ou “gosto de tomar café a tarde em companhia pra bater um papo”, entre várias outras mensagens.

    Dito de outra forma, sua realização envolve uma pesquisa para construir um protótipo material, um dispositivo tecnopolítico que ajude a ativar certos modos de relação, e não outros. Rosa Jiménez me relatou em detalhes os desafios da investigação: como iniciar a sensibilização numa comunidade de vizinhos, que mensagens utilizar, como fazer a mediação e ativação da comunidade, etc. O fundamental está nos detalhes: cada mensagem utilizada diz muita coisa para além daquilo que está escrito.

    Em sua versão inicial, Rosa lançou o projeto no Facebook para tentar alcançar um pequeno grupo, cerca de 5 edifícios que pudessem colaborar para um piloto. Porém, a procura foi tamanha que a implantação do projeto ocorreu com 30 edificios. Em cada um deles, o projeto foi procurado/acionado por uma moradora (a maior parte eram mulheres) implicadas em transformar a vida em sua comunidade. Mais uma vez, os dados indicam como são principalmente as mulheres que produzem e reproduzem o mundo comum.

    Mas Rosa também foi procurada por empresas imobiliárias, de segurança ou de publicidade, que viram no projeto uma importante estratégia de ativação (e neste caso de expropriação) de um recurso. Sabiamente, a Escalera soube criar estratégias para evitar usos indesejados do projeto. Esta tensão é reveladora da maneira como o “comum” é tanto aquilo que alimenta e dá suporte à nossa vida ordinária, como também pode ser convertido em recurso produtivo e monetizável. No capitalismo biopolítico contemporâneo o “comum” é um dos seus principais insumos.

    Neste sentido, observamos como pequenas experiências de produção do comum urbano, são espaços de resistência para a criação de outros modos de vida possíveis na cidade. No Projeto Escalera encontrei um belo exemplo de pesquisa-ação e análise sociotécnica realizado através de um “laboratório” que visava ativar a própria comunidade que sustenta esse comum que está ameaçado por todos os lados.

    As dinâmicas implicadas na produção de vínculos sociais, nas redes de cuidado compartilhado, nas relações de solidariedade e amizade, que transformam nossas redes de vizinhança tem impulsionado o projeto Escalera para outras escalas e perguntas. Como através da construção de relações de vizinhança podemos fazer bairro? E será que com uma vida melhor de bairro, podemos fazer cidade?

    Mais sobre o projeto Escalera:

    website: http://www.proyectolaescalera.org

    facebook: https://www.facebook.com/proyectolaescalera/

    Video: https://www.youtube.com/watch?v=5UlDXH-o4_o

    Explicação Kit: como fazer http://www.proyectolaescalera.org/2017/01/26/como-se-hace-una-escalera/

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

  • Foto-Audio: Grigri Pixel Seminar: The invisible, the common, the magic

    Foto-Audio: Grigri Pixel Seminar: The invisible, the common, the magic

    07.10.2017 17:00h – 20:30h

    Place: Intermediae-Matadero, Madrid. Paseo de la Chopera 14, Madrid

    This seminar, organised by Intermediae-Matadero and Medialab pRado in the context of Grigri Pixel program, invites us to explore invites us to explore which are the common challenges and contemporary urban problems in African and European cities in alliance with six contemporary thinkers and creators: Marina Garcés, Simon Njami, Paz Núñez y Toni Serra.

    Seleção de Fotos: http://henriqueparra.net/photo/index.php/nggallery/madrid-imargens/grigri-pixel?p=1535

    Audio: https://archive.org/details/grigri-seminar

     

  • Soberania e interdependência: polarização política e o comum

    Soberania e interdependência: polarização política e o comum

     

    Há dois meses vivendo em Madrid, tenho procurado conversar com muitas pessoas, acompanhando movimentos e lendo o que posso para buscar diferentes perspectivas sobre a atual crise política. Com a crescente polarização, a cada dia fica mais difícil escrever algo que não seja tomado como mais uma opinião a inundir os feeds efêmeros. Com todos que conversei pude sentir muita dor, tristeza e indignação. E todas essas dores são legítimas; solidarizo-me com “nosotros”.

    ***

    Com todas as diferenças, há algo partilhado entre a crise política vivida na Espanha, em torno do referendo sobre a independência da Catalunia e o atual processo político brasileiro. Arriscaria dizer que este problema está presente em muitos regimes democráticos.

    Refiro-me ao fato de que estamos enredados em diversos mecanismos que intensificam as dinâmicas de polarização, que sequestram o mundo comum e bloqueiam a própria Política. Diante da concentração de poder nas mãos da classe política, dos meios corporativos de comunicação e de uma elite econômica (finanças e industrial), nossas instituições já não capazes de criar canais de mediação das vontades, demandas e conflitos à altura dos problemas que enfrentamos. O sistema está fazendo água por todos os lados em todos os lugares.

    Também constatamos que os próprios mecanismos de produção de maioria produzem “minorias” de igual dimensão. Em seus extremos, cada pólo é fabricado através de diversos artifícios de simplificação e redução de sua diversidade. A todo momento uma imagem ou discurso parcial desloca-se e se transforma numa representação do todo, silenciando a multiplicidade. Ninguém se sente exatamente representado e, ainda assim, todos participam da retro-alimentação dessas imagens homogêneas.

    Neste processo, a possibilidade de construção de novos sentidos comuns são destruídos em nome do cálculo para obtenção de regimes de maioria. É sempre um jogo de tudo ou nada, intensificação dos conflitos, esgarçamento do tecido social, ruptura de relações interpessoais, produção de estereótipos, moralização das condutas e discursos. No final, todos são empurrados a tomar partido diante da ameaça do “mal” que o outro representa, ainda que não se sintam plenamente representados por cada um dos polos.

    No Brasil este processo é bem conhecido desde que se iniciou o golpe parlamentar-jurídico-midiático. A destruição de outros devires políticos pela esquerda e pela direita é continuamente operada pela exigência de se partidarizar a favor ou contra qualquer coisa. Qualquer argumento que escape ao jogo amigo-inimigo será atacado. As disputas sobre Junho de 2013 ainda são um bom exemplo deste fenômeno.

    O processo em torno do referendo da Catalunia é desafiador porque é também revelador dos limites das formas atuais de nossas instituições políticas. O mais dramático, a meu ver, foi a maneira como um conflito muito complexo foi gradualmente reduzido a um jogo binário, em parte conduzido pela disputa política-partidária que forçou uma polarização na população e, com apoio dos meios de comunicação, sequestrou o campo político.

    Nos últimos dias vem surgindo tentativas de romper esta dicotomização, como a campanha #Hablemos #Parlem (veja artigo Bernardo Gutierrez) e outras mobilizações de base que se formaram no processo de organização comunitária para viabilizar a realização do referendo na Catalunia, criando uma certa hipótese de transbordamento (veja artigo de Emmanuel Rodriguez).

    O paradoxo democrático que aí se instalou é também exemplar: o referendo, conforme as regras constitucionais é ilegal; ao mesmo tempo, a mobilização popular manifesta no processo é legítima, tornando a realização do referendo uma reivindicação democrática (veja artigo do Boaventura Souza Santos). Mas quando o jogo se transforma num campo de força real, como na repressão policial do estado Espanhol à realização do referendo, aprende-se rapidamente que o Estado (democrático ou não) é isso aí, força bruta e, no limite, estado de exceção (veja Imagens).

    Porém, o problema não se resolve com o referendo. O que fazer com a outra metade da população da Catalunia que é contra a separação? Ou ainda com todo o restante da população fora da Catalunia que não deseja a separação? Velhos problemas sobre a relação território, nação, unidade, identidade entram em cena. E neste tipo de situação as máquinas identitária e securitária (o desejo de unidade e segurança) produzem os piores monstros em todos os lados. Além do esgarçamento do tecido social, é muito mais fácil produzir um intolerante do que alguém que seja tolerante e sensível ao outro.

    Assim, nos damos conta que mais importante e desafiador que o dia em que nos tornamos independentes, é o dia seguinte e todos os outros que virão na sequência. Da maneira como a produção e reprodução da vida está hoje organizada em nosso planeta, o problema desloca-se da independência para os modos de interdependência que construímos.

    Pensemos, por exemplo, no que fora concebido como a vontade do indivíduo soberano num sistema político democrático. Nos dias de hoje, quais são as alternativas disponíveis quando a manutenção da vida cotidiana está delegada a arranjos estatais-corporativos (das finanças às redes elétricas) complexos? 

    Alternativamente, como podemos partir do comum e ordinário, daquilo que diz respeito a todos, daquilo que nos implica mutuamente? A produção e manutenção da vida em comum (compartilhada e implicada) nos obriga a pensar nos vínculos que tecem o cotidiano. Como irei conviver com este outro? Deslocamo-nos, portanto, do campo discursivo mais ideológico para construir práticas de outros modos de vida. Como desmontar as máquinas opressoras de produção de maiorias, os sistemas de vanguarda e de condução das populações? Como partir de um plano imanente à vida e aí mesmo no mais ordinário ir constituindo e ampliando as infraestruturas e instituições de suporte a outros modos de vida, mais solidários e emancipadores?

    Eu arriscaria dizer que a imagem da soberania de territórios-independentes-autosuficientes se esgotou. Mas ela ainda seguirá operando por muito tempo. A construção de uma Política do Comum exige outras instituições para as quais já temos muitas experiências inspiradoras na história, onde se praticaram outros marcos jurídicos, códigos e instituições de regulação da vida em comum. Há muito o que se investigar e experimentar.

    O que está em jogo em nosso planeta são as condições de produção e reprodução da vida em comum, em direção à modos de vida mais emancipatórios e solidários num mundo de relações interdependentes. Falar de uma política do comum me faz pensar numa política do/pelo meio. Meio como ambiente e também como “entremundos”. Ir aos poucos modificando o próprio meio em que estamos imersos de maneira a torná-lo mais favorável às relações que estamos constituindo. Evidentemente, isso não significa negligenciar a importância das atuais instituições e as disputas sobre seu governo. Trata-se, talvez, de uma outra noção de estratégia, uma outra forma de reticulação e propagação de novas estruturações em níveis subsequentes, numa relação imanente ao mundo existente (incluso estado, mercado etc).

    A impressão que tenho é que este impasse político está utilizado como um verdadeiro teste para as recentes experimentações municipalistas da Espanha. A depender da maneira como o conflito evoluir, e de qual será o papel dos governos municipalistas no seu interior, é possível que algo de inesperado surja como alternativa à atual polarização e fortalecimento dos nacionalismos identitários. Ou então, o que surgiu como novas experimentações institucionais pós-15M corre o risco de ser   tragado para dentro desta armadilha, perdendo seu atual protagonismo político. Fico pensando o que significa levar a sério a proposta #RefugeeWelcome do ponto de vista de uma política do comum?

     

    PS 1: Atualização: Ontem a noite (10/10) o governador da Catalunia, conforme previsto no referendo, declarou o resultado da votação ratificando a independência da Catalunia, para em seguida propor a suspensão dos seus efeitos visando o estabelecimento de um diálogo com o governo Espanhol. As vezes a política está no detalhe e no simbólico, é puro dissenso: declarou ou não a independência? Hoje o governo Espanhol solicita esclarecimentos e ativa o dispositivo jurídico (art.155) para preparar uma intervenção na Catalunia. Poderíamos dizer que o governo Catalão fez um movimento de recuo e destencionamento, mas alguns interpretaram essa ação como reiteração de polarização com o Governo espanhol, que responde reafirmando sua posição inicial. Em suma, a tensão segue inalterada.

    PS 2: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

  • Pequenas infraestruturas da vida em comum

    Pequenas infraestruturas da vida em comum

    Faz quase dois meses que chegamos em Madrid. Até agora, a parte mais sensível da viagem tem sido o processo de adaptação da Mai, nossa filhota de 3 anos. Faz duas semanas que as aulas começaram. A primeira semana foi bem difícil para ela na escola (e para nós também). No final da segunda semana começamos a ter esperança de que ela vai superar os desafios iniciais (idioma desconhecido, novas crianças e professoras, espaço e dinâmica escolar totalmente diferentes). Veremos! Também percebemos que ela tem sentindo muita falta de suas amigas e amigos do Brasil, manifestando sempre o desejo de encontrar outras crianças, uma demanda real de estabelecer vínculos mais afetivos.

    Até o momento, tenho a impressão que a experiência da escola não é suficiente para criar vínculos extra-escolares entre as famílias e as crianças, mas isso ainda pode mudar com o tempo. Os encontros com outros crianças nas praças e parques, também não apresentam uma regularidade e intensidade suficiente para produzir confiança e superar a distância habitual entre famílias desconhecidas numa grande metrópole de uma cidade europeia (ainda que minha experiência com Madrid esteja sendo muito acolhedora). Claro, se morássemos aqui por mais tempo as coisas seriam diferentes.

    Além de buscar outras pessoas com crianças – felizmente há sempre famílias que vão surgindo – comecei a frequentar um espaço para crianças num edifício ocupado por coletivos ativistas no centro da cidade (veja Centro Social Ingobernable).

    Ali está se formando um coletivo de pais para organizar atividades e adequar um espaço legal para as crianças dentro da ocupação. Neste sábado houve uma festinha com banda e teatro infantil, havia uma mutidão de pequenos ingovernáveis.

    Construir essas redes de vizinhança e apoio mútuo, socialização e cuidados compartilhados é um super desafio em nossas cidades. Na medida em que as redes de apoio comunitário, familiares e relações proximais de vizinhança foram destruídas pelo nosso modo de vida contemporâneo, sentimos com uma força cada vez maior quantos laços e vínculos são necessários para produzir o mundo comum que dá suporte a nossa vida.

    Este espaço infantil na Ingobernable, além de oferecer um local para a socialização de crianças e pais num horário extra-escolar, contribui para o estabelecimento de vínculos e redes de apoio mútuo, e permitirá que muitos pais participem das atividades que acontecem neste centro social (reuniões políticos, oficinas, assembléias, etc). São essas pequenas e fundamentais infraestruturas que tornam a vida comum possível.

    Se desejamos ampliar as condições de participação em nossas atividades políticas, educativas, culturais e contribuir para combater as estruturas de reprodução da desigualdade de gênero, é muito importante nos atentarmos para a criação dessas infraestruturas.

    Mas retorno à história da Mai. Quando a  colocamos para dormir sempre lemos umas historinhas para ela. Enquanto leio e converso com ela, podemos ouvir de um quarto ao lado uma mãe ou pai lendo outras histórias para seu filho. Ainda não os conhecemos. Pergunto pra Mai o que ela acha de escrevermos um cartinha para eles, perguntando se querem brincar conosco. Ela ficar super animada e disse que queria também se vestir de carteira.

    Escrevemos um bilhete e resolvemos deixá-lo na escada do hall de entrada do prédio, por onde passam todos os moradores. Vamos ver no que vai dar. Mas essa ideia da cartinha não veio assim do nada. Foi uma decisão que tive depois de conhecer o projeto Escalera (tema do próximo post).

  • Tessituras de uma cultura tecnopolítica

    Tessituras de uma cultura tecnopolítica

    Com um pequeno intervalo de 30 minutos, acompanhei no mesmo dia duas atividades que, no contraste de suas diferenças, indicam o tamanho do desafio que temos pela frente. A boa notícia é que não nos falta ação, mas sim capacidade de transversalidade e conexão. Um dos desafios, para além de superar nossa fragmentação, é compreender os agenciamentos do mundo sociotécnico em que estamos imersos e fomentar uma cultura técnica que dê suporte e amplifique os modos de vida que desejamos fazer proliferar.

    Dois seminários públicos: o primeiro, na sede da FUHEM Ecosol, ONGs de pesquisa social e formação, onde ocorreu o lançamento da publicação Estado do Poder 2017, cuja edição foi dedicada à cultura/ideologia e suas formas de participação nos mecanismos globais de dominação. No lançamento da publicação assisti a uma excelente intervenção da pesquisadora-ativista boliviana Elizabeth Peredo Beltrán (Poder e Patriarcado) sobre o chamado “fim do ciclo progressista na América Latina”, dentre outras apresentações.

    O segundo seminário foi um achado acidental. No dia anterior, trombei com uma propaganda de página inteira no jornal impresso que lia no café. A imagem da campanha me pareceu tão exótica que se não fosse minha curiosidade semiótica jamais teria chegado ao conteúdo textual que eles queriam difundir. Esta atividade era o lançamento de uma campanha nacional – Caminho do Sol  – de mobilização pelos direitos de pequenos produtores à geração e comercialização de energia solar (fotovoltaica).

    Imaginar outras infraestruturas tecnopolíticas

    O relato sobre a experiência política boliviana, insere-se num debate mais amplo sobre o chamado “fim do ciclo progressista na América Latina”. De certa forma, o discurso de “fim do ciclo” é um recurso performático que deseja traçar uma linha entre um antes e um depois, procurando ativar no presente outras interpretações, horizontes e projetos políticos. A própria idéia de “fim de ciclo” é tema de muitas controvérsias (experimente dar uma pesquisada no termo “fim do ciclo progressista”). Há uma versão de “fim de ciclo” proclamada pelas forças reacionárias e meios de comunicação corporativos que anunciam o esgotamento dos projetos da esquerda, e uma versão de “fim de ciclo” que pretende criar outras interpretações no campo da própria esquerda.

    Faço uma sinopse, muita imprecisa e simplificada, para destacar alguns argumentos. É elaborada uma reflexão crítica sobre os limites das experiências de governo da esquerda latino-americana (Bolivia, Brasil, Equador, Venezuela, Argentina…) desses últimos 15 anos. As análises recuperam a história de lutas sociais que antecederam esses governos, construções de amplos movimentos sociais e redes de organizações de base em ciclos de 15, 20, 30 anos (a depender do país) até que um grupo/partido político oriundo dessas construções chega ao poder em escala nacional. Em seguida problematiza-se as tensões e dilemas que emergiram entre a lógica de governo e as dinâmicas da prática política dos movimentos, lançam perguntas desafiadoras sobre os limites da ação governamental (na tomada do Estado), e as armadilhas que se instalaram para a ação política. Por fim, abrem-se novas perguntas sobre os possíveis caminhos de um novo ciclo de luta política, cujo foco estaria orientado para a construção de políticas não estado-cêntricas. O Estado é importante, mas sua ocupação-gestão não seria o principal espaço da construção dessas alternativas. Neste percurso é também elaborada uma crítica ao fato de que, as políticas de inclusão social apoiaram-se num modelo de crescimento econômico que era dependente de programas de desenvolvimento de caráter extrativista, concentradores de renda, com forte dependência e alianças espúrias com as grandes corporações e capital financeiro, combinação esta que mostrou-se insustentável. Certamente, os argumentos são muito mais complexos. Há boas referências sobre essa discussão [veja Raquel Gutierrez Aguilar. Horizontes comunitario-popular: producción de lo comun más allá de las politicas estado-centricas].

    Dentro deste amplo debate, comentarei apenas um ponto: as grandes obras de infraestrutura (usinas, estradas etc). Com frequencia as grandes obras de infraestrutura são vistas como um problema em razão do enorme impacto socioambiental no meio em que são inseridas. Porém, pouco se discute sobre a maneira como um determinado modelo de infraestrutura é o resultado de todo um arranjo sociotécnico que faz com que um certo projeto/desenho se apresente como a melhor resposta a um conjunto de variáveis: um desenho de uma hidroelétrica em oposição a outros modelos de hidroelétricas; o traçado da construção de uma rodovia, a cadeia de produção e distribuição alimentar, o fornecimento de água nas cidades etc.

    Evidentemente, há sempre alternativas e decisões políticas em jogo, mas com muita frequência escapa ao debate tanto a descrição do conjunto das determinações que “elegem” um modelo de infraestrutura, como a proposição de alternativas que sejam capazes de oferecer outras respostas, neste caso, com uma eficiência simultaneamente societal e tecnopolítica.

    Se pretendemos produzir energia para que a vida de muitas pessoas sejam melhores num determinado espaço tempo, como podemos fazê-lo? Se vamos abastecer com água ou alimentos uma cidade, como podemos fazer isso de maneira diferente, agora e para gerações futuras? Não podemos ignorar este problema se desejamos fazer política com/para os 99%.

    O desenho de uma infraestrutura não é neutro, e seus efeitos no mundo não poderão ser posteriormente controlados por um projeto ou ideologia política. Claro, há sempre uma margem de flexibilidade, mas ela tende a ser cada mais vez menor a medida que os efeitos desta infraestrutura se reticulariza e se inscreve em encadeamentos sociais e técnicos mais amplos.

    Por analogia, podemos pensar o Estado como uma tecnologia de poder. O desafio de governar essa máquina não pode ser reduzido a uma problema de governabilidade e nem transformado num desafio de escalabilidade da luta social. A mudança nos meios de ação (extra-Estado X Estado) e a dimensão da ação (local x nacional x mundo), implica em profundas transformações em todos os entes envolvidos nessa relação. Não se trata apenas de um aumento na complexidade no sistema. Nada se mantém o mesmo. Técnica e política estão sempre entrelaçadas em sua inscrição e efetivação no mundo. Por isso, a proposta de criar outros horizontes políticos para um novo ciclo de lutas, não poderá se limitar à disputa de narrativas ou visões de mundo. Precisamos de práticas, corpos, ferro, aço, água…

     

    Energia = natureza + cultura + técnica + política

    Os problemas indicados acima ficam evidentes quando você resolve experimentar na prática a construção dessas alternativas. Esta é a potência de um protótipo. Neste processo surgem conflitos com atores e forças que desconhecíamos e um novo universo de expropriação do comum se evidencia.

    A campanha “Sol e Justiça” surge da mobilização de 60 mil famílias que investiram suas economias em iniciativas coletivas de produção e comercialização de energia fotovoltaica e que atualmente sofrem com a mudança de prioridade do governo. O estado espanhol pretendia fomentar a diversificação da sua matriz energética, no sentido de reduzir o impacto ambiental do modelo atual. Porém, no momento em que começam a proliferar diversas iniciativas de autoconsumo, associações, cooperativas e pequenas empresas que produzem e comercializam enérgia elétrica, as forças em jogo ficam mais evidentes e a política de incentivo estatal muda radicalmente. No caso em questão, grandes empresas internacionais fornecedoras de energia eletrica lograram impor novas regras, através do governo Espanhol, que fossem mais favoráveis aos seus investimentos. Como resultado, as 60 mil famílias ficaram afogadas com dívidas assumidas para a construção de um modelo energético que seria alternativo.

    São muitas as variáveis que afetam as condições de viabilidade de uma nova tecnologia ou atividade econômica: os mecanismos de autorização e controle para instalação de placas solares nas residências devem respeitar determinados protocolos, com fiscalização inclusive das empresas privadas que fazem o fornecimento de energia elétrica nas residências; os critérios para financiamento publico são modificados e outras formas de apoio estatal são exclusivos para determinada escala de empreendimento, entre outros. Em suma, tudo é feito de forma que o modelo que irá se apresentar como o mais “eficiente” é aquele que fortalece uma certa configuração de mundo. Neste caso, compreendemos rapidamente como a luz solar deixa de ser um Comum e se torna um recurso que deve ser submetido a um regime de escassez e monetarização.

    Ainda assim, a ação prática desses coletivos aprende com os bloqueios e passa a elaborar alternativas que, a despeito do ambiente inicialmente desfavorável, cria soluções e arranjos sociotécnicos que se relevam melhor adaptados, graças à uma combinação de engenhosidade técnica e estratégias de colaboração social.

    Os desdobramentos futuros desses arranjos é um campo de cultivos e batalhas. O campo dos “estudos em inovação” indicam que muitas inovações sociotécnicas que foram concebidas para transportar valores emancipatórios ou solidários, quando deslocadas ou apropriadas em outros arranjos, acabam frequentemente perdendo a capacidade de efetivação daqueles princípios políticos que desejavam difundir. Hoje temos comida orgânica tanto associada a modelos alternativos de vida (sistemas de produção local, com redes de consumo coletiva etc) como formas de produção e comercialização de orgânicos que fortalecem as estruturas tradicionais de concentração de renda e formação de oligopólios [veja alguns trabalhos de Adrian Smith].

    Problema semelhante acontece com a produção fotovoltaica. Você pode fazer parte de uma rede autogerida que produz, distribui e utiliza energia solar (veja http://ecooo.es ), ou você pode ser o locatário de uma unidade de produção numa grande fazenda de produção de energia solar (veja https://www.cosol.com.br/ ). Cada um desses arranjos sociotécnicos mobiliza mundos e modos de subjetivação absolutamente distintos.

    foto: Campanha Orgulho Solar

     

    foto:  COSOL – condomínio solar

     

    Tessituras de uma cultura tecnopolítica

    Terminei o dia com a sensação de que havia cruzado por dois mundos que pouco se comunicam. De um lado ativistas, sociólogos e ecologistas que lutam por um mundo socialmente justo e ambientalmente sustentável, sabem construir movimentos, organizações e comunidades, mas buscam formas para tornar durável as frágeis formas de vida que experimentam. De outro, engenheiros e economistas que criam tecnologias e iniciativas portadoras de novos arranjos socioeconômicos, que lutam para superar as adversidades (jurídicas, financeiras, culturais) que inviabilizam suas atividades. Tudo se passa como se fossem dois mundos a parte.

    Pergunto-me sob as possíveis formas de diálogo, aprendizados mútuos e alianças. Há, felizmente, sinais de que cada um desses mundos começa a se mover em direção ao outro. O fato de que as iniciativas comunitárias de energia solar estejam começando a se organizar como movimento social é um exemplo; o crescimento das redes de agroecologia e sua incorporação na pauta de distintos movimentos sociais também; a maior transversalidade do feminismo em diversas práticas sociais, entre outros casos.

    Talvez, um novo aprendizado diante da fragilidade institucional que nos assola neste momento, seja o reconhecimento da existência de outras formas de fazer política. A criação e o suporte de modos de vida em comum, exige também a produção deste comum. Para que este comum exista e possa se sustentar no tempo, começamos a reconhecer os diversos elementos e práticas, materiais e imateriais que lhe dão suporte. Técnica e cultura, política e tecnologia, valores e práticas caminham juntos, se entrelaçando. Uma tecnologia alternativa sem uma comunidade que lhe dê suporte não sobreviverá assim por muito tempo. Um coletivo que não cuida das infraestruturas que dão suporte a suas práticas não terá vida longa. Um movimento social que negligencia os corpos de seus participantes, não será capaz de criar uma comunidade política saudável.

    São essas diversas e interdependentes dimensões que talvez componham juntas outras cartografias políticas. Quais são as infraestruturas necessárias? Como criar e sustentar um corpo, individual e coletivo? Quais são nossos protocolos? Nossas tecnologias? Qual é a comunidade que dá existência e suporte à essas práticas? Quais são as práticas que produzem nossa comunidade? Quais são nossas formas de conhecer e de transmitir os conhecimentos? Tudo ao mesmo tempo agora.

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

     

  • Invisível comum

    Invisível comum

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    Nesta primeira semana de setembro tivemos uma pletora de acontecimentos chocantes: o terremoto mais forte do século no México, um furacão poderoso destruindo as ilhas da América Central e costa sul dos EUA, muitas malas cheia de dinheiro da corrupção de políticos e empresas brasileiras, entre outras. Porém, a notícia que mais me acompanhou durante essa semana foi uma reportagem do caderno de Ciência da Folha de S.Paulo sobre a contaminação da água que chega nas torneiras de residências em diversos países do mundo. Não farei qualquer comparação entre cada uma dessas tragédias, todas incomensuráveis quando falamos de tantas vidas perdidas, direta ou indiretamente (sim, a corrupção provoca mortes lentas e precariedade em toda parte). Hoje escrevo sobre aquilo que nos escapa aos sentidos.

    A reportagem do Marcelo Leite está baseada na pesquisa – “Invisível – o plástico dentro de nós” – sobre a contaminação da água por fragmentos de plástico, recentemente publicada pela Orbmedia. O relatório, com excelente documentação multimédia está disponível neste link: https://orbmedia.org/stories/Invisibles_plastics

    Em resumo, a investigação mostra como a água que chega nas torneiras nas residências e prédios, em diversos lugares do mundo, apresenta partículas de plástico. A amostragem realizada indica que o problema está presente em muitas cidades de diversos países (do sul e do norte global), variando o percentual de sua presença. Só para dar alguns dados: nos EUA cerca de 94% das cidades apresentam contaminação; na Europa 72% das cidades estão com água com plástico; e na cidade de São Paulo, das 10 amostras recolhidas, 9 confirmaram a contaminação.

    Enfim, o plástico está em toda parte, inclusive dentro de nós. Sabe-se pouco ainda sobre os efeitos de médio e longo prazo dessa ingestão. Em outros animais, cujo processo de contaminação já é estudado há mais tempo, os problemas da intoxicação são mais conhecidos. Pra complicar, o plástico torna-se um agregador de moléculas tóxicas de outras substâncias e elementos que estejam presentes no ambiente. E claro, quando cozinhamos com essa água os elementos tóxicos são liberados ou se transmutam em outras substâncias cujos efeitos nocivos ainda são desconhecidos. A reportagem indagou a Sabesp que diz cumprir com todas as normas sanitárias do Ministério da Saúde. Vejam a reportagem e o relatório para conhecer melhor o problema.

    Mas essa notícia disparou algumas inquietações. No final da segunda guerra mundial, com o surgimento e proliferação das armas nucleares, instalou-se a chamada Guerra Fria. Durante décadas a população mundial, mas principalmente a dos países diretamente envolvidos, viveu sobre a constante ameaça do apocalipse nuclear. A vida sob tal situação engendrou formas de governo, tecnologias políticas de gestão das populações e toda uma geopolítica da qual ainda somos herdeiros. Passada a Guerra Fria o apocalipse nuclear ganhou outras feições. Uma delas é o apocalipse ambiental, onde os seres humanos são os principais responsáveis pela destruição do planeta. A constatação de que o plástico que produzimos está presente em toda parte (mesmo na água de áreas consideradas inóspitas) reforça uma idéia potente de que vivemos num “mundo sem refúgio”. Não há mais separação entre a ação humana e a vida no planeta, onde quer que estejamos. Trata-se, portanto, de pensar nossa ação num mundo em que não há mais um “fora” (natureza intocada ou pura), mas sim interconexão e interdependência, para a partir daí construirmos outras composições e modos de vida possíveis.

    Tanto no caso do apocalipse nuclear como no desastre ambiental em curso confrontamo-nos com problemas sistêmicos. Porém, a maneira como nossas vidas participam de cada um deles é absolutamente diferente. No caso do apocalipse ambiental sua gênese e reprodução está profundamente entrelaçada com a vida cotidiana de todos os humanos. Para tornar a diferença mais clara tente imaginar a vida sem o plástico, ou imagine todos os processos envolvidos para levar água para todas as residências de uma cidade. Facilmente percebemos como nossos modos de vida, em seus mínimos detalhes cotidianos, são parte constitutiva deste problema do qual todos somos afetados. Ainda assim, trata-se de um problema invisível.

    Esta invisibilidade é uma característica frequente de muitos elementos que são “comuns” a nossa existência. O comum aqui tem um duplo sentido: aquilo que é ordinário, corriqueiro; e aquilo que é compartilhado. Muitos elementos que são dessa ordem “comum”, são fundamentais no suporte à nossa vida, individual e coletiva, mas ainda assim são intangíveis e invisíveis. A saúde que perdemos quando sofremos com a contaminação, a qualidade da água que deixamos de ter, as relações de cuidado e os vínculos de solidariedade, são nossos “comuns” ameaçados por diferentes dinâmicas. Dar existência visível e politizar esses “comuns” é um caminho de luta política que muitas comunidades de afetados e movimentos sociais estão enveredando.

    Neste percurso desafiamo-nos a fazer novas e boas questões. Quando reunimos gente diversa, afetada pelo mesmo problema, compreendemos melhor a dinâmica em curso, seus efeitos e os múltiplos arranjos necessários para dar suporte àquele comum. Conseguimos dar melhor visibilidade e tangibilidade à algo que, de tão comum, era menosprezado como uma segunda “natureza”. O que é necessário para que eu tenha água em minha casa? O que é necessário para que eu tenha energia elétrica nas tomadas? Eu poderia viver sem essa água ou sem eletricidade? Por isso, quando dizemos “água para todos é um direito” ou “moratória à produção de plástico”, nos damos conta que já não é o suficiente. Nossa dependência desses sistemas e arranjos sociotécnicos complexos nos obrigam a outras reflexões, a outras estratégias.

    Essa percepção de interdependência e interconexão num mundo sem refúgio, obriga-nos a reconhecer que as mudanças que desejamos são mais complexas e passam por um profundo redesenho de nossos cotidianos: as formas de alimentação, moradia, energia, cuidados, transporte, educação etc. Se desejamos uma política dos 99% deveríamos prestar mais atenção ao que é comum e invisível, mas que organiza e sustenta de forma imanente os modos de vida do qual participamos.

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

     

  • Políticas da Partilha e da Distribuição

    capa-livro-conexoes-deleuze-2013

    Link para DOWNLOAD.

    É com alegria que compartilho este artigo – “Políticas da partilha e da distribuição” – que acaba de ser publicado no livro “Conexões: Deleuze e Política e Resistência e…”.

    Neste texto, escrito em 2012, procuro refletir sobre as reconfigurações da prática política no contexto do capitalismo contemporâneo (em sua dimensão comunicacional, informacional) e da sociedade de controle. Tomo as manifestações de 2011 e a experiência de greve de 2012 como disparadores dos pensamentos para tentar elaborar a idéia de uma política da distribuição, referente às condições de produção do comum e de emergência  de novos sujeitos políticos face os mecanismos de captura (políticos e econômicos) da política identitária (da partilha).

    No livro, há trabalhos muito interessantes. Destaco o artigo de Philippe Mengue – “Espaço liso e sociedades de controle – ou a última política deleuziana”.  Ele dá boas pistas para as discussões entre os pós-estruturalistas e marxistas. Em sua, o conjunto do livro (gestado em 2012) tem muitas contribuições para o atual cenário político brasileiro das “Jornadas de Junho” e suas reverberações.

    Neste link, disponibilizo o artigo para DOWNLOAD.