Para além da dicotomia governistas e oposição, desde abaixo, autonomamente e pela esquerda!
O desafio é conseguir escapar aos dilemas e capturas de junho/2013, quando logo após a vitória da revogação do aumento, na luta disparada pelo MPL, forças conservadoras da oposição e do governo, tentaram capturar, domesticar e conduzir a energia política da multidão colocada nas ruas.
Cuidado! É necessário estar atento, manter o foco na pauta do movimento. Fortalecer as redes de bairro que surgiram em torno das ocupações. Quanta vida!
Cada escola ocupada deu lugar a uma nova comunidade que luta pelo comum. A escola como lugar de produção de outras formas de viver junto, quando antes estavam reduzidas a espaço de controle dos corpos e pensamentos.
Ao mesmo tempo é importante seguir criando transversalidades com outros movimentos, grupos, expandir-se tecendo redes com o foco claro. E isso tudo já está acontencendo. Trocas de experiências entre movimentos, conhecimentos e aprendizados no fazer cotidiano que valem mais que muitos diplomas.
Assim como em 2013 o contexto mais amplo inspira cautela, muitas armadilhas. A batalha entre governistas e oposição também vai tomar as ruas novamente, e é possível que as forças pró-impeachment ou de apoio incondicional ao governo Dilma, tentem jogar o movimento secundarista para escolhas dicotômicas (ou vocês estão do nosso lado ou estão contra nós). Mas a potência que vocês alimentam é muito mais rica em sua multiplicidade. Estão criando novas formas políticas, e isso é muito mais importante e urgente hoje.
Categoria: artigo
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Ocupações das escolas – desafios e armadilhas
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Algumas lições para não repetir de ano
O jovens desejam uma outra escola, uma escola que seja um território comum de produção de novos sentidos de vida, de outras formas de experiência, de socialização e de subjetivação.
A escola pública, mais do que estatal, pode ser um bem comum, e para isso ela deve ser de todos (e não UMA escola para todos). Sua ativação como bem comum depende do permanente exercício democrático entre os estudantes, professores, pais, comunidade do entorno, gestores.A escola pode ser um um espaço de produção de diferenças e singularidades (ao invés da escola que pretende (in)formar o cidadão, o trabalhador ou o futuro universitário).
A necessária abertura ao acontecimento, ao indeterminado, é um importante manancial para a educação. Mergulhar numa experiência, simultaneamente singular e coletiva, com todos os seus riscos, é uma grande aprendizado inventivo. Nesse momento, professores e estudantes aprendem criando.
O currículo pode ser criado de maneiras diversas. Em tempos de currículos cada vez mais predeterminados e lineares, a pletora de conhecimentos disponíveis pode oferecer trajetórias singulares de aprendizado.
A educação, como produção de novos conhecimentos e formas de vida mais autônomas, acontece nas frestas. Quando achamos que controlamos os conteúdos, os processos, as metodologias, descobrimos que o mais importante escapa a tudo isso.
A experiência democrática, diferente daquela prevista pelos espaços e dinâmicas institucionais previstas na lei, só acontece pela ação que instituí, através do dissenso um espaço de atualiza a igualdade das potências da inteligência.
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Universidade e Propriedade Intelectual
Atualmente, há muita discussão sobre os efeitos provocados pelos direitos de propriedade intelectual (DPI) sobre os ambientes de produção/difusão de conhecimentos (científica e extra-científica) e as dinâmicas de inovação. Se por um lado, os DPI podem ser utilizados como forma de proteção dos conhecimentos (contra a expropriação de outrém) e como mecanismo de incentivo monetário à inovação tecnológica em certos segmentos, por outro lado, discute-se em que medida os DPI acabam impactando de forma negativa sobre a produção/circulação do conhecimento e funcionando como instrumento jurídico de bloqueio à inovação.
Por isso, há muita controvérsia se os efeitos sobre o ecossistema de inovação (que sempre envolve a relação entre vários atores e instituições) é mais positivo ou negativo, sobretudo, em se tratando da pesquisa científica, onde a dimensão pública do conhecimento é constitutiva da própria dinâmica científica (necessidade de verificação entre pares, reprodutibilidade dos experimentos, construção a partir do estoque anterior de conhecimentos etc).
No caso da Universidade, essas questões ganham relevância na medida em que as políticas de inovação tecnológica através da interação universidade-sociedade (com empresas, governos, etc), devem impactar positivamente no ambiente acadêmico, fortalecendo relações mais colaborativas no interior da própria comunidade científica e criando sinergias que ampliem as condições de produção/circulação de conhecimento e de inovação.
Neste sentido, pode-se pensar numa diversidade de formas de propriedade intelectual, modelos de licenciamento e livre acesso à informação, que possam ser combinadas para estimular um ambiente mais inovador para a pesquisa e inovação tecnológica. Exemplo disso, temos observado nas ultimas décadas o florescimento de inúmeras iniciativas de inovação aberta, como aquelas adotadas em grandes empreendimentos científicos e industriais. Em suma, trata-se de identificar os contextos específicos de aplicação dos conhecimentos produzidos na Universidade, afim de verificarmos qual dinâmica de circulação e acesso terá maior impacto (positivo) sobre o ecossistema de produção de conhecimentos e de inovação como um todo.
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Abertura e Controle
O texto a seguir foi escrito para a intervenção realizada no Seminário Informação e Internet, organizado pelo IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) em Brasília, agosto de 2015. O título da mesa era “Abertura e Controle”, com Sarita Albagli e Sergio Amadeu.
O tema proposto (Abertura e Controle) me permitiu abordar algumas idéias e questões que estão na interface dos projetos que estou conduzindo neste momento: Ciência Aberta e Desenvolvimento Local; Tecnopolítica e Saberes Situados. Este ensaio é também um desdobramento das proposições lançados no post “Privacidade como Bem Comum” e das reflexões provocados, principalmente, pela leitura recente de dois textos: um artigo de Antoinette Rouvroy [1] e um ensaio do Amador Fernández-Savater [2].
Faço esta introdução, apenas indicar que parto de uma perspectiva em que “abertura e controle” são fenômenos interconectados e interdependentes quando falamos em comunicação digital em redes cibernéticas.
Primeiramente, gostaria de apontar quais os sentidos utilizados para esses dois termos neste texto:
*abertura: capacidade de acessar, interpretar, difundir informação (seja para fins de produção de conhecimento ou para garantir a funcionalidade técnica de softwares, hardwares etc.
*controle: capacidade de regular um conjunto de funções, eventos, variáveis com vistas a obtenção de algum resultado desejado (por exemplo, ter o controle da situação, controle do sistema etc). Mas também como uma capacidade de exercício de poder.No caso da comunicação em meios digitais, abertura e controle podem se combinar e se efetivar através da implementação de protocolos. Segundo Alexander Galloway [3] podemos definir “protocolo” nas seguintes maneiras: padrão que governa a implementação de uma tecnologia específica; ou formas de governo para obtenção de controle num dado sistema. Mais especificamente, o protocolo para os cientistas da computação podem ser entendidos como: regras convencionadas que governam um conjunto de comportamentos possíveis dentro de um sistema heterogêneo; ou ainda técnica para alcançar regulação voluntária dentro de um ambiente contingente.
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Hoje é senso comum falar que vivemos uma revolução dos dados (UN Data Revolution Group). Com o crescente uso das tecnologias de comunicação digital um novo universo de informações passa a ser produzido, registrado, analisado, sobre cada aspecto de nossas vidas (Quantified Self). Às vezes com nosso consentimento (Termos de Uso), muitas vezes com nossa cumplicidade e adesão voluntária (Facebook), mas na maioria das vezes, sem termos a menor noção do que de fato acorre com nossas informações (Windows).
Este novo manancial informacional é por vezes referido como o “petróleo do século XXI” (sobre o valor dos dados pessoais para o World Economic Forum), fazendo alusão à sua importância para as atividades econômicas e criação de riqueza monetária. Nesta dimensão, quanto mais informação disponível, quando maior o fluxo informacional, melhor para a atividade. Paradoxalmente, tal entendimento caminha lado a lado com a defesa seletiva da expansão do sistema de propriedade intelectual sobre informações consideradas estratégicas para a inovação tecnológica. Nesta perspectiva, o livre fluxo informacional (apoiado no discurso da abertura e transparência) combina-se à expansão de novos “enclousers” informacionais.
O importante aqui é estar no melhor lugar da cadeia produtiva informacional (camada física, aplicativos, harwares etc) de forma a poder modular a membrana que regula os fluxos entre abertura e fechamento estratégico sobre a informação “que conta”. Como podemos observar nos recentes acordos comerciais do Trans Pacífic Partenership [TPP-Wikileaks], ao mesmo tempo que promovem a expansão da propriedade intelectual sobre o conhecimento e à cultura, sob pressão das grandes corporações, as regulamentações que protegem os dados pessoais dos cidadãos Europeus são atacados como inimigos do livre fluxo informacional, impedindo assim o desenvolvimento econômico dessas nações [veja o comentário de E.Morozov].
Mas este novo universo de dados é também encarado como um recurso fundamental para o avanço da ciência em inúmeras áreas do conhecimento. Como afirmou um dos diretores de uma agência de saúde norte-americana, “as informações disponíveis sobre pacientes, tratamentos, condições de saúde, efeitos de drogas etc, organizadas como Big Data terão um efeito sobre a medicina do século XXI maior do que teve a penicilina no século XX”. Não apenas na área médica, este volume infinito de dados inaugura o Big Data em diversas disciplinas.
Mesmos as humanidades que sempre deram preferência à dimensão qualitativa e significativa das informações, e se aproximavam com suspeita tanto das tecnologias como das informações quantitativas, abraçaram as novas possibilidades oferecidas pelas TICs. As chamadas Humanidades Digitais não trabalham exclusivamente com big data, mas fazem uso intensivo das novas informações produzidas através da mediações digitais na vida social.
Do ponto de vista Estatal, seja para o acompanhamento e avaliação de suas ações, para a criação de novas formas de participação cidadã e controle social, mas principalmente para o monitoramento e controle sobre os cidadãos sob uma lógica securitária, as informações digitais produzidas e recolhidas constituem um novo recurso fundamental para o poder gestionário.
Participação, transparência, acesso à informação e controle social são palavras que passaram a compor um vocabulário comum de militantes, cientistas e gestores governamentais. Hoje, até o congresso brasileiro organiza seus Hack Days.
Indiquei rapidamente esses três eixos (econômico, ciência/conhecimento e Estado) apenas para destacar a forma como esta nova produção e disponibilização de dados situa-se sobre uma arena conflituosa de profunda reconfiguração social, onde as fronteiras entre público-privado, trabalho e não-trabalho, abertura e controle ganham novos contornos, e onde o surgimento de novas formas de saberes e conhecimentos vem acompanhadas por novas formas de exercício do poder (cf. Foucault).
Os exemplos são infinitos:
*nota fiscal eletrônica: coleta de dados sobre o consumo do cidadão contribui para combater a evasão fiscal, e ao mesmo tempo produz um conhecimento de alto valor de mercado sobre perfis de consumo. Quais os usos que podem ser feitos dessas informações? Quem são os intermediários e terceiros que tem acesso à ela?
*dados sobre pacientes no sistema publico ou privado de saúde: prontuário eletrônica é importante para ampliar nossos conhecimentos sobre tanto sobre a saúde humana como sobre o sistema de saúde. Mas como essas informações podem ser usadas?
*dados que produzimos em nosso uso cotidiano da Internet, são importantes para conhecermos mais sobre determinados aspectos da vida social, e ao mesmo tempo são o insumo básico da vigilância industrial (estatal e corporativa).Portanto, indicamos que essa crescente produção e disponibilização de dados (dimensão da abertura) vem acompanhada de uma forma de controle. Há portanto, a emergência de novas formas de conhecer que se combinam às novas formas de exercício do poder. E elas não são genéricas e abstratas, mas sim, situadas (ou contextualizadas) e empíricas.
É sob esta perspectiva que eu gostaria de avançar. Não faz sentido falarmos da abertura e transparência como valores transcendentais que devam ser aplicados genericamente às informações produzidas (uma vez que existe esta possibilidade). As condições e possibilidades de abertura devem sempre ser analisadas nos contextos específicos de sua produção e circulação, bem como nos efeitos sociais e culturais (sistêmicos) que ela pode provocar.
Pensemos, por exemplo, como os efeitos relativos à disponibilização livre e consentida de nossas informações genéticas está além de questões sobre a decisão/escolha individual e, portanto, também terão efeitos que escapam à proteção dos dados pessoais (como veremos na parte final do texto).
Por um lado, a oferta dessas informações (p.ex. dados biomédicos) pode contribuir para o avanço dos estudos sobre doenças etc. Podemos considerar aqui que esta “abertura” é voluntária e cabe apenas ao indivíduo decidir o que fazer com seus dados pessoais. Todavia, precisamos considerar os efeitos dessa informação num cenário mais complexo em que o campo de forças econômico e político (corporações, Estados etc) é distribuído de forma assimétrica. De partida, temos atores com condições distintas de apropriação e uso desta informação. Suponhamos que essas informações sejam utilizadas para analisar o perfil genético de um cidadão no momento de sua contratação profissional ou para a contratação de um convênio médico. Neste caso, estamos tratando dos problemas relativos à aplicação dos dados deste indivíduo sobre ele mesmo em ações futuras. Todavia, o simples fato de que alguns indivíduos disponibilizem suas informações genéticas livremente pode criar uma nova situação em que todos aqueles que não disponibilizam suas informações genéticas sejam tratados de forma negativa (pagar um seguro médico mais caro, etc).
Por isso, além da proteção dos dados pessoais, temos pensar em formas de regulação sobre o que é possível fazer, em termos de coleta, organização, sistematização e análise, da massa de dados atualmente disponível, mesmo quando anonimizadas, portanto, fora da esfera dos chamados “dados pessoais”. Foi neste sentido que escrevi um pequeno ensaio sugerindo tomar o direito à Privacidade como Bem Comum.
Com isso, quero apontar para a emergência de um horizonte sociocultural mais amplo que estamos produzindo com nossas pequenas ações individuais. Não seria essa a política inscrita no protocolo da transparência total pretendida pelo Facebook: criação de uma cultura da transparência em que a disponibilização voluntária de nossos dados se naturaliza como um imperativo social e moral? É sobre esta configuração cultural mais amplo que gostaria de seguir a conversa.
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Como promover o acesso à informação, ao conhecimento e à cultura e ao mesmo tempo, combater os efeitos potencialmente perversos dessa abertura? Quando falamos em revolução dos dados (como bem interrogou o artigo de Jonathan Gray) precisamos interrogar para quem? Nesse sentido, parece-me importante colocar a questão da abertura num contexto muito assimétrico de distribuição do poder comunicacional, econômico e político.
Recemente, numa lista de discussão dedicada à tecnopolítica e ao ativismo Antivigilância, tive contato com alguns documentos de um grupo de trabalho em tecnologia da Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Achei excelente o documento. Com uma percepção aguda, já no início dos anos 90, alguns médicos e enfermeiros estavam atentos à necessidade de se pensar em formas críticas de gestão dos grandes bancos de dados que estavam começando a se constituir sobre os pacientes no sistema público de saúde. O documento levanta várias questões importantes: que tecnologias podem promover a confidencialidade, proteger a identidade dos pacientes, evitar usos indevidos por empresas sobre os bancos de dados etc.
Da mesma forma como esses atores estavam preocupados com a identidade e a privacidade dos pacientes, hoje enfrentamos questões análogas no debate sobre a nova lei de Proteção de Dados Pessoais.
É nesse sentido também que a comunidade tecnoativista tem organizado eventos [CryptoRave] destinados a difundir o uso de tecnologias que promovam a comunicação segura, a privacidade e o anonimato, como formas de luta contra as ações massivas de vigilância estatal e corporativa. A luta pelo direito ao anonimato na rede é de suma importância num cenário de crescente mediação digital. Na atual conjuntura a defesa do anonimato é uma possível estratégia para a defesa da liberdade de expressão, para resistir à “censura preventiva” ou ainda para combater o “conformismo antecipativo” diante dos mecanismos de profiling.
Não à toa, na era Pós-Snowden começam a surgir serviços conhecidos como zero-knowledge. Outro exemplo é o esforço de ciberativistas para criar ambientes de interação que tentam recriar a situação de um encontro de duas pessoas numa floresta, uma conversa em presença e sem qualquer registro, apenas a memória individual de cada um deles.
O anonimato na rede também cumpre a importante função de criar espaços de interação que possam efetivamente funcionar como arenas públicas. É uma situação análoga ao efeito provocado pelas cidades modernas na sociabilidade, onde o espaço publico se caracterizava pela possibilidade do encontro com pessoas que não conhecemos e, por isso, surgiram códigos de conduta para o bom convívio com aquele ser genérico que desconheço. Tais princípios e códigos estarão mais tarde na base dos direitos de cidadania.
Na medida em que os ambientes digitais produzem uma infinidade de dados sobre os usuários, a garantia do anonimato torna-se um recurso importante (mas não único como veremos adiante) para que possamos evitar a emergência de uma sociedade policial, onde sabemos tudo sobre todos, e todas as interações acontecem em cenários onde o imprevisto e o indeterminado estão eliminados.
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Contudo, em todos esses casos que listamos, o conflito e as formas de apropriação e expropriação, dão-se sobre a fronteira dos dados públicos e privados, e também sobre a capacidade de atribuir autenticidade e identidade aos dados.
Com a crescente concentração das informações digitais nas mãos de poucos atores corporativos e estatais, as práticas de abertura e livre disponibilização de dados combinam-se à emergencia do Big Data num contexto de distribuição assimétrica no poder comunicacional (propriedade dos meios, infraestrutura, aplicativos etc). Neste cenário, gostaria de apontar que a forma de exercício de poder aquire outra dinâmica, deslocando portanto, o conflito político para outras arenas.
Para explorar essa nova configuração entre saberes e poderes no mundo do Big Data, Antoinette Rouvroy, pesquisadora do Research Center Information, Law & Society (Bélgica), toma as idéias de Foucault e Deleuze para desenvolver o conceito de “Governamentalidade Algorítmica” [1], como um desdobramento da governamentalidade neoliberal:
“J’ai voulu décrire ce glissement du gouvernement néolibéral au gouvernement algorithmique: un mode de gouvernement nourri essentiellement de données brutes (qui opèrent comme des signaux infra-personnels et a-signifiants mais quantifiables); qui affecte les individus sur le mode de l’alerte provoquant du réflex plutôt que sur le mode de l’autorisation, de l’interdiction, de la persuasion, en s’appuyant sur leurs capacités d’entendement et de volonté ; qui vise essentiellement à anticiper l’avenir, à borner le possible, plutôt qu’à règlementer les conduites. Les dispositifs de la gouvernementalité algorithmique intègrent le data-mining: l’exploitation de gisements de données massives et brutes, qui n’ont individuellement aucun sens, pour en faire surgir des profils de comportements. Le data-mining permet de gérer les gens de façon personnalisante, industrielle, systématique, préemptive, en ne s’intéressant à eux qu’en tant qu’ils relèvent d’une multitude de profils (de consommateurs, de délinquants potentiels, etc.).
Nessa perspectiva, o que está em jogo é muita mais a capacidade de produzir e gerenciar uma infinidade de perfis, de criar cenários e produzir futuros. O perfil é supra-individual (é uma categoria estatística) e é criado a partir de informações brutas, infra-individuais. Não é mais o indivíduo que conta, mas o ser dividual. Deleuze já tinha apontado isso naquele pequeno texto Post-Scriptum das Sociedades de Controle. Mas a governamentalidade algoritmica ocupa-se de um mundo digital muito distinto daquele observado por Deleuze.
Não se trata apenas de gerir permissões de acesso, de modular a existência dividual a partir de controles de variação contínua. É tudo isso também, porém, o campo de intervenção com o Big Data cria uma “política” da simulação” que é a própria morte da política, uma vez que as ações passam a ser governadas graças ao feedback dos parâmetros que indicam os cenários futuros produzidas com base nas predisposições estatísticas de cada perfil, de cada situação. Não se age, não se cria, modela-se.
Galloway aborda este problema por uma perspectiva complementar que ele chamará de poder protocolor. Não é preciso se preocupar com o sentido da ação, é possível conduzir a ação de outra maneira. Na medida em que toda ação tecnicamente mediada precisa passar pelo protocolo, o importante é que este protocolo produza os efeitos desejados. É uma ação governada no presente graças ao controle sobre os efeitos desejados.
É por isso que estamos além do Big Brother. Claro, Snowden, Assange estão aí para nos lembrar dos inúmeros aparatos de vigilância. Porém, neste cenário trata-se menos de impedir que nos expressemos livremente. Sim, isso também acontece no momento de exercicio do poder sobre o indivíduo em situações específicas. Todavia, na governamentalidade algoritmica somos convidados a sempre nos expressarmos livremente: “escreva aqui o que você está pensando” (Facebook), “o que está acontecendo?” (Twitter) etc.
Para além do Big Brother – tomo de empréstimo a feliz expressão de Evegeny Morozov – estamos diante da Big Mother, ela sabe o que eu desejo, ela sabe o que eu preciso, ela vai me oferecer tudo que necessito.
Discutimos neste evento alguns aspectos do direito ao esquecimento. Antoine Rouvroy nos lembra também da importância de discutirmos o direito a um futuro não-preocupado: será que as informações que eu estou produzindo agora, mesmo que anonimizadas (portanto, nao se trata de dados pessoais), não estão a compor um perfil estatistico que será utilizado no futuro para guiar minhas escolhas ou para me incluir em determinadas categorias sociais que ainda sou incapaz de imaginar?
Por tudo isso, é importante pensarmos numa política para a proteção dos dados pessoais e também nas garantias para o anonimato na rede. Porém, isso só dá conta de uma parte de um problema. É absolutamente possível manter a governamentalidade algorítmica funcionando dentro do respeito àquilo que entendemos como “dados pessoais”. Para enfrentarmos essa nova forma de poder, teremos que pensar em novas formas de regulação sobre a informação que é produzida, para além da dicotomia público-privado. Afinal, trata-se de discutir o que queremos fazer coletivamente com as informações que estão aí? Quais as possibilidades e o que queremos evitar? Talvez, tenhamos mesmo que pensar que a proteção dos dados pessoais não se refere mais ao indivíduo, mas sim à coletividade. Ou seja, com a crescente mediação das tecnologias digitais há todo uma nova partilha do mundo que se faz necessária, afinal, a intermediação digital inaugura um novo território comum sob disputa. Uma alternativa, seria tomarmos o ecossistema comunicacional de maneira análoga aos bens comuns, e pensar seu usufruo coletivo a partir de uma concepção renovada dos direitos no mundo digital, para além da dicotomia indivíduo-sociedade, público-privado.
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[1] Antoinette Rouvroy. “« Le droit à la protection de la vie privée comme droit à un avenir non pré-occupé, et comme condition de survenance du commun. » (Draft / Version provisoire)” Entretiens à propos du droit à la protection de la vie privée (à paraître). Ed. Claire Lobet-Maris, Nathalie Grandjean, Perrine Vanmeerbeek. Paris: FYP éditions, 2014. Disponível em: http://works.bepress.com/cgi/viewcontent.cgi?article=1065&context=antoinette_rouvroy
[2] Amador Fernández-Savater – O pesadelo de um mundo em rede: http://www.eldiario.es/interferencias/pesadilla-mundo-red_6_412668752.html
[3] Alexander Galloway. Protocol, how control exists after decentralization, MIT Press, Cambridge, 2004.
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Ciência comum e laboratórios cidadãos – com Antonio Lafuente
Recomendo a escuta desta apresentação do Antonio Lafuente na EACH/USP, numa atividade organizada pela Daria Daremtchuk do Grupo de Pesquisa Entre Artes Contemporâneas. Como não pude comparecer, pedi a ela que gravasse o audio. Registro recebido, escrevi ao Antonio solicitando autorização pra compartilha-lo. Obviamente, nenhuma objeção. Publiquei-o em seguida no Internet Archive (Disponível aqui: https://archive.org/details/20150528083352 ).
Já faz algum tempo que acompanho sua produção. Considero-a muito inspiradora para os trabalhos que venho desenvolvendo, tanto na pesquisa como na ação política. Serei sempre grato ao colega Luis Ferla por ter me apresentado a ele na Unifesp, lá no Bairro dos Pimentas, onde mais tarde o próprio Antonio voltaria outras vezes pra participar de seminários e de uma não-aula no (des)curso “Leituras do Fora” que oferecemos (eu, Edson Teles e Fernanda Cruz) como disciplina eletiva .
Após escutar o audio, resolvi fazer algumas anotações que compartilho aqui. Antonio Lafuente explora algumas questões sobre a produção de conhecimentos (científicos e extra-científicos) e sua relação com os coletivos humanos (instituições, Estado, academia, extra-universidade).
Sua trajetória de historiador da ciência, soma-se ao longo trabalho de pesquisa sobre práticas alternativas de produção de conhecimentos (ciência amadora, ciência cidadã, comunidades epistêmicas, cozinhas, laboratórios de garagem…) e mais recentemente à prática de coletivos ativistas que combinam o uso de tecnologias digitais à investigação amadora para a inovação cidadã (novas modos de participação e ação política). Um exemplo disso são algumas iniciativas que ele coordena do MediaLab Prado.
Nesta palestra ele faz um interessante caminho, partindo de algumas boas questões: o que os cientistas podem aprender com os ativistas, e o que os ativistas podem aprender com os cientistas? Como avançarmos da ciência aberta em direção à ciência comum?
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Suspiro moribundo, respiros de ar fresco
Neste domingo (15/3/2015) muitas pessoas foram às ruas protestar contra o governo e o PT.
A força das ruas aponta para algo ainda informe, mas é uma força grave e deve ser levada a sério. É importante analisa-la em sua diversidade interna e compreender a maneira como foi construída, inflamada e como se dá a elaboração das narrativas que se pretendem unitárias.Surpresa? Um pouco, mas lembrem, a Dilma foi eleita com 54 milhões de votos e a oposição teve 51 milhões (é gente pra caramba).
Desesperança? Afinal, era tanta gente clamando por um mundo diferente daquele em que acredito e que desejo para o futuro?
Não, agora podemos vê-los! É tão mais fácil entender este país quando vemos as pessoas que compõem essas marchas e quando o jogo das portas fechadas se mostra nas ruas.
Tristeza? Sim, fiquei triste quando vi pessoas clamando por intervenção militar. Lembrei de tantas pessoas conhecidas que tiveram suas vidas ameaçadas, destruídas, outros que foram torturados ou mortos para que todas essas pesssoas tivessem o direito de ir para a rua se manifestar. Como não lembrar de história tão recente?Meu sentimento no final do dia?
Tenho ainda mais vontade de agir politicamente, pois acredito que há novos mundos em formação e eles podem ser mais livres, mais felizes e mais amorosos. Pelo menos isso é o que desejo para o mundo em que vivo e onde minha pequena filha acaba de chegar.
Numa imagem esperançosa descrita pela amiga Lilian Kelian, talvez estejamos vendo o suspiro terminal de um mundo moribundo, o mal estribuchando para algo melhor nascer. De uma certa perspectiva esta imagem produz sentidos.Quando trabalhamos com jovens, quando circulamos pela cidade, pelo Brasil, especialmente pela borda, fora dos centros, este mundo dos bolsonaros, dos aécios, dos lobões já é um mundo tão velho. Ainda que tentem legislar para congelar um modelo arcaico de família, as pessoas já estão fazendo famílias de múltiplas formas; ainda que construam espaços murados e ilhas fortificadas, os shoppings e os condomínios já não são capazes de guardar suas fronteiras; ainda que queiram regular a vida e o que fazemos com nossos corpos, a liberdade e a autonomia já não podem mais ser contidas; ainda que tentem exterminar e encarcerar nossos jovens negros, a organização da resistência só cresce e floresce; ainda que queiram controlar a comunicação, o desejo de livre expressão está em toda parte, somos legião; ainda que contruam arranha-céus para cidades dormitórios, a luta por moradia enche de vida as ruas, terrenos e prédios vazios; ainda que queiram controlar nossa vida nas cidades, as catracas estão sendo incendiadas; ainda que tentem preservar a sociedade escravocrata, os garis, as empregadas e serviçais se organizam e lutam. Somos muitos e diversos.
Todavia, é preciso colocar a mão na massa. Sinto um novo sopro que talvez contribua para ativar outras formas de luta e organização, novas institucionalidades rebeldes, novas formas de estar junto e produzir o comum. Afinal, o que está aí já não responde às nossas necessidades. Alguns indicam que entraremos num momento de inércia e de transição que pode levar alguns anos pra criar novas respostas. Minha impressão é outra. Acho que as organizações mais progressistas já estavam vivendo uma inércia de muitos anos. Fora delas, a criação já começou. Há muito trabalho pela frente (são muitas as frentes e bordas) e ela já está acontecendo desde baixo, em minorias não-numéricas, em toda a parte.
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Mídias, ruas e narrativas
Assim como em junho de 2013, não é mais possível analisar os protestos e seus sentidos sem ter os pés, olhos e ouvidos em diferentes espaços simultaneamente. O que acontece no espaço físico da rua é indissociável do que ocorre na esfera comunicacional.
Novamente, assistimos a uma acirrada disputa pela narrativa dos fenômenos e a emergência de dinâmicas que visam direcionar e reduzir expressões diversas de descontentamento para sistemas binários de oposição, onde, inevitavelmente, a batalha é facilmente ganha por aqueles capazes de hegemonizar sua versão dos fatos. Tal processo é acompanhado pela destruição da política como resultado da ação identitária (minha visão de mundo é melhor, é mais verdadeira do que a sua) de grupos forjados na pura emoção. Receita fácil para fascismos diversos.
O problema é mais grave quando a comunicação em redes digitais (celular+internet) é capturada, selecionada, editada e retransmitida por meios de comunicação de massa (TV, radio e grandes jornais e revistas) cujo controle e propriedade são absurdamente concentrados. A produção distribuída do cidadão na ponta do celular, mediada e retransmitida de maneira centralizada pelo grandes aparatos de mídia é capaz de produzir qualquer realidade. Os levantes da primavera árabe não foram feitos só de internet, mas de lutas no asfalto com transmissão centralizada pela Aljazeera.
É por isso que não basta ir às ruas, mesmo com uma multidão. É preciso também disputar as interpretações e desafiar as narrativas estabelecidas pelos grandes veículos de comunicação. E não falo só da TV e dos grandes jornais. Ambientes como o Facebook, cuja natureza é privada e corporativa, funcionam de maneira a reforçar nossas posições iniciais, criando grandes ilhas onde só nos comunicamos com nossos iguais. Há pouco espaço para o contraditório. Ademais, o controle sobre o funcionamento do algoritmo, que determina o que vemos e com quem interagimos, é um negócio bilionário cuja operação pode ser perfeitamente conduzida. Neste sentido, se a internet parecia uma terra livre em seu início, hoje ela está cada vez mais colonizada pelo poder econômico.
Se somarmos a capacidade de concentração e direcionamento do Facebook ao poder de centralização e transmissão massiva das TVs e grandes jornais brasileiros, temos um sistema comunicacional que abarca quase a totalidade dos cidadãos recebendo informações mediadas por grandes corporações.
Onde está a liberdade de comunicação, expressão e pensamento?
Assim, talvez hoje estejamos diante de uma importante encruzilhada.
Nas redes digitais está sendo travado uma guerra comunicacional entre grupos de posições distintas, mas a emissão centralizada das televisões e grande jornais ainda é capaz de produzir o assunto comum no país, e por isso, controlam a agenda política.
Por isso, a luta pela democratização e regulação econômica dos grandes meios de comunicação de massa (tv, radio e grandes jornais) é tão importante quanto a disputa da narrativa política na internet e nas ruas. Tudo ao mesmo tempo agora. -
Saravá sofre ameaça à liberdade de expressão, organização e de conhecimento

Reproduzo abaixo nota de comunicação do Grupo Saravá, publicado em: https://www.sarava.org/pt-br/node/102
Aproveito para manifestar minha solidariedade a este importante coletivo, referência no Brasil e no exterior no desenvolvimento de pesquisas em tecnopolítica e na difusão de tecnologias que promovem o direito à comunicação e ao conhecimento. Graças ao apoio do Saravá, inúmeras ações de ensino, pesquisa e extensão que realizamos na universidade são possíveis.
Esta situação, justamente no momento em que o Brasil dá um importante exemplo com a recente aprovação do Marco Civil da Internet, é revelador da permanência de práticas anti-democráticas e desproporcionais que ameaçam o direito à liberdade de expressão, de organização e de conhecimento. Segue a nota:
====================================================================
Urgente – Grupo Saravá está prestes a perder seu principal servidor!
====================================================================PRIMEIRO ROUBO DE DADOS APÓS APROVAÇÃO DO MARCO CIVIL:
ATAQUE POLICIAL À PRIVACIDADE PODE OCORRER DEPOIS DE EVENTO NETMUNDIAL.Por conta de um processo que corre em segredo de justiça contra a Rádio Muda, a
mais antiga rádio livre em operação no Brasil, o principal servidor do Grupo
Saravá poderá ser apreendido nesta próxima segunda-feira 28/04 às 13:00.A Rádio teve seus equipamentos apreendidos mais uma vez em 24 de fevereiro
deste ano[1]. Na esteira desse processo, a procuradoria do Ministério Público
Federal prosseguiu o inquérito, desta vez mirando os dados disponíveis no site
da rádio que possam identificar seus participantes. Uma requisição
do MPF assinada pelo Procurador Edilson Vitorelli Diniz Lima formalizou o
pedido.O servidor do Grupo Saravá que está localizado na Universidade Estadual de
Campinas – Unicamp, hospedava a plataforma radiolivre.org, incluindo o site da
Rádio Muda – muda.radiolivre.org, e hospeda outros diversos projetos de pesquisa
e de extensão, relacionados além da Unicamp a outras universidades públicas
brasileiras.O Saravá é um grupo de estudos que há dez anos oferece infraestrutura
tecnológica, reflexão política e sistemas de comunicação autônomos e seguros de
forma gratuita a grupos de pesquisa e movimentos sociais[2]. Em 2008 um dos seus
servidores já foi apreendido e até hoje não foi devolvido[3].Agora, em 2014, logo após a aprovação do Marco Civil da Internet [4] e a
realização de uma conferência mundial sobre a internet na qual o Brasil tentou
figurar como bastião da proteção da liberdade na internet, nos deparamos com
mais uma tentativa de sequestro de dados, prejudicando a privacidade de projetos
de pesquisas e o livre acesso a informações com o fechamento de listas de
discussão, sites e ferramentas.Julgamos desproporcional a quebra de sigilo de comunicação para os fins do
inquérito do MPF. Ademais, o servidor não possui registros que possam
identificar usuários/as como parte de sua política de privacidade[5].Pedimos solidariedade a todos os grupos, indivíduos e instituições que lutam
por uma sociedade e uma internet livre. Na próxima segunda-feira 28/04 às 13h
haverá uma manifestação na frente do prédio do Centro de Processamento de Dados
do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, todo apoio é bem vindo.Pela internet, haverá manifestação em redes sociais e através do envio de
mensagens de repúdio ao Ministério Público Federal. Hashtags: #SaravaLivre,
#netmundial1984, #sarava, #privacidade, #OurNetMundial, #marcocivildainternetExigimos a imediata interrupção das investidas policiais contra o servidor do
Grupo Saravá e os dados dos/as usuários/as.[1] http://intervozes.org.br/fechamento-da-radio-muda-e-mais-um-atentado-contra-a-liberdade-de-expressao-no-brasil/
[2] Princípios do Saravá: https://www.sarava.org/pt-br/principios
[3] Sequestro do Saravá em 2008: https://www.sarava.org/pt-br/node/44
[4] Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm
[5] https://www.sarava.org/pt-br/privacidade






