Categoria: artigo

  • Educação Expandida e Ciência Amadora: primeiros escritos

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    Fonte Imagem: http://milliondollarblocks.tumblr.com/
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    Dentro do Projetão Geografias, Imagens e Educação, coordenado pelo grande mestre Wenceslao Machado de Oliveira Jr, tive a oportunidade de aprender e trocar conhecimentos diversos com uma rede muito interessante de pesquisadores de várias universidades brasileiras. Recentemente, o grupo publicou um livro com artigos dos vários pólos envolvidos na rede.

    Neste artigo elaborarei uma primeira sistematização das idéias e iniciativas que venho desenvolvendo no âmbito dos projetos de extensão, pesquisa e formação de professores do Pimentalab/TransMediar. Lendo o texto, tenho agora a impressão que ele indica os caminhos atuais e futuros de uma jornada científica e política que apenas comecei a empreender. Veremos que trilhas o trabalho vai criar…

    PARRA, H. Z. M. . Educação Expandida e Ciência Amadora: primeiros escritos. In: Cláudio Benito Oliveira Ferraz, Flaviana Gasparotti Nunes. (Org.). Imagens, Geografias e Educação: intenções, dispersões e articulações. 1ed.Dourados: Ed.UFGD, 2013, v. , p.  79-102.

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  • Entrevista: 15M e novas expressões da política

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    Fonte da Imagem: http://www.eldiario.es/turing/15M-tecnopolitica-internet_0_131936900.html
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    Gavin Adams e Henrique Parra

    Após alguns dias de discussões e troca de experiências entre ativistas espanhóis e brasileiros, resolvemos gravar uma entrevista que nos ajudasse a sistematizar parte das reflexões e questões que  emergiam nos debates. Naquele momento, janeiro de 2012, muitos grupos refletiam sobre as experiências ocorridas no ano anterior. No exterior, observamos o levante popular nos países árabes, os indignados na Espanha, o movimento Occupy nos EUA, as greves na Grécia e as inúmeras ações de resistência às políticas de austeridade postas em prática em resposta à crise do capitalismo financeiro de 2008. Em 2011, no Brasil, houve uma onda de manifestações de rua, Marcha da Maconha, Marcha da Liberdade, Ocupas de praças em diversas capitais, mas também um conjunto de  manifestações de grupos indígenas, movimentos ambientais e expressivas greves de trabalhadores (as mais visíveis foram nas grandes construções de usinas hidroelétricas no Norte e Nordeste).

    Reunimo–nos em São Paulo, no final de janeiro de 2012, para realizar o registro da entrevista com Xavier Toret e Bernardo Gutiérrez, ambos espanhóis e militantes em diferentes movimentos. Toret  esteve envolvido com os movimentos autonomistas das lutas anticapitalistas do final dos anos 1990, na criação do Indymedia Estrecho1, nos movimentos pela neutralidade da rede e democratização do acesso à informação e cultura junto à X–net2. É colaborador na Universidade Nômade e desenvolve estudos na interface dos campos da psicologia, política, filosofia e tecnologia. Nos últimos  anos, participou ativamente da rede Democracia Real Já e do 15M3. Bernardo Gutiérrez é jornalista de pautas sociais e políticas. Atualmente reside no Brasil, nos últimos 10 anos acompanhou  diversos movimentos sociais na América Latina. Na Espanha, participou das assembleias populares e agora no Brasil tem contribuído nos movimentos de cultura livre e na difusão de práticas e tecnologias organizacionais junto aos protestos recentes. É no atual contexto das “Jornadas de Junho” de 2013 que resolvemos publicar este material. Pela necessária agilidade do momento, optamos  por manter a oralidade do texto, sem muitas alterações na forma das narrativas. Fizemos alguns cortes para sintetizar trechos muito longos e para destacar aqueles conteúdos que consideramos mais  pertinentes nas intervenções. De toda forma, disponibilizamos na internet4 o áudio integral da entrevista. Acreditamos que muitos dos problemas abordados nesta conversa, ainda em 2012, apontam para questões semelhantes àquelas que hoje estão colocadas para as novas dinâmicas sociais que emergiram a partir das mobilizações pelo transporte público, protagonizadas pelo Movimento Passe  Livre.

    TORET,X. & GUTIEREZ, B. & PARRA, H.Z.M. & ADAMS, G.. Depoiment. 15M e novas expressões da política. Cadernos de Subjetividade. PUC/SP, 2013.

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    Link para audio completo da entrevista: https://archive.org/details/15Mpolitica

  • Políticas da Partilha e da Distribuição

    capa-livro-conexoes-deleuze-2013

    Link para DOWNLOAD.

    É com alegria que compartilho este artigo – “Políticas da partilha e da distribuição” – que acaba de ser publicado no livro “Conexões: Deleuze e Política e Resistência e…”.

    Neste texto, escrito em 2012, procuro refletir sobre as reconfigurações da prática política no contexto do capitalismo contemporâneo (em sua dimensão comunicacional, informacional) e da sociedade de controle. Tomo as manifestações de 2011 e a experiência de greve de 2012 como disparadores dos pensamentos para tentar elaborar a idéia de uma política da distribuição, referente às condições de produção do comum e de emergência  de novos sujeitos políticos face os mecanismos de captura (políticos e econômicos) da política identitária (da partilha).

    No livro, há trabalhos muito interessantes. Destaco o artigo de Philippe Mengue – “Espaço liso e sociedades de controle – ou a última política deleuziana”.  Ele dá boas pistas para as discussões entre os pós-estruturalistas e marxistas. Em sua, o conjunto do livro (gestado em 2012) tem muitas contribuições para o atual cenário político brasileiro das “Jornadas de Junho” e suas reverberações.

    Neste link, disponibilizo o artigo para DOWNLOAD.

  • Entre Marx, Foucault e Deleuze – discussões em sala

    O texto abaixo foi escrito para a lista de email de uma disciplina (Leituras do Fora) que oferecemos no semestre passado. No curso, parte da bibliografia tinha uma clara influência dos estudos de Foucault. Os debates em sala, frequentemente enveredavam por questões políticas e o referencial marxista era também sempre mobilizado para as discussões. Em uma das aulas surgiu um debate caloroso que ganhou um contorno polarizado entre alunos marxistas versus pós-estruturalistas. Após a aula, seguiu-se o debate em nossa lista eletrônica. Abaixo, reproduzo a msg que enviei a lista com algumas poucas alterações posteriores.

    ***

    Caros Colegas,

    Fico contente com a discussão que está rolando na lista. Ótima oportunidade para aprofundarmos e seguirmos o debate para além da sala de aula. Peço desculpas antecipadas pela longa mensagem. Escrevi-a numa hora relâmpago de idéias, logo após intenso debate noutro contexto que eu estava.

    Fiquei surpreso na última aula quando alguns colegas disseram que estavam sentindo falta do Marx em nossas leituras/discussões.

    Em todo caso, recomendo uma olhada nos ultimos textos indicados (aqueles todos em espanhol). Dentre os autores trabalhados nesses textos, não é difícil constatar que a principal linha argumentativa é de inspiração marxista. Os links compartilhados e a discussão introduzida por A.Corsani por exemplo, já apontam para os esforços recentes empreendidos por militantes e teóricos da esquerda (tanto do marxismo-autonomista italiano como do marxismo europeu-ocidental) de incorporar outras reflexões advindas das lutas sociais e da produção intelectual dos ultimos 30 anos. Mas enfim…talvez tenha passado desapercedido. Mas vamos ao que interessa.

    Esta discussão chega em boa hora. Em diversos círculos onde acontecem debates político e intelectuais sobre o tema, há novos esforços dirigidos a aproximar as constribuições da teoria marxista às análises dos chamados pós-estruturalista. Em suma, como juntar, Marx-Deleuze? Do ponto de vista teórico, essas tensões são muito interessantes porque colocam em cheque as fronteiras do que entendemos como teoria social/ciência e ação política.

    Em se tratando das ciências sociais é muito difícil – talvez possível apenas sob condições muito limitadas – dizer onde começa e termina cada uma dessas coisas (ciência X política). Por isso, mais do que neutralidade da ciência social, a partir de um certo momento nos anos 70 (em especial graças às contribuições da crítica feminista de esquerda) muitos dos chamados “universais” da ciência ocidental, passam a ser compreendidos como nem tão universais assim (parciais). As historiadoras e filósofas da ciência passam a argumentar a favor da “objetividade” e da “parcialidade” do conhecimento, ao invés de sua neutralidade. Ou seja, a ciência deve se preocupar, do ponto de vista metodológico, em produzir um conhecimento “objetivo” mediante o controle dos seus métodos e reconhecendo seu caráter parcial (quem faz ciência parte sempre de algum lugar…). Este debate (objetividade-neutralidade da ciência) continua sendo bem explorado na sociologia e antropologia da ciência, filosofia e história da ciência.

    O debate que vocês lançaram pode abrigar ainda um outro relevo que julgo mais produtivo. Aqui, adentramos o campo da teoria do conhecimento, pois o que está em jogo é justamente as relações entre teoria social e o mundo real. Resumidamente, parte da teoria social moderna baseia-se na idéia da “totalidade” para interpretar e agir sobre o real; outros teóricos (não os chamarei de pós-modernos pois antes mesmo de surgir tão expressão de época já haviam teóricos que não analisavam o mundo com referência a uma totalidade exterior pré-constituída) buscam construir explicações do mundo sem partir ou construir uma totalidade explicativa. Chamemos essas últimas de perspectivas “parciais”, em oposição às perspectivas da “totalidade”.

    Em se tratando da teoria social, um problema que sempre nos aflige enquanto cientistas sociais, sendo esta talvez uma das razões de uma certa insegurança epistemológica, é o fato de que o mundo social não é o mesmo para todas as pessoas. Mas atenção para não confundir tal parcialidade ao relativismo das perspectivas, são coisas bem diferentes. Cada teoria, cultura e instituições constrói um “mundo” diferente em que vivemos. Tal “realidade” não existe sem a mediação do nosso pensamento, da cultura e de nossas práticas sociais. Só para citar um exemplo: para um marxista as relações de produção funcionam de uma forma e produzem valor de determinada maneira, enquanto para um economista marginalista, aquela mesma relação de produção funciona de outra forma e produz valor de outra forma. Um marxista olha para o interior da fábrica e “vê” a mais-valia sendo produzida diante dos seus olhos. Mesmo objeto, realidades distintas. Cada modelo explicativo irá constituir um mundo diferente que explica de maneira diferente como as relações sociais ocorrem e como devem ser enfrentadas. No limite, a diferença implica em configurações políticas distintas do mundo, em valores e princípios distintos, e em formas de resolução também distintas (como alguém aqui na lista já apontou).

    O que quero dizer com isso? Que não podemos deixar de perceber que toda teoria social produz um mundo real. Tomemos a citação precisa indicada pelo estudante M., quando Marx diz “O capital, por exemplo, não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem os preço, etc”…“O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso. Aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, e não como ponto de partida, embora seja o verdadeiro ponto de partida e, portanto, também, o ponto de partida da intuição e reprentação”. Tal trecho é fundamental para compreender os fundamentos epistemológicos de Marx em operação e sua idéia da totalidade: olha para a linha de produção da fábrica e não “vejo” a mais-valia (ela não “existe”, ainda que esteja lá); analiso essas relações de produção, sua história e ao fazer isso sou capaz de introduzir as relações daquela fábrica num todo maior produzido pela análise que elaboro do mundo (representação); olho novamente para a mesma linha de produção e “vejo” a mais-valia sendo produzida aí, diante dos meus olhos. É por isso que o “capital não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro”….são todas mediações do concreto-abstrato que passam a existir e a produzir um outro mundo (mediado) diante do mundo imediato percebido, que se torna um “outro” mundo de conflitos, expropriações, interesses diversos etc… O “concreto” do início da análise não é mesmo “concreto” do ponto de chegada.

    As teorias de Marx são e foram importantes num duplo sentido: teórico e prático. No seu contexto de escrita Marx estava “criando” com todas as letras a “classe” operária. É um exemplo histórico fundamental de como o “real social” é este misto de empírico-subjetivo. Podemos chamar tal fenomeno também de “efeito da teoria”. Neste sentido, e esta é minha leitura parcial de Marx) não há “classes” sem “luta de classes”.

    Por isso, a maneira como “nomeamos” as coisas é tão importante, pois os nomes (categorias do pensamento) tem o poder de contribuir (junto ao empírico) para a criação de outras divisões do mundo. Neste sentido, optar por um tipo de explicação teórica em detrimento de outra, certamente terá consequências sobre a maneira como pensamos a ação política no mundo. Mas enfim…tudo isso vocês já sabem das aulas de epistemologia, métodos e filosofia da ciência etc…Como não tive esses cursos levei um bocado de tempo para compreender isso!

    Acho que a questão fica mais interessante quando nossas teorias começam a ter problema para explicar o que estamos observando, e também dificuldades para ajudar a orientar nossa prática política no mundo. Parece-me que nos ultimos anos, temos tido problemas para nos posicionarmos no mundo. Muitas coisas continuam iguais…outras tantas já mudaram de lugar. Por vezes é difícil saber como nossas ações participam de outros processos e dinâmicas mais amplos. O problema da “escala” da interpretação adquire outra importância. Por isso, vou retomar aqui um outro debate iniciado em sala porque ele nos toca justamente no limite dos nossos entendimentos sobre a teoria e a prática política (era sobre isso que eu queria escrever no início, mas desviei…).

    Pensar as relações de trabalho, exploração, produção de valor e quem são os seus sujeitos (trabalhador, gerentes, proprietários, acionistas) numa fábrica taylorizada é uma coisa. Mas se formos pensar as relações sociais/trabalho no interior da universidade contemporânea, e a maneira como a própria universidade insere-se atualmente de maneira distinta no interior da relação sociedade-economia-educação, a situação é bem diferente. Surgem novas questões cuja explicação não é tão simples. Acho que precisamos pensar quais são as ferramentas teóricas que pretendemos utilizar em função do: problema que vamos abordar; da escala/escopo que pretendemos dar conta e das relações que pretendemos estabelecer entre os níveis micro-macro da análise; dos tipos de resultados que pretendemos alcançar/indicar com a reflexão (isso é parte do aprendizado metodológico da construção de projetos).

    Acho que estamos diante de novas zonas cinzentas, zonas de indistinção que nos colocam diante de novos desafios práticos-teóricos-políticos. As definições que ocorrerão nessas zonas são de ordem política. Com isso quero dizer que a maneira como vamos dar novas respostas, como vamos fazer novas análises dos elementos que estamos observando e vivendo, poderá produzir novos sujeitos sociais e também novos modos de subjetivação. É este o problema enfrentado por aquela discussão que não chegamos a fazer sobre os “Intermitentes do Espetáculo” apresentada pelo texto da A.Corsani. A aliança entre os trabalhadores precários e os pesquisadores-teóricos buscou criar novas explicações para as relações de trabalho e produção de valor que também produzissem “novos” sujeitos (individuais e coletivos) no conflito. Neste sentido (e novamente esta é minha leitura), o valor (valor-trabalho) é sempre a expressão e a localização de um conflito. A questão central é saber localizar, identificar, territorializar onde está o conflito. A depender do local/processo que apontamos como produtor de valor, surge uma outra partilha do mundo, tendo em vista a constituiçao de uma nova totalidade (pelo menos do ponto de vista de uma teoria do conflito e do valor-trabalho marxista). A perspectiva dos pós-estruturalistas (em minha leitura) permitiria acrescentar um camada complementar de entendimento à formulação deste conflito, partindo de um ponto distinto (diversos das dinamicas imediatamente economicas) e sem mobilizar a priori a totalidade (do valor-trabalho) como princípio explicativo. Justamente por isso, as miradas de Foucault e Deleuze permitem que possamos perceber mecanismos outros de poder, estratificação e diferenciação na dinamica social que, quando observados sob a ótica da totalidade marxista, podem indicar novas dinâmicas de produção de valor na contemporaneidade.

    Atualmente, tenho pensado que analisar a relação professor-aluno de uma perspectiva da economia política do conhecimento é um bom exercício para analisarmos as novas formas de trabalho, exploração e produção de valor que se expandiram graças à mediação digital em redes cibernéticas. Por exemplo, quando você está assistindo aula você está trabalhando? Ou ainda, quando você está navegando livremente na internet, vendo seus sites favoritos você está trabalhando? Sim ou não? De que trabalho estamos falando aqui?

     

  • Caxirola: os negócios da Copa, inovação e o neocolonialismo corporativo

    Faço um breve comentário em reação à uma notícia veiculada no Estado de S.Paulo neste domingo (29.04.2013, p.B11): “Brasil quer emplacar a caxirola como herdeira da vuvuzela”. No artigo temos bons indicadores do atual modelo brasileiro de desenvolvimento e inovação.

    Seguindo o exemplo das vuvuzelas de plástico, utilizadas na Copa da África do Sul, o governo quer lançar um instrumento símbolo da sua copa.
    O músico Carlinhos Brown criou as caxirolas, inspiradas no ancestral caxixi. Segundo a reportagem as caxirolas “foram chanceladas pelo Ministério dos Esportes e pela Fifa como instrumento oficial das Copas as Confederações e do Mundo”.

    Este é nosso modelo de inovação! “Chancelada” e “oficial” significa que tanto o governo quanto a Fifa (que atualmente tem superpoderes de governo transnacional) conferem o direito de monopólio de exploração comercial de certos produtos por eles selecionados como símbolos (marca) Copa. Em termos econômicos, funciona de maneira assemelhada a uma patente industrial. Porém, com possibilidades de ganhos ampliados, pois trata de bens imateriais e culturais. No caso da caxirola, somente a empresa mutinacional (conforme a reportagem) The Marketing Store poderá fabricá-la e distribuí-la. A matéria-prima das caxirolas é um tipo de plástico “verde” feito a base de cana-de-açucar será fornecido por uma empresa específica (Brasken).

    Com isso, qualquer outro fabricante e comerciante de produtos assemelhados à caxirolas, diferente daqueles escolhidos para este consórcio, poderão ser eventualmente tipicados como “falsificadores” ou “piratas”. Estamos diante das novas capitanias hereditárias da economia do conhecimento. Não é novidade a maneira como a Fifa, em época de Copas, pressiona os governos nacionais pela aprovação de legislações específicas sobre o regime de propriedade intelectual, bem como leis de exceção que deverão vigorar durante o período dos jogos.

    Por fim, as empresas deverão pagar a Carlinhos Brown um valor ainda não definido referente aos royalties da invenção (sabe-se lá porque razão foi o projeto de Brown o que fora eleito). Vemos aí um exemplo do novo tipo de cercamento que agora vem colonizar e monetarizar o mundo livre da cultura. Os novos empresários e gerentes da cultura capturam e redesenham aquilo que pertencia a todos como um bem comum. Em seguida, mediante sua inserção em circuitos econômicos-jurídicos específicos transforma-o em matéria rara, bem escasso, e como propriedade privada adquirem o direito de monopólio sobre sua exploração comercial. Num instante, todo uma cultura ancestral difusa e integrada à vida social se objetifica como “inovação” que pertence a poucos. Brinquei com um amigo: “tome cuidado ao levar seu caxixi para os jogos da copa! Ele pode ser confiscado por pirataria e seu mestre de capoeira enquadrado como falsificador!”

    Não seria o caso de colocarmos este modelo de pernas para o ar? Se o governo esta interessado em criar um símbolo, bem poderia indicá-lo e deixa-lo livre, como são os símbolos, ao invés de transforma-lo em propriedade privada. Esta seria uma alternativa de redução desta situação absurda, mas ainda dentro de um modelo econômico que se preocupa com o PIB. Diversas fabricantes nacionais poderiam produzi-lo, diversos comerciantes locais poderiam distribuí-lo e aquelas corporações interessadas em fazer o produto circular em “outras esferas” (produtos especializados para consumidores endinheirados) poderiam recolher uma taxa específica cujos recursos poderiam ser destinados ao apoio de milhares de escolas de capoeira e grupos culturais espalhados pelo País.

  • Controle social e prática hacker: tecnopolítica e ciberpolítica em redes digitais

     

    Imagem: IPhone Tracker, fonte: http://petewarden.github.com/iPhoneTracker/

     

    Novo dossie “Ciberpolítica, Ciberdemocracia e Cibercultura“, publicado pela revista Sociedade e Cultura, da Faculdade de Ciências Sociais da UFG.

    Abaixo, o link para um artigo que publiquei na coletânea.

     

     

    ARTIGO: Parra, Henrique Z.M. (2012). Controle social e prática hacker: tecnopolítica e ciberpolítica em redes digitais. Sociedade e Cultura, Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiânia, v. 15, n. 1, p. 109-120, jan./jun. 2012.

    Download PDF: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/download/20677/12328

    Resumo: Ao analisar alguns casos concretos, relativos às possibilidades de controle e acesso à informação em redes digitais, discutiremos como essas situações dão forma à política na cibercultura. Trata-se de pensá-la simultaneamente como o conflito pelas configurações sócio-técnicas das tecnologias digitais (tecnopolítica), e as dinâmicas da política ciberneticamente mediada (ciberpolítica).Ao articular essas duas dimensões analisaremos como a constituição e os modos de apropriação desses dispositivos definirão o que adentra ou não o campo do visível e do enunciável, portanto, o campo da regulação pública e do controle, dando forma a novos territórios de direitos, resistência,conflitos sociais e exploração econômica.

    Palavras-chave: tecnopolítica; ciberpolítica; cibercultura; controle; protocolo.

  • Conhecimento e Tecnologias Visuais

     

    Imagem – Fotomontagem com 2 quadros: esquerda filme do BOPE, à direita jogo Counter-Strike.

     

    Acaba de sair o último número da Revista Intexto do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação (PPGCOM) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Publiquei o artigo abaixo:

     

     

    PARRA, Henrique Z.M. Conhecimento e Tecnologias Visuais: Dimensão Sócio-
    Técnica, Linguagem e Limites do Humano. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n.26, p. 64-80, jul. 2012.

    Resumo

    Analisaremos as dinâmicas sócio-políticas que pré-configuram o contexto de visibilidade e comunicação em mídias digitais, tendo como foco a relação humano-máquina e os limites do Humano. Trata-se de uma abordagem teórica, dividida em três movimentos, onde sintetizamos os argumentos de diferentes autores sobre o tema. Na conclusão apontamos como esses processos estão imbricados com uma tensão que tem os modos de subjetivação e as formas de conhecimento sensível como território atual de disputa política.

  • Xamã: entre o visível e o invisível

    Projeto Xamã

    Aqueles que utilizam a web há alguns anos e que já construiram sites ou projetos na Internet sabem a tristeza que é quando um longo trabalho se perde na rede. A preservação da memória digital e da história na Internet é um grande desafio para pesquisadores, bibliotecários, infotrabalhadores, historiadores etc.

    Durante meu doutorado resolvi construir um site (usando Plone) para fazer um percurso aberto de investigação. Ao criar o “Xamã“, minha idéia era compartilhar dados brutos e sistematizados, pedaços da tese e artigos ainda em redação, para tornar a trajetória de pesquisa mais colaborativa. O resultado foi muito satisfatório, e acredito que foi graças à metodologia adotada que consegui avançar sobre novos temas de estudo com relativa velocidade.

    Para viabilizar tal empreitada utilizei-me na época (2005-2009) de um serviço gratuito de hospedagem oferecido pela FAPESP, denominado Incubadora Virtual – IV (atualmente fora do ar, mas que pode ser visualizado no WaybackMachine).

    Este projeto – IV – era uma iniciativa inovadora que oferecia infraestrutura tecnológica em software livre para diversos projetos de pesquisa. Se não me falha a memória, no ápice do programa a Incubadora chegou a hospedar cerca de 530 projetos. O “Xamã”, nosso projeto, era apenas um deles.

    A Incubadora Virtual fez parte de um conjunto de iniciativas promovidas pelo cientista da computação Imre Simon, professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP e considerado um dos “pais” da informática no Brasil. Porém, aos poucos, a Incubadora Virtual foi perdendo apoio e continuidade no interior da FAPESP. A perda do professor Imre é apenas um dos fatores que pode ter contribuído para o encerramento daquela importante iniciativa em software livre.

    Já no final de 2009 a Incubadora começa a apresentar problemas técnicos. O suporte técnico já não é contínuo e diversos projetos hospedados começam a ficar com o acesso comprometido. Não me lembro ao certo em que momento a Incubadora saiu definitivamente do ar. Infelizmente, não houve uma política de desligamento gradual para que todos pudessem fazer uma transição tranquila para outras plataformas ou mesmo um backup dos conteúdos hospedados. No meu caso, todos os materiais organizados durante os quatro anos do doutorado ficaram perdidos. Felizmente, alguns anos depois, consegui contactar alguns dos responsáveis e eles conseguiram localizar e disponibilizar um backup.

    Isso tudo me faz pensa na importância do registro da memória e de nossa história num contexto em que cada vez mais nossas informações e conhecimentos estão abrigados em ambientes digitais. Quem está coletando e organizando isso? Quem são os grandes “bibliotecários”? Quais as políticas de indexação e disponibilização dessas informações? Quem tem e terá acesso e sobre que condições? Como sabemos, tais questões são fundamentais na definição do passado, do presente e do nosso futuro.

    Finalmente, e felizmente, hoje uma boa parte do site Xamã está de volta ao ciberespaço. Isso só foi possível graças ao colega Rhatto (que restaurou os dados), ao coletivo de tecnoativistas Saravá que apoia os projetos do Pimentalab, e também a esta iniciativa chamada “WayBackMachine“, mantida pela fundação Internet Archive, que tem feito um grande esforço para registrar e dar livre acesso a uma boa parte da internet que já foi “deletada” da história.

     

  • Fluxos de Poder na Internet

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    Na semana passada participei da mesa Fluxos de Poder na Internet, no V Simpósio da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura, realizado em Florianópolis.

    O texto que escrevi como base para minha apresentação está disponível aqui: PDF

    A mesa foi composta pelos pesquisadores Dr. Sérgio Soares Braga – UFPR, Dr. Henrique Zoqui Martins Parra – UNIFESP, Dr. Claudio Luis de Camargo Penteado e Rafael de Paula Aguiar Araujo.

    Para mais informações sobre o evento o site oficinal é: http://simposio2011.abciber.org/index.html

  • Nem eixo nem seixo

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    Foto: Marcha da Liberdade, Av.Paulista – São Paulo, 18 de junho de 2011.

    Nem eixo nem seixo  [1]

    por Henrique Parra e Gavin Adams [2]

    Nas últimas semanas e, com maior intensidade logo depois da Marcha da Liberdade (18/06), cresceu um interessante debate em torno das formas de organização social e ação política presentes nessas recentes manifestações. Essas formas de organização ganharam visibilidade aguda no presente debate, mas têm sido desenvolvidas ao longo de vários anos de experimentação militante e sensível. A discussão segue de maneira animada em alguns artigos publicados na Internet. Começamos escrevendo este texto numa troca de emails, mas ele acabou virando este post. Esperamos que contribua para o debate.

    Parece-nos que as questões colocadas pelo debate indicam que tanto a reflexão teórica quanto a prática política compartilham um limite comum frente às urgências que têm aflorado no real. Como resultado, na ausência de condições (tanto teóricas como políticas) para que as análises dêem conta da complexidade do problema, as ferramentas analíticas parece que se tornam prisioneiras dos projetos políticos dos sujeitos que estão enunciando e problematizando os “fatos”. Estamos diante de uma fronteira em que as soluções interpretativas apontadas para os problemas empíricos observados são indissociáveis dos pressupostos que pré-configuram o campo político, e que atribuem (de maneira mais ou menos positiva) a agência e o protagonismo político a determinados grupos sociais. Nos debates que estão acontecendo em artigos públicos, listas de discussão e boas conversas de botequim, diferentes argumentos são mobilizados. Neste pequeno comentário, vamos distribuí-los em dois campos, bem representados pelos artigos do Passa Palavra e da Ivana Bentes, apenas para tornar o problema mais visível.

    O que primeiro chamou a atenção é que em ambos os casos a análise não pode ser separada de uma vontade/desejo de fazer realizar um certo projeto político, seja a luta de classes em seu porvir revolucionário; seja a multiplicidade sem totalidade de devires de resistência criativa.

    Algo está em movimento. A nítida sensação de que algo está a mudar, parece animar o presente debate. Ao esgotamento de tradicionais formas de organização e ação políticas parecem corresponder novas formas de ser e sentir, de trabalhar e morar que não encontram expressão nessas formas tradicionais. Mas, por outro lado, estas transformações parecem se concretizar em configurações específicas de trabalho, de subjetivação, de consumo, de existir e de sentir. A interpretação potencializadora desses fluxos geraria vantagem organizativa que permitiria o crescimento estratégico como que à sombra da velha hegemonia, que carece do instrumental de mesmo apreender o que está em movimento – potencialmente, sua própria destruição, ou pelo menos sua transformação libertária profunda (ou ainda a instrumentalização e aprisionamento das potencialidades para fins de manutenção do capitalismo).

    O artigo do Passa Palavra apresenta amplas contribuições para a problematização da atual conjuntura política. Aqui, concentramo-nos em apenas alguns aspectos. Neste artigo, critica-se este conjunto recente de manifestações públicas pois ele não apresenta os componentes esperados de uma ação política potencialmente emancipatória (o que vem a ser essa emancipação já é um problema para a discussão). Denunciam ainda a emergência de mecanismos de exploração econômica e relações de dominação no interior das redes aparentemente horizontais e democráticas (coordenadores, administradores ou produtores como expressão da emergência de uma nova classe gerencial?); e apontam possíveis processos de captura da energia política dessas mobilizações por novos grupos sociais (aparelhamento?). O argumento procede assim: parte-se de uma análise econômica das transformações recentes do capitalismo e se identifica a elas um setor ligado à comunicação. Este setor é composto de gerentes que, compreendendo os novos mecanismos da rede, se interpõem como intermediários entre os trabalho coletivo e sua comercialização. O artigo amplia esta análise para manifestações como a Marcha da Liberdade, julgando-as expressões dessa nova casta de gerentes comunicacionais que agenciam corpos alheios em redes produtivas. No sistema analítico mobilizado pelo Passa Palavra, a forma e a dinâmica do conflito e de seus sujeitos já está dada a priori. A análise não abre mão da economia como gerador de protagonismos socias, e já se sabe qual é a luta relevante a esse tipo de análise e onde se deseja chegar, faltando apenas encontrar ou produzir tais sujeitos (classes populares? novo operariado?) para que a luta aconteça na direção esperada. O texto sugere equivocadamente que o ativismo atual em geral seja a exata expressão do novo capitalismo (open business etc.), ignorando extensa e diversa experiência militante anticapitalista envolvida em formas mais complexas de interação com a produção capitalista [3].

    O artigo da Ivana Bentes, por sua vez, critica alguns pressupostos teóricos do artigo do Passa Palavra ao propor que sejam prisioneiros de uma “imagem do pensamento” (para ficarmos no vocabulário deleuziano) que condiciona suas análises, impossibilitando-os de enxergar o novo, suas aberturas e potencialidades. É possível se sentir contemplado pelos diagnósticos agudos proporcionados pelo partido teórico que informa a crítica realizada por Ivana. Porém, temos a impressão que as posições manifestas em seu artigo (são posições teóricas partilhadas por muitos interlocutores) acabam caindo, no âmbito deste debate local, numa armadilha semelhante à que eles querem denunciar.

    Deste ponto de vista, o grupo que está no centro das discussões (Fora do Eixo – FdE) seria um bom exemplo das novas formas de luta e de organização social no atual contexto do modo de produção capitalista (capitalismo cognitivo, capitalismo imaterial etc). Em suma, tanto este grupo como outras iniciativas envolvidos nessas várias manifestações no Brasil poderiam ser tomados como expressão da emergência de novos sujeitos políticos (precariado, cognitariado?). Certamente, o problema não é caso tomado como exemplo (FdE), mas deve remeter a um contexto sócio-histórico mais amplo.

    Tem sido frequente na grande imprensa e na Internet a tentativa de se estabelecer aproximações “identitárias” entre essas movimentações do Brasil com outras da Espanha, Tunisia e Egito, dentro do impulso de nomear o novo e o inominável, domando e controlando pelo discurso, reduzindo estas formas a formatos esperados e de antemão presos à análise política jornalística. Há, todavia, diferenças evidentes entre o contexto social, econômico e politico do Brasil com esses países e, também, no perfil do público jovem que protesta aqui e nesses países. Ao tentar interpretar esses movimentos recentes a partir dessas categorias, e ainda, ao conectá-los culturalmente (e ideologicamente) aos levantes árabes e protestos europeus, não estaríamos diante de uma análise que produz um real à semelhança de um projeto político que se deseja ver realizado? Assim, ao invés de buscar uma forma em vias de se realizar, talvez, o mais interessante, seja buscar as “zonas de vizinhança” entre esses acontecimentos.

    Portanto, em que medida tal análise que se pretende “imanente” (pela evidente vinculação teórica, que alias apreciamos parcialmente) não acaba por restabelecer um télos que pretendia negar? Neste caso, ao contrário das posições traduzidas no artigo do Passa Palavra, no artigo da Ivana Bentes o argumento procede da seguinte forma: sabe-se quem são os sujeitos políticos, sabe-se quais são suas formas de ação (a resistência pela multiplicidade, a luta das minoridades (que não se confunde com as minorias…) sendo necessário produzir e dar forma à sua luta política (não representativa, não unitária, não totalitária).

    Há ainda um outro ponto em comum a partir do qual as diversas posições sobre o problema estão gravitando: a categoria trabalho. De um lado (Passa Palavra), o diagnóstico aponta que o trabalho e sua racionalidade de tipo capitalista dominou todas as esferas da vida, material e subjetiva, e isso efetiva a opressão e a super-exploração. De outro, o trabalho nas sociedades contemporâneas, mediante a ganho de centralidade do capitalismo imaterial, tornou-se cada vez mais “comunicacional”, diluindo as antigas dicotomias que definiam as fronteiras entre: trabalho e de não-trabalho; autonomia e heteronomia; emancipação e exploração, entre outras. Mas, ao mesmo tempo, sob esta perspectiva (do capitalismo cognitivo) seria possível enunciar outras possibilidades de luta e criação politica (as lutas pelo comum).

    Interessamo-nos por ambas as posições e estamos animados com a possibilidade que temos de colocá-las em confronto a partir de um problema empírico que se apresenta diante de nós. Duvidamos, entretanto, que os problemas enunciados neste debate tenham respostas fáceis ou prontas. O momento parece exigir, simultaneamente, a prudência e a ousadia de ouvir com atenção e desconfiança o canto das multidões e das sereias. Talvez, o mais produtivo seja realizar um esforço para caracterizar e descrever quais são os problemas que estão colocados na mesa por ambas e outras perspectivas. Inevitavelmente, tal percurso irá interrogar tanto nossos pressupostos como as visões de futuro que inspiram o pensamento. Tal tarefa é necessariamente coletiva, e já está sendo realizado em diversos lugares por muitas pessoas. Assim, limitamo-nos a lançar alguns pontos que podem ajudar a dar visibilidade à encruzilhada, à fronteira do indistinto. É neste ponto que estamos, onde teoria e prática política estão se reinventando. Diriamos que a Política é exatamente este conflito pela definição das fronteiras do indistinto.

    Que outros pontos poderiam entrar nesta lista? É preciso discuti-los:

    • Política e Trabalho: este binômio aparece sob diferentes formas (e.g. liberdade x necessidade). Fazer política no reino do trabalho? Ou a política só é possível fora da esfera das necessidades? Trabalho como meio ou fim para a livre criação? Talvez os artistas respondem essa pergunta de maneira diferente dos metalúrgicos, mas a coisa fica mais complicada quando aparentemente algumas qualidades do trabalho criativo passam a ser solicitadas em outras esferas. Tal problema aparece também nas tensões entre o livre ativismo e as necessidades de sustentabilidade financeira dos movimentos: relação financeira X política efetiva. Trabalhamos o ano inteiro e vamos fazer revolução nas férias? Ou tentamos trabalhar fazendo as micro-resistências cotidianas? Ou reduzimos o trabalho para ter tempo livre pra fazer política? Enfim, qual o lugar da política? Essa questão está sendo respondida de diferentes formas.

    • Capitalismo Imaterial (pós-fordismo) e Capitalismo Material: é relativamente fácil de constatar que muitas coisas mudaram na economia e nas relações de trabalho nos últimos 30 anos. O difícil é confirmar o que mudou e o que persiste, reexiste. Quais as continuidades e transformações? Elas se dão da mesma forma nos diferentes países? Pode-se afirmar que houve um certo deslocamento e crescente importância do chamado trabalho imaterial para a produção de valor monetário. As guerras sobre a propriedade intelectual refletem isso em certa medida. Ao mesmo tempo, é curioso observar, por exemplo, a atual disputa geopolítica por terras cultiváveis, pela água e pelos minérios raros. Como diz um amigo, “é preciso fazer as contas” e refletir se e onde se dá a exploração, e julgar se abandonar essas ferramentas como obsoletas não interessa apenas àqueles que desejam rearticular essas relações de exploração dentro de um ambiente de rede. Diríamos que, além de fazer as contas, teremos que enfrentar um inescapável problema teórico e político pela definição do que entra ou não na contabilidade.

    • Esgotamento do modelo de representação política (partidos políticos, sindicatos etc): em que pese a crescente descrença nos partidos políticos (ha sempre uma pesquisa disponível pra mostrar como os jovens não se vêem representados nos partidos) estão surgindo novos partidos no Brasil. Curiosamente, alguns grupos que criticam esta forma de representação estão criando iniciativas que apontam para um possível devir-partido (Partido da Cultura, Partido Pirata…). Os sindicatos, ainda que inseridos em dinâmicas de burocratização e relativamente atrelados aos governos, são atores relevantes e também sob disputas internas. No momento, o emprego formal cresce no Brasil. Veremos novas estruturas de representação emergir? Como combinar a luta por direitos (que implicam em mecanismos de institucionalização) com a luta pela crescente expressão das diferenças e minorias (não-numéricas, mas aquilo que não é hegemônico)? Uma lei sempre define um dentro e um fora? Velhas questões que continuam atuais e respondidas de formas diversas…

    • Trabalho e não trabalho; trabalho colaborativo e novas hierarquias: onde está a fronteira? Por exemplo, quando a livre formação contínua (acesso à cultura) é indistinta da formação para o trabalho como ficam os problemas relativos à reprodução do trabalho? E como fica a distribuição do trabalho e a apropriação dos valores gerados a partir do trabalho colaborativo? Onde começa e termina a colaboração e a exploração? Será que faz sentido falar em exploração nesses contextos? (claro que não estamos falando das condições neo-fordistas dos info-proletários).

    • Projeto(s) político(s): não se trata de ter um projeto politico (felizmente não há um), mas isso não significa que não exista projeto algum! Afinal, quais são os projetos e horizontes políticos que estão silenciosamente guiando nossas reflexões e práticas? Nesta atual encruzilhada teórica e política seria falso dizer que nossas análises não estão sendo informadas por tais projeções. Há, em boa parte dos grupos ativistas envolvidos nessas mobilizações, um discurso atualizado da luta e dos modos de organização não-institucional. Não se trata de restabelecer processos pré-determinados ou totalidades preestabelecidas, mas isso não significa pensar a prática política apenas em seus momentos instituintes, reduzida só ao acontecimento efêmero. Diversas linhas de ação, do final dos anos 60 e mesmo os movimentos anticapitalistas do ciclo Seatle, formaram-se num horizonte de práticas criativas, não-institucionais e sem grandes metanarrativas ou projetos finais que orientassem suas ações. Entretanto, passado os momentos disruptivos quais eram as iniciativas que emergiam e ofereciam condições de respostas organizativas à sociedade? Há boas lições dessas iniciativas. Como articular as novas formas de luta, a potencia criativa, os momentos instituintes com as dinâmicas que exigem maior duração e organização no tempo-espaço?

    Novamente, são esses e outros (quais outros?) problemas/dilemas que estão na mesa, gerando diferentes respostas e influenciando as possíveis formas de organização social e luta política. Descrever, cartografar, analisar, problematizar essas situações e fazê-lo de forma compartilhada é uma tarefa relevante se quisermos ultrapassar as pequenas divisões e os conflitos que hoje enfraquecem esses movimentos.

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    [1]  O texto dialoga, em especial, com dois textos. Recomenda-se a leitura de ambos:

    A esquerda fora do eixo – foi publicado como editorial no Passa Palavra [www.passapalavra.info].

    A Esquerda nos Eixos e novo ativismo – de Ivana Bentes, publicado no Trezentos [www.trezentos.blog.br].

    [2] Henrique Parra: polart [arroba] riseup.net ; Gavin Adams: gavartist [arroba] yahoo.com

    [3] Pablo Ortellado publicou um ótimo texto onde é feita esta análise de maneira detalhada: Capitalismo e Cultura Livre: http://www.gpopai.org/ortellado/2011/06/capitalismo-e-cultura-livre/