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  • Foto-Audio: Grigri Pixel Seminar: The invisible, the common, the magic

    Foto-Audio: Grigri Pixel Seminar: The invisible, the common, the magic

    07.10.2017 17:00h – 20:30h

    Place: Intermediae-Matadero, Madrid. Paseo de la Chopera 14, Madrid

    This seminar, organised by Intermediae-Matadero and Medialab pRado in the context of Grigri Pixel program, invites us to explore invites us to explore which are the common challenges and contemporary urban problems in African and European cities in alliance with six contemporary thinkers and creators: Marina Garcés, Simon Njami, Paz Núñez y Toni Serra.

    Seleção de Fotos: http://henriqueparra.net/photo/index.php/nggallery/madrid-imargens/grigri-pixel?p=1535

    Audio: https://archive.org/details/grigri-seminar

     

  • Soberania e interdependência: polarização política e o comum

    Soberania e interdependência: polarização política e o comum

     

    Há dois meses vivendo em Madrid, tenho procurado conversar com muitas pessoas, acompanhando movimentos e lendo o que posso para buscar diferentes perspectivas sobre a atual crise política. Com a crescente polarização, a cada dia fica mais difícil escrever algo que não seja tomado como mais uma opinião a inundir os feeds efêmeros. Com todos que conversei pude sentir muita dor, tristeza e indignação. E todas essas dores são legítimas; solidarizo-me com “nosotros”.

    ***

    Com todas as diferenças, há algo partilhado entre a crise política vivida na Espanha, em torno do referendo sobre a independência da Catalunia e o atual processo político brasileiro. Arriscaria dizer que este problema está presente em muitos regimes democráticos.

    Refiro-me ao fato de que estamos enredados em diversos mecanismos que intensificam as dinâmicas de polarização, que sequestram o mundo comum e bloqueiam a própria Política. Diante da concentração de poder nas mãos da classe política, dos meios corporativos de comunicação e de uma elite econômica (finanças e industrial), nossas instituições já não capazes de criar canais de mediação das vontades, demandas e conflitos à altura dos problemas que enfrentamos. O sistema está fazendo água por todos os lados em todos os lugares.

    Também constatamos que os próprios mecanismos de produção de maioria produzem “minorias” de igual dimensão. Em seus extremos, cada pólo é fabricado através de diversos artifícios de simplificação e redução de sua diversidade. A todo momento uma imagem ou discurso parcial desloca-se e se transforma numa representação do todo, silenciando a multiplicidade. Ninguém se sente exatamente representado e, ainda assim, todos participam da retro-alimentação dessas imagens homogêneas.

    Neste processo, a possibilidade de construção de novos sentidos comuns são destruídos em nome do cálculo para obtenção de regimes de maioria. É sempre um jogo de tudo ou nada, intensificação dos conflitos, esgarçamento do tecido social, ruptura de relações interpessoais, produção de estereótipos, moralização das condutas e discursos. No final, todos são empurrados a tomar partido diante da ameaça do “mal” que o outro representa, ainda que não se sintam plenamente representados por cada um dos polos.

    No Brasil este processo é bem conhecido desde que se iniciou o golpe parlamentar-jurídico-midiático. A destruição de outros devires políticos pela esquerda e pela direita é continuamente operada pela exigência de se partidarizar a favor ou contra qualquer coisa. Qualquer argumento que escape ao jogo amigo-inimigo será atacado. As disputas sobre Junho de 2013 ainda são um bom exemplo deste fenômeno.

    O processo em torno do referendo da Catalunia é desafiador porque é também revelador dos limites das formas atuais de nossas instituições políticas. O mais dramático, a meu ver, foi a maneira como um conflito muito complexo foi gradualmente reduzido a um jogo binário, em parte conduzido pela disputa política-partidária que forçou uma polarização na população e, com apoio dos meios de comunicação, sequestrou o campo político.

    Nos últimos dias vem surgindo tentativas de romper esta dicotomização, como a campanha #Hablemos #Parlem (veja artigo Bernardo Gutierrez) e outras mobilizações de base que se formaram no processo de organização comunitária para viabilizar a realização do referendo na Catalunia, criando uma certa hipótese de transbordamento (veja artigo de Emmanuel Rodriguez).

    O paradoxo democrático que aí se instalou é também exemplar: o referendo, conforme as regras constitucionais é ilegal; ao mesmo tempo, a mobilização popular manifesta no processo é legítima, tornando a realização do referendo uma reivindicação democrática (veja artigo do Boaventura Souza Santos). Mas quando o jogo se transforma num campo de força real, como na repressão policial do estado Espanhol à realização do referendo, aprende-se rapidamente que o Estado (democrático ou não) é isso aí, força bruta e, no limite, estado de exceção (veja Imagens).

    Porém, o problema não se resolve com o referendo. O que fazer com a outra metade da população da Catalunia que é contra a separação? Ou ainda com todo o restante da população fora da Catalunia que não deseja a separação? Velhos problemas sobre a relação território, nação, unidade, identidade entram em cena. E neste tipo de situação as máquinas identitária e securitária (o desejo de unidade e segurança) produzem os piores monstros em todos os lados. Além do esgarçamento do tecido social, é muito mais fácil produzir um intolerante do que alguém que seja tolerante e sensível ao outro.

    Assim, nos damos conta que mais importante e desafiador que o dia em que nos tornamos independentes, é o dia seguinte e todos os outros que virão na sequência. Da maneira como a produção e reprodução da vida está hoje organizada em nosso planeta, o problema desloca-se da independência para os modos de interdependência que construímos.

    Pensemos, por exemplo, no que fora concebido como a vontade do indivíduo soberano num sistema político democrático. Nos dias de hoje, quais são as alternativas disponíveis quando a manutenção da vida cotidiana está delegada a arranjos estatais-corporativos (das finanças às redes elétricas) complexos? 

    Alternativamente, como podemos partir do comum e ordinário, daquilo que diz respeito a todos, daquilo que nos implica mutuamente? A produção e manutenção da vida em comum (compartilhada e implicada) nos obriga a pensar nos vínculos que tecem o cotidiano. Como irei conviver com este outro? Deslocamo-nos, portanto, do campo discursivo mais ideológico para construir práticas de outros modos de vida. Como desmontar as máquinas opressoras de produção de maiorias, os sistemas de vanguarda e de condução das populações? Como partir de um plano imanente à vida e aí mesmo no mais ordinário ir constituindo e ampliando as infraestruturas e instituições de suporte a outros modos de vida, mais solidários e emancipadores?

    Eu arriscaria dizer que a imagem da soberania de territórios-independentes-autosuficientes se esgotou. Mas ela ainda seguirá operando por muito tempo. A construção de uma Política do Comum exige outras instituições para as quais já temos muitas experiências inspiradoras na história, onde se praticaram outros marcos jurídicos, códigos e instituições de regulação da vida em comum. Há muito o que se investigar e experimentar.

    O que está em jogo em nosso planeta são as condições de produção e reprodução da vida em comum, em direção à modos de vida mais emancipatórios e solidários num mundo de relações interdependentes. Falar de uma política do comum me faz pensar numa política do/pelo meio. Meio como ambiente e também como “entremundos”. Ir aos poucos modificando o próprio meio em que estamos imersos de maneira a torná-lo mais favorável às relações que estamos constituindo. Evidentemente, isso não significa negligenciar a importância das atuais instituições e as disputas sobre seu governo. Trata-se, talvez, de uma outra noção de estratégia, uma outra forma de reticulação e propagação de novas estruturações em níveis subsequentes, numa relação imanente ao mundo existente (incluso estado, mercado etc).

    A impressão que tenho é que este impasse político está utilizado como um verdadeiro teste para as recentes experimentações municipalistas da Espanha. A depender da maneira como o conflito evoluir, e de qual será o papel dos governos municipalistas no seu interior, é possível que algo de inesperado surja como alternativa à atual polarização e fortalecimento dos nacionalismos identitários. Ou então, o que surgiu como novas experimentações institucionais pós-15M corre o risco de ser   tragado para dentro desta armadilha, perdendo seu atual protagonismo político. Fico pensando o que significa levar a sério a proposta #RefugeeWelcome do ponto de vista de uma política do comum?

     

    PS 1: Atualização: Ontem a noite (10/10) o governador da Catalunia, conforme previsto no referendo, declarou o resultado da votação ratificando a independência da Catalunia, para em seguida propor a suspensão dos seus efeitos visando o estabelecimento de um diálogo com o governo Espanhol. As vezes a política está no detalhe e no simbólico, é puro dissenso: declarou ou não a independência? Hoje o governo Espanhol solicita esclarecimentos e ativa o dispositivo jurídico (art.155) para preparar uma intervenção na Catalunia. Poderíamos dizer que o governo Catalão fez um movimento de recuo e destencionamento, mas alguns interpretaram essa ação como reiteração de polarização com o Governo espanhol, que responde reafirmando sua posição inicial. Em suma, a tensão segue inalterada.

    PS 2: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

  • Pesquisas científicas realizadas com a participação de leigos ganham espaço

    Pesquisas científicas realizadas com a participação de leigos ganham espaço

    Fonte: Reportagem da Revista FAPESP:

    por BRUNO DE PIERRO | ED. 259 | SETEMBRO 2017

    Momentos antes de o eclipse total do Sol atravessar os Estados Unidos de costa a costa no dia 21 de agosto, a agência espacial norte-americana (Nasa) convidou o público para colaborar em um experimento bastante simples. Munidos de termômetros e smartphones, milhares de voluntários espalhados pelo país foram instruídos a baixar um aplicativo e registrar nele eventuais mudanças de temperatura no ambiente durante o eclipse. Os participantes também deveriam reportar se a velocidade e a direção das nuvens sofreram alterações abruptas. As informações coletadas pelos celulares abasteceram uma base de dados e serão utilizadas em estudos ambientais. “A população pode nos ajudar a entender quais são os efeitos de um evento raro, como o eclipse solar, na atmosfera”, disse à rede de televisão Fox News Elizabeth MacDonald, pesquisadora da agência.

    A iniciativa é inspirada em um modelo conhecido como ciência cidadã, que estimula a produção do conhecimento por meio da colaboração entre pesquisadores e público leigo. A participação de amadores na atividade científica não é novidade – a figura do cientista profissional só surgiu no século XIX. Nas últimas décadas, com o uso de tecnologias digitais, tornou-se recorrente pesquisadores convidarem o público para cooperar, por exemplo, na coleta de dados meteorológicos ou no mapeamento de espécies. “Mídias sociais, bases de dados eletrônicas e dispositivos como tablets e smartphones oferecem novas possibilidades de compartilhar ideias e informações entre cientistas e cidadãos”, avalia o biólogo Robert Stevenson, professor da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, um estudioso da ciência cidadã.

    Nos últimos anos, organizações como os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) e a National Science Foundation (NSF), nos Estados Unidos, passaram a apoiar projetos que incluem ciência cidadã e estudos que buscam as melhores práticas para assegurar a integridade científica em pesquisas feitas em colaboração com o público. No ano passado, a Comissão Europeia se comprometeu a financiar, por meio do programa Horizonte 2020, projetos que envolvem ciência cidadã. A iniciativa é uma parceria com o Doing it Together Science, um consórcio formado por instituições científicas e organizações não governamentais sob coordenação do University College London, no Reino Unido. No Brasil, o Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira (SiBBr), um projeto do governo federal, anunciou em fevereiro que irá apoiar a formação de uma Rede Brasileira de Ciência Cidadã em Biodiversidade, em que cidadãos ajudarão no monitoramento de espécies.

    Algumas experiências bem-sucedidas que ganharam proporções globais nos últimos anos inspiram os novos projetos. Uma delas é o eBird, iniciativa lançada em 2002 pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos, que reúne dados de aves fornecidos por observadores amadores e ornitólogos. A plataforma tem mais de 300 mil usuários de 252 países e cerca de 300 milhões de registros de aproximadamente 10.300 espécies de aves. Uma versão brasileira do eBird está em funcionamento desde 2015 (ver Pesquisa FAPESP nº 245). “Em 16 anos de existência, o eBird tornou-se uma referência em estudos de aves e gera conhecimento capaz de auxiliar na elaboração de estratégias para a conservação da biodiversidade”, afirma Stevenson.

    Outra iniciativa é o Galaxy Zoo, criado por pesquisadores vinculados a várias instituições norte-americanas que convocam astrônomos amadores para ajudar a classificar imagens de galáxias geradas por telescópios. Desde seu lançamento em 2007, a comunidade do Galaxy Zoo identificou um conjunto de galáxias e muitas dessas descobertas foram relatadas em artigos científicos. A astronomia talvez seja o campo do conhecimento em que a participação do público ocorra há mais tempo. “Após a publicação dos trabalhos do italiano Galileu Galilei, começaram a aparecer sociedades civis de observação do céu”, comenta Augusto Damineli, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). Atualmente, com a ampliação do acesso a telescópios de pequeno porte e da circulação de imagens de satélites em sites especializados, a astronomia amadora participa da identificação de estrelas, asteroides e planetas. No início do ano, o mecânico e astrônomo amador australiano Andrew Grey descobriu um sistema formado por quatro exoplanetas, após avaliar mais de mil imagens de estrelas registradas pelo telescópio Kepler, da Nasa, disponibilizadas na internet pela plataforma Exoplanet Explorers. O feito foi validado por astrônomos profissionais e rendeu a publicação de um paper, com Grey como coautor.

    “Eu mesmo já publiquei em coautoria com não acadêmicos”, sublinha Damineli. Em 2014, ele coordenou uma pesquisa sobre o apagão da Eta Carinae, sistema composto por duas estrelas, registrado naquele ano. “Era necessário observar ao longo de 10 meses seguidos, todas as noites, utilizando espectroscopia”, conta. “Divulgamos uma chamada internacional pedindo a colaboração de amadores e obtivemos ajuda de quatro voluntários na Nova Zelândia e na Austrália.” Os dados de observação foram determinantes na descrição de um novo fenômeno, a formação de um buraco na superfície da estrela (ver Pesquisa FAPESP nº 244).

    Uma das principais contribuições da colaboração do público em pesquisas é a produção de informações que talvez não pudessem ser geradas de outra maneira – em parte porque as iniciativas têm potencial para mobilizar um grande número de voluntários na coleta de dados em áreas extensas e durante longos períodos. Mas o modelo ainda encontra resistências. “Muitos pesquisadores têm receio de trabalhar com pessoas sem formação científica”, afirma Stevenson. Um dos motivos, ele explica, é a desconfiança em relação à qualidade dos dados produzidos. “Os projetos de ciência cidadã devem adotar procedimentos rigorosos para assegurar a validade dos dados.” Para a pesquisadora Andrea Wiggins, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, projetos bem-sucedidos como o eBird dependem de um conjunto de metodologias capazes de aumentar a precisão dos dados. “Trata-se de oferecer aos voluntários treinamento técnico para executar as tarefas propostas pelos cientistas. Além disso, os dados coletados pelos cidadãos devem passar pelo crivo de especialistas”, escreveu Wiggins em artigo publicado em 2016.

    Na Universidade Federal do ABC (UFABC), um grupo de pesquisadores propõe, aplica e avalia protocolos que orientam o trabalho de voluntários em projetos de ciência cidadã. “Elaboramos um passo a passo que mostra ao participante, em linguagem clara e objetiva, os objetivos da pesquisa e recomendações que devem ser seguidas durante o trabalho”, explica a bióloga Natália Pirani Ghilardi-Lopes, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Ciência Cidadã da UFABC. A finalidade, diz ela, é estabelecer padrões para que a obtenção e a análise de dados sejam feitas com o máximo de precisão possível. Essa metodologia vem sendo testada em alguns estudos do grupo. Um deles é o mestrado da bióloga Larissa de Araújo Kawabe, que envolve dados obtidos na Estação Ecológica Tupinambás, no litoral norte de São Paulo. O projeto conta com a participação de funcionários da estação que são mergulhadores e que, munidos de câmeras subaquáticas, ajudam a coletar imagens dos costões rochosos na ilha das Palmas. O objetivo é monitorar organismos marinhos, como algas e esponjas.

    Posteriormente, para a análise das fotos, os participantes passam por um treinamento de quatro horas – uma das diretrizes do protocolo. “Explicamos a eles como as fotografias foram obtidas e como devem ser analisadas posteriormente”, conta Larissa. Ela enfatiza que os voluntários participam não só da obtenção das fotos, mas também da identificação de organismos. Estudos como esse, por exemplo, podem servir para detectar precocemente a presença de espécies exóticas, como o coral-sol, fotografado na estação ecológica. Trata-se de uma espécie que está se espalhando pela costa brasileira, competindo com espécies nativas.

    Boa parte dos projetos envolve o público exclusivamente na coleta de dados, mas alguns pesquisadores veem outras formas de participação dos amadores. De acordo com a cientista social Sarita Albagli, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), é possível identificar duas grandes abordagens de ciência cidadã. A primeira utiliza voluntários para aumentar a velocidade e a quantidade da coleta de dados. “A segunda promove o envolvimento dos cidadãos também na discussão sobre as próprias questões e objetivos da pesquisa, com base nos conhecimentos obtidos a partir de suas experiências”, afirma Sarita, que coordenou um projeto em Ubatuba que buscou incorporar essa concepção de participação cidadã na pesquisa. Para Stevenson, da Universidade de Massachusetts, envolver o público em todas as etapas da pesquisa nem sempre é factível. “Há temas que não despertam tanto interesse do público e outros que exigem das pessoas muito tempo de treinamento e dedicação”, diz ele.

    Algumas experiências internacionais têm incentivado interações mais profundas. Uma delas é o MediaLab-Prado, espaço cultural criado há 10 anos pela prefeitura de Madri, na Espanha, conhecido pela difusão de um modelo de laboratório cidadão. Pesquisadores, ativistas e cidadãos reúnem-se para investigar possíveis soluções de problemas, em diferentes linhas de pesquisa, como urbanismo, participação social e tecnologias sociais. “Essa iniciativa passou a promover, por meio de editais públicos, experiências de investigação colaborativa e inovação social que receberam o nome de laboratórios cidadãos”, explica Henrique Parra, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), atualmente em um estágio de pós-doutorado no Conselho Superior de Investigação Científica da Espanha.

    Qualquer pessoa que tenha uma proposta de pesquisa pode concorrer aos editais do MediaLab-Prado. Se o projeto for aprovado, o participante passa a fazer parte de uma rede de colaboradores acadêmicos e não acadêmicos, que poderão ajudar no desenvolvimento do trabalho. Antonio Lafuente, pesquisador do Centro de Ciências Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha e um dos diretores do MediaLab-Prado, explica que a ideia é criar ambientes onde problemas possam ser identificados, documentados e contrastados com diferentes pontos de vista. “Uma enorme quantidade de conhecimento emerge fora das universidades e instituições de pesquisa. Não se trata mais de separar o mundo entre os que sabem e os que não sabem, mas de unir experiências”, propõe Lafuente.

    Ainda que pontuais, outras iniciativas semelhantes ao MediaLab-Prado buscam propor formas mais amplas de colaboração na ciência. O Public Lab, por exemplo, nasceu após o vazamento de petróleo no golfo do México em 2010. Diante da falta de informações oficiais sobre o desastre, moradores da costa sul dos Estados Unidos, em parceria com pesquisadores e engenheiros, construíram pequenos sistemas de monitoramento utilizando balões e câmeras digitais para coletar imagens em tempo real. Foram produzidas mais de 100 mil imagens aéreas de alta resolução. O episódio levou à criação de uma comunidade aberta, o Public Lab, hoje mantido por doações de instituições como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a NSF.

  • Pequenas infraestruturas da vida em comum

    Pequenas infraestruturas da vida em comum

    Faz quase dois meses que chegamos em Madrid. Até agora, a parte mais sensível da viagem tem sido o processo de adaptação da Mai, nossa filhota de 3 anos. Faz duas semanas que as aulas começaram. A primeira semana foi bem difícil para ela na escola (e para nós também). No final da segunda semana começamos a ter esperança de que ela vai superar os desafios iniciais (idioma desconhecido, novas crianças e professoras, espaço e dinâmica escolar totalmente diferentes). Veremos! Também percebemos que ela tem sentindo muita falta de suas amigas e amigos do Brasil, manifestando sempre o desejo de encontrar outras crianças, uma demanda real de estabelecer vínculos mais afetivos.

    Até o momento, tenho a impressão que a experiência da escola não é suficiente para criar vínculos extra-escolares entre as famílias e as crianças, mas isso ainda pode mudar com o tempo. Os encontros com outros crianças nas praças e parques, também não apresentam uma regularidade e intensidade suficiente para produzir confiança e superar a distância habitual entre famílias desconhecidas numa grande metrópole de uma cidade europeia (ainda que minha experiência com Madrid esteja sendo muito acolhedora). Claro, se morássemos aqui por mais tempo as coisas seriam diferentes.

    Além de buscar outras pessoas com crianças – felizmente há sempre famílias que vão surgindo – comecei a frequentar um espaço para crianças num edifício ocupado por coletivos ativistas no centro da cidade (veja Centro Social Ingobernable).

    Ali está se formando um coletivo de pais para organizar atividades e adequar um espaço legal para as crianças dentro da ocupação. Neste sábado houve uma festinha com banda e teatro infantil, havia uma mutidão de pequenos ingovernáveis.

    Construir essas redes de vizinhança e apoio mútuo, socialização e cuidados compartilhados é um super desafio em nossas cidades. Na medida em que as redes de apoio comunitário, familiares e relações proximais de vizinhança foram destruídas pelo nosso modo de vida contemporâneo, sentimos com uma força cada vez maior quantos laços e vínculos são necessários para produzir o mundo comum que dá suporte a nossa vida.

    Este espaço infantil na Ingobernable, além de oferecer um local para a socialização de crianças e pais num horário extra-escolar, contribui para o estabelecimento de vínculos e redes de apoio mútuo, e permitirá que muitos pais participem das atividades que acontecem neste centro social (reuniões políticos, oficinas, assembléias, etc). São essas pequenas e fundamentais infraestruturas que tornam a vida comum possível.

    Se desejamos ampliar as condições de participação em nossas atividades políticas, educativas, culturais e contribuir para combater as estruturas de reprodução da desigualdade de gênero, é muito importante nos atentarmos para a criação dessas infraestruturas.

    Mas retorno à história da Mai. Quando a  colocamos para dormir sempre lemos umas historinhas para ela. Enquanto leio e converso com ela, podemos ouvir de um quarto ao lado uma mãe ou pai lendo outras histórias para seu filho. Ainda não os conhecemos. Pergunto pra Mai o que ela acha de escrevermos um cartinha para eles, perguntando se querem brincar conosco. Ela ficar super animada e disse que queria também se vestir de carteira.

    Escrevemos um bilhete e resolvemos deixá-lo na escada do hall de entrada do prédio, por onde passam todos os moradores. Vamos ver no que vai dar. Mas essa ideia da cartinha não veio assim do nada. Foi uma decisão que tive depois de conhecer o projeto Escalera (tema do próximo post).

  • Tessituras de uma cultura tecnopolítica

    Tessituras de uma cultura tecnopolítica

    Com um pequeno intervalo de 30 minutos, acompanhei no mesmo dia duas atividades que, no contraste de suas diferenças, indicam o tamanho do desafio que temos pela frente. A boa notícia é que não nos falta ação, mas sim capacidade de transversalidade e conexão. Um dos desafios, para além de superar nossa fragmentação, é compreender os agenciamentos do mundo sociotécnico em que estamos imersos e fomentar uma cultura técnica que dê suporte e amplifique os modos de vida que desejamos fazer proliferar.

    Dois seminários públicos: o primeiro, na sede da FUHEM Ecosol, ONGs de pesquisa social e formação, onde ocorreu o lançamento da publicação Estado do Poder 2017, cuja edição foi dedicada à cultura/ideologia e suas formas de participação nos mecanismos globais de dominação. No lançamento da publicação assisti a uma excelente intervenção da pesquisadora-ativista boliviana Elizabeth Peredo Beltrán (Poder e Patriarcado) sobre o chamado “fim do ciclo progressista na América Latina”, dentre outras apresentações.

    O segundo seminário foi um achado acidental. No dia anterior, trombei com uma propaganda de página inteira no jornal impresso que lia no café. A imagem da campanha me pareceu tão exótica que se não fosse minha curiosidade semiótica jamais teria chegado ao conteúdo textual que eles queriam difundir. Esta atividade era o lançamento de uma campanha nacional – Caminho do Sol  – de mobilização pelos direitos de pequenos produtores à geração e comercialização de energia solar (fotovoltaica).

    Imaginar outras infraestruturas tecnopolíticas

    O relato sobre a experiência política boliviana, insere-se num debate mais amplo sobre o chamado “fim do ciclo progressista na América Latina”. De certa forma, o discurso de “fim do ciclo” é um recurso performático que deseja traçar uma linha entre um antes e um depois, procurando ativar no presente outras interpretações, horizontes e projetos políticos. A própria idéia de “fim de ciclo” é tema de muitas controvérsias (experimente dar uma pesquisada no termo “fim do ciclo progressista”). Há uma versão de “fim de ciclo” proclamada pelas forças reacionárias e meios de comunicação corporativos que anunciam o esgotamento dos projetos da esquerda, e uma versão de “fim de ciclo” que pretende criar outras interpretações no campo da própria esquerda.

    Faço uma sinopse, muita imprecisa e simplificada, para destacar alguns argumentos. É elaborada uma reflexão crítica sobre os limites das experiências de governo da esquerda latino-americana (Bolivia, Brasil, Equador, Venezuela, Argentina…) desses últimos 15 anos. As análises recuperam a história de lutas sociais que antecederam esses governos, construções de amplos movimentos sociais e redes de organizações de base em ciclos de 15, 20, 30 anos (a depender do país) até que um grupo/partido político oriundo dessas construções chega ao poder em escala nacional. Em seguida problematiza-se as tensões e dilemas que emergiram entre a lógica de governo e as dinâmicas da prática política dos movimentos, lançam perguntas desafiadoras sobre os limites da ação governamental (na tomada do Estado), e as armadilhas que se instalaram para a ação política. Por fim, abrem-se novas perguntas sobre os possíveis caminhos de um novo ciclo de luta política, cujo foco estaria orientado para a construção de políticas não estado-cêntricas. O Estado é importante, mas sua ocupação-gestão não seria o principal espaço da construção dessas alternativas. Neste percurso é também elaborada uma crítica ao fato de que, as políticas de inclusão social apoiaram-se num modelo de crescimento econômico que era dependente de programas de desenvolvimento de caráter extrativista, concentradores de renda, com forte dependência e alianças espúrias com as grandes corporações e capital financeiro, combinação esta que mostrou-se insustentável. Certamente, os argumentos são muito mais complexos. Há boas referências sobre essa discussão [veja Raquel Gutierrez Aguilar. Horizontes comunitario-popular: producción de lo comun más allá de las politicas estado-centricas].

    Dentro deste amplo debate, comentarei apenas um ponto: as grandes obras de infraestrutura (usinas, estradas etc). Com frequencia as grandes obras de infraestrutura são vistas como um problema em razão do enorme impacto socioambiental no meio em que são inseridas. Porém, pouco se discute sobre a maneira como um determinado modelo de infraestrutura é o resultado de todo um arranjo sociotécnico que faz com que um certo projeto/desenho se apresente como a melhor resposta a um conjunto de variáveis: um desenho de uma hidroelétrica em oposição a outros modelos de hidroelétricas; o traçado da construção de uma rodovia, a cadeia de produção e distribuição alimentar, o fornecimento de água nas cidades etc.

    Evidentemente, há sempre alternativas e decisões políticas em jogo, mas com muita frequência escapa ao debate tanto a descrição do conjunto das determinações que “elegem” um modelo de infraestrutura, como a proposição de alternativas que sejam capazes de oferecer outras respostas, neste caso, com uma eficiência simultaneamente societal e tecnopolítica.

    Se pretendemos produzir energia para que a vida de muitas pessoas sejam melhores num determinado espaço tempo, como podemos fazê-lo? Se vamos abastecer com água ou alimentos uma cidade, como podemos fazer isso de maneira diferente, agora e para gerações futuras? Não podemos ignorar este problema se desejamos fazer política com/para os 99%.

    O desenho de uma infraestrutura não é neutro, e seus efeitos no mundo não poderão ser posteriormente controlados por um projeto ou ideologia política. Claro, há sempre uma margem de flexibilidade, mas ela tende a ser cada mais vez menor a medida que os efeitos desta infraestrutura se reticulariza e se inscreve em encadeamentos sociais e técnicos mais amplos.

    Por analogia, podemos pensar o Estado como uma tecnologia de poder. O desafio de governar essa máquina não pode ser reduzido a uma problema de governabilidade e nem transformado num desafio de escalabilidade da luta social. A mudança nos meios de ação (extra-Estado X Estado) e a dimensão da ação (local x nacional x mundo), implica em profundas transformações em todos os entes envolvidos nessa relação. Não se trata apenas de um aumento na complexidade no sistema. Nada se mantém o mesmo. Técnica e política estão sempre entrelaçadas em sua inscrição e efetivação no mundo. Por isso, a proposta de criar outros horizontes políticos para um novo ciclo de lutas, não poderá se limitar à disputa de narrativas ou visões de mundo. Precisamos de práticas, corpos, ferro, aço, água…

     

    Energia = natureza + cultura + técnica + política

    Os problemas indicados acima ficam evidentes quando você resolve experimentar na prática a construção dessas alternativas. Esta é a potência de um protótipo. Neste processo surgem conflitos com atores e forças que desconhecíamos e um novo universo de expropriação do comum se evidencia.

    A campanha “Sol e Justiça” surge da mobilização de 60 mil famílias que investiram suas economias em iniciativas coletivas de produção e comercialização de energia fotovoltaica e que atualmente sofrem com a mudança de prioridade do governo. O estado espanhol pretendia fomentar a diversificação da sua matriz energética, no sentido de reduzir o impacto ambiental do modelo atual. Porém, no momento em que começam a proliferar diversas iniciativas de autoconsumo, associações, cooperativas e pequenas empresas que produzem e comercializam enérgia elétrica, as forças em jogo ficam mais evidentes e a política de incentivo estatal muda radicalmente. No caso em questão, grandes empresas internacionais fornecedoras de energia eletrica lograram impor novas regras, através do governo Espanhol, que fossem mais favoráveis aos seus investimentos. Como resultado, as 60 mil famílias ficaram afogadas com dívidas assumidas para a construção de um modelo energético que seria alternativo.

    São muitas as variáveis que afetam as condições de viabilidade de uma nova tecnologia ou atividade econômica: os mecanismos de autorização e controle para instalação de placas solares nas residências devem respeitar determinados protocolos, com fiscalização inclusive das empresas privadas que fazem o fornecimento de energia elétrica nas residências; os critérios para financiamento publico são modificados e outras formas de apoio estatal são exclusivos para determinada escala de empreendimento, entre outros. Em suma, tudo é feito de forma que o modelo que irá se apresentar como o mais “eficiente” é aquele que fortalece uma certa configuração de mundo. Neste caso, compreendemos rapidamente como a luz solar deixa de ser um Comum e se torna um recurso que deve ser submetido a um regime de escassez e monetarização.

    Ainda assim, a ação prática desses coletivos aprende com os bloqueios e passa a elaborar alternativas que, a despeito do ambiente inicialmente desfavorável, cria soluções e arranjos sociotécnicos que se relevam melhor adaptados, graças à uma combinação de engenhosidade técnica e estratégias de colaboração social.

    Os desdobramentos futuros desses arranjos é um campo de cultivos e batalhas. O campo dos “estudos em inovação” indicam que muitas inovações sociotécnicas que foram concebidas para transportar valores emancipatórios ou solidários, quando deslocadas ou apropriadas em outros arranjos, acabam frequentemente perdendo a capacidade de efetivação daqueles princípios políticos que desejavam difundir. Hoje temos comida orgânica tanto associada a modelos alternativos de vida (sistemas de produção local, com redes de consumo coletiva etc) como formas de produção e comercialização de orgânicos que fortalecem as estruturas tradicionais de concentração de renda e formação de oligopólios [veja alguns trabalhos de Adrian Smith].

    Problema semelhante acontece com a produção fotovoltaica. Você pode fazer parte de uma rede autogerida que produz, distribui e utiliza energia solar (veja http://ecooo.es ), ou você pode ser o locatário de uma unidade de produção numa grande fazenda de produção de energia solar (veja https://www.cosol.com.br/ ). Cada um desses arranjos sociotécnicos mobiliza mundos e modos de subjetivação absolutamente distintos.

    foto: Campanha Orgulho Solar

     

    foto:  COSOL – condomínio solar

     

    Tessituras de uma cultura tecnopolítica

    Terminei o dia com a sensação de que havia cruzado por dois mundos que pouco se comunicam. De um lado ativistas, sociólogos e ecologistas que lutam por um mundo socialmente justo e ambientalmente sustentável, sabem construir movimentos, organizações e comunidades, mas buscam formas para tornar durável as frágeis formas de vida que experimentam. De outro, engenheiros e economistas que criam tecnologias e iniciativas portadoras de novos arranjos socioeconômicos, que lutam para superar as adversidades (jurídicas, financeiras, culturais) que inviabilizam suas atividades. Tudo se passa como se fossem dois mundos a parte.

    Pergunto-me sob as possíveis formas de diálogo, aprendizados mútuos e alianças. Há, felizmente, sinais de que cada um desses mundos começa a se mover em direção ao outro. O fato de que as iniciativas comunitárias de energia solar estejam começando a se organizar como movimento social é um exemplo; o crescimento das redes de agroecologia e sua incorporação na pauta de distintos movimentos sociais também; a maior transversalidade do feminismo em diversas práticas sociais, entre outros casos.

    Talvez, um novo aprendizado diante da fragilidade institucional que nos assola neste momento, seja o reconhecimento da existência de outras formas de fazer política. A criação e o suporte de modos de vida em comum, exige também a produção deste comum. Para que este comum exista e possa se sustentar no tempo, começamos a reconhecer os diversos elementos e práticas, materiais e imateriais que lhe dão suporte. Técnica e cultura, política e tecnologia, valores e práticas caminham juntos, se entrelaçando. Uma tecnologia alternativa sem uma comunidade que lhe dê suporte não sobreviverá assim por muito tempo. Um coletivo que não cuida das infraestruturas que dão suporte a suas práticas não terá vida longa. Um movimento social que negligencia os corpos de seus participantes, não será capaz de criar uma comunidade política saudável.

    São essas diversas e interdependentes dimensões que talvez componham juntas outras cartografias políticas. Quais são as infraestruturas necessárias? Como criar e sustentar um corpo, individual e coletivo? Quais são nossos protocolos? Nossas tecnologias? Qual é a comunidade que dá existência e suporte à essas práticas? Quais são as práticas que produzem nossa comunidade? Quais são nossas formas de conhecer e de transmitir os conhecimentos? Tudo ao mesmo tempo agora.

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

     

  • Invisível comum

    Invisível comum

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    Nesta primeira semana de setembro tivemos uma pletora de acontecimentos chocantes: o terremoto mais forte do século no México, um furacão poderoso destruindo as ilhas da América Central e costa sul dos EUA, muitas malas cheia de dinheiro da corrupção de políticos e empresas brasileiras, entre outras. Porém, a notícia que mais me acompanhou durante essa semana foi uma reportagem do caderno de Ciência da Folha de S.Paulo sobre a contaminação da água que chega nas torneiras de residências em diversos países do mundo. Não farei qualquer comparação entre cada uma dessas tragédias, todas incomensuráveis quando falamos de tantas vidas perdidas, direta ou indiretamente (sim, a corrupção provoca mortes lentas e precariedade em toda parte). Hoje escrevo sobre aquilo que nos escapa aos sentidos.

    A reportagem do Marcelo Leite está baseada na pesquisa – “Invisível – o plástico dentro de nós” – sobre a contaminação da água por fragmentos de plástico, recentemente publicada pela Orbmedia. O relatório, com excelente documentação multimédia está disponível neste link: https://orbmedia.org/stories/Invisibles_plastics

    Em resumo, a investigação mostra como a água que chega nas torneiras nas residências e prédios, em diversos lugares do mundo, apresenta partículas de plástico. A amostragem realizada indica que o problema está presente em muitas cidades de diversos países (do sul e do norte global), variando o percentual de sua presença. Só para dar alguns dados: nos EUA cerca de 94% das cidades apresentam contaminação; na Europa 72% das cidades estão com água com plástico; e na cidade de São Paulo, das 10 amostras recolhidas, 9 confirmaram a contaminação.

    Enfim, o plástico está em toda parte, inclusive dentro de nós. Sabe-se pouco ainda sobre os efeitos de médio e longo prazo dessa ingestão. Em outros animais, cujo processo de contaminação já é estudado há mais tempo, os problemas da intoxicação são mais conhecidos. Pra complicar, o plástico torna-se um agregador de moléculas tóxicas de outras substâncias e elementos que estejam presentes no ambiente. E claro, quando cozinhamos com essa água os elementos tóxicos são liberados ou se transmutam em outras substâncias cujos efeitos nocivos ainda são desconhecidos. A reportagem indagou a Sabesp que diz cumprir com todas as normas sanitárias do Ministério da Saúde. Vejam a reportagem e o relatório para conhecer melhor o problema.

    Mas essa notícia disparou algumas inquietações. No final da segunda guerra mundial, com o surgimento e proliferação das armas nucleares, instalou-se a chamada Guerra Fria. Durante décadas a população mundial, mas principalmente a dos países diretamente envolvidos, viveu sobre a constante ameaça do apocalipse nuclear. A vida sob tal situação engendrou formas de governo, tecnologias políticas de gestão das populações e toda uma geopolítica da qual ainda somos herdeiros. Passada a Guerra Fria o apocalipse nuclear ganhou outras feições. Uma delas é o apocalipse ambiental, onde os seres humanos são os principais responsáveis pela destruição do planeta. A constatação de que o plástico que produzimos está presente em toda parte (mesmo na água de áreas consideradas inóspitas) reforça uma idéia potente de que vivemos num “mundo sem refúgio”. Não há mais separação entre a ação humana e a vida no planeta, onde quer que estejamos. Trata-se, portanto, de pensar nossa ação num mundo em que não há mais um “fora” (natureza intocada ou pura), mas sim interconexão e interdependência, para a partir daí construirmos outras composições e modos de vida possíveis.

    Tanto no caso do apocalipse nuclear como no desastre ambiental em curso confrontamo-nos com problemas sistêmicos. Porém, a maneira como nossas vidas participam de cada um deles é absolutamente diferente. No caso do apocalipse ambiental sua gênese e reprodução está profundamente entrelaçada com a vida cotidiana de todos os humanos. Para tornar a diferença mais clara tente imaginar a vida sem o plástico, ou imagine todos os processos envolvidos para levar água para todas as residências de uma cidade. Facilmente percebemos como nossos modos de vida, em seus mínimos detalhes cotidianos, são parte constitutiva deste problema do qual todos somos afetados. Ainda assim, trata-se de um problema invisível.

    Esta invisibilidade é uma característica frequente de muitos elementos que são “comuns” a nossa existência. O comum aqui tem um duplo sentido: aquilo que é ordinário, corriqueiro; e aquilo que é compartilhado. Muitos elementos que são dessa ordem “comum”, são fundamentais no suporte à nossa vida, individual e coletiva, mas ainda assim são intangíveis e invisíveis. A saúde que perdemos quando sofremos com a contaminação, a qualidade da água que deixamos de ter, as relações de cuidado e os vínculos de solidariedade, são nossos “comuns” ameaçados por diferentes dinâmicas. Dar existência visível e politizar esses “comuns” é um caminho de luta política que muitas comunidades de afetados e movimentos sociais estão enveredando.

    Neste percurso desafiamo-nos a fazer novas e boas questões. Quando reunimos gente diversa, afetada pelo mesmo problema, compreendemos melhor a dinâmica em curso, seus efeitos e os múltiplos arranjos necessários para dar suporte àquele comum. Conseguimos dar melhor visibilidade e tangibilidade à algo que, de tão comum, era menosprezado como uma segunda “natureza”. O que é necessário para que eu tenha água em minha casa? O que é necessário para que eu tenha energia elétrica nas tomadas? Eu poderia viver sem essa água ou sem eletricidade? Por isso, quando dizemos “água para todos é um direito” ou “moratória à produção de plástico”, nos damos conta que já não é o suficiente. Nossa dependência desses sistemas e arranjos sociotécnicos complexos nos obrigam a outras reflexões, a outras estratégias.

    Essa percepção de interdependência e interconexão num mundo sem refúgio, obriga-nos a reconhecer que as mudanças que desejamos são mais complexas e passam por um profundo redesenho de nossos cotidianos: as formas de alimentação, moradia, energia, cuidados, transporte, educação etc. Se desejamos uma política dos 99% deveríamos prestar mais atenção ao que é comum e invisível, mas que organiza e sustenta de forma imanente os modos de vida do qual participamos.

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

     

  • Política do protótipo: o caminho se faz caminhando

    Política do protótipo: o caminho se faz caminhando

     

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    Acho interessante a maneira como, aqui na Espanha, a palavra “protótipo” está muito presente em diferentes iniciativas de coletivos ativistas (ambientais, urbanistas, hackers, culturais etc) e como este termo é utilizado por instituições públicas e não-governamentais. Investigar e problematizar a genealogia desse termo daria uma ótima tese (lançada a sugestão). Gosto da idéia de protótipo por algumas razões, por isso comecei a utilizá-la há algum tempo para descrever algumas práticas em que estou envolvido.

    Na minha experiência, se a memória estiver correta, comecei a escutar esse termo nos primeiros anos do século XXI (2003…2005?), em grupos da então chamada “cultura digital” (bons tempos com midiatática, submidialogia, metareciclagem, midiaindependente…). Naquele contexto, acho que a palavra vinha mesmo da turma que estava mais imersa na cultura de desenvolvedores de softwares (seja por experiência profissional ou de formação). Ali, a noção de protótipo trazia vínculos de origem com a criação de produtos ou serviços – empresarial, corporativa ou mesmo de programadores entusiastas do software livre – que deveriam ser colocados rapidamente em circulação para que pudessem ser testados e aperfeiçoados.

    Ao invés de ficar desenvolvendo um produto até sua conclusão, a ideia do protótipo valorizava o inacabado e a importância da abertura para que se receber rapidamente novos inputs e melhorias, dando relevância aos modos de uso e apropriação para experimentar suas possíveis trajetórias e adequações. Em suma, ele reúne elementos que reconhecem o caráter contextual de qualquer criação. Ao mesmo tempo, a maneira como o ambiente, as infraestruturas e as relações sociais participam do arranjo que surge com o protótipo em uso é parte indissociável do próprio protótipo. Isso que parece um pequeno detalhe faz muita diferença quando exploramos algumas das implicações políticas desta concepção. Talvez por isso, o termo tenha deslizado tão facilmente para outros contextos. Farei um pequeno comentário sobre os possíveis sentidos da noção de protótipo em dois campos: (1) produção de conhecimento; (2) prática política.

    (1) Prototipar como forma de conhecer

    Quando a ideia de protótipo refere-se a uma prática de conhecer surgem coisas interessantes. Em primeiro lugar, significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer.

    Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem.

    Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes.
    Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.

    (2) Protótipo e ação política

    Quando a noção de protótipo é mobilizada por coletivos ativistas ela pode indicar outras formas de ação política, que também encontramos no repertório de alguns movimentos sociais. A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto idealizado e acabado de um modo de vida ou sociedade futura, pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja. Pode-se estabelecer aí uma relação com o conceito de política “pré-figurativa” tão presente em alguns movimentos contra-culturais (anos 60-70s) e nos movimentos alter-anti-globalização (2000’s).

    É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).

    A criação de protótipos nos “laboratórios cidadãos” é traduzida por Antonio Lafuente numa boa expressão: do protesto à proposta. Ou seja, ao se engajarem na produção de protótipos esses coletivos afirmam e experimentam positivamente a possibilidade de construção situada (contextualizada, implicada, parcial) de alternativas concretas para aquilo que reivindicam. Ao fazerem isso dão a ver de maneira mais clara o comum ameaçado, apropriado, e os mecanismos de reprodução social em sua micro e macro-política.

    A criação de um protótipo, no contexto de uma intervenção ativista, também indica a valorização de ações práticas, em detrimento das armadilhas das escolhas excessivamente ideologizados que se descolam das condições de ação no presente. Evidentemente, toda prática é portadora de princípios e valores, mas quando deslocamos o foco para a construção de uma ação prática somos obrigados a criar soluções que tornem aquela ação possível. É portanto, um outro estado de presença corporal, onde aprendemos a pensar e praticar uma política sensível com o corpo que temos no mundo que habitamos. Em suma, indica-se uma outra concepção de mudança social.

     

    Algumas referências:
    *Master em Comunicação, Cultura e Cidadania Digital: http://cccd.es/wp/
    *Prototype: coletivo de investigação e intervenção, urbanismo e antropologia: http://www.prototyping.es/
    *Diversos laboratórios realizados no âmbito do Medialab-Prado http://medialab-prado.es/
    *Inteligencia Colectiva: http://www.inteligenciascolectivas.org/category/prototyping/
    *Red de Huertos Comunitarios de Madrid: https://redhuertosurbanosmadrid.wordpress.com/2014/06/03/taller-de-autoconstruccion-de-cocinas-solares-en-cantarranas/
    *Exemplo de laboratório cidadão http://medialab-prado.es/article/proyectos-madrid-escucha
    *Hacklab da Ocupa Ingobernable: https://hacklab.ingobernable.net/

    Veja o artigo: 2016. Corsín Jiménez, Alberto & Adolfo Estalella. ‘Ethnography: a prototype.’ Ethnos, online first, DOI: 10.1080/00141844.2015.1133688. Special Issue, Obstruction and Intervention, edited by Rane Willerslev, Lotte Meinert and George Marcus. Pre-print available here

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

  • Tecnologias de pertencimento e produção do comum: reaprender a viver junto

    Tecnologias de pertencimento e produção do comum: reaprender a viver junto

    Com o acirramento de nossa crise política e o clima de pós-catástrofe planetária, aprendi rapidamente que algumas coisas que julgávamos como óbvias e certas (como os cuidados com a vida coletiva, a afirmação e defesa de direitos fundamentais), são muitos frágeis na realidade e, portanto, radicalmente necessárias. Tenho perseguido esta idéia numa espécie de movimento de “retorno ao básico”. Por outros caminhos, tal percurso tem me arrastado para reflexões e práticas sobre a produção do comum.

    Neste cenário, enfrentar a pergunta “como podemos viver juntos?” deixa de ser modismo teórico ou estético, e se torna na prática um problema de grave urgência. Essa é uma das razões que tem me impulsionado a investigar os chamados “laboratórios cidadãos”. Ao tentar descrever um conjunto diverso dessas práticas, mais do que delimitar as fronteiras de um conceito de “laboratório”, interesso-me por repertoriar os diversos arranjos sociais, suas infraestruturas, protocolos, práticas e valores que participam de maneira sempre contextualizada (e portanto parcial) da produção de um conhecimento comum, aberto e implicado. Por sua vez, neste fazer, novas comunidades se constituem com esses laboratórios, dando consistência e sustentação àquilo que lhes é comum, mas que de alguma forma era desconhecido ou ameaçado. Para usar uma feliz expressão do Antonio Lafuente, os laboratórios cidadãos funcionam como incubadoras de comunidades.

    Um dos aspectos que têm me interessado observar nessas experiências são as chamadas “tecnologias sociais de pertencimento” (ainda sem o devido rigor do conceito utilizado por Isabelle Stengers e Brian Massumi). De que é feita uma cidade? O que é qualidade do ar ou da água? Que mal é esse que faz nosso corpo adoecer? Encontrar formas de habitar, de se alimentar, de cuidar da saúde etc, são exemplos de problemas que tem sido enfrentados por diversos coletivos que experimentam a construção de novas relações e vínculos, que criam formas de acolhimento e escuta da diversidade, que trocam experiências e elaboram um vocabulário capaz de descrever e nomear aquilo que vivenciam, que constrõem regras de convívio e gestão de um espaço etc.

    Diante da crise, desaprender para reaprender a viver coletivamente de outra maneira exige muita disposição e imaginação ou uma boa dose de precariedade. Ocupas urbanas, praças e hortas autogeridas no centro das grandes cidades, grupos de afetados por doenças raras, coletivos de cuidadores que reconfiguram as bordas das famílias, enfim, na proporção inversa ao desabamento do mundo há uma pletora de experiências cuidando para que a vida siga. Porém, assim como o trabalho invisível e não-pago das mulheres que fazem o planeta girar, essas experiências seguem fora do radar do reconhecimento macropolítico.

    FOTOS Centro Social Autonomo La Tabacalera

    Nessas primeiras semanas aqui comecei a me reconectar com algumas iniciativas dessa sub-ordem. É muito revigorante ver e participar dessa fabricação de outras formas de vida. Há muitos aprendizados em jogo. Uma antiga fábrica ocupada transformada em centro cultural autogerido (Tabacalera); uma praça com horta e brinquedos para crianças e aduntos (Esto es una Plaza); um edifício público ocupado (Ingobernable) entre tantas outras [1]. Em cada uma delas, tecnologias sociais de pertencimento e de organização, conhecimentos, práticas, novos corpos são inventados com outras maneiras de estar junto, sempre de maneira contextualizada, o que faz com que nada seja exatamente replicável.

    FOTOS Esto es una Plaza

    Porém, o compartilhamento dessas experiências é sempre possível e portador de conhecimentos úteis para outros grupos. Ademais, para dar sustentação no tempo, para tornar esses modos de associação durável, é preciso criar suas próprias “tecnologias” (nos dizeres de Latour, a “tecnologia” é a sociedade tornada durável”). Formas de resiliência, adaptação, reprodução ampliada daquele comum que essas comunidades produzem e promovem. Neste sentido, saber organizar coletivamente uma festa de bairro é uma atividade altamente relevante. Grandes cidades com boas condições de vida, são cidades com bons bairros. O que aconteceu com os bairros de São Paulo? Podemos pensar a “vida de bairro” e suas relações de vizinhança como um “comum” ameaçado pela vida privatizada das grandes cidades? Como seria um laboratório cidadão organizado em torno disso? Imediatamente, percebemos como a micropolítica conecta-se a outras escalas.

    Por isso a importância de reaprendermos a ativar a capacidade do encontro, de estar e permanecer juntos, de criar um ambiente com sua cultura, suas infraestruturas, seus codigos e sua economia, para que sejamos capazes de dar sustenção no tempo às práticas e valores que desejamos reverberar.

     

    [1 ]Bernardo Gutierrez, jornalista e pesquisador produziu inúmeras reportagens sobre essas experiências. Em português veja essa: http://outraspalavras.net/posts/madri-laboratorio-democratico-global/ Seu livro, recentemente publicado, também descreve muitas experiências urbanas de Madrid: http://www.bernardogutierrez.es/indexen.html

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

     

     

     

     

  • El proyecto Buen Conocer: Los comunes contra el capitalismo cognitivo

    El proyecto Buen Conocer: Los comunes contra el capitalismo cognitivo

    Graças ao convite de Javier de Rivera – editor da Revista Tecknokultura  e coordenador do Máster em Comunicação, Cultura e Cidadania Digital – pude acompanhar uma “Jueves Tecnopolíticas”, atividade promovida pelo Hacklab da Ingobernable.

    Este Hacklab está bem ativo no terceiro andar desta recente ocupação urbana. A Ingobernable surge da ocupação de um grande edifício público que estava a ponto de ser cedido para um empreendimento privado. Diversos coletivos de Madrid que atuam no campo dos Comuns Urbanos, tomaram o edifício que estava vazio há muitos anos para reivindicar um outro uso para este edifício. Sob autogestão passaram a realizar diversas atividades públicas no seu interior e a cuidar da manutenção do espaço . Tal ocupação gerou uma nova camada de tensões entre o governo municipal e diversas organizações e movimentos que estão num campo de alianças de base da atual gestão da prefeita Manuela Carmena, do Ahora Madrid.  Noutra ocasião, farei um post mais detalhado sobre essa experiência, pois ainda conheço muito pouco de sua experiência.

    Nesta quinta, acompanhei a apresentação e discussão “El proyecto Buen Conocer: Los comunes contra el capitalismo cognitivo“, conduzida por Daniel Vazquez, um dos principais realizadores do projeto Buen Conocer – FLOK Society no Equador. A iniciativa “Buen Conocer” foi desenvolvida durante o governo do Presidente Rafael Correa e visava criar estratégias de promoção do desenvolvimento nacional da economia social do conhecimento. No campo das políticas de educação, cultura, ciência e tecnologia, visava atacar as novas formas de expropriação de valor e transferência de riqueza promovidas através dos sistemas internacionais de propriedade intelectual, da hegemonia de infraestruturas de comunicação e softwares proprietários estrangeiros, bem como na área de produção de hardwares. O projeto parte de uma ampla pesquisa colaborativa que produz um diagnóstico sobre a economia do conhecimento no Equador e sua forma de inserção na economia global, procurando identificar formas de inversão e desenvolvimento local com base na filosofia do “buen conocer”. Em síntese, trata-se de identificar estratégias para a promoção de novas cadeias produtivas para o desenvolvimento local através do conhecimento livre, aberto e cooperativo aplicado às diversas fases da produção (desde a formação técnica-profissional até a produção e comercialização).

    A apresentação completa do Daniel está disponível aqui: Presentacion FLOK

    Um importante livro produzido pelo FLOK, sistematizando todo o percurso de investigação dos primeiros anos do projeto está disponível aqui: Livro FLOK

    Algumas imagens da atividade na Ingobernable aqui: Fotos

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

     

  • Sentidos para uma travessia

    Sentidos para uma travessia

    Brincando comigo, um amigo brasileiro escreveu perguntando se eu estava me exilando e abandonando a luta pela democracia no Brasil. Ouvir essa frase em 2017 é muito estranho. Evidentemente, esta viagem não tem nada de exílio: um exilado não tem qualquer alternativa senão fugir; a partida é incerta, o destino imprevisível e não há qualquer certeza sobre o retorno. Ainda assim, impossível ouvir essa provocação sem o peso do atual contexto histórico e sem a memória de nosso recente passado. Em nosso caso, a volta se dará rapidamente, o destino da viagem é certo e voltaremos, provavelmente, antes de qualquer mudança profunda em nosso quadro político atual.

    Mas aquela provocação ficou reverberando. Ela fez eco com alguns sentimentos que me habitavam nos dias que antecederam a partida. Faz exatamente um mês que eu voltara para São Paulo com a família, após dois anos e meio morando no litoral – http://cienciaaberta.ubatuba.cc , mas praticamente ficando muito tempo na estrada entre Ubatuba, Guarulhos, São Paulo e Rio. Foi um período gostoso porém exaustivo. Neste inicio de julho, voltamos para um novo apartamento na Helvétia, coração pulsante de novos e velhos conflitos da cidade. Em pouco menos de um mês transformamos aquele espaço em nossa nova morada e a deixamos preparada pra ser habitada por amigas queridas durante nossa breve estadia em Madrid.

    Fazendo tudo isso em tão pouco tempo, desterritorializações e territórios em fluxo, criando novas relações, projetos e novos vínculos afetivos tão importantes para novas vidas que se instalam, senti esta partida de uma maneira diferente das outras viagens. Senti mesmo que novos processos e vínculos estavam sendo interrompidos pela conjuntura dessas mudanças. Vivendo intensamente em cada um desses territórios, acompanhando as transformações políticas dos últimos anos, e cuidando de pessoas queridas que passaram por situações de vulnerabilidade, pude observar e sentir novos entrelaçamentos entre o mundo macropolítico e aquele das tensões e mutações subjetivas. São tempos sensíveis e de muitos limitares este que vivemos. Difícil saber o que virá pela frente. A catástrofe já aconteceu em toda parte, e tem intensidades diferentes em cada lugar, em casa povo e para cada indivíduo. A crise política que vivemos no Brasil é apenas uma dentre outras dimensões deste desabamento.

    Ao mesmo tempo, em muitos lugares e com muitas pessoas que encontro, sinto que pulsa um desejo de criação de novas formas de vida em comum. Por isso, aquela imagem do exílio não nos serve. Não deixamos para trás um mundo de impossibilidades. Ao contrário, são muitos os mundos possíveis que carregamos conosco. Empresto a belíssima imagem da cineasta sikh Valarie Kaur, em seu discurso sobre a luta dos direitos civis contra o intolerância nos EUA pós-Trump – https://www.youtube.com/watch?v=9CbKjNWS864 . Sendo pai de uma pequena criança fiquei tocado pela maneira como ela transformou sua experiência materna numa metáfora do desafio político atual. Diante da necessidade de acolher uma nova criança num mundo que se apresenta como pior que aquele onde ela cresceu, o que fazer? “E se a escuridão que temos diante de nós, não for a escuridão da tumba (Tomb) e sim a escuridão do útero (Womb)? O que a parteira diz? -Respire e empurre! Porque se você não empurrar poderá morrer! Respire e empurre!”

    Nota: este post inaugura uma série de pequenos relatos que pretendo realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa