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  • Projeto Pesquisa Tecnopolítica e Saberes Situados 2015 e 2016

     

    Sobre

    Esta pesquisa – Tecnopolítica e Saberes Situados – é parte integrante do Projeto “Interseções entre pesquisa, ação e tecnologia: Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS)”. Mais informações: http://www.lavits.org

    Síntese

    À luz de uma série de eventos e processos recentes, é extremamente importante para ampliar o debate público sobre a cultura crescente de vigilância e monitoramento de populações por Estados e corporações. Este projeto destina-se a disseminar esse cenário para os estudiosos, ativistas e do público em geral, através da construção de um discurso crítico sobre as implicações da “normalização” das práticas de vigilância. Simultaneamente pretende-se incentivar a consolidação e expansão das atividades da LAVITS (Rede Latino-Americana de Vigilância, Tecnologia e Estudos da Sociedade). O objetivo é não só para aumentar o debate sobre procedimentos de monitoramento atuais na América Latina, mas também promover o intercâmbio entre a investigação acadêmica e outros setores da sociedade civil que estão criando conhecimento e ações (sociais, artísticas, culturais) nesse contexto. Este projeto coordenado pela prof Dra. Fernanda Bruno a partir da UFRJ, mas executado em diferentes universidades, centra-se principalmente em três eixos de ação: pesquisa; intervenções criativas e desenvolvimento de tecnologia. O primeiro eixo aspira a impulsionar o desenvolvimento e cooperação de projetos de pesquisa voltados para os procedimentos de vigilância emergentes no Brasil e na América Latina. O segundo eixo centra-se nas intersecções e do diálogo entre as universidades e sociedade civil propondo atividades orientadas. Por fim, o terceiro eixo é dedicado ao desenvolvimento e disseminação de ferramentas que aumentem o conhecimento e proporcionar aos indivíduos e grupos com os meios para proteger a sua liberdade e privacidade na comunicação e atividades de todos os dias.

    Integrantes

    Coordenadora – Fernanda Glória Bruno/ Marta Mourao Kanashiro – Integrante / Rafael de Almeida Evangelista – Integrante / Rodrigo José Firmino – Integrante / Nelson Arteaga Botello – Integrante / Lucas de Melo Melgaço – Integrante / Henrique Zoqui Martins Parra – Integrante / Rosa Maria Leite Ribeiro Pedro – Integrante / Bruno Vasconcelos Cardoso – Integrante.

    Financiador: Fundação Ford

    Apresentação deste sub-projeto

    A pesquisa será realizada mediante a implementação de um servidor web de uso compartilhado (veja abaixo Plataforma Sociotécnica e Protocolo Investigativista). O processo de construção dos protocolos sociotécnicos de operação deste servidor, mediante a tradução de princípios ético-políticos para as configurações do aparato técnico, servirá de disparador de nossas reflexões.

    Objetivo da investigação

    Compreender a cultura epistêmica de grupos tecnoativistas em relação às reconfigurações sociais emergentes em contextos de ampla mediação das tecnologias digitais de comunicação, com ênfase nas seguintes direções:

    • como regular os efeitos da mediação sociotécnica em termos de abertura ou fechamento das informações e conhecimentos produzidos?
    • quais os desafios (teóricos e práticos) para engendrar modos de colaboração, partilha e tradução dos conhecimentos produzidos entre grupos com culturas epistêmicas distintas?
    • quais as formas de articulação de normas/princípios sociais em aparatos materiais de comunicação digital?
    • como tornar visível, tangível o que ainda é percebido de forma sutil?

    Extensão e Pesquisa aplicada

    Desenvolver e/ou disseminar tecnologias e ferramentas que promovam a autonomia de indivíduos e grupos na garantia de sua liberdade e privacidade, em conformidade aos direitos civis e políticos, frente à presença de dispositivos de vigilância no cotidiano das comunicações e da vida urbana contemporâneas. Também serão priorizadas tecnologias sociais voltadas para o conhecimento crítico e a problematização das implicações destes dispositivos.

    Tal ação se desenvolverá mediante a criação de um servidor web que funcione como um protótipo de rede de servidores com especificações de segurança e suite de serviços de comunicação. Esta rede de servidores integrará três universidades brasileiras ‐ Unifesp, Unicamp, UFRJ ‐ e funcionará como uma incubadora de projetos de pesquisa e extensão que demandam especificações de privacidade e segurança para ações de colaboração entre universidade e sociedade civil.

    Construção metodológica

    Os procedimentos da investigação apoiam-se na construção colaborativa entre pesquisadores e grupos ativistas, inspirados na pesquisa-ação ou co-pesquisa. Para compreender como os sujeitos conhecem e se organizam através das mediações tecnológicas, propomos a realização de ações/intervenções conjuntas: projetos de pesquisa participativa, investigação pré-figurativa, prototipagem. Ou seja, propomos a criação de situações que promovam experiências problematizadoras. Por exemplo, ao criar junto a grupos específicos situações de uso alternativo de uma tecnologia, potencializamos uma experiencia de estranhamento que cria um fenômeno emergente através do qual pretendemos investigar tanto as dinâmicas sociais instituídas quanto os novos sentidos, modos de associação e práticas produzidas.

    Plataforma Sociotécnica Pimentalab – Servidor Web

    O Projeto “Plataforma Sociotécnica Pimentalab” objetiva integrar diferentes projetos de pesquisa e extensão baseados na utilização de tecnologias de informação e comunicação (doravante TICs) e oferecer suporte adequado para ações de ensino, pesquisa e extensão já em andamento, criando também possibilidades ampliadas para a realização de novos projetos científicos e sociais que necessitem de uma infraestrutura básica de TICs.

    Desde 2010 temos experimentado diferentes tecnologias digitais para a realização de pesquisas, sistematização e produção de novos conhecimentos e para a difusão de informações para estudantes e para o público extra-universitário. Até o presente momento, todas essas iniciativas foram realizada de maneira artesanal, contando sempre com o apoio espontâneo e solidário de diferentes individuos e grupos (tanto estudantes como da comunidade extra-universitária). Neste período, construímos diversos sites e utilizamos diferentas ferramentas em software livres, disponibilizadas tanto por empresas como por coletivos interessados em promover o livre acesso à informação e ao conhecimento. Em nossos projetos a utilização dessas tecnologias esteve orientada por três objetivos:

    • criar melhores condições de difusão e acesso ao conhecimento produzido na universidade;
    • promover junto à comunidade acadêmica a utilização de softwares livres que potencializem a auto-organização nos processos de produção e acesso conhecimento;
    • investigar na prática, do ponto de vista das ciências sociais, as inter-relações das tecnologias de comunicação e informação com os processos emergentes de organização social e de produção de conhecimentos.

    Por considerar que nossas iniciativas tem adquirido um maior grau de complexidade, demandando maior autonomia e consistência na gestão dos próprios recursos para que possamos ter melhor qualidade e consistência nos trabalhos empreendidos, e também maior controle sobre os dados e metadados produzidos, tanto para fins de investigação como para a boa gestão dos nossos projetos, e também por considerar que podemos oferecer à comunidade acadêmica e extra-acadêmica recursos semelhantes aos que temos utilizados, avaliamos que a criação da Plataforma Sociotécnica Pimentalab poderá contribuir para a realização e ampliação desses objetivos.

    Em síntese, nossa iniciativa consiste na implantação e manutenção coletiva de um servidor web para hospedar diferentes projetos científicos e sociais, da comunidade acadêmica e extra-acadêmica, para fins de pesquisa e extensão. A criação deste servidor, além de permitir uma maior organicidade na gestão e execução dos projetos baseados em TICs, permitirá a abertura de novas frentes de pesquisa e extensão. Como parte das ações desenhadas, estamos construindo uma rede de colaboração formada por grupos de pesquisa que atuam em diferentes universidades interessados no compartilhamento de recursos e na experimentação sociotécnica para a inovação tecnológica e social.

    A forma de implementação deste servidor, em seus aspectos técnicos, sociais, jurídicos e instituicionais, torna-se agora objeto de nossas reflexões mediante a criação dos protocolos sociotécnicos, doravante batizado – Protocolo Investigativista (veja abaixo).

    Protocolo Investigativista

    Descrição do objeto: conjunto de protocolos sociotécnicos para a implantação e gestão de um servidor web mantido por um projeto de pesquisa-extensão numa universidade pública. Os aplicativos disponibilizados (WordPress, Dokuwiki, Owncloud entre outros a serem definidos) poderão ser utilizados por grupos de pesquisa acadêmicos e extra-acadêmicos, coletivos e organizações sociais, em consonância aos objetivos e princípios da Plataforma.

    Objetivo geral: traduzir um conjunto de princípios ético-políticos em configurações do aparato técnico (servidor web, seus aplicativos, conexão e modo de funcionamento).

    Objetivos do Servidor Web

    • Promover a utilização e criação de tecnologias livres para o desenvolvimento social e tecnológico.
    • Oferecer infraestrutura de TICs para a hospedagem de projetos científicos e sociais, acadêmicos e extra-acadêmicos.
    • Promover a criação de tecnologias voltadas à pesquisa social aplicada.
    • Promover a liberdade de expressão e de conhecimento.
    • Promover a defesa da privacidade na comunicação em meios digitais.
    • Promover a criação de redes de colaboração entre pesquisadores e a sociedade civil.

    Princípios Gerais da Plataforma

    A utilização e a gestão da Plataforma Sociotécnica Pimentalab, bem como dos projetos aí hospedados, estarão orientados pelos seguintes princípios. Inspiramo-nos em: nos fundamentos norteadores da regulação da internet no Brasil conforme defendido pelo Comitê Gestor da Internet (http://pimentalab.milharal.org/files/2013/09/CGI-e-o-Marco-Civil.pdf); nos princípios que definem o software livre, conforme proposta da Free Software Foundation; nos princípios norteadores do livre acesso ao conhecimento, conforme definições da Open Knowledge Foundation; nos princípios da liberdade de expressão e de pensamento, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

    • Promoção do uso, aperfeiçoamento e difusão de softwares livres (cf. definição da Free Software Foundation);
    • Promoção e defesa do livre acesso à informação e ao conhecimento;
    • Respeito à privacidade dos usuários;
    • Não comercialização ou mercantilização das informações, conhecimentos, dados ou metadados produzidos;
    • Utilização de licenças autorais que promovam a comunalização (commons) do conhecimento em sintona às políticas políticas e ao marco jurídico que promovem o livre acesso à informação.
    • Gestão transparente, compartilhada, solidária e responsável dos recursos tecnológicos.
    • Inimputabilidade da Plataforma e responsabilidade dos autores dos conteúdos.

    Desafios para os Protocolos Sociotécnicos do Servidor Web

    Como traduzir os princípios acima, em respeito ao Marco Civil da Internet, em especificações técnicas que promovam a privacidade e a liberdade de conhecimento e comunicação?

    Exemplos dos problemas:

    • como deve ser a guarda de logs de acesso/uso dos aplicativos hospedados;
    • condições de publicação nos aplicativos (anonimato X registros de identidade)
    • visibilidade e publicação de conteúdos sensíveis
    • imputabilidade da plataforma X responsabidade dos autores.

    Como podemos traduzir esses problemas numa política de hospedagem, regras de uso e especificações técnicas do servidor?

    Política de Hospedagem

    A DESENVOLVER

    O Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento – é um grupo de pesquisa e extensão sediado na Universidade Federal de São Paulo. O projeto “Plataforma Sociotécnica” visa oferer recursos de comunicação digital para projetos científicos e sociais, da comunidade acadêmica e extra-acadêmica, respeitando requisitos e protocolos que promovam um ambiente de comunicação segura, respeitando a privacidade e a liberdade de expressão dos seus usuários em consonância aos marcos legais estabelecidos para a Internet no Brasil.

    Entendemos a hospedagem do seu site como uma cooperação entre as partes e não como uma prestação de serviços. É necessário ressaltar que o conteúdo publicado é de responsabilidade única dos/as autores/as do site, não cabendo ao Pimentalab a responsabilidade jurídica por conteúdo impróprio ou ilegal publicado.

    A moderação de comentários, a construção do site e demais mudanças no visual do site serão de responsabilidade da parte hospedada. Hospedar o seu site não significa que iremos fazer o seu site.

    O Pimentalab reserva-se ao cancelamento e término da hospedagem no caso em que a cooperação e a política de hospedagem não seja respeitada. Nestes casos, nós nos comprometemos a avisar os/as administradores/as do site com antecedência e disponibilizar todos os arquivos hospedados.

    Termo de Comprometimento de Hospedagem e de Uso

    A DESENVOLVER

    Discutimos e estamos de acordo em oferecer hospedagem conforme sua requisição.Estes são os termos de compromisso mútuo, onde explicitamos qual será nosso comprometimento com a hospedagem em questão pelo qual a parte hospedada precisa concordar para que seja possível manter tal relação.

    1. O Pimentalab reserva para si o poder de hospedar ou deixar de hospedar qualquer grupo ou indivíduo a partir dos principios e critérios éticos, politicos e práticos descritos acima.

    2. No caso de deixar de hospedar um grupo ou indivíduo, nos comprometemos a avisar a parte hospedada com antecedência e disponibilizar os arquivos envolvidos na hospedagem.

    3. Grupos e indivíduos só são hospedados se mostrarem-se dispostos a uma relação recíproca de troca de conhecimento e atividades.

    4. Criada a parceria o Pimentalab deve ser informado das ações e rumos que cada projeto toma caso possam afetar a plataforma, assim como o Pimentalab se compromete a informar a parte hospedada de qualquer coisa que venha a atingi-la.

    5. Os termos da parceria devem estar claros no sentido de um comprometimento de ambos os grupos no suporte, manutenção, e desenvolvimento dos sitios e afins que venham a ser criados por conta da hospedagem.

    6. A parte hospedada se responsabiliza pelo conteúdo do sitio, não cabendo ao Pimentalab sofrer as consequências jurídicas de conteúdo impróprio ou ilegal.

    7. As relações tem como finalidade a solidariedade no conhecimento, a complementariedade nas ações e nas trocas entre os grupos.

    8. Por não se tratar de uma relação meramente instrumental a hospedagem consiste em cooperação e não prestação de serviços.

    Procedimento de solicitação

    A DESENVOLVER

    Processo:

    1. requisição de hospedagem
    2. avaliação
    3. resposta para demanda
    4. pactuação
    5. ativação do aplicativo

    Especificações Técnicas para o funcionamento do servidor

    A DESENVOLVER

    Para promover a privacidade e da liberdade de conhecimento e expressão, elementos fundamentais para a pesquisa científica e ação social responsável junto a grupos vulneráveis ou que o envolvam a produção de informações sensíveis, nosso servidor terá como preocupação a proteção dos dados dos seus usuários e dos conteúdos hospedados.

    • Por padrão os sites hospedados possuem conexão criptografada (SSL).
    • Não registramos IPs de acesso e apenas mantemos o email que você nos deu como contato. Por esse motivo recomendamos a utilização de emails seguros que organizações que se preocupam com a sua privacidade.
    • Não compartilhamos os seus dados com ninguém! Não compartilhamos informações de usuários/as com nenhum outro grupo ou indivíduo. Não monitoraremos suas comunicações e não utilizaremos os seus dados para minerar informações, estudos ou pesquisas.
    • Por ser uma instalação Multisite do WordPress, temos como política de segurança a pré-aprovação de novos plugins e temas. Caso o tema ou plugin que você deseja não esteja disponível na plataforma, faça a solicitação através do email de contato.
    • A criação de contas de usuários no Dokuwiki e no Owncloud também está sujeita à aprovação mediante solicitação direta.

    Lista de discussão

    Recursos

    • Servidor Web: máquina já foi adquirida.
    • Ponto de Rede com IP Fixo: já temos um IP público definido.
    • Energia elétrica para alimentação: aguardando definição do DTI da EFLCH.
    • Sala segura: aguardando definição do DTI da EFLCH.
    • Bolsas para estudantes partícipes da gestão e implementação do projeto.
    • Manutenção física da infraestrutura.
    • Link de acesso à internet: quebra do link da RNP. Aguardando resolução pelo DTI.

    Protocolos utilizados como referencia para elaboração do texto acima

    https://protocolos.sarava.org/trac/wiki/Hospedagem

    https://protocolos.sarava.org/trac/wiki/Hospedagem/Politica

    https://protocolos.sarava.org/trac/wiki/Hospedagem/Termo

    https://milharal.org/politica/

    https://antivigilancia.org/pt/politica/

  • Projeto Pesquisa Pimentalab 2014 a 2016

     

    Apresentação

    Em diferentes sociedades e em cada momento histórico, podemos estabelecer relações de interdependência entre os modos de organização social, as formas de produção/difusão de conhecimentos, as tecnologias de comunicação e as formas de exercício do poder.

    Atualmente, no campo da produção/difusão de conhecimentos observamos mudanças radicais na relação com o saber, tanto na forma de acesso quanto nas próprias formas e locais de produção de novos saberes, em parte relacionadas à crescente mediação das tecnologias digitais. Simetricamente, observamos no campo político profundas transformações nos modos de ação e mediação institucional, seja na prática de grupos ativistas, movimentos sociais ou mesmo em novas individuações coletivas e modos de subjetivação política que tem emergido. Nesses dois eixos (saber-poder) há dinâmicas e problemas comuns relativos à mediação das tecnologias digitais de comunicação que nos interessa analisar.

    É nesta zona de intersecção que concentramos os projetos do Pimentalab[1][2]. Mais especificamente, o programa atual de pesquisa tem como campo empírico de investigação um conjunto de práticas científicas, organizações sociais, coletivos e movimentos sociais que atuam em temas relacionados a novos modos de conhecer e se organizar mediante a utilização das tecnologias de comunicação digital. Concretamente, observamos as práticas de: grupos tecnoativistas, comunidades hackers e ciberativistas, coletivos de mídia radical/independente, pesquisadores ativistas/militantes, iniciativas de ciência cidadã/amadora e artistas que atuam sobre a relação sociedade-tecnologia.

    Ao mapearmos e analisarmos um amplo conjunto de experiências procuramos identificar elementos que possam constituir uma gramática comum, um repertório partilhado de formas de ação, organização, modos de conhecer e princípios ético-políticos. A escolha de algumas dessas experiências, justamente pela forma como enunciam e tensionam certos problemas contemporâneos, permite-nos examinar transformações sociais que possuem amplo alcance. Para isso, nossa atenção estará dirigida para alguns aspectos que identificamos como transversais a essas experiências e que possuem modulações e combinações distintas em cada caso. Tais elementos tornam-se os vetores de análise para que possamos interrogar os novos problemas (teóricos e práticos) que surgem. Neste sentido, podemos destacar as seguintes temáticas como possíveis recortes para projetos de pesquisa mais específicos:

    • tecnopolítica: tecnologia e prática politica; modos de apropriação e uso de tecnologias; disputas sobre a dimensão sociopolítica da tecnologia e os efeitos do design incorporado; relação tecnologia e democracia.
    • reconfigurações da política: poder, ativismo, resistência e criação, movimentos sociais e sociedade de controle.
    • produção de conhecimentos situados e pesquisa ativista: ciência cidadã (amadora ou ativista); co-pesquisa; conhecimento rebelde; pesquisa participativa.
    • economia da informação e do conhecimento: trabalho imaterial, tensões sobre as políticas de acesso e difusão da informação, commons, produção entre pares (p2p) e capitalismo informacional.
    • linguagens e conhecimento sensível: visualidade, tecnologias de imagem, sociologia/antropologia visual; imagem e suas epistêmes; formas de comunicar e tornar apreensivel dimensões sensíveis do conhecimento.
    • metodologias de pesquisa e educação: co-pesquisa, experiência, prototipagem, metodologias participativas, educação democrática, pedagogia radical; educação expandida.
    • micropolítica e modos de subjetivação: modos de associação, organização e ação coletiva; poder, autonomia e crítica institucional.

    Linhas de Pesquisa

    • Tecnopolítica e Ação Coletiva: tecnoativismo, movimentos sociais e internet, comunidades hackers, ciberpolítica, sociedade de controle, acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade, economia informacional, trabalho e capitalismo.
    • Conhecimentos Situados, Modos de Organização e suas Tecnologias: modos de organização social e micropolítica; modos de subjetivação; tecnologia e conhecimento; educação expandida, ciência cidadã/ativista; educação e pesquisa.

    Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada

    • Desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais: explorar as relações entre organização, relações de poder, tecnologias de comunicação e produção de conhecimento em coletivos, movimentos sociais e organizações.
    • Metodologias para ensino, pesquisa e organização social: sociologia amadora, ensino como pesquisa, sociologia prática, educação democrática.

    Projetos de Pesquisa realizados

    Tecnopolitica e Saberes Rebeldes – 2015-2016 – Apoio Ford Foundation.

    Ciencia Aberta e Desenvolvimento Local – 2015-2016 – Apoio OCSDnet – Canadá.

    Problema Macro-Teórico

    Modos de Conhecer e tecnologias de comunicação: acesso à informação e participação distribuída; sociedade de controle e invenção democrática

    A emergencia de novas formas de produção de conhecimentos e ação coletiva através das mídias digitais é um terreno em disputa. Graças às TICS há uma combinação de: participação distribuída em redes digitais; produção infinita de dados mediante rastreabilidade de toda interação em meios digitais; convergência digital; novas informações e conhecimentos produzidos. Estamos, todavia, no contexto do capitalismo informacional e da sociedade de controle.

    A lógica da participação, presente de diversas formas na experiencia politica de diversas democracias contemporaneas, manifesta-se de diferentes formas nas práticas de produção colaborativa, seja no âmbito da ciência cidadã/amadora, como nas dinâmicas sociais cotidianas cibermdiadas. Frequentemente, porém, esta participação é reduzida ou transformada num modo de governo, forma de condução da vida (biopolitica).

    Como fator complementar, não podemos perder de vista que a mediação das TICS está muito concentrada nas mãos de corporações privadas. Recentemente, observamos como a colaboração estatal-corporativa serviu para a expansao da vigilância e gestão populacional em escala planetária.

    Da mesma forma como nos séculos anteriores vimos o surgimento de novas ciencias (epidemiologia, economia politica…) que se combinaram a novas formas de governo, hoje estamos diante de novas formas de conhecer que ensejam novas formas de governo e controle social.

    Ao delinear características que possam compor uma gramática comum a este conjunto diverso de experiências, nosso objetivo mais amplo é apreender as reconfigurações entre as dinâmicas de autonomia e resistência face às novas formas de sujeição social e servidão maquínica (Deleuze & Guattari, 2005). Indiretamente, pretendemos interrogar as possibilidades e limites para a produção de conhecimento no campo das ciências humanas através das tecnologias digitais: como delinear a tênue fronteira entre as humanidades digitais, a engenharia social, o capitalismo cognitivo e a formação da sociedade de controle?

    Sub-questões e Temas

    • Relação entre tecnologias, conhecimento e prática política.
    • Nova cultura política
    • Tecnoativistas, Tecnocidadãos: novas formas de produção de conhecimento para uma nova política?
    • Relação entre ecossistema sociotécnico de comunicação (tecnologias digitais) e mudanças no regime de produção de conhecimento e de poder.
    • Tecnoativismo e acesso à informação: dilemas da abertura, segurança e privacidade.
    • Inovação Cidadã, Participação 2.0 X Coletivos tecnoativistas: tecnologias sociais entre a captura, a resistencia e a criação.
    • Ciencia cidadã, ciencia ativista, conhecimento rebelde. Qual a cultura epistêmica desses grupos? Casos de pesquisa-social, pesquisa-militante, grupos comunitários que fazem uso de TICs.
    • Movimentos sociais e uso de tecnologias
    • Educação e tecnologia: práticas inovadoras de uso de tics.
    • Participação social, democracia digital, participação cidadã.
    • Quais os repertórios, trocas de conhecimentos, modos de organização que estão fluindo de um lado para outro, dando forma a uma nova cultura política?
    • Que novas institucionalidades estão sendo gestadas?

    Recortes teóricos

    [1] Relação entre as culturas epistêmicas (em grupos tecnoativistas e coletivos experimentais) e a emergência de novas práticas políticas e institucionais.

    Os problemas:

    • relação cultura epistemica X cultura política
    • relação tecnologia X democracia: escolhas/desenhos sociotécnicos implicam em questões políticas
    • efeitos das composições sociotécnicas (TICs) na vida social (sociabilidade, política e conhecimento).
    • relação conhecimento científico X conhecimento extra-científico: ciencia e democracia.
    • privacidade X opendata: segurança X privacidade X transparência: necessidade de maior abertura e transparencia para produzir confiança e mobilização e ter mais colaboração versus, necessidade de segurança e privacidade.
    • invisibilidade, não-compreensão da complexidade dos problemas – como tornar intelegível?
    • capitalismo cognitivo

    [2] Emergência de novos atores políticos-cognitivos

    • tecnocidadãos;
    • pesquisadores ativistas, movimentos sociais engajados na produção de contra-expertise;
    • ciencia amadora, ciencia cidadã

    Característivas:

    • mobilizar diferentes atores
    • pesquisa aberta/colaboração
    • capacidade de comunicar + sensibilizar sobre o problema
    • participação do público.
    • economia da informação voltada ao commons em detrimento da propriedade intelectual exclusiva.

    [3] Novos diagramas organizacionais, novas formas políticas e suas tecnologias

    • movimentos sociais e internet
    • tecnopolíticas e novas formas de organização social
    • democracia digital, participacionismo, inovação cidadã.

    [4] Acesso ao conhecimento e os dilemas da abertura:

    • privacidade
    • controle
    • transparência
    • capitalismo cognitivo.
    • participação como governamentalidade: novos saberes X novas formas de governo.

    Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

    1. Tecnologias Digitais e Vida Social: modos de uso e efeitos das tecnologias digitais em aspectos relacionados à interação social, sociabilidade, privacidade, intimidade, visualidades, identidade, tecnoestéticas.

    2. Ação coletiva, Movimentos Sociais e Internet: quais são os usos, as tecnologias e modos de apropriação tecnológica; quais os problemas, desafios e efeitos; tecnodeterminismo X determinação sociopolítica da tecnologia; emergencia de novos atores e práticas políticas.

    3. Ecologias de comunicação e conhecimento: como determinadas comunidades/grupos acessam informação; partilham e se organizam; efeitos da mediação técnica na organização do conhecimento local.

    4. Sociedade de Controle e tecnologias: vigilância, retenção de dados, profiling, economia de vigilância.

    5. Economia da informação e do conhecimento: novas formas de trabalho e produção de valor; propriedade intelectual; acesso ao conhecimento.

    6. Metodologias alternativas de pesquisa, ensino e organização social: tecnologia e educação; pesquisa participativa; ciencia cidadã; ciencia ativista; participação social; pedagogia radical; cultura hacker.

  • Apresentação no Departamento de Historia da Ciência do Instituto de História do CSIC

    Apresentação no Departamento de Historia da Ciência do Instituto de História do CSIC

    Post original: https://www.facebook.com/historiadelacienciacsic/posts/1660404944015568

    El miércoles 17 de enero de 2018 se celebrará una nueva sesión del seminario organizado por el Departamento de Historia de la Ciencia del Instituto de Historia del CSIC.

    En él intervendrán Angela Domingues, de la Universidad de Lisboa, que hablará sobre Nos tempos do Tratado de Madrid: fronteiras coloniais, expediçoes fluviais e representaçoes de indigenas na Amazonia de meados de Setecientos.

    Y Henrique Zoqui Martins Parra, de la Universidad Federal de Sao Paulo, que presentará la comunicación Ciencia abierta y desarrollo en Ubatuba.

    Serán presentados, respectivamente, por nuestros compañeros Miguel Angel Puig-Samper y Antonio Lafuente.

    La sesión pues tienen un carácter lusófono.

    Angela Domingues, experta en la proyección ultramarina de la ciencia portuguesa y en el Brasil colonial, es investigadora en el Departamento de Ciencias Humanas del Instituto de Investigación Científica Tropical e investigadora asociada del Centro de Historia de Alem-Mar.
    Actualmente está integrada en un proyecto de investigación que dirige Miguel Angel Puig-Samper.

    Henrique Parra es profesor doctor del Departamento de Ciencias Sociales de la Escuela de Filosofía y Letras y Ciencias Humanas en la Universidad Federal de Sao Paulo (UNIFESP). Coordina el Laboratorio de Tecnología, Política y Conocimiento (Pimentalab-https://blog.pimentalab.net/) en la UNIFESP. Forma parte de dos grupos insterinstitucionales de investigación: el Laboratorio Interdisciplinario sobre Información y Conocimiento (LIINC -http.//www.liinc.ibict.br) del Instituto Brasileiro em Información em Ciencia y Tecnología (IBICT) y la Red Latinoamericana de Estudios sobre Vigilancia, Tecnología y Sociedad (LAVITS-http://www.lavits.org).

    Realiza actualmente una estancia de investigación, con apoyo financiero del CAPES de Brasil, en nuestro Departamento bajo la supervisión de Antonio Lafuente. Esta estancia tiene como objetivo analizar las configuraciones sociales y los arreglos sociotécnicos de distintos laboratorios ciudadanos, muchos de ellos desarrollados en Medialab-Prado.

    Se puede acceder a parte de su producción científica en https://pimentalab.milharal.org/txt/
    y a su curriculum vitae en http://lattes.cnpq.br/8314245614310718

    El resumen de la comunicación que presentará Henrique Parra en el seminario es el siguiente:

    This chapter aims to present results of a case study on the possibilities and limits of open and collaborative science (OCS) in social change processes, based on the results of an action-research project developed in the Ubatuba municipality, on the North Coast of the State of São Paulo, Brazil. The question underlying our investigation was to what extent Open Science may improve forms of co-production of knowledge between academia and other social groups, and hence contribute towards improved conditions for vulnerable actors to influence development strategies. From the outset, questions arise: what development? What science? What openness and collaboration?
    The study methodology was organized along two axes – practical learning and critical research -, developed through the following actions:

    (a) promotion of open workshops, working groups, seminars, and mentoring activities, stimulating discussions about and experimentation with Open Science practices and tools with local actors;
    (b) participant observation of public meetings and activities, selected for their potential relationship with the open and collaborative production of knowledge pertaining to local development issues;
    (c) data collection for socioeconomic characterization of the Ubatuba municipality and its major development challenges;
    (d) interviews with key actors; 
    (e) social networks analysis to better understand local interactions among actors; and also 
    (f) a characterization of scientific publications related to Ubatuba as a field or object of study (authorship, institutional and field of research distribution, open and closed access to papers).

    A necessary component of the research methodology was the development of communication channels and documentation strategies, including a project wiki, website/blog, mailing lists, community radio programs and videos. In the final phase of the project we developed a prototype of a geospatial open data plataform as a result of the common problems identified to information and knowledge management by local actors, as part of an open science experiment.

  • Cultura hacker, comunidades de prática e criação política

    Cultura hacker, comunidades de prática e criação política

    Nas últimos 24hs vivi duas experiências, no uso de tecnologias digitais, que reforçam um sentimento sobre a contribuição simultaneamente cognitiva e política dos hackers. Ontem acompanhei uma oficina sobre instação de linux em tablets condiderados obsoletos; e hoje tive que mergulhar no mundo de tutoriais, wikis e fóruns para resolver um bug num arquivo de texto que quase destruiu um trabalho realizado.

    Em ambas situações, a questão do acesso ao conhecimento é fundamental. As dificuldades técnicas para vencer as limitações e bloqueios de hardware, os saberes necessários para construir programas alternativos e retomar, de alguma forma, nosso controle sobre os dispositivos que utilizamos, e minimizar os efeitos da obsolescência programada ou o poder das grandes corporações. Tudo isso só é possível porque há muita gente que luta diariamente pela direito à informação e ao conhecimento livre. Neste fazer, compreende-se rapidamente as forças em jogo e toda a economia politica envolvida na produção das máquinas e softwares que utilizamos no dia a dia.

    Neste universo, destaca-se com frequência como os hackers detém ou produzem um conhecimento e uma expertise que lhes permitem agir na contra-corrente daquilo que estava previamente “programado”. A criação de contra-saberes faz parte do desenvolvimento de contra-condutas.

    Porém, a despeito da importância dessa expertise, talvez a principal potência de sua cultura, e penso que aí reside uma inovação política, é o fato de que os objetivos que eles pretendem realizar são indissociáveis da criação e manutenção dos meios que sustentam suas ações.

    A produção de wikis, fóruns de discussão, disponibilização e organização voluntária de informações em documentação pública, é toda uma economia apoiada em valores e princípios éticos e políticos. Esse modo de conhecer e as práticas de investigação e compartilhamento que a caracterizam, também necessitam de máquinas, cabos, servidores web, aplicativos e serviços, acesso à rede etc, que funcionem sob determinadas condições para que este modo de conhecer (que é também um modo de produzir comunidade) possa acontecer.

    Em resumo, para ter acesso ao conhecimento, em especial conhecimento que “faz diferença”, é preciso criar toda uma infraestrutura e uma comunidade que a sustente. Neste caso, a ação e realização de um objetivo depende de uma prática que por sua vez apoia-se na existência de certas condições materiais e simbólicas. É um bom exemplo de como um comunidade de práticas é simultaneamente uma comunidade epistêmica e política.

    Chris Kelt fala dessa característica das comunidades de software livre em termos de uma propriedade recursiva. Ao mesmo tempo que a comunidade age para realizar seus objetivos ela vai modificando o meio em que atua para criar melhores condições para a continuidade de suas ações, ela aprender e também se modifica.

    Aqui, meios e fins são indissociáveis na prática. É por isso que gosto de pensar nessas comunidades de prática como um exemplo de uma mesopolítica. Elas atuam concretamente no cotidiano aparentemente micro da reprodução social, mas sem perder de vista a dimensão macro; uma política que se realiza “através” ou “pelo meio”.

  • Mutações e crise na universidade: experimentações com ciência cidadã (parte 1)

    Mutações e crise na universidade: experimentações com ciência cidadã (parte 1)

     

    Publico abaixo a primeira parte de um texto que está dividido em dois posts. O argumento que vou apresentar está assim dividido: 1. a universidade pública e o campo científico estão passando por profundas transformações e por uma crise de reconhecimento social e legitimidade política. Nesta crise, para além das dinâmicas externas (política, economia etc) ao campo universitário e científico  é necessário analisar as próprias dinâmicas e mutações do regime de produção e difusão de conhecimentos e suas práticas institucionais. 2. experiências de ciência cidadã, ciência aberta e laboratórios cidadãos podem contribuir para a criação de novas interações entre o campo científico e o mundo extra-acadêmico, criando relações sinérgicas entre sociedade-ciência-universidade.

     

    foto: Daniel Leal-Olivas (AFP)

    ***

    Experiências de contraste nos ajudam a ter ideias inesperadas e a tornar visível dimensões não exploradas de problemas comuns. Nas últimas semanas acompanhei pela imprensa eventos preocupantes que afetam diretamente o financiamento, os direitos dos trabalhadores e a reputação das universidades públicas e ao sistema brasileiro de produção científica [1]. Ao mesmo tempo, na contra-corrente deste processo, participei de um seminário sobre Ciência Cidadã no Medialab-Prado [2] que reuniu uma diversidade de formas inventivas de interação entre a pesquisa científica e o mundo extra-científico.

     

    Parte 1: mutações e crise da universidade e do campo científico

    Além dos cortes no orçamento público federal destinados à Ciência, Tecnologia e Inovação, e da drástica redução de recursos para as universidades públicas federais, acompanhamos neste ano uma investida do judiciário, polícia e mídia contra universidades brasileiras de reconhecida reputação. Reitores, professores ou técnicos sofreram com o abuso da aplicação de medidas coercitivas autorizadas pela justiça e realizadas de forma espetacular pela polícia federal, ferindo direitos fundamentais de um regime democrático. No momento atual, não paramos de nos surpreender com as novas bordas de aplicação da nossa democracia autoritária, onde os mecanismos do estado de exceção nunca deixaram de operar (veja o trabalho de Edson Teles).

    Neste mesmo ano, editoriais de grandes jornais retomam seu habitual argumento contra o financiamento público e pela cobrança de mensalidades nas universidades públicas brasileiras. Mais recentemente, um relatório do Banco Mundial (cuja qualidade metodológica da investigação foi amplamente questionada – veja artigo de Tatiana Roque e Hedibert Lopes) adiciona mais elementos na disputa discursiva e política sobre o futuro do ensino superior brasileiro. Nas universidades privadas observamos ainda a tentativa de aplicação da nova lei trabalhista para realizar demissões em massa e para em seguir fazer novas contratações precárias. Em algumas instituições o número de professores demitidos seria superior a 1000 docentes.

    O que mais impressiona neste período é a intensidade e a velocidade em que o desmonte é feito: “o golpe vem a galope” (aqui também). Diferentes processos que afetam o campo científico e o ensino público superior, independente de uma causalidade coordenada ou não, acabam por gerar efeitos de reforço mútuo no atual contexto. Isso é suficiente para aumentar nossa preocupação. A situação vivida pela UERJ é um duplo escândalo: o abandono do governo de uma importante instituição de ensino e pesquisa, e a frágil ação política e solidária do meio acadêmico no apoio à luta dos professores, funcionários e estudantes.

    Cortes nos investimentos em ciência e educação indicam mudanças nas estratégicas de desenvolvimento nacional, nas políticas de expansão do ensino superior e de inclusão de novos estudantes, mas também refletem o resultado de uma forte disputa sobre o mercado do ensino superior, que no Brasil representa um recurso com elevado potencial de exploração econômica.

    Mas há outros processos em curso. Não podemos ignorar que as dinâmicas de produção, acesso e apropriação da informação e do conhecimento transformaram-se radicalmente nas últimas décadas, assim como a interpenetração entre ciência, tecnologia e economia. Há mudanças na centralidade, no regime de autoridade do conhecimento científico e no relativo monopólio sobre a produção e difusão de determinados conhecimentos que antes eram de quase exclusividade universitária. Hoje, deparamo-nos com novas formas de certificação e de validação dos saberes, com a emergência de contra-expertises, expansão dos movimentos de acesso aberto ao conhecimento científico e multiplicam-se os atores cognitivos relevantes que disputam a interpretação do “real e verdadeiro”. Observamos novas dinâmicas de corporatização e expansão dos regimes de propriedade intelectual sobre a pesquisa científica, crescimento do ensino à distância, surgimento de institutos de formação superior criados por empresas privadas que demandam profissionais com conhecimentos específicos, e também o crescimento das grandes corporações transnacionais e redes de ensino superior privado. Expansão do acesso à universidade publica no Brasil, com novos públicos adentrando o ensino superior, mas também a ampliação do ensino superior privado mediante políticas de subsídio e financiamento para as universidades e estudantes. Em resumo, são muitas as transformações estruturais nesta área.

    Essas transformações infraestruturais relacionam-se também a mudanças radicais na forma como organizamos, classificamos e disponibilizamos o acervo de conhecimento produzido. As formas de armazenamento, indexação, circulação e acesso são muito distintas, dando forma a novas políticas e economias da informação, do conhecimento e da memória. O lugar ocupado pelas universidades, escolas, arquivos, bibliotecas, museus, centros de pesquisa e memória estão em plena mutação.

    Nesses movimentos tectônicos, sobre as quais as universidades se equilibram, as instituições de ensino superior brasileiras parecem não gozar do reconhecimento social e da legitimidade política que corresponderia às suas realizações na pesquisa e na formação de milhares de estudantes e cientistas. Este problema não é especifico do Brasil.

    Mesmo em algumas sociedades onde a cultura científica tem maior presença e capilaridade social, os diversos atores que compõem o campo científico e universitário tem tido dificuldades para se organizar politicamente e mobilizar a opinião pública para impedir os cortes no financiamento e o processo de desmonte dos sistemas nacionais de ensino e pesquisa. Limitação similar se manifesta na dificuldade para implementar nas políticas públicas alguns consensos científicos (sempre provisórios) que apontam para outros modelos de desenvolvimento. Basta pensar na política ambiental, saúde coletiva, política urbana, segurança alimentar etc.

    A emergência de campanhas como a “Marcha pela Ciência” nos Estados Unidos e no Brasil é um exemplo dessas lutas reativas. No caso da edição brasileira de 2017 o engajamento de organizações científicas, pesquisadores e professores universitários foi muito pequeno e sua repercussão política foi ínfima. As razões para essa desmobilização interna ao campo e para a dificuldade de sensibilização dos públicos concernidos são várias.

    Para superação desses problemas não é suficiente que a universidade e seus múltiplos atores olhem apenas para as dinâmicas externas ao seu campo e suas instituições. Insistir em teses conspiratórias ou excessivamente ideológicas que tendem a criar uma narrativa coerente onde a universidade está colocada no centro passivo de um plano de ataque é insuficiente. Equivoca-se também ao dar unidade e coerência a uma arena de conflitos que é muito complexa. Mas o maior problema, nessa perspectiva, é ignorar a forma como a própria dinâmica institucional, nossas práticas científicas e acadêmicas, as dinâmicas de produção, formação e difusão do conhecimentos participam da construção dessas transformações e dos problemas descritos. Em suma, é hora de habitarmos este problema e fazê-lo nosso também.

    Que relações podemos estabelecer entre a crescente institucionalização e profissionalização do campo científico e do ensino superior com as dinâmicas que fortalecem ou enfraquecem o reconhecimento social e a legitimidade da ciência e do ensino superior?

    Foi graças à construção de uma autonomia (sempre relativa) do campo científico e universitário que obtivemos o desenvolvimento de muitas áreas do conhecimento, novas ciências, tecnologias e práticas em diversos campos da vida. Ao mesmo tempo, em que medida este mesmo processo compõe uma arquitetura que produz formas de relação instrumental ou subordinada com o mundo extra-acadêmico (numa via de mão dupla) e dificulta a possibilidade de trocas sinérgicas entre ciência, universidade e sociedade? Que dinâmicas institucionais, que formas de produção de conhecimento e que modos de relação podemos fomentar para transformar essa situação atual?

    Não se trata de tentar restabelecer a centralidade ou exclusividade da universidade sobre a produção e difusão de determinados saberes, ou mesmo de reafirmar uma certa ideia de autonomia do campo (científico e universitário). Afinal, foi justamente a partir deste desenho que acompanhamos a corporatização-privatização do conhecimento, a hegemonia da tecnociência, o enfraquecimento de algumas áreas no conhecimento consideradas inúteis ao desenvolvimento econômico, a perda de relevância e influência política da ciência no debate político e a penetração da lógica competitiva e utilitária em quase todas nossas práticas de conhecer. Não é coincidência que esta dinâmica produza também um modo de ser professor, estudante e pesquisador que hoje concentra elevados percentuais de problemas de saúde mental.

    Necessitamos de outros sentidos para a experiência universitária que afirmem sua especificidade. Habitar a crise que vivemos e produzimos exige que pensemos mais em termos de interdependência entre diferentes campos sociais, práticas e modos de conhecer. Como fazer conviver uma ciência pública com uma ciência comum? Como fazer cohabitar um conhecimento “para todos” e um conhecer “entre todos”?

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Os post publicados estão todos disponíveis neste link: https://pimentalab.milharal.org/category/diario-madrid/

    Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

  • Sentidos de um laboratório cidadão, por Antonio Lafuente

    Sentidos de um laboratório cidadão, por Antonio Lafuente

    Em setembro dei uma entrevista para a Revista FAPESP, falando sobre ciência cidadã e aberta, relatando nossa experiência com o projeto Ciência Aberta Ubatuba. O Antonio Lafuente também foi entrevistado, mas preferiu enviar suas respostas por escrito para o jornalista (Bruno de Pierro). Na reportagem apenas uma pequena parte do que falamos (como é habitual) entra no texto final. Mas o Antonio acabou disponibilizando na internet o texto que escreveu para a entrevista. Numa das respostas achei uma definição interessante, dada sua amplitude e clareza, para a noção de laboratório cidadão. Transcrevi e traduzi abaixo este trecho:

    Revista FAPESP: O que são os Laboratórios Cidadãos? Há algum exemplo notório dessa iniciativa no mundo?

    Antonio Lafuente:  Um laboratório cidadão é um espaço de produção aberta do conhecimento.
    É um lugar capaz de acolher um coletivo heterogêneo de atores que almejam dar forma a um entorno social. É portanto um lugar onde nos obrigamos a identificar uma problemática, documentá-la, isolar suas características mais notáveis, contrastar os distintos pontos de vista, explorar as diferentes formas de abordagem, extrair conclusões e comunicar as descobertas, dúvidas e fracassos. Aqueles que a integram se autoconfiguram como uma comunidade de aprendizagem aberta a toda variedade de atores e a toda pluralidade de pontos de vista. De forma que sua primeira tarefa é encontrar uma linguagem comum, ou seja, um espaço que torne possível a conversação sem que ninguém imponha seu ponto de vista e sem que ninguém tenha o poder de fechar/bloquear um tema porque considera que já se discutiu o suficiente.

    Um laboratório cidadão é, portanto, um espaço para aprender a viver juntos: uma incubadora de comunidades. Um laboratório cidadão é um espaço, por antonomásia, para a política experimental, pois sendo hospitaleiro com as minorias e tratando-as como sensores de aviso antecipado de problemas porvir, estaríamos encontrando respostas situadas e inclusivas para assuntos todavia incipientes e talvez mais frequentes, gerais ou agudos no futuro.

    É um laboratório porque aposta na cultura experimental, no contraste de pontos de vista, nas práticas abertas e na comunicação pública. É cidadão porque confia na inteligência coletiva e outorga maior dignidade cognitiva ao experiencial, o que é o mesmo que dizer que um laboratório cidadão nunca dividirá o mundo entre os que sabem e os que não sabem.

    As práticas do laboratório cidadão são realizadas entre todos e, consequentemente, dá-se forma a bens comuns. Eu gosto de especular a ideia de que sempre que há um bem comum é necessário que haja um laboratório que o sustente e que é sustentado por ele. Como o procomúm poderia sobreviver a impérios, autoritarismos, neoliberalismos e a circunstâncias tão hostis não fosse pela comunidade que o sustenta (e que é sustentada por este comum), que nos dão provas constantes de saber adaptar-se e de interpretar corretamente os signos externos?

    Criar e sustentar um bem comum demanda muito conhecimento, muita capacidade de análise ou, em outras palavas, um laboratório cidadão plenamente operativo. Mas vejam, plenamente operativo não quer dizer que necessite de um edifício, um chefe, um regramento estrito ou uma maquinaria sofisticada. Não é nem necessário, como é o ordinário, saber que é um laboratório cidadão. O que importa é que se dê uma pequena infraestrutura capaz de dar forma a sua vontade de querer (sobre)viver, que o ajude a converter o protesto em propostas, o experiencial em conhecimento contrastado e as pequenas infraestruturas em garantidoras do seu direito à diferença.

    Há exemplos? Muitos e em todas as partes. Diga-me um bem comum e te mostrarei um laboratório cidadão! Mas também, vale a equação inversa: dê-me um laboratório cidadão e construirei um bem comum. Os grupos de Alcoólatras Anônimos, talvez sem sabê-lo, seriam um laboratório cidadão que estaria iluminando uma maneira distinta de nos relacionarmos com o corpo, uma corpo tal que conversa com termos distintos, que evoca diferentes experiências: um corpo comum. Em Madrid, como em muitas outras cidades do mundo abundam as hortas urbanas, muitas vezes nascidas em espaços ocupados e mais tarde legalizados. O que está acontecendo, o que significa isso? Para mim, são laboratórios cidadãos onde se está experimentando outras formas de habitar a cidade, distintos modos de nos conectarmos que não estejam mediados (o determinados) pelo consumo, pelo valor ou pela utilidade. Estamos, entre todos, dando forma à ideia de que uma cidade são suas relações e não suas construções. Estamos reinventando a cidade como um espaço comum. Temos dado diferentes nomes a esses movimentos e mobilizações, como urbanismo-beta, urbanismo-feito-a-mão, urbanismo-faça-você-mesmo. Todos têm em comum a vontade de fazer coisas juntos, de disputar com os urbanistas sua hegemonia sobre a urbe e, enfim, de mostrar que outro mundo é possível: será vulnerável, será transitório, será esporádico,….mas será de todos e de ninguém ao mesmo tempo. Sua fragilidade é o que tem de amoroso, como também sua transitoriedade, este não estar quieto, ou seu querer devir outra coisa, é o que o a faz habitável. Sua natureza intermitente ou efêmera também pode ser vivida como uma proteção face às formas identitárias de nos agruparmos, sempre tão atrativas ao princípio como coercitivas para aqueles que querem discordar ou ser diferentes.

     

  • Sobre “Arte em Fuga” de Joana Zatz Mussi

    Sobre “Arte em Fuga” de Joana Zatz Mussi

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

    7 de dezembro de 2017.

    Participei por  videoconferência da banca de defesa de doutorado da Joana Zatz Mussi. O título da sua tese – Arte em Fuga. A banca foi composta pela orientadora Vera Pallamin e demais examinadores Celso Favareto, Silvia Viana, Pedro Cesarino. Transcrevi abaixo as notas da minha arguição. Muito em breve a tese estará disponível online, recomendo a leitura do trabalho da Joana!

    Quero agradecer ao convite da Joana Zatz e de sua orientadora Vera Pallamin para participar dessa banca, e pelo esforço organizacional para viabilizar a arguição à distância. Avisei a Joana que isso implicava em alguns riscos para a realização da banca, mas ela estava confiante de que tudo correria bem e seguimos com a proposta. Agora, ouvindo a Joana apresentar a tese e vendo os colegas ai do lado, apesar da distância, sinto-me muito próximo, ouvindo vocês de pertinho.

    Recebi e li a tese da Joana na versão digital. A versão impressa enviada pelo correio ficou retida na anfandega espanhola. O instituto de pesquisa onde estou trabalhando recebeu 4 notificações de urgência alertando sobre um material (não descrito) destinado a mim que fora retido no aeroporto. Como eu não tinha certeza do se tratava, nem tinha recebido qualquer informação de quem era o emissor do pacote (a anfandega nao dizia isso), achei melhor não ir buscar a encomenda e fiquei apenas com a leitura digital. Mas de volta ao Brasil quero sim a versão impressa da tese.

    É muito bom quando podemos acompanhar o desenvolvimento de um trabalho de pesquisa. Parcipei da banca do mestrado da Joana há alguns anos, e agora, vejo um novo trabalho que segue aprofundando e dando mais consistência para suas práticas e criações. Esta tese, neste sentido, delinea muito bem o próprio percurso da Joana.

    Sua forma de produção de conhecimento e seu prática como pesquisadora, artista e ativista estão muito bem sintonizadas. A redação da tese e estrutura escolhida destacam alguns elementos que atravessam todo seu percurso: a tensão entre arte-política, uma certa concepção de espaço e território, a centralidade do corpo e sua dimensão experiencial, a tensão entre instituição e o seu fora; as relações com a cidade.

    Esses elementos são abordados de uma perspectiva teórica bem específica. As escolhas da Joana inscrevem o seu trabalho numa rede de filiações teóricas e políticas, uma família não-sanguínea de autores: Foucault, Deleuze, Agamben, Lefefbre, Harvey, Comite Invisível, Rolnik, Lazaratto, Ranciére e agora Laval e Dardot, entre outros. São todos autores que, apesar de suas diferenças, proporcionam uma certa mirada sobre as dinâmicas de composição do social, sua estética e sua política, e cuja interpretação está implicada numa certa proposta de intervenção no mundo. Mas há tensões importante entre eles tambem.

    O trabalho da Joana (pesquisa, pratica artistica, ação politica) faz esse entrelaçamento de forma imanente, realizando na sua própria prática um pouco daquilo que esses autores também apontam como modo de conhecer e agir. Ela realiza um modo de conhecer através de uma pesquisa-situada, uma pesquisa-implicada (que significa um outro modo de relação entre aquele que investiga e o mundo) que envolve também uma articulação entre o processo de investigação e sua forma de visibilidade. Portanto, movemo-nos dentro de uma certa episteme e de uma certa comunidade de práticas.

    E este modo de conhecer mobiliza um vocabulário que atravessa toda a escrita da tese. São palavras-conceitos importantes: limiar, desvio, corpo, experiência, fabulação, imaginário, prática, minoritário, espaço, vulnerabilidade, local, comum, superfície, vida cotidiana…

    No atual contexto político que vivemos, esse trabalho procura criar um caminho alternativo à configuração hegemônica dos modos de se fazer política. As formas de produção de maioria, os mecanismos de pensamento identitário e de criação de oposições binárias, as formas de disputa macropolítica, são exatamente as dinâmicas que Joana procura evitar. O jogo que ela propõe (e sua rede de autores e de praticas a que ela está vinculada) é totalmente diverso. Este plano (ou superfície) em que a Joana se move tem outras preocupações.

    Ainda assim, estamos todos num mesmo planeta (ainda que dentro dele caibam muitos mundos, e essa possibilidade de existência diversa é inclusive parte da luta). Mas isso significa também que essa forma de ação política não está completamente isolada daqueles outras dimensões.

    Suas perguntas: como criar e sustentar outros modos de existência? como transformar os regimes de sensibilidade e percepção? como se relacionar com o instituído e abrir as brechas para o instituinte? Como provocar acontecimentos? Como criar situações insurrecionais? Como articular a existência cotidiana com a produção do novo?

    São todas grandes pesguntas, e sua tônica aponta sempre para o “como fazer”, ao invés do habitual “o que fazer?”. Criação de ações conjuntas, experimentando e acompanhando formas de produção de novos corpos coletivos, cuidando, provocando outras sensações e imaginações, Joana seleciona um conjunto de práticas “minoritárias”, ações de “desvio” que compõem uma ampla rede de situações micropolíticas. Como fazer proliferar e crescer essa rede? É outra pergunta que ela lança.

    Parece-me todavia, que já não podemos nos concentrar exclusivamente em um dos pólos da situação. Assim como já não é suficiente pensarmos em termos exclusivamente macropolíticos ou micropolíticos. Estamos vivendo um momento crítico que exige muita imaginação e ação prática experimental, e sobretudo uma capacidade de construir pontes, de pensarmos em termos de interdependencia, mais do que em independencia/autonomia, de ultrapassarmos os bloqueios colocados por uma certa concepção geográfica e de escala (microXmacro, localXglobal). Se podemos facilmente reconhecer o fracasso da política instituída e do modos atual de governo (sistemas da democracia representativa do estado-nação), também me parece importante reconhecer os limites das práticas alternativas que são experimentadas há pelo menos 30 anos. Só o chamado ciclo das lutas anticapitalistas ou alter-mundialistas do pós-Seatlle já tem quase 20 anos. E neste período muita coisa aconteceu. Em certo sentido, a sensação que tenho é de que houve uma aceleração e intensificação das crises (ambiental, política, subjetiva…) que há 20 anos já estavam em nosso horizonte.

    Por isso, a proposta de pensarmos e praticarmos uma mesopolítica, uma política do “meio” (par le millieu), uma política do “entre”, exige outras composições, outras imaginações e práticas que provoquem uma outra partilha do sensivel. O trabalho da Joana aponta algumas experiências, práticas, tecnologias de ação e organizaçao que podem ajudar a compor um repertório dessas outras formas de luta. Porém, esta dimensão “mesopolítica” do comum está mais nas entrelinhas do seu trabalho. Talvez, essa articulação que estou propondo seja apenas uma mudança na topografia selecionada pela Joana, pois de certa forma essas coisas já estão lá, mas também poderia ser um possível desdobramento do trabalho atual.

    Vou lançar agora duas questões, provocações para pensarmos juntos, a partir de alguns elementos do seu trabalho que ajudam a evidenciar essa tensão que estou falando. Selecionei 2 tensões onde vejo uma possibilidade de explorarmos outras composições através de uma política do “entre”:

     

    1. Tensão entre a dimensão da vida cotidiana e a dimensão do acontecimento.

    As práticas que vc realiza e investiga destacam os mecanismos de reprodução do “sistema” no interior da própria vida cotidiana. Por isso, a importancia dada à produção de outros modos de existência que promovam outros mundos possíveis.

    Você fala da arte (da arte-política) como esta prática capaz de “traduzir a própria vida cotidiana em forma de ação insurrecional”. A dimensão do “acontecimento”, nesta perspectiva, está ligada a uma certa imagem de “insurreição”. As citações que você utiliza do Comitê Invisível reforçam essa interpreção.

    Porém, quando se pensa numa política do cotidiano, o foco desloca-se do “extra-ordinário” para o “ordinário”, para o comum, para aquilo que ocorre na existência de todos, entre-todos, o aparentemente banal. Neste sentido, uma intervenção no âmbito desta política objetiva criar as condições e os meios de sustenção para uma outra condição de existência.

    O problema da insurreição é outro, o foco da ação está direcionado à produção de uma situação inesperada, insustentável. É ultrapassar um limiar.

    Portanto, não seria mais adequado interrogarmos esse imaginário insurrecional? Uma vez que ele parece dar sobrevida a uma certa “imagem do pensamento”, uma imagem de mudança social ou de revolução que acaba por inscrever essa prática política no tabuleiro que ela pretendia escapar?

    Diz o Comite Invisível: “não vão nos obrigar a governar”. Ou, como dizia o MPL, a revolta popular como tática.

    De uma duas, ou abandonamos essa imagem da insurreição/revolução para dar lugar a outras políticas, ou partimos da possibilidade desses momentos e, portanto, temos que levar isso a sério e assumir as suas consequências. Em suma, se aceitamos pensar na insurreição não podemos nos furtar de pensar nos nas forças que a produzem, e sobretudo, não podemos deixar de pensar no dia seguinte. Como vamos viver juntos? É outra pergunta que atravessa a tese.

    Ou, alternativamente, podemos sim abandonar essa imagem da insurreição e nos dedicamos à construção de uma política cujo foco estaria na produção de comunidades (não-identitárias), de suas instituições, das suas tecnologias, e dos meios de vida que dão suporte a um outro mundo comum, sem nos submeter àquela imagem de insurreição/revolução. Assim, como habitar os limiares?

    Como você pensa essas questões a partir dessas práticas que analisa?

     

    2. Tensão entre produção de subjetividade e a produção material.

    É um problema importante porque você articula produção simbólica, sensível, a fabulação, com a produção da cidade, com os corpos e com toda a materialidade que isso implica. O simbólico e o material não estão separados. A cultura e a técnica não está dissociadas; a natureza e a cultura não são instâncias separadas (essas composições são parte do referencial teórico que você adota).

    Pensemos na situação que você descreve sobre o teatro do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos. É uma relato trágico. Ainda que eles tenham sido capazes de ressignificar e politizar o processo, de criar uma mobilização política que impulsionou uma nova forma de patrimonio imaterial no plano diretor da cidade, a força dos poderes instituídos foi/é muito violenta. Não se trata se pensar aquela situação como uma derrota. A luta deles provoca transformações importantes que continuam reverberando.

    Ao mesmo tempo, como não pensar na cidade que produzimos todos os dias? Pegando o exemplo do teatro, como pensar a resistência aos processos de gentrificação que nos ultrapassam, quando nós somos também partícipes das mutações desse território?

    Novamente, como pensar as condições de produção e sustentação do ambiente que abriga essas experiências políticas? Parece-me importante pensar (retomando a questão anterior), quais são as infraestruturas, as práticas, os protocolos que necessitamos para dar sustentação, resiliência aos modos de vida que desejamos propagar.

    Numa citação do Comitê Invisível eles falam sobre a política feita de ferro e cimento. Contra um muro o que pode ser feito? Eles respondem: destruí-lo ou pixá-lo. Convenhamos, são duas ações que provocam efeitos muito distintos no mundo.

    Em uma das falas de um entrevistado (Eugenio) do NBD, ele aponta os limites da forma público-estatal. O teatro tinha uma dimensão pública, mas isso não foi suficiente. Mas de repente, nos damos conta que o público-estatal, lá no fundo, coincidia com o privado-corporativo. E o teatro veio abaixo. E aí, ele fala da importância de pensarmos o teatro enquanto um comum.

    Nessa perspectiva, como voce imagina as técnicas, os procedimentos, as tecnologias de produção do comum? Pergunto isso, por que no caso do projeto de vocês com os secundaristas, sua análise foco mais na reflexão sobre os resultados do percurso, e menos nas práticas que foram desenvolvidos para tornar o projeto possível: quais os modos de escuta, os modos de interação e estar juntos; os modos de pertencimento…Mas como voce argumenta pela importância do processo, seria importante destacar como foi a relação com a instituição, com o MASP, como foi a relação com as escolas? Com os coletivos de estudantes? Quais os conflitos e as formas de resolução encontradas? Como você pensa que essas práticas analisadas relacionam-se com esta dupla articulação material-simbólica na produção de outros “dispositivos” capazes de dar sustentação a essas novas práticas? Acredito que as técnicas, os procedimentos, as soluções encontradas por vocês nesse percurso, são um repertório importante de tecnologias de pertencimento, de tecnologias de produção do comum, por isso, seria interessante descreve-las e torna-las mais visíveis.

  • A política do comum e do protótipo. Duas alternativas ao mal-estar contemporâneo

    A política do comum e do protótipo. Duas alternativas ao mal-estar contemporâneo

    Entrevista com Henrique Parra por: Patricia Fachin | 27 Novembro 2017

     

    O mal-estar do sistema político, sentido em diversos países, é consequência do “modo de existência contemporâneo”, que “é dependente de grandes arranjos sócio-técnicos cuja possibilidade de governo nos escapa”, especialmente em áreas que são fundamentais, como a produção de energia, o abastecimento de água, o sistema de saúde, o sistema financeiro, diz o sociólogo Henrique Parra à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

    Outros fatores que geram esse mal-estar, diz, são a “corporatização e financeirização do Estado”, que é um “vetor de subordinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle das grandes corporações”, e o fato de que as “nossas instituições se tornaram incapazes de produzir canais de mediação e tradução dos conflitos complexos que temos”.

    Para superar a crise do sistema político, sugere, “precisamos experimentar e inventar formas de governo à altura dos problemas que temos diante de nós”. Como alternativa, o sociólogo aposta em um modelo político que seja fundamentado numa “política do comum” e numa “política do protótipo”. O comum, explica, “oferece uma ética e uma prática que se contrapõem à expansão do modo de existência neoliberal. Onde a ordem neoliberal diz: mais competição, o comum é cooperação; mais independência, o comum é interdependência; mais autorregulação do mercado, o comum é o autogoverno pelos cidadãos; mais propriedade exclusiva, o comum reivindica mais bens comuns de posse e uso coletivo; onde o neoliberalismo diz mais investimento de si, o comum é cuidado e corresponsabilidade…”.

    Nesse sentido, explicita, o comum, “como relação, é o ‘entre’, é aquilo que produzimos entre todos, o que é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém. É outro regime de participação e de partilha. O comum é parte da produção e sustentação da vida (a linguagem, o cuidado, mas também o ar, a água, o conhecimento…)”. A atual dificuldade acerca de uma política do comum, diz, é como torná-la institucional. “Agora, outro problema é como a ‘política do comum’ se traduz em termos institucionais. Neste sentido, se tomarmos os exemplos acima, a política do comum pode se manifestar como a luta para inscrever nas instituições existentes os marcos regulatórios e protetivos deste comum ameaçado. Mas, o que são as ‘instituições do comum’, é um ótimo problema teórico e político que estamos todos investigando”.

    Parra também tem trabalhado com a noção de “protótipo”, a partir de suas recentes pesquisas junto aos “laboratórios cidadãos”, que atuam na Espanha. Partindo dessa ideia, avalia, seria possível buscar uma alternativa à crise política e um outro tipo de participação social, baseada em processos e não mais em ações reivindicativas que seguem um único modelo. “Os ativistas de movimentos e centros sociais a partir de um certo momento (seria interessante investigar essa genealogia) passam a falar de suas ações em termos de ‘hipóteses’. Ao invés de afirmar um grande plano estratégico, eles lançam hipóteses (hipótese 15M, hipótese ocupa…), as quais precisam ser examinadas, investigadas na prática. Muitas vezes, a maneira de verificar, testar essa hipótese é através de um protótipo. Ou seja, em vez de uma ação apenas reivindicativa, os movimentos passam a criar protótipos de soluções para os problemas que querem denunciar. No caso das iniciativas dos laboratórios cidadãos, a noção de protótipo tem outro contorno. O foco está mais no processo do que no resultado; o protótipo está mais orientado para a aprendizagem e para a produção de comunidades. Em certo sentido isso também acontece nos coletivos ativistas, porém neste último o protótipo tem um caráter mais instrumental, pois será desenvolvido visando um determinado impacto”.

    Na entrevista a seguir, Henrique Parra também comenta a atual situação política da Catalunha e o seu processo separatista da Espanha. “Até agora, quem está colhendo os melhores resultados na Catalunha, mas principalmente no governo Espanhol, são os partidos e grupos mais conservadores. As inovações políticas do ciclo 15M e suas novas institucionalidades experimentadas (iniciativas municipalistas, redes de participação local e direta, as confluências…) são, a meu ver, o principal alvo de ataque deste conflito”, resume.

     

    Henrique Z. Parra é graduado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Sociologia pela mesma universidade e doutor em Educação pela Universidade de Campinas – Unicamp. É professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp e atualmente realiza pós-doutorado no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, no Rio de Janeiro, e no Instituto de História do Conselho Superior de Investigações Científicas – CSIC, em Madrid, Espanha [1].

    Confira a entrevista.

    IHU On-Line – Hoje fala-se muito, em todas as partes do mundo, da crise política. Como você compreende essa crise? Quais diria que são as razões da atual crise política que se manifesta em vários países?

    Henrique Parra – O atual sistema político está fazendo água por todos os lados. Sentimos este mal-estar em diversos países. Dentre os vetores desta crise destacaria:

    1) Nosso modo de existência contemporâneo é dependente de grandes arranjos sócio-técnicos cuja possibilidade de governo nos escapa (produção de energia, abastecimento de água, sistemas de saúde, finanças, produção científica e tecnológica etc). São grandes máquinas que atravessam desde os mínimos detalhes da vida cotidiana e que se conectam com dinâmicas transnacionais. Como democratizar aquilo que se apresenta como infraestrutura da nossa existência?

    2) Corporatização e financeirização do Estado é outro vetor de subordinação da política e erosão da dimensão pública e comum das instituições democráticas aos imperativos das finanças internacionais e ao controle das grandes corporações. Como desprivatizar o público e submetê-lo ao autogoverno dos cidadãos?

    3) Nossas instituições tornaram-se incapazes de produzir canais de mediação e tradução dos conflitos complexos que temos; há sérios problemas de participação e deliberação. Diante da multiplicidade das forças em jogo, o modelo atual de governo opera pela extrema redução a conflitos binários que só favorecem quem controla o tabuleiro, esvaziando ainda mais o campo da política.

    Em alguns lugares observamos, ainda que de forma pontual, experimentos interessantes de inovação institucional: democracia por sorteio, mecanismos de democracia direta, jurados cidadãos para controvérsias de grande impacto social, processos legislativos abertos e colaborativos, entre outros. Precisamos experimentar e inventar formas de governo à altura dos problemas que temos diante de nós.

    IHU On-Line – Como você percebe a crise política desde Madrid, onde reside atualmente? Pode nos falar um pouco sobre a atual situação política no país, especialmente sobre o processo de independência da Catalunha? Quais diria que são as vantagens e as desvantagens da separação?

    Henrique Parra – Estamos diante de um desastre. Até agora, quem está colhendo os melhores resultados na Catalunha, mas principalmente no governo Espanhol, são os partidos e grupos mais conservadores. As inovações políticas do ciclo 15M e suas novas institucionalidades experimentadas (iniciativas municipalistas, redes de participação local e direta, as confluências…) são, a meu ver, o principal alvo de ataque deste conflito. Seja pelo independentismo de alguns setores da Catalunha, seja pelo nacionalismo mobilizado pelo governo Espanhol, vemos como a imagem da soberania se transforma numa armadilha para a experiência política que emergia do 15M. O mundo atual exige que pensemos em termos de interdependência, como vamos viver juntos? Como fazer para que a experimentação municipalista e as formas de participação popular abram outros horizontes de governo e democracia no interior e para além do estado nacional, sem reproduzirmos a forma-Estado noutras escalas?

    IHU On-Line – Especificamente na Catalunha, parte da população é favorável à separação, mas parte não. Como, por via da política, seria possível resolver esse tipo de conflito?

    Henrique Parra – Com Política, ou seja, enfrentando a questão de como vamos coletivamente decidir sobre os assuntos que dizem respeito a todas e todos que habitam um mundo comum. As nações, já sabemos, são sempre imaginadas e fabricadas. O crescimento do independentismo Catalão e o fortalecimento do nacionalismo Espanhol são simétricos neste percurso recente. Neste conflito, o esforço de produzir maiorias submetidas ao cálculo de governo sob uma lógica eleitoral cria, na realidade, grandes minorias excluídas. Os mecanismos identitários se fortalecem, a base conservadora se expande com maior velocidade e o conflito social se dicotomiza. A lógica amigo-inimigo destrói o tecido social e esvazia a possibilidade de construção política. Neste cenário, quem tem levado a melhor são os setores mais reacionários, em toda parte. Esta fórmula é explosiva, por isso estamos à beira do abismo.

    IHU On-Line – Em suas análises sobre política, você recorre com frequência ao conceito de “comum”. Por que esse conceito é importante na análise política e que autores são referência para você pensar sobre o comum?

    Henrique Parra – O comum oferece uma ética e uma prática que se contrapõem à expansão do modo de existência neoliberal. Onde a ordem neoliberal diz: mais competição, o comum é cooperação; mais independência, o comum é interdependência; mais autorregulação do mercado, o comum é o autogoverno pelos cidadãos; mais propriedade exclusiva, o comum reivindica mais bens comuns de posse e uso coletivo; onde o neoliberalismo diz mais investimento de si, o comum é cuidado e corresponsabilidade… É o caminho do “entre-todos” (diversamente do “para todos” público-estatal), é prático e cotidiano; é corpóreo, afetivo e também maquínico. Em suma, é uma cosmopolítica: alimenta outro imaginário social, atravessa práticas concretas e depende da existência de uma comunidade que seja corresponsável pela sua produção e manutenção.

    O Comum como relação

    Esta noção é, todavia, vaga e adquire contornos distintos conforme a filiação teórica. Meu primeiro contato foi através da produção da Elinor Ostrom e no debate sobre economia política informacional (Yochai Benkler, James Boyle e outros). Neste caso, o comum é “commons“, “bem comum“, um recurso que pertence a uma comunidade e cujo usufruto é coletivo. Mas quem fisgou minha atenção para a força desta noção foi mesmo Antonio Lafuente, físico e historiador da ciência, que aborda o assunto na tradição do “procomún“. O prefixo “pro” denota a necessária existência de uma comunidade que promova e sustente o comum, sem a qual ele não existe. Nesta direção, o comum é sempre relacional, recusando sua reificação (enquanto bem, recurso ou coisa comum). Em Lafuente, assim como na filósofa Marina Garcés, o comum também se manifesta como a ligação intercorpórea, prática, anônima, para além do sujeito individual; o comum que produzimos em relação uns aos outros e que sustenta nossas vidas (o cuidado, os afetos, o sensível…).

    Mas também o comum que dá forma ao ambiente e às infraestruturas da vida ordinária. Pode parecer intangível, mas é na realidade muito material, pois resulta do trabalho de nossos corpos. Neste caminho, encontramos ressonâncias nas reflexões de Antonio Negri, Michel Hardt, Paolo Virno e Maurizio Lazzarato sobre o capitalismo cognitivo. Negri e Hardt referem-se à “produção do comum” para indicar a interdependência nas relações de (co)produção e também o comum em sua forma substantiva. Tal percurso é importante, pois permite visibilizar e politizar o “comum”, destacando os mecanismos contemporâneos de produção e extração de valor nas relações capitalistas. Mais recentemente, o “Comum” de C. Laval e P. Dardot é talvez a obra que alinhava de maneira mais completa as diversas abordagens teóricas sobre o Comum. Acho que a principal contribuição de Laval e Dardot, em sua análise histórica do comum, é estabelecer uma narrativa capaz de dar forma a um horizonte político alternativo.

    Em resumo, sinto-me implicado em pensar o “comum” como relação, é o “entre”, é aquilo que produzimos entre todos, o que é de todos e ao mesmo tempo não é de ninguém. É outro regime de participação e de partilha. O comum é parte da produção e sustentação da vida (a linguagem, o cuidado, mas também o ar, a água, o conhecimento…); sua produção anuncia o trabalho de uma dimensão infraindividual e supraindividual, e por isso permite que pensemos a noção de agência em outros termos. Por um outro caminho, o autor que nada fala deste “comum”, mas muito me inspira a pensar essas questões sob uma outra perspectiva, é Gilbert Simondon.

    IHU On-Line – Hoje, uma das suas áreas de pesquisa é o que você denomina de tecnopolíticas, que relaciona tecnologia, política e conhecimento. Por que a inter-relação entre essas três áreas é importante?

    Henrique Parra – Tecnopolítica, de forma ampliada, significa reconhecer a indissociabilidade prática entre técnica e política, meios e fins, técnica e cultura. No rastro de Foucault (e outros) e com os estudos sociais em ciência e tecnologia, analiso como a emergência de novas formas de saber relaciona-se a novas formas de exercício do poder no contexto das relações tecnicamente mediadas, principalmente das tecnologias digitais. Nesta trama tenho adicionado as reflexões sobre o comum, pois é sobre ele que os novos saberes e poderes adquirem contornos específicos e pouco conhecidos. Neste cenário, parte do problema que temos é que as grandes corporações souberam se antecipar e agora estão em situação de grande vantagem ao controlarem as principais infraestruturas que servem de apoio à nossa vida cotidiana.

    Graças à crescente digitalização e mediação das tecnologias cibernéticas, a expansão do codificável infiltra-se nos ínfimos interstícios da vida individual e coletiva. Com a indicialidade e rastreabilidade da interação digital, surgem novos modos de conhecer: as ciberciências, o conhecimento simulacional, a estatística preditiva, a modulação existencial. Foucault descreveu o surgimento dos saberes populacionais e a biopolítica; Deleuze anunciou a sociedade de controle. É sobre essas camadas que Antoinette Rouvroy descreve a nova governamentalidade algorítmica. No Brasil, Fernanda Bruno, Sergio Amadeu e outros pesquisadores da LAVITS examinam o mesmo problema em termos dos regimes de visibilidade, controle e economia da vigilância.

    No terreno da economia, o capitalismo informacional cria formas de extração e converte a livre interação e colaboração em rica fonte de valor. Os novos saberes e sua economia desenvolvem-se sobre o comum que produzimos de forma transindividual: simultaneamente na dimensão infraindividual (os rastros e índices da expressão pré-individual) e supraindividual (dados agregados, os perfis potenciais). Por isso, é um saber e um poder que está para além do indivíduo e da população. O conhecimento simulacional gera técnicas de modulação do ambiente de forma a alterar o horizonte dos possíveis, modificando o campo probabilístico para a ação futura, e tudo de maneira doce e imperceptível (ou sem fricção, nos termos da tecnofilia do Vale do Silício).

    Imagino, portanto, uma política do transindividual como prática de resistência e criação, onde o comum é tanto o modo de existência onde as lutas se reconfiguram, como o próprio elemento sob disputa. Minha hipótese é que parte da política do comum desenvolve-se junto ao transindividual. A contribuição da noção de “transindividual“, neste caso, é destacar os aspectos pré-individuais e supraindividuais, dimensão maquínica da ação humana e da nossa interação com o não humano, ampliando, portanto, a noção de agência (é um exercício de tramar com Latour, Simondon, Stengers, Lazaratto e outros).

    IHU On-Line – O que significa falar em construção de uma política do comum? Essa seria uma via alternativa à política nas democracias atuais? Por quê?

    Henrique Parra – O comum está aí há muito tempo. Sua política refere-se às configurações de mundo e lutas em torno da produção e manutenção do comum de uma determinada comunidade. Quando dizemos “política do comum” afirmamos a existência de algo comum que está sob disputa. Não há comum sem uma comunidade que lhe dê existência (difere, portanto, das comunidades identitárias). Nesta perspectiva, a água, por exemplo, só é comum quando surge um campo de relações entre diferentes atores (podendo incluir agentes não humanos) para regular o uso coletivo deste comum. Nesta interpretação mais relacional, o “comum” difere de uma acepção essencialista de “coisa comum“, “bem comum“, “recurso comum” ou mesmo “commons” para alguns autores.

    Temos também, por exemplo, uma política do comum em torno do cuidado. O cuidado acontece em todas nossas relações interpessoais. É algo aparentemente intangível, porém ele se manifesta sempre de forma muito concreta, é fruto de um trabalho emocional e material de nossos corpos. As lutas feministas afirmam com muita clareza a dimensão corpórea e física deste trabalho (Alana Moraes me apresentou este debate). Este comum pode tanto ser apropriado sob um vetor capitalista que coloca o cuidado para funcionar numa direção que beneficie a produção e a extração de valor, como pode ser um campo de lutas de resistência, quando o cuidado é utilizado para gerar maior autonomia para aqueles que o coproduzem. Neste sentido, a política do comum implica também no fortalecimento dos laços de interdependência, de corresponsabilidade, de coprodução.

    Neste momento em que estou tentando delinear a relação entre esses conceitos (comum e o transindividual), tenho a impressão de que o transindividual só se aplica a alguns casos do “comum”, como, no exemplo do “cuidado”. Não estou seguro. Quando observamos as relações mediadas pelas tecnologias digitais, terreno em que me sinto mais confortável, os casos de sobreposição entre o comum e o transindividual abundam. Por exemplo, minha disposição de comunicar e tecer redes de amizade, numa plataforma corporativa, converte-se imediatamente em capital informacional para quem controla a rede. O chamado capitalismo de plataforma ou capitalismo de vigilância, apropria-se do comum gerado pela nossa vida cibermediada. A luta contra a apropriação, extração e cercamento deste comum são formas da política do comum.

    Empresas como Airbnb convertem a confiança social em ativo monetizável, corroendo em alguns cenários a livre colaboração e a economia da dádiva. Não à toa, em algumas cidades, comunidades de vizinhos estão se organizando contra os abusos dessas empresas que ameaçam as relações de convivência existentes num certo território. De repente, os habitantes se dão conta de que a qualidade de sua vida num edifício é um “comum” importante, ou as relações de vizinhança, o tipo de comércio, os vínculos de apoio mútuo no território só acontecem porque há algo comum que torna possível seu modo de vida.

    Política do comum traduzida em termos institucionais

    Agora, outro problema é como a “política do comum” se traduz em termos institucionais. Neste sentido, se tomarmos os exemplos acima, a política do comum pode se manifestar como a luta para inscrever nas instituições existentes os marcos regulatórios e protetivos deste comum ameaçado. Mas, o que são as “instituições do comum“, é um ótimo problema teórico e político que estamos todos investigando. Laval e Dardot propõem que essas instituições são formas de autogoverno do comum. Trata-se de modificar a própria arquitetura e os elementos que ordenam o modelo de contrato social existente. Em termos de participação e deliberação, isso significa que todos os implicados ou afetados por uma decisão devem participar em sua deliberação.

    Outra característica institucional seria o arranjo capaz de incluir no “cálculo” político e econômico todas as externalidades, ampliando o reconhecimento daquilo que participa da produção do mundo, mas que é tratado como externalidade: a qualidade do ar que respiramos; o trabalho invisível da reprodução da vida doméstica; o direito aos comuns urbanos… Neste caso, podemos compreender como a noção de “comum” transborda a dicotomia público-privado. Que instituições necessitamos para “comunalizar” o público-estatal e o privado? Quais são os princípios, práticas, tecnologias, protocolos, cultura que dão suporte ao comum?

    IHU On-Line – O que é a política do protótipo? Como essa ideia de política do protótipo pode contribuir para repensar a política e as manifestações sociais?

    Henrique Parra – Comecei a trabalhar com a noção de protótipo há pouco tempo, mais especificamente a partir da análise dos chamados “laboratórios cidadãos” na Espanha. É aqui que cruzo novamente com as contribuições de Antonio Lafuente, que fora responsável pela concepção do Laboratório do Procomún no Medialab-Prado. Em diversas iniciativas aqui na Espanha, mas também noutros países, o termo “protótipo” está presente nos discursos e intervenções de coletivos ativistas e também no vocabulário de pesquisadores e cientistas que atuam no campo dos estudos urbanos, ciência aberta e estudos sociais em ciência e tecnologia.

    Os ativistas de movimentos e centros sociais a partir de um certo momento (seria interessante investigar essa genealogia) passam a falar de suas ações em termos de “hipóteses”. Ao invés de afirmar um grande plano estratégico, eles lançam hipóteses (hipótese 15M, hipótese ocupa…), as quais precisam ser examinadas, investigadas na prática. Muitas vezes, a maneira de verificar, testar essa hipótese é através de um protótipo. Ou seja, ao invés de uma ação apenas reivindicativa, os movimentos passam a criar protótipos de soluções para os problemas que querem denunciar. No caso das iniciativas dos laboratórios cidadãos, a noção de protótipo tem outro contorno. O foco está mais no processo do que no resultado; o protótipo está mais orientado para a aprendizagem e para a produção de comunidades. Em certo sentido isso também acontece nos coletivos ativistas, porém neste último o protótipo tem um caráter mais instrumental, pois será desenvolvido visando um determinado impacto.

    Política do protótipo

    Apesar das diferenças, há elementos que podemos conectar entre ambos os campos (científico e ativista) e que a meu ver dão forma a esta “política do protótipo“, simultaneamente como formas de conhecer (dimensão epistêmica-cognitiva) e formas de produzir o mundo (dimensão política).

    Em primeiro lugar, o destaque para uma dimensão experimental e pragmática. O desafio de realização de um protótipo implica em fazer, em criar coisas, criar relações. Ela é tentativa, não tem a pretensão de ser a resposta verdadeira ou a melhor resposta. Ao invés de investir muita energia na definição de fronteiras e categorias políticas abstratas para conceber um programa de ação, ao prototiparmos somos obrigados a compreender como as coisas funcionam no mundo aqui-agora. É uma ação menos orientada ideologicamente (evidentemente há sempre valores envolvidos) e mais prática.

    Ao realizarmos o protótipo, novos problemas emergem, a realidade se torna mais complexa, colocamos o protótipo em movimento e aí já podemos experimentar as dificuldades para sua existência no mundo, e assim tornamos mais visível as forças e conflitos em jogo. Ao mesmo tempo, para fazer um protótipo temos que criar uma comunidade, e ao fazer isso aprendemos a caminhar juntos. Pode parecer banal, mas essa habilidade (fazer junto) é um recurso escasso em muitos locais.

    No centro da produção do protótipo está a experiência. E digo experiência no sentido forte do termo, “sofrer uma experiência”, “ter uma experiência”, como nos ensina Jorge Larrosa. Ao fazer um protótipo colocamos nossos corpos em ação, e ao fazer isso outros saberes, afetos e poderes entram em cena. O protótipo reforça um sentido de abertura, indeterminação, sujeito à continua transformação. Em resumo, uma política do protótipo é também a passagem de um movimento reivindicativo para um movimento propositivo e pré-figurativo, que experimenta no presente a criação de outros modos de relação e outros mundos possíveis.

    No contexto de fortalecimento da sociedade de controle e da governamentalidade algorítmica, o saber que lhes dá sustentação é o conhecimento simulacional. A capacidade de análise e de produção de cenários futuros é um dos principais campos de disputa: Como o mercado vai reagir? Como os eleitores vão se comportar? Como o governo irá modificar uma política? A política do protótipo intervém aí numa dupla direção: em primeiro lugar um protótipo é um novo artefato, uma nova relação ou arranjo sócio-técnico, e assim ele produz imagens, cenários que modificam o horizonte dos possíveis, interrogando as imagens disponíveis sobre o futuro; em segundo lugar, ao dar centralidade à noção de experiência, ele ativa uma potência corpórea como um importante território de disputa face aos modos atuais de sujeição social e servidão maquínica.

    IHU On-Line – Muitos dizem que a esquerda política — os partidos — é incapaz de impulsionar um novo programa para a esquerda mundial e que essa tarefa caberá à esquerda social, ou seja, aos movimentos sociais. De outro lado, fala-se que os movimentos sociais não têm força política para fazer mudanças. Como você vê esse quadro entre a política tradicional e os movimentos? Também aposta na força dos movimentos? Por quê?

    Henrique Parra – Não resta dúvida de que os que controlam nossas instituições governamentais não farão as mudanças que colocam em risco sua posição. Mas isso não significa que bastaria trocar o grupo que está “no poder” das instituições. Já experimentamos isso, não? É claro que atuar no campo da disputa eleitoral é relevante, mas não é suficiente. Sabemos das limitações concretas enfrentadas por todos aqueles que tentam implementar uma ação de governo que promova a justiça social. Imediatamente, nos damos conta das inúmeras determinações jurídicas, materiais, culturais, financeiras, logísticas etc, que fazem com que a mudança social seja praticamente bloqueada.

    Voltamos à sua primeira pergunta. De repente nos damos conta de que nossa dependência dos grandes arranjos sócio-técnicos, que servem de infraestrutura para a vida comum, também determina nosso modo de existência. Não basta ganhar eleições, é preciso democratizar a produção científica e tecnológica, a geração de energia, democratizar a economia… mas para isso também precisamos ter experiências sobre o que pode ser colocado no lugar.

    Cultura tecnopolítica

    Num post recente, discorro sobre a importância da tessitura de uma cultura tecnopolítica. Por exemplo, como podemos expandir o acesso de todos à energia elétrica como um direito básico sem depender do modelo das grandes hidrelétricas, que colocam em movimento uma série de agenciamentos: grandes empreiteiras, destruição do meio ambiente, remoção das populações, financiamento de campanhas eleitorais etc. Neste sentido os movimentos sociais ocupam um lugar importante para propor e pressionar por outras políticas. Porém, tradicionalmente, os movimentos sociais são principalmente reivindicativos. Isso é importante e necessário, porém, compreendemos que isso não é suficiente. É fundamental a luta pela ampliação e conquista de direitos. Sem os movimentos sociais, muito (e pouco) do que temos como direitos não existiria. Veja o exemplo dos movimentos por moradia urbana. A maior parte deles não consegue manter a disposição organizativa uma vez que os moradores estejam instalados nos apartamentos de um edifício: a arquitetura do prédio, a gestão do condomínio, a distribuição das cozinhas etc, tudo isso participa da produção de um modo de vida.

    Neste sentido, acho importante reconhecer a existência de uma multiplicidade de novas formas associativas que também se constituem como agentes políticos. Há muita disposição entre as pessoas para se engajarem em atividades políticas (para o bem e para o mal). Para além de uma renovação de nossas instituições políticas, também devemos imaginar uma transformação nos movimentos sociais existentes e apostar na constituição de novos atores políticos que estão para além da arquitetura estadocêntrica, para além dos partidos, para além dos movimentos sociais reivindicativos, das ONGs de lobby etc.

    Assim, a própria palavra “programa”, expressa na pergunta, torna-se controversa e com ela a noção unitária de estratégia. São muitas as frentes e campos de ação política relevantes. Voltando à questão sobre “minha aposta”: estou interessado em praticar e investigar os modos de associação e as tecnologias de produção do comum. Mais especificamente, os arranjos (sociais e técnicos) que alguns coletivos, organizações e movimentos já praticam em alguma esfera da reprodução do seu cotidiano, para sustentar o comum que eles julgam ameaçado e, portanto, necessário para um certo aspecto de sua existência. Isso significa que eles inventam soluções práticas (com valores, protocolos, tecnologias, infraestruturas…) que são suficientemente eficientes para existir no mundo atual.

    Essa passagem do protesto para a proposta (Lafuente e outros autores usam esta expressão) também estava presente como política pré-figurativa em movimentos sociais e contraculturais do século passado. Também encontramos isso em alguns movimentos feministas e ecologistas, em algumas iniciativas presentes no início do Fórum Social Mundial e, mais recentemente, em coletivos hackers para autonomia tecnológica, comunidades de práticas de grupos afetados, redes de agroecologia ou de economia social/solidária, moedas sociais… Essas iniciativas são importantes porque produzem formas associativas que sustentam este “comum” (o que por si só é de grande valia num mundo em que o tecido social é destruído pela governamentalidade neoliberal). E para isso elas também criam os arranjos de modo que suas práticas “funcionam” no presente, promovendo outros critérios de eficiência. Porém, isoladamente, essas experiências também têm os seus limites.

    Contexto espanhol

    Voltando às questões sobre o contexto espanhol, muitos dos que participaram das inúmeras iniciativas que foram produzindo o caldo de práticas e cultura política em que o 15M eclodiu, estão muito apreensivos com o atual cenário político. Há uma certa sensação de que as invenções e os modos de subjetivação política que ali emergiram não lograram criar formas políticas capazes de enfrentar o atual conflito. É certo que houve muito aprendizado democrático, que inúmeras redes se formaram e que muitas delas seguem ativas e outros num estado de latência. As novas experiências municipalistas, as confluências, as mareas, são evidentes desdobramentos daquele momento.

    A mesma pergunta que lançam sobre o 15M pode ser aplicada ao Junho de 2013 brasileiro (guardadas suas diferenças e seu contexto): quais são as formas políticas e institucionais desses movimentos? Essa é uma pergunta grande demais e muitos estão investigando este problema. Em certo sentido, a política do protótipo e do comum que imagino não pretende responder a essa pergunta, mas sim investigar e praticar uma ética, uma cultura, as tecnologias, as infraestruturas que contribuem para a produção e manutenção do comum. Imagino um caminho de ação política que não é exclusivo e que não está em oposição às outras formas de luta. Gosto de pensar a política do comum como uma luta “menor”, mais anônima e impessoal, porém imanente à vida. Ao invés dos grandes sujeitos políticos, a criação de um comum entre os quaisquer (na expressão do Agamben). Sempre de maneira prática e experimental, ela seria capaz de fomentar uma cultura e as infraestruturas que a sustentam, podendo atravessar e reforçar as outras formas de ação política. O importante, parece-me, é que sejamos capazes de manter a coexistência dessas várias formas.

    Nota:

    [1] O pós-doutorado tem apoio da CAPES (88881.119261/2016-01). (Nota do entrevistado)

  • Micro X Macro: para além do problema de escala

    Micro X Macro: para além do problema de escala

    foto: Leo Drumond/Nitro

    Recebi esta semana um convite para participar no final do ano de um pequeno seminário (workshop) no Centro de Inovação em Tecnologia para o Desenvolvimento Humano na Universidade Politécnica em Madrid. A atividade denominada “Transformações sustentáveis: para além do protótipo?” reunirá alguns investigadores acadêmicos, ativistas e empreendedores.

    O convite veio com uma breve descrição dos problemas a serem explorados e uma série de perguntas instigantes que já me mobilizaram a iniciar o trabalho. Reproduzo abaixo algumas das questões do convite:

    *como podemos fortalecer em nossas organizações uma cultura de inovação socialmente transformadora?
    *como democratizar os processos de inovação transformadora?
    *como sair dos nichos inovadores para aumentar seu impacto?
    *como podemos incidir em mudanças positivas de políticas, instituições e regulações que acelerem determinadas inovações sociais positivas?
    *como hibridizar nichos e organizações convencionais sem desativar o impulso transformador?
    *como criar relações novas entre universidades transformadoras e espaços de inovação cidadã?

    A primeira coisa que me chamou atenção é a proximidade entre os desafios descritos por esses pesquisadores da área de Ciência e Tecnologia (C&T) para a implementação de inovações sustentáveis (produtos/processos de produção, tecnologias, modelos organizacionais etc) e os problemas que muitos coletivos ativistas e movimentos sociais enfrentam em suas práticas.

    Poderia sintetizar as questões acima nesta formulação: como tornar durável no tempo e como “expandir” (reproduzir ou fazer crescer) as práticas inovadoras que realizamos em pequena escala ou de forma experimental, considerando que elas são portadoras dos valores e práticas que desejamos promover?

    O contato com este campo de investigações em ciência e tecnologia me faz pensar naquela enorme diversidade de iniciativas que encontrávamos nos primeiros anos do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Uma das questões que ficava pulsando, sempre que estava imerso naquele ambiente, era por quê não éramos capazes de transformar aquela infinidade de experimentações alternativas em algo que fosse além do escopo de iniciativas fragmentadas e pontuais. Olhando da perspectiva dos estudos sociais em ciência e tecnologia (ESCT), acho que estamos diante do mesmo problema.

    No caso desses pesquisadores, a motivação está em analisar como as inovações de base (grassroots innovation) que acontecem em nichos específicos ou na borda do sistema sociotécnico dominante, podem se expandir ou mesmo provocar uma mudança gradual no sistema[1]. Quais os bloqueios institucionais, culturais, econômicos, técnicos e políticos que afetam as condições de viabilidade de uma determinada prática (uma tecnologia específica, produtos ou processos organizacionais, etc)?

    Um bom exemplo é o caso da produção e consumo de orgânicos ou a produção de energia solar (veja o post Tessituras de uma cultura tecnopolítica). Ambas surgem fora do “núcleo duro” de reprodução do sistema e hoje estão muito difundidas. Ao mesmo tempo, hoje há tanto iniciativas que favorecem arranjos socioeconômicos alternativos (com outros efeitos sobre a distribuição dos excedentes), como iniciativas que fortalecem as estruturas tradicionais de acumulação de capital. Sob que condições é possível fazer com que aquelas características (valores, efeitos socioeconômicos, cultura etc) presentes no experimento da pequena escala não se percam? Como fazer para que esses protótipos, em sua relação com o ambiente, criem condições sinérgicas (positivas), alterando o contexto e também modificando-se de forma a favorecer a sustentabilidade dos principais elementos que compõem o seu desenho[2] original?

    No caso da experiência de governo que vivemos no Brasil a partir de 2002 – chegada do PT ao governo federal, junto com diversos movimentos sociais e organizações da sociedade civil – o modelo de resposta que se mostrou dominante objetivava realizar mudanças sistêmicas a partir da implantação de ações infraestruturais apoiadas em arranjos sociotécnicos tradicionais (também funcionais para a maquinaria eleitoral). De forma muito sintética, argumento que esta resposta é frequentemente acionada (tanto no plano simbólico como prático/empírico) através de um modelo de mudança social cujo vetor principal de intervenção está baseado numa estratégia de rápida obtenção do controle vertical e centralizado da maquinaria de governo. Neste modelo, a relação com iniciativas de inovação mais distribuída e localmente apropriadas é vista como pouco eficiente para a racionalidade de governo dominante.

    A construção de Belo Monte em detrimento de outros modelos de geração de energia é um caso evidente. A opção do governo, em certo momento, pela construção de cisternas plásticas para a população do semi-árido nordestino, em detrimento do modelo de construção em terra-cimento praticado pelos movimentos sociais da região, é outro caso importante porém menos conhecido[3]. Neste último exemplo temos um arranjo sociotécnico composto por autoconstrução distribuída + técnica local de terra-cimento + gestão dos movimentos comunitários + durabilidade versus produção em plástico + controle de poucas empresas sobre a produção + obsolescência). Os efeitos sociais e econômicas de cada uma dessa trilhas é absolutamente distinto.

    Outro exemplo interessante dessas dinâmicas é a transformação dos arranjos produtivos promovida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Há dez anos atrás a produção agroecológica era marginal no MST, diante da importância atribuída ao modelo de produção organizada em torno das grandes cooperativas. Atualmente, modelos híbridos de produção familiar e agroecológica, com cadeias produtivas e de consumo mais complexas tem adquirido outra importância na organização socioecônomica do movimento.

    Tenho procurado investigar as aprendizados e interações que poderiam emergir do encontro entre esses distintos modelos de mudança/inovação social. Argumento que precisamos dedicar mais atenção para as formas de inovação de base orientadas pela busca de soluções concretas no presente da vida cotidiana. Evidentemente, como demonstram os estudos, sua expansão para outras escalas da vida social depende de condições culturais, políticas e institucionais mais amplas. Porém, este modelo de ação prática é criadora de alternativas materiais efetivas que respondem ao funcionamento do mundo existente, ao mesmo tempo em que objetivam criar suas linhas de fuga.

    O modelo tradicional de mudança social através da tomada prioritária do poder central, parte frequentemente de uma concepção excessivamente ideologizada e desencarnada do funcionamento do mundo, como se bastasse assumir o controle da máquina para submetê-la aos seus princípios e valores. A história já demonstrou que a política também está inscrita nos arranjos de ferro e cimento e no funcionamento das máquinas burocráticas. Assim, se o controle da gestão estatal é muito importante, ele não pode ser a medida exclusiva da prática e do cálculo político.

    Precisamos experimentar modelos concretos que “funcionem” se desejamos confrontar o desenho habitual das respostas dominantes. Neste sentido, o esforço de prototipar é também portador de uma outra sensibilidade política. Atuar no sentido de realizar um protótipo e verificar as condições de sua viabilidade, exige uma prática a favor do mundo, que acontece com este mundo (não há outro mundo, como disse Alana Moraes). Não basta o discurso, não basta a crítica, é preciso acreditar no mundo e experimentar a criação no/com o mundo existente. Em termos políticos, isso significa uma política mais imanente, uma política do comum, surgida da prática implicada entre-todos sobre algo que nos é comum no aqui-agora (nos próximos posts pretendo explorar mais esta idéia de pensar “a favor do mundo” através de uma política do comum).

    Notas:

    [1] O artigo de Adrian Smith apresenta uma detalhada revisão bibliográfica sobre essa discussão. SMITH, Adrian. Translating Sustainabilities between Green Niches and Socio-Technical Regimes. Technology Analysis & Strategic Management Vol. 19, No. 4, 427–450, July 2007. DOI: 10.1080/09537320701403334

    [2] Por desenho (design) refiro-me aqui à combinação dos fatores materiais, tecnológicos, econômicos, forma de interação humano-tecnologia, relação com natureza, modo organização socioeconomico e modo de subjetivação que este dispositivo atualiza quando em uso.

    [3] Há uma ótima descrição sobre este conflito em torno do programa nacional de cisternas no livro: Smith, Adrian, Fressoli, Mariano, Abrol, Dinesh, Arond, Elisa and Ely, Adrian (2016) Grassroots innovation movements. Pathways to sustainability . Routledge, London. ISBN 9781138901216.

    Veja também artigo de Raimundo Santana sobre a controvérsia das cisternas: http://www.cienciaecultura.ufba.br/agenciadenoticias/noticias/cisternas-de-placas-tencionam-discussao-sobre-modelos-de-politicas-publicas/

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa

  • Escalera: dispositivo tecnopolítico para o comum urbano

    Escalera: dispositivo tecnopolítico para o comum urbano

    Fizemos um experimento. Um dos desafios que temos enfrentado em Madrid é a criação de uma rede de sociabilidade infantil para nossa filhota. No pequeno prédio em que moramos há poucas crianças, não conhecemos os vizinhos e após dois meses de residência tivemos pouco contato com os demais moradores. Assim como em São Paulo, a vida em apartamentos num edifício de uma grande cidade não produz diretamente relações de vizinhança.

    Noutro post [Pequenas infraestruturas da vida em comum] contei como à noite, na hora de colocar a Mai para dormir, podíamos ouvir bem baixinho uma outra família contando histórias para seu filho (assim como nós). Falando com a Mai sugeri que podíamos fazer uma carta ou algo do gênero pra colocá-la em contato com aquela outra criança. Mas como fazer contato, sem saber ao certo os protocolos ou as sutilezas da cultura local?

    Inspirando-me no projeto Escalera (tema deste post), decidi fazer um pequeno cartaz para coloca-lo na escada de entrada do prédio, bem ao lado das caixas de correio.

    O resultado foi muito animador. Alguns dias depois fomos procurados pelas duas famílias que tem crianças no prédio e demos início a uma aproximação gradual entre elas. Mai ficou mais feliz, ela agora conhece seu vizinho! Esta simples experiência me faz pensar em muitas coisas.

    A vida em apartamento numa grande cidade é um vetor importante no desenho de nossas vidas. Muito se fala sobre a maneira como a vida organizada por este tipo de arquitetura influencia nossas rotinas, nossos vínculos sociais e maneira como nos relacionamos com a rua, o bairro e a própria cidade. Em suma, a vida em apartamentos é parte do fenômeno urbano. Ao mesmo tempo, é interessante observar a diversidade encontrada nas relações de vizinhança em diferentes condomínios de edifícios. Se por um lado ouvimos que as reuniões de condomínio e brigas entre vizinhos são um tema frequente de aborrecimento, por outro, conhecemos pessoas que moram em edifícios em que as relações de convivência são mais agradáveis, onde existe algum tipo de apoio mútuo, solidariedade e alegria em partilhar o mesmo espaço. Assim, se a infraestrutura arquitetônica é um importante fator de influência no desenho de nossas relações sociais, ele está longe de ser um vetor exclusivo na determinação de nossas relações. Há muitas coisas em jogo, e a investigação desses vários fatores é um bom exemplo de um  problema dos arranjos sociotécnicos.

    É justamente nesta brecha, nessa margem de indeterminação, que o projeto Escalera se insere como uma intervenção micropolítica que almeja disparar outros processos instituintes da forma e conteúdo de nossas relações sociais urbanas.

    O projeto nasce de um incômodo partilhado por muitas pessoas. A pergunta disparadora do projeto é: “A vida é um problema comum. Podemos resolvê-lo em comunidade?”. Essa sensação, que ressoa em muitos de nós, manifesta um grave problema de fundo relativo à perda de sentido da vida em comum, compartilhada. O sentimento de isolamento, as dificuldades de sustentar a vida cotidiana de forma independente sem o pequeno apoio de pessoas próximas, a intensificação de problemas de saúde mental e física, entre outros, são sintomas de um comum que foi perdido, destruído e expropriado pelo nosso modo de vida contemporâneo.

    Só nos damos conta de que existe uma matéria muito sutil, um tecido que sustenta nossas vidas em seus mínimos detalhes, quando nos confrontamos com sua perda. O projeto Escalera atua para tornar visível as fagulhas que compõem este comum, que só existe junto à uma comunidade que o sustenta. Neste sentido, na acepção em que estou investigando, o projeto Escalera é um verdadeiro laboratório do procomún.

    Sua ação é simples e complexa ao mesmo tempo. O projeto fornece um kit de adesivos e cartazes customizados para que um (ou mais) moradores do prédio, interessado em implantar o projeto em seu edifício, possa colar pequenas mensagens em locais visíveis. As mensagens sinalizam pedidos simples ou ofertas de apoio gratuito: coisas como “preciso de alguém me ajude na escada a carregar as compras de supermercado”, ou “me ofereço para dar água para as plantas”, ou “gosto de tomar café a tarde em companhia pra bater um papo”, entre várias outras mensagens.

    Dito de outra forma, sua realização envolve uma pesquisa para construir um protótipo material, um dispositivo tecnopolítico que ajude a ativar certos modos de relação, e não outros. Rosa Jiménez me relatou em detalhes os desafios da investigação: como iniciar a sensibilização numa comunidade de vizinhos, que mensagens utilizar, como fazer a mediação e ativação da comunidade, etc. O fundamental está nos detalhes: cada mensagem utilizada diz muita coisa para além daquilo que está escrito.

    Em sua versão inicial, Rosa lançou o projeto no Facebook para tentar alcançar um pequeno grupo, cerca de 5 edifícios que pudessem colaborar para um piloto. Porém, a procura foi tamanha que a implantação do projeto ocorreu com 30 edificios. Em cada um deles, o projeto foi procurado/acionado por uma moradora (a maior parte eram mulheres) implicadas em transformar a vida em sua comunidade. Mais uma vez, os dados indicam como são principalmente as mulheres que produzem e reproduzem o mundo comum.

    Mas Rosa também foi procurada por empresas imobiliárias, de segurança ou de publicidade, que viram no projeto uma importante estratégia de ativação (e neste caso de expropriação) de um recurso. Sabiamente, a Escalera soube criar estratégias para evitar usos indesejados do projeto. Esta tensão é reveladora da maneira como o “comum” é tanto aquilo que alimenta e dá suporte à nossa vida ordinária, como também pode ser convertido em recurso produtivo e monetizável. No capitalismo biopolítico contemporâneo o “comum” é um dos seus principais insumos.

    Neste sentido, observamos como pequenas experiências de produção do comum urbano, são espaços de resistência para a criação de outros modos de vida possíveis na cidade. No Projeto Escalera encontrei um belo exemplo de pesquisa-ação e análise sociotécnica realizado através de um “laboratório” que visava ativar a própria comunidade que sustenta esse comum que está ameaçado por todos os lados.

    As dinâmicas implicadas na produção de vínculos sociais, nas redes de cuidado compartilhado, nas relações de solidariedade e amizade, que transformam nossas redes de vizinhança tem impulsionado o projeto Escalera para outras escalas e perguntas. Como através da construção de relações de vizinhança podemos fazer bairro? E será que com uma vida melhor de bairro, podemos fazer cidade?

    Mais sobre o projeto Escalera:

    website: http://www.proyectolaescalera.org

    facebook: https://www.facebook.com/proyectolaescalera/

    Video: https://www.youtube.com/watch?v=5UlDXH-o4_o

    Explicação Kit: como fazer http://www.proyectolaescalera.org/2017/01/26/como-se-hace-una-escalera/

    PS: este post é parte da série de relatos que irei realizar durante o período de pós-doc em Madrid. Mais informações sobre o projeto atual: http://wiki.pimentalab.net/index.php?title=Projetos_Pesquisa