Categoria: evento

  • Simpósio Intersindical: Educação e Tecnologias Digitais

    Simpósio Intersindical: Educação e Tecnologias Digitais

    Registro do Seminário sobre Tecnologias Digitais e Educação: capitalismo, dataficação, vigilância e alternativas ao neocolonialismo digital

    Video disponivel: https://youtu.be/JTpCNf-hb9Y

  • Futuros Possíveis no Limiar da Pandemia

    Futuros Possíveis no Limiar da Pandemia

    Laboratórios do Comum para a gestão social dos territórios

    Video do seminário disponível aqui: https://youtu.be/Rc9Jl1aA6qQ

    No dia 22 de julho, quarta-feira, às 19h, Valéria Giannella (PPGES UFSB / ELGS) e Fernanda Martins (PPGES UFSB) convidam três pesquisadores/ativistas do Comum: Georgia Nicolau (Instituto Procomum), Henrique Parra (Pimentalab / Unifesp) e Rodrigo Savazoni (Instituto Procomum / UFABC) para uma roda de conversa onde exploraremos os nexos entre o campo do Comum e a gestão social de territórios.

    O Comum que nos interessa se constitui enquanto substantivo e verbo, e nos traz amplitude para imaginar futuros possíveis na encruzilhada em que nos encontramos. Juntos vamos conversar sobre as práticas de experimentação do agir-comum que se intensificaram no contexto pandêmico. Podem os “laboratórios do Comum” serem lidos enquanto experiências públicas de Gestão Social e como caminhos que apontam além da grave crise democrática que atravessamos?

    O bate papo acontece no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Estado e Sociedade (PPGES) da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e da Escola Livre em Gestão Social (ELGS), e acontece com o apoio e a participação do Instituto Procomum e do Pimentalab.

  • Educação Pandêmica e as encruzilhadas do ensino superior

    Educação Pandêmica e as encruzilhadas do ensino superior

    #pratodosverem

    Cartaz de webinar programa #UnifesspaOnline.
    Sobre fundo cinza claro, na parte superior alinhado à esquerda a palavra webinar em letras. Em uma linha abaixo, sobre um retângulo amarelo, escrito a hashtag do Programa de Formação da Unifesspa em letras brancas: #UnifesspaOnline. Na parte superior à direita, uma arte contorna o canto direito do Cartaz: três pontos pequenos amarelos, com duas linhas em cores pretas: uma primeira na horizontal e outra na vertical alinhadas em formato de uma cantoneira. Abaixo da arte, com destaques, em letras pretas transmissão ao vivo, na sequência, abaixo, uma imagem em retângulo de cor preta, com o ícone de play branco. À esquerda do cartaz, foto colorida do palestrante, com uma imagem de vegetação ao fundo em tons verde claro e escuro. Na composição artística da foto, o rosto do palestrante é coberto parcialmente do lado direito pela imagem da vegetação. O palestrante Henrique Paiva, está de frente. É branco, olhos claros, cabelos curtos castanhos. Usa bigode e barba com fios grisalhos. Usa camisa preta. Segura um celular escuro até a altura do queixo na posição de registro fotográfico de self. Ao lado da foto, alinhada à esquerda o título da palestra escrita em letras pretas negritadas: Educação pandêmica e as encruzilhadas do ensino superior. Uma camada abaixo, a data: 18 de agosto e sob esta, a hora: às 19h. Abaixo da foto, informes: Palestrante Henrique Parra. Na sequência, abaixo à esquerda, a logomarca da Unifesspa. No canto inferior esquerdo, repete-se a arte: três pontos pequenos amarelos, com duas linhas em cor preta: uma primeira na vertical e outra na horizontal em formato de uma cantoneira e no interior a logomarca da Unifesspa com a sigla UNIFESSPA. No rodapé a direita do cartaz, escrito em letras pretas: saiba mais: seguido do endereço do site: www.unifesspaonline.edu.br
    Fim da descrição

    O webinario está disponível no link do YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=wSWpSXRU4rM
    Ou pelo Facebook: https://www.facebook.com/unifesspaoficial/videos/607226726847199/

  • Investig(ações) insurgentes: corpos-sensores por uma política experimental da presença

    Ciclo “Habitar as Fronteiras” no Centro de Pesquisa e Formação do SESC-SP. Dias 7 e 14 de abril de 2020.

    Diante da debilidade existencial intensificada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, os encontros convidam ao diálogo pesquisadorxs-praticantes que tencionam as habituais fronteiras entre ciência e luta, vida e política. Assumir a nossa crise da presença como condição de uma vulnerabilidade compartilhada para investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas também experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”.

    Partimos de experiências investigativas em que saberes e práticas de lutas emergem de corpos como sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias e que intuem que é o movimento de abertura ao acontecimento o que pode sustentar práticas coletivas de insistência na vida como interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

    07/04, terça-feira, das 19h00 às 21h30 – Encontro com Bru Pereira – antropóloga e educadora, mestre em Ciências Sociais pela UNIFESP; Edson Teles – professor de filosofia na UNIFESP; Maria Fernanda Novo – doutora em filosofia pela UNICAMP. Mediação de Jean Tible – professor de Ciência Política (FFLCH/USP).

    14/04 (terça-feira), das 19h00 às 21h30 – Oficina com Alana Moraes – antropóloga, doutoranda pela UFRJ e Henrique Parra – professor de Ciências Sociais da UNIFESP. Pesquisadores do Pimentalab/LAVITS e do coletivo Tramadora.

    Oficina: ao adotar a gestão de crise como técnica de governo, o capital não se limitou apenas a substituir o culto ao progresso pela chantagem da catástrofe, ele quis reservar para si a inteligência estratégica do presente” (C.I). A oficina é um convite para habitar por um pouco mais de tempo os problemas comuns que nos obrigam a pensar juntos. Inspirados na ideia de um “parlamento de corpos” queremos retomar a inteligência compartilhada e a potência da situação presente. O parlamento emergente de corpos afetados se instaura a partir de formas de conhecer que possam transformar (narrar/inventar/mediar) a experiencia de um corpo-sensor em um conhecimento de luta coletiva dos corpos vivos, que nada tem a ver com a produção de maiorias ou consensos. A oficina convida os participantes a investigar o problema da crise da presença diante da crescente mediação técnica da vida social e as consequentes alterações do regime de sensibilidade que sustentam ou destroem um mundo comum. Diante da multiplicidade de dispositivos tecnológicos que fazem da vida uma sequencia prevista de condutas, procedimentos e desempenhos funcionais, praticamos uma atenção àquilo que o corpo não aguenta mais, como ponto de partida da construção de formas de vida não fascistas.

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    corpo-como-sensor é uma proposição ético-política da vida em sua ontologia corpórea extremamente vulnerável, um terreno de travessias e cruzamentos no qual a representação dá lugar à experimentação, à variação e ao risco dos encontros. Em há um mundo por vir? (2015), Viveiros de Castro e Débora Danowski se perguntam quem seria o demos de Gaia, “o povo que se sente reunido e convocado por essa entidade, e quem é seu inimigo” (2015:120). Para os autores, não se trata mais de buscarmos um “sujeito revolucionário”, mas seguir uma etnopolítica que suspenda a própria noção de “sujeito capaz de agir como um só povo”.

    Diante da crise de presença alimentada por inúmeros dispositivos de produção de uma vida neoliberal, o seminário convida ao diálogo praticantes que tensionam as habituais fronteiras entre ciência e política, entre natureza e cultura. Nesse sentido, pensar a nossa crise de presença como condição epocal seria também investigar os diversos dispositivos que a produzem, mas, por outro lado, experimentar como reativar “uma maior atenção ao devir da presença dos entes” no mundo vivo; retomar nossa capacidade de “co-pertencimento e co-produção a cada situação vivida”. Partimos de investigações em que saberes e práticas emergem de corpos-como-sensores; formas de vida que sentem, percebem e enunciam, a partir de sua singularidade os diversos dispositivos de erosão do mundo Comum. São também essas experiências que resistem e inventam formas de vida não proprietárias, não securitárias, experiências que intuem que é o movimento de abertura e composição com o acontecimento de encontros o que pode sustentar práticas de insistência na vida em interdependência: tecnologias de aquilombamento, retomadas indígenas, ocupações, as experiências de travessia do corpo-trans, tecnologias de cuidado, territórios do comum e saberes ancestrais/tradicionais, laboratórios cidadãos.

    Habitar uma política do sintoma que não nos permite “interpretar” tendo em vista um lugar seguro do diagnóstico que contorne ou neutralize o mal-estar.. Nessa condição de precariedade de um mundo sem refúgio, a invenção de linguagens, sentidos compartilhados, infraestruturas e tecnologias de suporte à essas formas de vida é inseparável de uma prática experimental de composições de alianças e arranjos sociotécnicos que dão forma a outras individuações coletivas, a emergentes comunidades de afetados. Trata-se de escapar dos imperativos de resultado e impacto, reino da estratégia e da eficiência tecnocrática, para habitarmos um terreno de experimentações de composições sempre situadas, que funcionem como caixas de ressonância de formas de vida não-fascista.

  • Seminário: Laboratórios cidadãos: repertório conceitual, logístico e prático

    Seminário: Laboratórios cidadãos: repertório conceitual, logístico e prático

    A oficina será ministrada pelo professor Antonio Lafuente, pesquisador no Centro de Ciências Humanas e Sociais do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha. Suas pesquisas refletem sobre a relação entre tecnologia e bens comuns, propriedade intelectual em ciência cidadã, governança, conhecimento aberto, participação, democracia técnica e cultura científica. É consultor no MediaLab Prado de Madrid, Espanha. A oficina irá apresentar o marco conceitual de experiências dos denominados “laboratórios cidadãos”, bem como explorar alguns elementos práticas relativos à organização, implantação e desenvolvimento desses laboratórios.

    Dia: 12 de junho, quarta-feira

    Horário: 19:00hs às 22:30hs

    Local: Unifesp, Guarulhos. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Estrada do Caminho Velho, 333, Pimentas, Guarulhos.

    Sala da Congregação – prédio anexo

  • Políticas do comum: alianças entre o sensível e o intangível

    Políticas do comum: alianças entre o sensível e o intangível

     

    Resumo: Quais os modos de relação entre a produção do comum e a experiência sensível, na prática investigativa, educativa e política? Nesta atividade pretendo compartilhar algumas idéias sobre este problema-convite lançado pela equipe da Bienal. A partir da diversidade de sentidos atribuídos ao “Comum” na atualidade, discutiremos algumas práticas (culturais, científicas, ativistas) onde podemos apreender e problematizar essa riqueza semântica. A hipótese que examinarei sobre uma política do comum, baseia-se em possíveis alianças e composições entre certos modos de conhecer, modos de associar-se e criar experimentações práticas que talvez apontem para territórios alternativos à dicotomia da micro-macro política. O texto a seguir foi apresentado oralmente no dia 30 de junho de 2018 na BienalSP no ciclo de atividades de difusão e formação. 

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    O setor Educativo da BienalSP (33°Edição-2018) me convidou para participar de uma atividade de formação dos educadores, parte dos trabalhos de elaboração e preparação das ações educativas que serão realizadas durante a exposição. A proposta inicial era a de relacionar as reflexões em torno da “produção do comum” e a “partilha do sensível” (aqui, com um clara referência a J.Ranciére). Fui ler os materiais produzidos pelo educativo para imaginar como poderia aproximar essas coisas. Compreendi que tanto o Gabriel Perrez-Barreiro (curador) como a Lilian Kelian e Helena Freire (educadores) estão interessados em pensar e praticar uma certa “política da atenção”. Eles partem do diagnóstico de que há um problema na forma como nos relacionamos com as obras de arte numa exposição. Por diversas razões, incluso a proliferação das tecnologias de comunicação digital, estamos imersos em profundas transformações em nossa sensibilidade, nossa percepção, em nossa atenção. Assim, um dos desafios que eles enfrentam é como “recuperar esse sentido da arte como canal de experiência e de comunicação” de forma que seja possível aprender algo novo com a experiência ali vivida. As educadoras lança a segunda pergunta: “se a percepção é algo marcadamente afetivo e que se sustenta num certo “regime de sensibilidade”, de que maneira seria possível transformar esse “regime” (no sentido, de ampliar as nossas capacidades de dialogar com o outro)? Ainda a partir do material produzido por eles, entendo que uma das formas encontras por eles para enfrentar esse problema é criar estratégias, roteiros, procedimentos, protocolos que estejam orientados à “produção de situações”, onde outros modos de relação entre os públicos, obras e educadores, possam emergir. Com isso, espera-se provocar mudanças no “regime de sensibilidade”, de maneira que um “acontecimento” (um novo vínculo, um novo aprendizado, uma nova percepção) seja possível. Evidentemente, sabemos que não é possível programar um acontecimento. A questão é colocar essa possibilidade como uma hipótese a ser verificada-experimentada, e assim desenhar (prototipar) os diversos elementos que participam da produção dessa situação: quais as estruturas, normas, ritmos etc que sejam mais acolhedores a ativação desses devires? Por fim, a aposta (se compreendi bem) é que neste processo teríamos a “produção de um Comum”.

    Dito dessa maneira, fica evidente pra mim, que o problema que eles estão investigando é análogo ao que encontramos na construção dos “laboratórios cidadãos” (ou Laboratório do Comum), na acepção de Antonio Lafuente. A existência, produção e manutenção de um Comum depende tanto de uma comunidade que o produza-sustente como de um conjunto de infraestruturas, códigos, práticas, tanto materiais como simbólicas. Ocorre que o Comum é frequentemente invisível, intangível e não-codificado. Ele só é facilmente percebido quando está sob ameaça. O Comum não é se confunde com o público-estatal, nem com privado. O Comum é um outro espaço, é uma terceira-margem (roseana) que ficciona a realidade produzindo outros mundos.

    O problema do “Comum” não pode ser separado (como bem descreveu o médico-sanitarista Ricardo Teixeira) de um problema da “percepção do Comum”. Por isso, a forma do Comum transitar entre o intangível e o sensível depende de um regime de sensibilidades que faz parte de uma Política, onde as dimensões afetivas-culturais-econômicas são indissociáveis.

    Outra característica importante que já podemos destacar, é que o Comum (nesta acepção que estamos utilizando) é algo que é produzido “entre-todos”. Porém, não à maneira de um “comum partilhado” entre indivíduos. O Comum neste caso, é algo que está aquém e além dos indivíduos: é pré-individual e supra-individual. Podemos, de certa forma, traçar uma analogia deste comum com o transindividual do G. Simondon. Aqui o Comum transpassa os indivíduos. Não é o produto de uma ação individual de um sujeito descolado do mundo que vai interagir com outros sujeitos. O Comum neste caso funda uma relação de continuidade entre os corpos e deles com o mundo. A linguagem, os afetos, a cultura, a saúde são alguns exemplos desse comum.

    Um bom exemplo citado por Lafuente é o problema da eletrossensibilidade. Lafuente relata como muitas pessoas eram portadores de um mal-estar inominável e desconhecido. Durante muito tempo viveram sem diagnóstico. Mas passaram a se encontrar, a trocar experiências, a se escutar, e deram início a um rico processo de produção de conhecimento; uma espécie de contra-expertise baseada naquilo que em que eles eram experts (a experiência de sua doença). Criam uma linguagem em que são capazes de dar existência ao seu problema, e assim tornam a questão da poluição eletromagnética um problema da ordem do Comum. Este processo só ocorre porque fundam uma comunidade de “afetados” que também irá mostrar, mobilizando muitos atores (humanos e não-humanos) como este Comum (o espectro eletromagnético) é produzido, utilizado, explorado. A luta contra a poluição eletromagnética produz o Comum (tanto a saúde como o espectro eletromagnético) ao revelar os modos de uso e apropriação da radiofrequência e quais são as infraestruturas, códigos, leis, economia que se aplicam sobre ele.

    Mas o Comum nos dias atuais tem ainda múltiplos sentidos. Antes de avançarmos nessa caracterização, acho importante indicar quatro fatores que contribuem para o que podemos chamar de “reemergência” do Comum. Não é a toa que o Comum retornar hoje como um vocabulário da moda (Silvia Federici faz uma excelente contextualização desta reemergência num texto sobre o Feminismo e o Comum). E se dizemos que ele “retorna” é porque ele existiu em outros períodos históricos. De maneira sintética temos:

    (a)a experiência da expansão da economia capitalista sobre o que resta de bens comunais, promovendo novas expropriações e cercamentos de diversas comunidades indígenas e/ou tradicionais;

    (b)a invasão da lógica privatista e monetarista sobre diversos domínios de nossa vida social, levando à corrosão do comum que dá suporte à manutenção da vida em sociedade (basta pensar nas diversas formas de erosão das relações de solidariedade, da crescente solidão de parcelas da população, dos problemas de saúde mental etc), dinâmica que se aprofunda com o neoliberalismo e o capitalismo cognitivo, apropriando-se de processos antes inimagináveis;

    (c) a crescente percepção dos efeitos de nossa existência destrutiva no Planeta Terra, fortalecendo a percepção de nossa interdependência com outros entes; não é casual que os conceitos de Antropoceno, Capitaloceno ou as diversas expressões que falam sobre o “fim do mundo” estejam mais presentes em nossos vocabulário;

    (d) por fim, há também uma crescente percepção por diversos segmentos das esquerdas mundiais, de que os projetos institucionais de poder na condução de politicas Estado-cêntricas tem se relevado insuficientes para dar conta da complexidade dos problemas atuais.

    O Comum emerge, portanto, como um outro território: nem público-estatal, nem privado. Ao mesmo tempo, o Comum depende do público e do privado para existir, e vice-versa. Tanto o público-estatal como o privado nutrem-se de tudo aquilo que é Comum. Porém, se o Comum for submetido a formas exclusivas de controle (seja pelo Estado, seja pelo Privado) ele corre sério risco de erosão.

    Assim, vamos acumulando pistas sobre o Comum para melhor descreve-lo. Já podemos apontar que ele não é exatamente um objeto (uma coisa/bem comum). Ele “acontece” e se produz no “entre”: ele é sempre co-produção; ele depende de uma comunidade que o produza e o sustente; ele acontece nos espaços intersticiais (entre o publico-comum-privado), entre o individual e o coletivo.

    Ele é também um princípio, uma sensibilidade que dá consistência à fabricação de mundos. O Comum é tanto uma forma de descrição de uma realidade (com suas práticas, normas e leis) como um princípio Político (na acepção de Laval & Dardot) que funda um modo de produção do mundo. Dizer que partimos de uma “ontologia do Comum”, significa dizer que o Comum existe, mas seu “modo de existência” define-se “em relação”. É na relação em que ele está envolvido – qual o circuito das relações em que ele está implicado – que sua expressão será definida. Mas, para que ele “exista” há sempre alguns elementos presentes. Voltemos aos exemplos.

    A forma mais habitual em que o Comum se inscreve na literatura acadêmica, é na sua versão do “Commons”, enquanto “recurso comum” ou “bens comuns”. Na literatura histórica e social, podemos pegar tanto os trabalhos do E.P. Thompson como da Silvia Federici, temos um relato preciso de como os bens comunais (as terras de uso comum) eram utilizadas e geridas coletivamente pelas comunidades, e como o advento e expansão da propriedade privada através dos cercamentos, esses bens comuns foram sendo expropriados. Ao mesmo tempo, a análise revela como a produção nascente explora esses recursos comuns. Importante destacar aí as lutas camponesas e as lutas das mulheres como principais protagonistas no enfrentamento da expropriação dos bens comuns.

    Nos anos 90, a noção de Commons também se populariza graças aos trabalhos da cientista política e economista Elinor Ostrom, primeira  mulher a ganhar o prêmio Nobel de economia (em 2009). Ostrom dedica-se a investigar e a demonstrar como surgem arranjos institucionais (formais e informais) que serão capazes de produzir e sustentar um determinado recurso comum. Num primeiro momento, ela se dedica a mostrar como a água, florestas, estoques pesqueiros entre outros, são co-geridos pelo conjunto dos atores envolvidos no seu uso. A água, a madeira, o pasto etc, transforma-se num Comum quando são reconhecidas como um “recurso comum” de uma atividade produtiva que deve ser gerida “entre-todos” sob pena de sua destruição. Em resumo, é o arranjo institucional – uma forma de governança entre diferentes atores (públicos e privados) – que dá existência ao Commons. Isso significa que os atores aí envolvidos estão sensíveis para suas relações de co-dependência.

    Mas Ostrom (outras autoras e autores) também se dedica a investigar esse mesmo problema quando aplicado a bens de ordem imaterial: a cultura, o conhecimento, a informação. No caso dos bens de ordem imaterial parece contra-intuitivo que eles sejam passíveis de propriedade exclusiva, dada sua característica não-rival e intangível. Há uma vasta bibliografia que irá demonstrar as vantagens dos bens imateriais serem reconhecidos como bens comuns – que são de todos e ao mesmo tempo de ninguém. O argumento vai da direção de afirmar que é graças à existência de bens comuns imateriais que todas as outras atividades podem se desenvolver (o conhecimento, a ciência, se desenvolvem tanto mais quanto mais livre for o conhecimento). A linguagem (nossa língua por exemplo), a informação e cultura participam de toda atividade produtiva.

    Porém, com a crescente expansão das tecnologias de informação e comunicação digital, e sua penetração nas mais diversas atividades econômicas, observamos como a informação e a cultura tornam-se objeto de novas formas de apropriação exclusiva. Basta pensar na expansão dos regimes de propriedade intelectual. Atualmente, saberes ancestrais sobre técnicas de cultivo (um Comum fundamental de muitas populações) são objeto de disputas jurídicas de patentes sobre sementes, etc.

    Um outro exemplo. A capacidade de ler e escrever em português é, para todos nós, uma habilidade ordinária e quase naturalizada. Mas o que ocorre quando somos impedidos de ler algo porque uma determinada informação só está disponível para aqueles que tem acesso à uma determinada tecnologia que permite a leitura? Basta pensarmos nas inúmeras barreiras colocadas pelas restrições de direitos autorais ou softwares proprietários que transformam um recurso antes comum e abundante em um bem escasso. É neste sentido que as lutas pelo livre acesso à informação e ao conhecimento produzem um novo Comum. A cultura é produzida entre-todos, ela é de todos e ao mesmo tempo de ninguém. Para garantir que o acesso ao conhecimento se efetive como um Comum é necessário criar infraestruturas (por exemplo bibliotecas, bancos de dados, internet, softwares livres), códigos, leis que promovam o livre acesso ao conhecimento. O Comum é indissociável da comunidade que o produz e das condições que dão suporte à sua produção.

    Os exemplos são infinitos. Nossa experiência nas redes digitais e tudo que produzimos em nossa vida mediadas pelo digital são um bom caso para refletirmos sobre essa fronteira ambígua entre a colaboração e cooperação, a apropriação e produção de valor. A maneira como nossa interação online é facilmente convertida numa economia da atenção, como nossos dados pessoais e como os dados de nossas interações alimentam uma enorme economia informacional. Perceber esses agenciamentos, perceber a forma como a privacidade, a intimidade e nossas formas de visibilidade, participam de uma nova economia envolve uma profunda investigação dos regimes de sensibilidade que estão sendo gestados.

    Negri e Hardt problematizam como o Comum emerge numa dupla dimensão diante das transformações do capitalismo contemporâneo. De um lado, o Comum enquanto produção biopolítica da Multidão, que está integrada e explorada pelas novas formas de produção de valor do capitalismo (como por exemplo e maneira como nossa inteligência, a colaboração, os atos de comunicação participam cada vez mais da produção econômica); e por outro lado como potência de resistência biopolítica que dá forma ao Comum enquanto terreno de novas lutas.

    Na medida em que cada vez mais diferentes aspectos de nossas vidas participam da produção econômica, esses autores problematizam como a produção capitalista torna-se a produção da própria vida, logo biopolítica. Nossa experiência de cidade, o ar, nosso tempo de vida e de atenção, são exemplos do Comum que pode ser submetido a processos de codificação para ser explorado.

    Pensemos, por exemplo, no tempo gasto em nossos deslocamentos nas cidades, e a forma como a distribuição desigual deste tempo participa da produção de uma espacialidade absolutamente estratificada e desigual. Ademais, pensemos em como este deslocamento é ainda submetido à uma lógica de rentabilidade e superexploração. Podemos tomar as lutas pelo passe-livre como uma luta que coloca o direito à cidade, o direito à mobilidade como um Comum.

    Aqui, é interessante destacar que uma reivindicação inscrita na Política do Comum, modifica o regime de subjetivação e de sensibilidades. O tempo de vida é Comum entre-tod@s. Posso reivindicar o direito à mobilidade não a partir de uma categoria de pertencimento específica (sou homem, mulher, estudante, idoso…), mas sim a partir do direito a um Comum.

    Por isso a diferença com a “Política” de Rancière que emerge nos momentos de ruptura da “partilha do sensível”: qual é a parte que me cabe num mundo (único) comum; ou ainda, reivindico minha participação num mundo do qual fui excluído. Evidentemente a maneira como o Estado responde é tentando traduzir e submeter tal reivindicação a um regime de subjetivação moderno, distribuindo as “partes divisíveis” conforme as categorias de pertencimento (para estudantes, para idosos…). A Política do Comum forma um outro relevo, dado que o Comum não é divisível.

    O Comum transborda a oposição entre o particular e o universal. Como bem aponta Lazzarato, “a reivindicação de direitos para todos não parte da definição de uma identidade, mas da dissolução das identidades nos agenciamentos moleculares da multiplicidade. Não se trata de dizer “nós temos direito a isto porque somos aquilo”, mas sim “nós temos direitos a isto para nos tornarmos uma outra coisa”[…] “a constituição do sujeito político é uma “desidentificação” que nao pode desenvolver-se a não ser como proliferação de mundos possíveis que escapem deste mundo “comum e partilhado” que está no fundamento da política ocidental. Para recolocar em xeque as designações identitárias, deve-se deixar de acreditar na idéia de que só há um mundo possível”. Na visão deste autor, esta seria a passagem para uma “democracia do devir”, uma “política do acontecimento”.

    Outro exemplo que me parece interessante é o caso do CouchSurfing versus o Airbnb. No Couchsurfing as pessoas viajam e ficam hospedadas gratuitamente na casa de outras pessoas. É uma economia da dádiva que propicia um tipo de experiência para os viajantes e para os anfitriões. Noutro caso, o Airbnb permite que transformemos um espaço de nossas casas num ativo econômico que pode ser monetizável. Num contexto de expansão do Airbnb já temos observado dois fenômenos: (a) pessoas que deixaram de receber gratuitamente pessoas em suas casas pois decidiram gerar renda com a hospedagem. Neste caso, na medida em que isso se amplifica é a Hospitalidade enquanto Comum que entra em erosão; (b) mas outro conjunto de efeitos que hoje já é nomeado como “Turistificação”. De repente os moradores de um determinado prédio que passa a ter muitos imóveis alugados se dão conta que as relações e vizinhança foram destruídas; ou ainda, um bairro que começa a concentrar muitos imóveis de aluguel de temporada também tem a “vida de bairro” destruída. O “bairro” aqui é um Comum ameaçado. Reivindicar o “direito ao bairro” na chave de uma Politica do Comum implica numa outra sensibilidade, uma outra percepção sobre as relações de co-dependência. É por isso que em muitas cidades têm emergido experiências de luta de produção de relações de vizinhança, essas relações são fundamentais no suporte à vida cotidiana.

    Mas talvez, a situação onde melhor possamos visualizar a tensão entre o sensível e o intangível na produção do Comum seja no caso de todas as atividades relacionadas ao cuidado e ao trabalho afetivo e comunicacional. São as feministas que aportam uma diferença substantiva para essa discussão em torno do Comum e do trabalho considerado “imaterial”. Ora, todo trabalho é um trabalho do corpo, a atenção exige um elevado dispêndio de energia (vital, afetiva). São muitas as camadas de trabalho invisibilizadas que estão no centro da reprodução da vida. Trabalhos sem o qual a vida não seria possível. São muitos os estudos aqui que demonstram como o trabalho de reprodução da vida foi gradualmente expulso da esfera da produção de valor, para se tornar um trabalho não-remunerado mas que é fundamental para a própria reprodução do trabalho considerado “produtivo”. Reivindicar este trabalho, antes considerado invisível, na chave do Comum permite interrogar, por exemplo, as distinções entre micro e macro política, revelando como a sociedade como um todo se produz e se reproduz nas ínfimas relações do cuidado cotidiano. A riqueza dos movimentos feministas que eclodem em toda parte estão modificando significativamente o regime de sensibilidade em torno dessas questões.

    Hoje, quando enfrentamos dificuldades para criar nossos filhos em razão de nossas formas de vida, damo-nos conta de como a vida foi privatizada através de diferentes dispositivos. Para criar nossos filhos precisamos produzir Comum, criar alianças, criar novos modelos de parentesco. Uma criança precisa de uma tribo. É todo um Comum que tem que ser produzido se quisermos criar alternativas aos modelos de terceirização dos cuidados.

    Apresentei acima um pequena seleção de exemplos relacionados à produção do Comum, em suas diferentes acepções. No debate contemporâneo, o livro de Laval & Dardot faz uma excelente revisão teórica deste tema. O mais importante, a meu ver, é que esses autores procuram elaborar uma narrativa teórica-política que seja capaz de abarcar uma diversidade de experiências em torno do Comum, de forma a toma-lo como um “Princípio Político”. O que quero destacar no argumento desses autores, é que tal proposta implicaria: numa outra forma de composição da política, modificando o regime de subjetivação política e de produção dos sujeitos de direitos; e numa outra forma de composição entre o público-privado, econômico-social, reconhecendo, como o fazem as feministas, que toda a vida é política:

    “a identidade do princípio (o comum) não suprime a distinção das esferas (social-econômica, público-privada, politica, e publica-publica), mas tem a função de organizar o social de tal maneiro que seja possível uma deliberação na esfera pública que não fique prisioneira dos interesses de tal ou qual categoria socio-profissional. Isso só pode acontecer se a esfera da produção e dos intercâmbios se reorganize a fundo a partir do autogoverno do comum” (Laval & Dardot).

    Neste sentido, estaríamos diante de uma outra composição do mundo sensível. A Política do Comum implica portanto noutro regime de sensibilidades, noutro regime de subjetivação. Aqui, nesta parte final, desejo articular a “produção do Comum” ao processo de individuação. Como indicado logo no início do texto, uma Política do Comum tal qual estamos propondo permitiria escapar às dicotomias individuo-sociedade e natureza-cultura, através de outras alianças.

    Concluo dialogando com o trabalho da filosofa catalã Marina Garcés, pois acredito que ela recoloca esse problema em termos mais adequados à reflexão que me foi proposta pela Bienal.

    Garcés propõe que pensemos o ser como inacabamento. O ser não é uma dimensão estável ou transcendente que espera ser contemplada ou que contempla um mundo do qual ele estaria separado. Há uma co-implicação entre os seres e o mundo, há uma relação de continuidade. Dessa perpectiva “involucrada” em um mundo comum a ontologia é um espaço de vulnerabilidade.

    “Desde um sujeito que é um corpo, ou seja, não é uma consciência separada senão um nó de significações vivas entrelaçadas a certo mundo, não se trata de explicar meu acesso ao outro, senão nossa co-implicação em um mundo comum. Não se trata, portanto, de explicar a relação entre indivíduos, senão a impossibilidade de ser “somente” um indivíduo. Esta é a condição para poder descobrir-se em situação, ou seja, para reaprender a ver o mundo não mais desde uma mirada frontal e focalizada do indivíduo, mas desde uma excentricidade inapropriável, anônima, da vida compartilhada”[…] E noutro trecho, a “potência da situação, como uma conjunção concreta de corpos, sentidos, silenciosa, alianças, modos de fazer, rotinas, interrupções, etc, que desenham um determinado relevo, e não outro.”

    Por fim, talvez outra palavra que podemos incorporar aqui em nosso vocabulário e discussões em torno do Comum, é a noção de aliança: quais são nossos modos de composição (entre humanos mas também não-humanos). Garcés, ao invés de perguntar “o que nos une?”, interroga “o que nos separa?”.

    —-

    Referências
    FEDERICI, Silvia. Feminism and the politics of the commons. The Commoner, 24 jan. 2011. Disponível em http://www.commoner.org.uk/wp-content/uploads/2011/01/federici-feminism-and-the-politics-of-commons.pdf
    FERNANDEZ-SAVATER, Amador, A destruição da empatia e as lágrimas felizes: https://urucum.milharal.org/2018/05/21/a-destruicao-da-empatia-e-as-lagrimas-felizes/
    GARCÉS, Marina. Um mundo común. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2013.
    LAFUENTE, Antonio. Los cuatro entornos de lo procomún. Archipiélago. Cuadernos de Crítica de la Cultura, 15-22, 2007. http://hdl.handle.net/10261/2746 
    LAVAL, C; DARDOT, P. Comun: ensayo sobre la revolucion en el siglo XXI, GEDISA, 2015.
    PARRA, Henrique Z.M. Políticas da partilha e da distribuição. In: Silvio Gallo, Marcus Novaes, Laisa Blancy deOliveira Guarienti. (Org.).Conexões: Deleuze e Políticas e Resistências e….Petrópolis/Campinas/Brasilia: De Petrus et Alli, ALB, CAPES, 2013, v., p. 35-44.
    RANCIERE, Jacques. O desentendimento. São Paulo: Ed. 34, 1996.
    _____ . A partilha do sensível: estética e política. Tradução Mônica Costa Netto. São Paulo: Ed. 34/EXO, 2005.
    TEIXEIRA, Ricardo. As dimensões da produção do comum e a saúde. Saúde Soc. São Paulo, v.24, supl.1, p.27-43, 2015. DOI 10.1590/S0104-12902015S01003
    LAZZARATO, Mauricio. As revoluções do capitalismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

  • Laboratórios e Algoritmos Encarnados

    Laboratórios e Algoritmos Encarnados

    Em abril de 2017 realizei essa palestra – Laboratórios e Algoritmos Encarnados – no Medialab da UFRJ, coordenado pela Fernanda Bruno. Pretendo transformar essas notas em um artigo, mas como isso pode levar um bom tempo, resolvi já compartilhar por aqui as minhas anotações que utilizei para fazer a palestra. Elas já são praticamente um primeira versão deste futuro texto. Seguindo a premissa hacker na ciência aberta, se desejamos cooperação é preciso liberar o quanto antes o conhecimento. Seguem então as notas, algumas indicações bibliográficas, fotos do dia e logo menos o registro parcial em vídeo da palestra.

     

    Palestra realizada no Medialab – UFRJ – 13 de abril de 2018

    Título: Laboratorios, Tecnopolíticas e Algoritmos Encarnados

    Uma resposta imediata para a relação laboratórios X algoritmos

    exemplos:
    -Trackula (baseado no lightbeam)
    -Agrega.la

    Desafio de pensar outras relações possíves entre laboratórios e algoritmos. Possibilidade de me reconectar com um trabalho de quase 10 anos atrás (doutorado).
    Investigação sobre modos de conhecer X tecnologias digitais e política.
    Leviatã – como pessoa artificial.

    ==Contexto==

    -crescente digitalização do mundo
    -Ciência – convergencia NBIC, conhecimento simulacional
    -Capitalismo Informacional, Cognitivo e Financeirização.
    -Governo Biopolítico, Sociedade de Controle, Governamentalidade Neoliberal e Algoritmica

    *Contexto sociopolítico mais amplo:
    Relação entre a emergência de novas:
    -formas de produção conhecimento (tecnologias digitais, crise dos modelos centrados no sistema de expertise, emergencia de novos atores cognitivos, ciencia aberta, ciencia cidadã…).
    X
    -forma de exércicio do poder (mutações e crise nas instituições democráticas, sociedade de controle, mas também as novas formas de resistência e ativismo).

    Abertura e Controle
    Novas formas de governo: Ciencia cidadã X Cidadãos inteligentes X Cidades Inteligentes

    Graças à crescente digitalização e mediação das tecnologias cibernéticas, a expansão do codificável infiltra-se nos ínfimos interstícios da vida individual e coletiva. Com a indicialidade e rastreabilidade da interação digital, surgem novos modos de conhecer: as ciberciências, o conhecimento simulacional, a estatística preditiva, a modulação existencial. Foucault descreveu o surgimento dos saberes populacionais e a biopolítica; Deleuze anunciou a sociedade de controle. É sobre essas camadas que Antoinette Rouvroy descreve a nova governamentalidade algorítmica. No Brasil, Fernanda Bruno, Sergio Amadeu e outros pesquisadores da LAVITS examinam o mesmo problema em termos dos regimes de visibilidade, controle e economia da vigilância.

    No terreno da economia, o capitalismo informacional cria formas de extração e converte a livre interação e colaboração em rica fonte de valor. Os novos saberes e sua economia desenvolvem-se sobre o comum que produzimos de forma transindividual: simultaneamente na dimensão infraindividual (os rastros e índices da expressão pré-individual) e supraindividual (dados agregados, os perfis potenciais). Por isso, é um saber e um poder que está para além do indivíduo e da população. O conhecimento simulacional gera técnicas de modulação do ambiente de forma a alterar o horizonte dos possíveis, modificando o campo probabilístico para a ação futura, e tudo de maneira doce e imperceptível (ou sem fricção, nos termos da tecnofilia do Vale do Silício).

    ==Conhecimento Simulacional e Algoritmos==

    [Imagens HFT]

    [Discussão a partir de Herminio Martins]

    3 estágios ou tipos de pesquisa empírica, 3 formas de se fazer ciencia empírica.

    I-ciencias ou sciencing in vivo: estudar seres naturais no “mundo selvagem”, com ou sem instrumentos especiais.

    II-ciencias ou sciencing in vitro: estudar os seres naturais no laboratório (wet labs), para observação detalhada, experimentação física de forma controlada.

    III- sciencing in silico: e-sciences, cybersciences: estudo dos processos, mecanismos e dinamicas de entidades naturais, culturais, através da simulacao computacional (dry labs).

    Com as ciências do silicio, amplia-se enormemente a quantidade de “objetos” que podem ser tratados cientificamente.
    Antes, a observaçao se limitava a tudo que podia ser acessível via experiencia sensorial.
    Agora, tudo que é passível de simulação torna-se “observável”.

    Depreciaçao e abondono do conhecimento observacional ou historico-natural, etnociencia, folk psychology, experiencias “mao-na-massa”…
    Artificializacao + simulacao = substituem experiencia.

    Simulação – ao antecipar, acaba por determinar o real.
    Simulação – acaba por substituir a experiência.
    Depreciação do conhecimento prático, observacional, experimental….

    Essas dinâmicas fazem parte de um amplo processo social, descrito por Virilio (2002) como o deslocamento espaço-temporal da disputa política em direção ao virtual. Nesta perspectiva, as intervenções no “presente” visam a obter o controle sobre o que existe “potencialmente” (em estado virtual). A guerra muda de lugar! Neste contexto, os conflitos comunicacionais buscam não apenas o convencimento e a legitimação das ações em curso, mas sobretudo, o controle das imagens mentais e do pensamento do outro. Trata-se, portanto, de uma intervenção também dirigida à imaginação e ao desejo, territórios virtuais por excelência

    Com a mediação das tecnologias digitais isso é amplamente feito através dos algoritmos => Facebook.
    Perfil potencial

    Algoritmos: Exemplo: mercado financeiro HFT

    ==Ciborgue Epistêmico==

    [imagens Quantified self]

    [Discussão a partir de Herminio Martins]

    Projeto Trans-humanista: vinculado à extensão das ciências cibernitizadas da vida, da mente e do cérebro, e à permeação do nosso modo de pensar por uma metafísica informacional. Trata-se de uma perspectiva que aponta o sucessor legítimo do homo sapiens como sumidade cognitiva, cujo veículo seria um ente pós-biótico.

    Ciborgs Epistêmicos: aumentar ao máximo as capacidades cognitivas dos nossos sentidos antigos e novos, com a substituição gradual dos nossos órgãos sensoriais e dos nossos membros por sensores efectores electromecânicos.

    OGM – organismos geneticamente modificados.
    HGM – humanos geneticamente modificados.

    Maximização do conhecimento tecnocientífico como fim último e exclusivo.
    O que está em jogo é a Emergência de um novo Sujeito Epistêmico Desencarnado, que poderá deixar a Terra, já esgotada cognitivamente, para continuar a Tarefa Comum de expansão infinita do conhecimento.

    Experimentum Humanum – o Homem-como-Experimento em duas versões:
    -Megalantropia, de amplificação sem limites dos poderes naturais do Homem.
    -Trans-humanistas, misantropia ontológica radical, para superar o Humano.

    3 Estágios do Progresso Universal Ciborg:
    -homem biológico comum + aquisição de próteses.
    -interface cérebro-máquina e modificação tecnológica do sistema nervoso central.
    -desencarnação e passagem ao ens virtualissimum = pós-humano.

    Bionic senses: sentidos bionicos: torna-los a interface primária da relaçao humano-mundo externo.

    ==RESISTÊNCIA E ALTERNATIVAS==

    Pensar a resistência à sociedade de controle => poder protocolor e imperial

    **Resistencia: sensuismo (distinto de sensualismo), preservar a sinestesia, kineostesia.
    **Modos de composição com a tecnologia – ao invés do projeto trans-humanista, o manifesto ciborgue da Haraway (anos 80), e hoje as formas de composição humano-máquina que apontam para outras cosmologias, outras forma de viver coletivamente.

    Algoritmo Encarnados => como formas de mediação técnica algoritmica corporificadas.

    Duas formas de manifestação dessa idéia:
    -laboratórios de prototipado => centralidade da experiência e apropriação de tecnologias e algoritmos para “sentidos” ampliados.
    -algoritmo encarnado como protocolo social => criação de arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares.

    ==Laboratórios de Prototipado==

    [protótipo => conhecimento experiencial como forma de resistência]
    No contexto de fortalecimento da sociedade de controle e da governamentalidade algorítmica, o saber que lhes dá sustentação é o conhecimento simulacional. A capacidade de análise e de produção de cenários futuros é um dos principais campos de disputa: Como o mercado vai reagir? Como os eleitores vão se comportar? Como o governo irá modificar uma política?

    A política do protótipo intervém aí numa dupla direção: em primeiro lugar um protótipo é um novo artefato, uma nova relação ou arranjo sócio-técnico, e assim ele produz imagens, cenários que modificam o horizonte dos possíveis, interrogando as imagens disponíveis sobre o futuro; em segundo lugar, ao dar centralidade à noção de experiência, ele ativa uma potência corpórea como um importante território de disputa face aos modos atuais de sujeição social e servidão maquínica.

    Objetivo: criação de arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares.

    Essa passagem do protesto para a proposta (Lafuente e outros autores usam esta expressão) também estava presente como política pré-figurativa em movimentos sociais e contraculturais do século passado. Também encontramos isso em alguns movimentos feministas e ecologistas, em algumas iniciativas presentes no início do Fórum Social Mundial e, mais recentemente, em coletivos hackers para autonomia tecnológica, comunidades de práticas de grupos afetados, redes de agroecologia ou de economia social/solidária, moedas sociais… Essas iniciativas são importantes porque produzem formas associativas que sustentam este “comum” (o que por si só é de grande valia num mundo em que o tecido social é destruído pela governamentalidade neoliberal). E para isso elas também criam os arranjos de modo que suas práticas “funcionam” no presente, promovendo outros critérios de eficiência. Porém, isoladamente, essas experiências também têm os seus limites.

    ==Gramática dos laboratórios==

    laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo.
    Funcionam sob um complexo arranjo sociotécnico, simultaneamente simbólico e material, normativo e pragmático.

    Em síntese, um laboratório cidadão realiza-se com uma combinação de: abertura; colaboração; cuidado; mediação;
    documentação; infraestruturas; tecnologias; protocolos; comunidades e produção
    do comum. Trata-se de uma trama com muitas camadas, e para que cada um desses
    elementos se efetive ele precisa ser atravessado pelos demais.

    Há uma política cognitiva que se manifesta numa ética e num conjunto de práticas e tecnologias relacionadas ao modo de conhecer.
    Há uma tecnopolítica que se realiza nas configurações das mediações
    técnicas da interação social.
    Há uma economia política, relativa ao regime de propriedade, posse e uso dos bens e recursos produzidos.
    Há uma política experimental que se realiza através de processos instituintes de novas comunidades.

    ==Protocolo como Algoritmo Social==

    [Imagens = fair coin]

    [discussao a partir de Alexander Galloway]

    Protocolo Pré-era Digital:
    -comportamento correto ou esperado dentro de um sistema específico de convenções.
    -etimologicamente: etiqueta de papel colada sobre a frente de documentos;
    -Uso comum: sumário dos principais pontos de um acordo diplomático.

    Protocolo Era Digital:
    -padrão que governa a implementação de uma tecnologia específica.
    -convenciona os pontos essenciais que levam a uma ação acordada ou padronizada.
    -governa como tecnologias específicas são adotadas, implementadas e como podem ser utilizadas.

    Protocolo para cientistas da computação:
    -regras convencionais que governam um conjunto de comportamentos possíveis, dentro de um sistema heterogêneo.
    -técnica para alcançar regulação voluntária dentro de um ambiente contingente.

    Protocolos são altamente formais: ou seja, eles encapsulam informações dentro de um invólucro técnico. Não está muito interessado no conteúdo da informação.

    **Protocolo é um sistema de administração distribuída que permite que o controle exista dentro de um meio/ambiente material heterogeneo.

    A better synonym for protocol might be “the practical”, or even “the
    sensible”. It is a physical logic that delivers two things in parallel:
    the solution to a problem, plus the background rationale for why
    that solution has been selected as the best. […] Like liberalism,
    democracy, or capitalism, protocol creates a community of actors
    who perpetuate the system of organization. And they perpetuate it
    even when they are in direct conflict with it.(Galloway,2004,p.245).

    ==Politica do Protótipo==

    [imagens = DIY sensor ambientais]

    O protótipo é aqui compreendido como expressão da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação (do protesto á proposta).

    Protótipo: prototipar é uma prática que torna o laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo.

    Prototipar como forma de conhecer: significa levar a sério o fato de que todo
    processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo.
    Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer.
    O protótipo é inacabado, aberto, destaque para o processo.

    Protótipo e ação política: A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto abstrato de sociedade futura pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja.[…] É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir.

    Em primeiro lugar, o destaque para uma dimensão experimental e pragmática. O desafio de realização de um protótipo implica em fazer, em criar coisas, criar relações. Ela é tentativa, não tem a pretensão de ser a resposta verdadeira ou a melhor resposta. Ao invés de investir muita energia na definição de fronteiras e categorias políticas abstratas para conceber um programa de ação, ao prototiparmos somos obrigados a compreender como as coisas funcionam no mundo aqui-agora. É uma ação menos orientada ideologicamente (evidentemente há sempre valores envolvidos) e mais prática.

    Ao realizarmos o protótipo, novos problemas emergem, a realidade se torna mais complexa, colocamos o protótipo em movimento e aí já podemos experimentar as dificuldades para sua existência no mundo, e assim tornamos mais visível as forças e conflitos em jogo. Ao mesmo tempo, para fazer um protótipo temos que criar uma comunidade, e ao fazer isso aprendemos a caminhar juntos. Pode parecer banal, mas essa habilidade (fazer junto) é um recurso escasso em muitos locais.

    No centro da produção do protótipo está a experiência. E digo experiência no sentido forte do termo, “sofrer uma experiência”, “ter uma experiência”, como nos ensina Jorge Larrosa. Ao fazer um protótipo colocamos nossos corpos em ação, e ao fazer isso outros saberes, afetos e poderes entram em cena. O protótipo reforça um sentido de abertura, indeterminação, sujeito à continua transformação. Em resumo, uma política do protótipo é também a passagem de um movimento reivindicativo para um movimento propositivo e pré-figurativo, que experimenta no presente a criação de outros modos de relação e outros mundos possíveis.

    Referências:
    Henrique Parra:
    *https://pimentalab.milharal.org/2018/03/17/do-protesto-aos-arranjos-tecnopoliticos-recursividade-e-reticulacao/
    *http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3907
    *http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3558

    Herminio Martins:
    *http://revistas.ulusofona.pt/index.php/respublica/article/view/2398

    Fotos do dia:
    *https://www.facebook.com/pg/UFRJ.MediaLab/photos/?tab=album&album_id=1792248374131965

    Videos:
    *https://www.facebook.com/UFRJ.MediaLab/videos/1786704534686349/
    *https://www.facebook.com/UFRJ.MediaLab/videos/1786675101355959/
    *https://www.facebook.com/UFRJ.MediaLab/videos/1786721951351274/

    Muito obrigado Lori Regattieri e Anna Bentes pelos registros!

  • Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

    Minicurso Diálogos de Pesquisa
    Diálogos de pesquisa: ciência aberta, ciência cidadã, ciência comum

    Realização: Grupo de Pesquisa em Ciência Aberta do Liinc

    Programação completa e inscrições: http://www.liinc.ibict.br/eventos/mini-curso-dialogos-de-pesquisa/

    As sessões contarão com transmissão ao vivo no canal do Liinc no YouTube disponível no endereço https://www.youtube.com/LiincVideos

    Programação:

    27/03 – Abertura em questão: ciência aberta e ciência comum
    03/04 – Produção Colaborativa em Debate
    10/04 – Comunicação Científica e Publicação Aberta
    17/04 – Visualização de Dados na Ciência Aberta e na Ciência Cidadã
    24/04 – Regimes Emergentes de Apropriação do Conhecimento
    08/05 – Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos
    15/05 – Dados Científicos Abertos
    22/05 – Ciência Aberta e Humanidades Digitais

  • Cryptorave: Jornalismo Investigativo e Pesquisa Cientítica

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    Jornalismo Investigativo e Pesquisa Científica: privacidade, informações sensíveis, liberdade de infomação e conhecimento

    16h – 17h

    Pretendemos colocar em contato jornalistas investigativos, cientistas-ativistas e a comunidade crypto-ativista pra debater os novos dilemas emergentes relacionados aos processos de trabalho nesses segmentos face à expansão das tecnologias digitais de comunicação. Para esta mesa propomos reunir profissionais da área de jornalismo investigativo e pesquisadores acadêmicos que lidam com informações sensíveis, para relatar suas rotinas e forma atual de trabalho, de maneira a evidenciar para comunidade crypto-ativista quais os novos problemas e necessidades relativos à privacidade, proteção de dados sensíveis, liberdade de informação e conhecimento. A partir dessa mesa pretendemos: sensibilizar os profissionais e o publico em geral sobre problemas relativos ao uso das tecnologias (que novos problemas surgem sobre privacidade, anonimato, sigilo de fonte etc); compreender as formas de trabalho dos jornalisas investigativos para contribuir para a elaboração de guias/tutoriais de orientação; e disseminar tecnologias de fácil uso para profissionais (jornalistas investigativos, cientistas ativistas, entre outros).

    Palestrantes

    Daniel Bramatti: Reporter da editoria de política do Jornal O Estado de São Paulo, onde está desde 2008. Integra também o Estadão Dados, núcleo de jornalismo de dados do veículo. Entre 1994 e 2006, trabalhou na Folha de São Paulo, na sede e na sucursla de Brasília e como correspondente em Buenos Aires.

    Sabrina Duran: Jornalista.Trabalha como repórter freelancer desde 2006. Cobre as áreas de urbanismo, habitação popular e Direitos Humanos. Em 2013 criou o projeto de investigação jornalística “Arquitetura da Gentrificação”, no qual mapeia processos de higienização social no centro da capital paulista disparados por parcerias público-privadas: ag.jor.br

    Bruno Paes Manso: Formado em economia (USP) e jornalismo (PUC-SP), trabalhou por dez anos como repórter no jornal O Estado de S. Paulo. É um dos fundadores do site Ponte Jornalismo, Faz pós-doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da USP e é Visiting Fellow do Centre of Latin American Studies em Cambridge. É autor do livro O Homem X – Uma reportagem sobre a alma do assassino em SP.

    Henrique Parra: Sociólogo e ativista, é professor de Departamento de Ciências Sociais da Unifesp, onde coordena o Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento. É pesquisador do Lavits (Rede Latino-Americana de Estudos em Vigilância, Tecnologia e Sociedade) e do IBICT/UFRJ, onde realiza pós-doutorado com apoio do Cnpq: blog.pimentalab.net