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  • Sociologia da Educação na Pandemia Covid-19 – experimentar presença

    Sociologia da Educação na Pandemia Covid-19 – experimentar presença

    Na primeira semana de agosto reiniciaremos o curso interrompido em março pela Pandemia Covid-19. Ela não passou e ainda estamos num momento de grande propagação do vírus e com elevado número diário de mortos. A retomada das aulas à distancia (ADE, EAD…pouco importa) está cercada de controvérsias. Antes dessa decisão institucional eu desejava outro coisa para este momento. Queria que pudéssemos criar voluntariamente ações coletivas de investigação sobre a relação Universidade, Ciência e Pandemia: como chegamos ate aqui, e que universidade precisamos inventar pra transformar essa situação? Queria também que pudéssemos nos dedicar mais às ações de apoio mútuo entre professores, estudantes e funcionários. Quem sabe o curso agora possa servir também pra tramar um pouco dessas duas linhas.

    Nos deparamos com o desafio de realizar um novo curso em condições excepcionais. Há diversos problemas envolvidos na realização das atividades educacionais não presenciais mediadas por tecnologias digitais e cibernéticas. De imediato, o mais agudo deles são os efeitos de intensificação das desigualdades. Esse e outros problemas serão objetos de nossa reflexão no percurso da disciplina do semestre Sociologia da Educação.

    Mas há também aspectos interessantes que podem emergir dessa experiência. É hora de falar um pouco disso; é hora de reconhecer a potência da situação e lutar para “retraçar o destino trágico que nos querem impor” – linda imagem, inspirada no Odu, utilizada pelo colega Uirá Garcia numa conversa com os estudantes durante a pandemia.

    As sensações que nos atravessam durante a pandemia e os diferentes momentos que ja vivemos em mais de quatro meses, nos arrastam a modos de ser desconhecidos. Nos últimos dias comecei a imaginar, para atravessar esse momento, uma nova composição com plantas subterrâneas, tubérculos ou rizomas: devir-gengibre, devir-mandioca, devir-batata, devir-cebola. Entrar um pouco para baixo da terra, acumular energia, ficar imperceptível, crescer para os lados, fazer novas alianças, ficar amigo de fungos, bactérias, minerais e outros seres vivos, criar composições que amplifiquem uma nova reticulação, infiltrar e correr como a água, curar algumas feridas, revigorar, fazer novos parentes, ampliar a própria força para o que está por vir, rachar o solo por baixo.

    Reorganizei o curso levando em conta algumas disposições, especialmente reconhecendo a diversidade das situações de vida dxs estudantes (e também a minha) no contexto da Pandemia. Não está fácil pra ninguém, e pra muitas e muitos estudantes, a vida está por um fio. Por isso, o desenho do curso, as exigências e as expectativas serão outras. Mais do que resultados ao final do trajeto queremos uma boa travessia: o meio importa! Gosto de pensar o curso como a prática de uma mesopolítica, uma política do meio.

    Na linha do que temos experimentado no Pimentalab (nos projetos Laboratório do Comum e Zona de Contágio) o curso pode funcionar como um laboratório de investigação coletiva e situada em que seja possível constituir uma Comunidade Transitória de Práticas, um coletivo de aprendizagens. Por “coletivo de aprendizagem” refiro-me aqui à idéia forte de que ninguém aprende sozinho, aprendemos juntxs e neste processo transformamo-nos todxs (Freire, B.Hooks, Lafuente, dentre outrxs servem aqui de inspiração). Diferente, portanto, das “pedagogias de aprendizagem” vinculadas atualmente aos modos de subjetivação neoliberal (um eu-individual-soberano que aprende através da aquisição de habilidades e competências, num infinito empresariamento de si). A idéia de “transitória” tomo de empréstimo do Ailton Krenak, quando ele convida as pessoas numa atividade a constituirem uma “comunidade transitória” dedicada ao aqui-agora da escuta e aprendizado mútuo.

    Como fio condutor do curso “Sociologia da Educação” teremos uma seleção de problemas que emergiram para o campo da educação diante da Pandemia Covid-19, elegendo recortes estruturantes deste vasto campo de estudos. O curso deve servir também pra nos ajudar a elaborar melhores perguntas.

    Para a arquitetura deste curso à distância, concebemos que as atividades deveriam levar em conta a possibilidade de trabalharmos tanto com diferentes graus de engajamento dos estudantes, mas também com diferentes graus de abertura para públicos externos à sala de aula habitual. Um vantagem de um curso remoto é a chance de colocarmos na conversa pessoas e perspectivas distintas que normalmente não teriam condições de estar em nossas salas de aula. Assim, algumas atividades do curso terão um desenho mais fechado (voltado ao trabalho interno) e outras terão um desenho mais aberto (voltadas ao envolvimento com públicos distintos).

    Leituras: o conteúdo sofreu alterações de forma a criar maior aproximação com temáticas que eclodiram no contexto da Pandemia (escola-educação, universidade, trabalho docente e tecnologias educacionais entre outras). O volume de leitura também foi modificado. A partir da idéia de um núcleo Mínimo-Múltiplo-Comum (MMC) organizamos trilhas de estudos com graus diversos de complexidade de maneira que cada estudante possa escolher o caminho que lhe é possível neste momento.

    Encontro sincronicos: a idéia é que possamos experimentar e tentar inventar “estados de presença”. O que pode ser um encontro numa sala virtual? O que pode ser uma aula? Quais os modos de presença que desejamos praticar? O problema não é novo e ele tambem se coloca para uma aula presencial. Nos habituamos a não questionar a qualidade de nossas aulas e a “crise de presença” contemporânea (dxs professorxs e dxs estudantes), como se estar em sala fosse o suficiente para provocar um acontecimento-aula-encontro. Numa aula muitas coisas acontecem e ela também comporta diferentes estados de presença. Não é suficiente transferir nossas práticas da sala de aula para os ambientes virtuais. Assumir a experimentação talvez seja a melhor alternativa nesse momento. No ambiente digital estamos sujeitos a um outro regime de sensibilidade (percepção-sensação); a outros ritmos; a uma outra política da atenção. O meio importa!

    Dividi as atividades sincronicas em dois momentos distintos que serão alternados a cada semana. Teremos mini-blocos temáticos de 15 dias. Numa semana faremos um encontro na forma de um grupo de estudos e orientação, conversaremos sobre os textos, elaboraremos perguntas, discutiremos, e vamos pensar sobre os projetos da disciplina. Essa atividade está mais voltada para o trabalho interno. Noutra semana faremos uma espécie de “aulão”. Haverá um momento expositivo inicial (penso em realizar uma fala de aproximadamente 20-30 minutos), poderemos ter diferentes convidadas/os para essa conversa e também público espontâneo. Em seguida, abriremos para interação entre todxs. Tempo máximo de duas horas para toda a atividade. Minha expectativa é que neste encontro possamos partir do pensamento dxs autorxs dos textos, para dialogar com os materiais que serão coletados e produzidos pelxs estudantes, e também com as experiências que serão narradas entre nós. Temos que “aproveitar” o fato de que nosso curso tem como objeto/tema a própria educação. Do ponto de vista tecnológico resolveremos assim: nas atividades internas utilizaremos ferramentas e ambientes de acesso restrito; nos encontros-aulão utilizaremos plataformas de acesso público e streaming.

    Atividades assincrônicas: alem da leitura dos textos esperamos que os estudantes possam produzir (individualmente ou coletivamente) um exercício de pesquisa sobre temas/problemas relacionados à disciplina. Vamos coletar e organizar links para pesquisas, relatorios, reportagens, dados; e vamos criar ensaios em diferentes linguagens. Além da página na wikiversity (onde vou documentar o percurso da disciplina), vou utilizar um site em wordpress para hospedar os demais produções da disciplina. A cada quinzena os estudante serão convidados a produzir algo e publicar na forma de um comentário no site: um pequeno texto, audios, fotos, poesias, microvideos relativos ao tema da quinzena. Fizemos isso na Zona de Contágio e foi uma boa experiência. Aqui um exemplo (vejam os comentários ao post).

    Como forma de avaliação temos duas opções e cada estudante poderá optar por um caminho: coletânea de suas produções publicadas no site durante o semestre; ou a elaboração de um ensaio único ao final do semestre.

    Por fim, outro elemento importante para que o curso possa melhor fluir é a enfase nos processos coletivos. Como podemos misturar a constituição de grupos de pesquisa entre os estudantes, com as formas dos grupos de afinidade e grupos de apoio-mútuo? Um curso à distância é cheio de armadilhas (assim como um curso presencial). Frequentemente,nos ambientes digitais, graças à tecnicidade do meio (sua tecnoestética e tecnopolítica), há uma maior disposição para a individualização dos processos de aprendizagem. Teremos que praticar uma atenção e escuta ativa aos processos que vamos desencadear para que consigamos promover outros desenhos e disposições para o fortalecimento coletivo. Como transformar a tela em uma interface mais conjuntiva do que conectiva? “Como redesenhar a pesquisa, o ensino universitário para uma lógica da conjunção? Que arranjos acadêmicos, investigativos, pedagógicos e de convívio poderiam ativar uma fratura que permita “pular os muros” da lógica proprietária do conhecimento, mas cair longe deles? Como manter, por algo despertado na quarentena, nossa capacidade de decifrar os signos segundo o desejo, liberando espaço para a vibração do desejo-pesquisa, desejo-educação, desejo-arte, desejo-luta?”

  • Innovation through Social Science, Podcast Episode #84 e #85

    Innovation through Social Science, Podcast Episode #84 e #85

    O episódio #84 saiu e está em português com transcrições em inglês. Andrea Rozenbaum e eu (Corina) conversamos com Henrique Parra e Ricardo Teixeira sobre como diferentes países estão respondendo ao COVID-19. Focando no Brasil, além de uma visão geral da realidade do sistema de saúde também discutimos a dificuldade para muitos brasileiros Segue as medições de isolamento social; o papel e desempenho do Estado no contexto brasileiro; o significado das iniciativas civis que têm vindo a surgir como respostas para contornar a ausência do Estado em momentos específicos; questões culturais e estruturais. Desde a desobediência a vários níveis à forma como o sistema fiscal contribui para o aprofundamento das desigualdades sociais, mesmo quando se trata do sistema de saúde. (também com transcrições em inglês) no nosso site:

    Escute o Episódio #84: https://the-human-show-innovation-through-social-science.simplecast.com/episodes/en-henrique-parra-ricardo-teixeira-some-perspectives-on-how-brazil-is-facing-the-pandemic-from-the-health-care-system-to-smart-technology

    ***

    O episódio 85 chegou! Esta é a parte 2 da conversa que Corina & Andrea Rozenbaum tem em português com Henrique Parra, sociólogo e professor de Ciências Sociais da UNIFESP e Ricardo Teixeira, médico sanitário especializado em saúde coletiva, e professor na Universidade de São Paulo (USP) ..Neste episódio, aprofundamos a nossa conversa, questionando o sentido de responsabilidade e o sentimento de impotência ao enfrentar uma realidade em que parece difícil vislumbrar um futuro positivo. Ricardo retomou a ideia de medicina social, vendo-a como uma ciência social. Os entrevistados destacaram a vulnerabilidade que a pandemia trouxe e debateram como isso nos faz perceber o quão interdependentes somos, e como precisamos do coletivo, dos títulos e dos afetos para viver.(também com transcrições em inglês) no nosso site:

    Escute o episódio #85: https://the-human-show-innovation-through-social-science.simplecast.com/episodes/henrique-parra-ricardo-teixeira-amplifying-the-debate-the-role-of-scientists-and-social-scientists-in-times-of-uncertainty

  • Tecnopolítica #38: Afinal, o que é tecnopolítica?

    Tecnopolítica #38: Afinal, o que é tecnopolítica?

    No episódio #38, Sérgio Amadeu conversa com o ativista, pesquisador do Pimentalab – Laboratório de Tecnologia, Política e Conhecimento e professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Henrique Parra, sobre o conceito de tecnopolítica e as possibilidades das práticas colaborativas abrirem espaços para a reconfiguração das tecnologias para além do capital.

  • Seleção de Bolsista Graduação

    O Pimentalab está selecionando bolsista de pesquisa-extensão para o projeto “Laboratório Campos Elíseos: tecnopolíticas do fazer-bairro”. Descrição e edital em anexo (link a abaixo)

  • Dimensões de um laboratório do comum

    Dimensões de um laboratório do comum

    Os laboratórios cidadãos funcionam sob um complexo arranjo sociotécnico, simultaneamente simbólico e material, normativo e pragmático. Há uma política cognitiva que se manifesta numa ética e num conjunto de práticas e tecnologias relacionadas ao modo de conhecer. Há uma tecnopolítica que se realiza nas configurações das mediações técnicas da interação social. Há uma economia política, relativa ao regime de propriedade, posse e uso dos bens e recursos produzidos. Há uma política experimental que se realiza através de processos instituintes de novas comunidades. Em síntese, um laboratório cidadão realiza-se com uma combinação de: abertura; colaboração; cuidado; mediação; documentação; infraestruturas; tecnologias; protocolos; comunidades; protótipos e produção do comum. Trata-se de uma trama com muitas camadas, e para que cada um desses elementos se efetive ele precisa ser atravessado pelos demais.

    Abertura e Colaboração

    A produção de conhecimentos no contexto dos laboratório é aberta, situada e colaborativa. Abertura no sentido de que todos devem ser capazes de aportar uma nova perspectiva, há contraste de argumentos e a possibilidade de não bloquear uma controvérsia; isso também significa queo conhecimento aberto é sempre provisório. Ele não visa encerrar um debate ou um problema, mas ao contrário, torná-lo mais denso, mais rico e complexo. É colaborativo porque é feito entre todos, com o maior número de perspectivas e atores possíveis. É situado porque é produzido em contextos específicos e reconhece o caráter parcial, corporificado e perspectivo dos conhecimentos. Mas para que isso ocorra certas condições devem ser respeitadas para que diferentes atores possam participar. Essas condições implicam em: infraestruturas mais abertas e horizontais; documentação rigorosa, acessível e reproduzível; protocolos (para tecnologias e regime de propriedade) que garantam abertura e controle pelos participantes. Nos laboratórios tais características podem alcançadas mediante diferentes estratégias: 1) definição prévia de protocolos que regulam as condições de participação dos múltiplos atores e o regime de acesso e propriedade sobre os bens e recursos produzidos, mediante a adoção de licenças de propriedade intelectual alternativas (FairLicences, Creative Commons, Copypeft, Peer2Peer Licences, GPL); 2) definição das características físicas e do local de realização do laboratório, de forma a propiciar condições de maior abertura à participação do público interessado; 3) definição da comunidade de afetados, público concernido ou problema específico que será abordado.

    Protocolos, tecnologias e infraestruturas

    Modos de tornar durável uma certa configuração social; são também formas de transmissão de uma agência; e criam determinações sobre um conjunto de interações que ocorrem através delas (Latour, 1990; 1994). O desenho dos protocolos, das tecnologias e das infraestruturas utilizadas num laboratório compõem uma tecnopolítica. Tecnologias baseadas em software e hardware livre; protocolos de dados abertos; licenças autorais alternativas que fortaleçam a livre apropriação e uso dos conhecimentos e protótipos produzidos; infraestruturas que amplifiquem a autonomia e autogestão da própria comunidade sobre o processo desenvolvido são algumas das opções adotadas pelos laboratórios. A infraestrutura aqui pode ser tanto a plataforma de comunicação online utilizada, como o espaço físico utilizado para o encontro. São infraestruturas que promovem uma interação mais aberta e solidária? São infraestruturas que restringem o acesso e a participação? Os protocolos são mobilizados como tecnologias sociais capazes de “automatizar” ou “facilitar” a resolução de certos problemas ou a adoção de procedimentos que produzem resultados desejados. Em algumas situações contribuem para dar agilidade a processos em que é necessário tomar uma decisão. Eles oferecem estratégias, recursos, procedimentos para situações determinadas. Porém, devem sempre ser aplicados com respeito ao contexto de efetivação. Não há protocolo social que possa ser alheio aos efeitos provocados num determinado contexto de aplicação. Por exemplo, documentar de forma aberta o protótipo desenvolvido é um protocolo que está presente em quase todos os laboratórios. A prescrição de que um grupo que seja mais heterogêneo é um protocolo social que influi na composição dos membros de um laboratório. A escolha por um espaço onde as pessoas possam interagir de forma mais ativa, horizontal e dialógica implica num desenho de uma infraestrutura espacial. Mas também, como nos indica os trabalhos de Corsin e Estalella (2016), a própria prática de documentação vai gradualmente se constituindo como uma infraestrutura que sustenta uma comunidade de praticantes. É no campo dessa tecnopolítica que vimos emergir novas preocupações em torno da autonomia e soberania tecnológica, ou na busca por arquiteturas (de tecnologias da informação) mais descentralizadas e distribuídas, permitindo minimizar a dependência corporativa ou estatal. A infraestrutura torna possível a existência continuada de uma ação. Ela dá o suporte às práticas e modos de existência de uma determinada comunidade, que transforma e sustenta essas infraestruturas em um comum.

    Documentar

    O ato de registrar, sistematizar, organizar e publicizar o conhecimento produzido é uma prática transversal a muitos laboratórios. Ela é um bom exemplo do encontro entre a cultura dos ativistas e programadores do software livre com a cultura científica de pesquisadores interessados no produção e no livre acesso ao conhecimento. Não é exagero dizer que muitos dos processos vividos nos laboratórios só existem porque são documentados, ou, como dizem, o que não está documentado não aconteceu. A documentação não é apenas o registro dos resultados ou a receita objetiva do “como fazer”. Uma boa documentação deve ser capaz de comunicar os fatos objetivos, os detalhes dos procedimentos, mas também as dúvidas, os problemas enfrentados e as escolhas que foram feitas. O mais desafiante, e esta foi uma das tarefas que enfrentamos na execução do docArt (durante o Laboratório Inteligência Coletiva e Cidades Democráticas) é tornar visível e comunicável as dimensões subjetivas, afetivas, tácitas que emergem durante o trabalho coletivo e que muitas vezes são excluídas nos processos habituais de documentação. Como indicar os momentos de aprendizagem coletiva? Como descrever o contexto e os vetores que influenciaram uma importante decisão se frequentemente negligenciamos esses elementos e registramos apenas o resultado, quando o principal estava no processo? A documentação visa combater o desperdício da experiência, potencializar a inteligência coletiva. A replicabilidade alcançada de um processo ou protótipo talvez seja o melhor indicador de “impacto” da documentação. Há uma política do sensível, uma política da escrita (nos termos de Rancière) neste ato de documentar, uma vez que ele produz um mundo compartilhado, dando a ver determinados processos e objetos, criando também sua comunidade de “leitores”. Esta documentação implica, portanto, em protocolos, tecnologias, infraestruturas e muita mediação.

    Mediação e Cuidado

    Criar uma linguagem comum, promover uma interação mais equilibrada entre os partícipes, criar simetrias possíveis entre diferentes atores e perspectivas que integram um laboratório é uma arte. A documentação, por exemplo, só é bem sucedida quando os participantes conseguem estabelecer um linguagem comum para descrever o que estão fazendo. A mediação, como argumenta Juan Freire e Antonio Lafuente, é uma arte da escuta, e está profundamente ligada à capacidade de “infraestruturar os cuidados, fazê-los visíveis através de práticas concretas” (LAFUENTE; GOMÉS; FREIRE, 2017). Mediar e cuidar envolve identificar processos sutis que produzem silenciamentos ou protagonismos habituais, desnaturalizar e desconstruir as práticas de coordenação e liderança, reconhecendo as dinâmicas formais e informais que criam ou reproduzem estruturas formais e informais de micropoder em coletivos. O cuidado, nesta perspectiva, emerge como uma ética, uma prática e uma materialidade. O cuidado é um trabalho do corpo, é um trabalho material. Não é algo abstrato, imaterial ou mera expressão subjetiva. Quando uma política do cuidado faz-se presente num laboratório as ações de mediação efetivam-se com atos materiais que produzem e sustentam os vínculos e os entes envolvidos. Como indicam Freire e Lafuente, a mediação deve promover a “tolerância com a incerteza e com os indecisos”; para experimentar, escutar e colaborar, é necessário apreciar a lentidão. Certos protocolos para a desaceleração podem então ser acionados pela mediação para tornar a escuta possível. O mesmo ocorre para a manutenção da comunidade: é necessário muito cuidado para se evitar o chamado “fork”. Em mais de uma ocasião presenciei este momento em que a mediação cuidadosa assumida por um dos membros da equipe, interviu em momentos de conflito sobre os rumos do projeto, criando condições para que o coletivo buscasse uma solução que contemplasse as perspectivas divergentes. Mas para que isso fosse possível era necessário habitar por mais tempo uma situação de incertitude. As escolhas que emergem nesses processos fortalecem a comunidade, e ao mesmo tempo são percebidas como um marco (hito) de uma aprendizagem coletiva que modifica, com frequência, a rota do projeto. Documentar esses momentos significa evidenciar as “matters of care” (BELLACASA, 2010) que participam dos processos e que são invisibilizadas, mas implica também em responsabilizar-se pelos efeitos da ação. Cuidar de um vínculo, de uma tarefa no coletivo, significa responsabilizar-se por algo. Não é suficiente “ter consciência”, é necessário responsabilizar-se, agir. Uma política do cuidado implica, portanto, num deslocamento do saber-poder governar ao saber-fazer habitar (no tópico seguinte desenvolvo este argumento).

    Comunidade

    um laboratório cidadão é um lugar de fabricação de comunidades. Esta frase exemplifica um dos resultados mais importante e ao mesmo dificilmente mensurável das atividades promovidas pela Medialab-Prado. Para que um projeto de laboratório possa se desenvolver, é necessário que ele produza uma nova comunidade que sustente este laboratório. Neste sentido, os diferentes atores devem infraestruturar as condições (materiais e simbólicas) que permitem que o laboratório aconteça. O laboratório visa produzir um conhecimento, um artefato, um processo, um protótipo, que amplia o entendimento sobre um problema comum, e que permita uma ação compartilhada sobre ele. Diferentemente da formação de uma comunidade identitária, onde os atores reúnem-se a partir de elementos previamente constituídos que dão forma à identidade (por exemplo, nacionalidade), no laboratório surge uma comunidade de atores distintos que partilham o interesse de enfrentamento de um problema (científico, social, político etc), e para investigá-lo é necessário inventar uma forma de conviver. É por isso que Lafuente dirá que os laboratórios cidadãos são espaços da experimentação política. Mas um laboratório também fabrica comunidades por um outro caminho quando, por exemplo, ele dá existência tangível a um comum que está ameaçado. Quando se constitui um laboratório cidadão sobre o “bairro” de uma cidade, o laboratório produzirá “evidências” sobre os elementos e suas relações que participam do “fazer bairro”. Neste sentido, o laboratório participa da produção do comum (a trama que faz bairro) que emerge com a comunidade que participa deste processo. Neste exemplo, percebemos como os laboratórios cidadãos, nesta acepção, integram um outra ontologia política. Nos dizeres de Lafuente: “las comunidades que crean y son creadas por los nuevos procomunes son entonces comunidades de afectados que se movilizan para no renunciar a las capacidades que permitían a sus integrantes el pleno ejercicio de su condición de ciudadanos o, incluso, de seres vivos (LAFUENTE, 2007). Nos laboratórios, portanto, esta noção de comunidade é indissociavelmente epistêmica e política. A aposta que aí se enuncia é que o laboratório seria também o lugar onde abrimos e acolhemos as controvérsias, criando novos conhecimentos, objetos e artefatos; remontamos o social (reassembling the social) através da constituição de novos sujeitos (cognitivos e políticos) que emergem não a partir de categorias previamente constituídas que vem reivindicar um direito instituído, mas a partir da produção do comum instituinte (LAVAL & DARDOT, 2016) de novos direitos.

    Prototipar

    Prototipar é uma prática que torna o laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo. É isso que torna o laboratório, na acepção de Lafuente e diversos grupos que atuam nesta campo, um espaço de invenção política. O protótipo é aqui compreendido como expressão da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação. Tal abordagem é, na realidade, muito cara às vertentes críticas dos estudos sociais de ciência e tecnologia, onde a produção de conhecimento, ciência e tecnologia é indissociável dos processos de natureza política. Navegamos, evidentemente, no território das entidades híbridas.

    Prototipar como forma de conhecer

    Significa levar a sério o fato de que todo processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo. Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer. Ao prototipar colocamos em movimento o problema que está sob investigação. Ao fazer isso, criam-se novos problemas pelos quais somos responsáveis. Isso é interessante porque a dimensão ética de qualquer pesquisa torna-se ainda mais visível e urgente, obrigando os pesquisadores a serem mais humildes, cautelosos e lentos. Dessa forma, uma política do cuidado inscreve-se de maneira imanente ao processo de investigação e prototipagem. Mas a noção de protótipo também pode indicar uma outra topografia entre diferentes atores envolvidos num processo de investigação. O protótipo, nos casos que acompanhamos, baseiam-se em princípios de abertura e colaboração. Isso significa que distintos saberes (indivíduos/grupos) podem ser incorporados na produção e apropriação do protótipo. Produtores, pesquisadores, usuários, leigos e experts participam de formas distintas da trajetória do protótipo. A depender das condições de participação dos distintos públicos o protótipo terá características muito diferentes. Promover as condições de sua contínua apropriação e modificações implica portanto num outro regime de propriedade sobre o conhecimento produzido e sobre o processo: deve-se tratá-lo como um comum (commons). Por fim, essa abertura implica no reconhecimento do caráter sempre inacabado e transitório de todo processo de investigação e aprendizado.

    Protótipo e ação política

    A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto abstrato de sociedade futura pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja.[…] É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Quando ativistas ambientais criam, por exemplo, uma ação prototípica de uma alternativa de transporte nas cidades, ela deve ser minimamente capaz de se efetivar no mundo atual. Ou seja, trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir. Em alguns casos, a mera percepção da possibilidade de sua efetivação gera efeitos de modificação no horizonte de expectativas. Noutros casos, a construção de um protótipo pode estar orientada para modificar as condições do ambiente em que sua produção/reprodução ocorre. Novamente, essas condições “ambientais” ou contextuais, são consideradas parte deste protótipo político, indicando portanto a substituição da oposição meios X fins, pela necessária combinação dos meios e fins. Por isso, essa noção de protótipo pode ser portadora de uma política imanente ou de uma política pelo “meio” (pelo meio, par le millieu, mesopolítica, entre outros termos).

  • Projeto Pesquisa Pimentalab 2014 a 2016

     

    Apresentação

    Em diferentes sociedades e em cada momento histórico, podemos estabelecer relações de interdependência entre os modos de organização social, as formas de produção/difusão de conhecimentos, as tecnologias de comunicação e as formas de exercício do poder.

    Atualmente, no campo da produção/difusão de conhecimentos observamos mudanças radicais na relação com o saber, tanto na forma de acesso quanto nas próprias formas e locais de produção de novos saberes, em parte relacionadas à crescente mediação das tecnologias digitais. Simetricamente, observamos no campo político profundas transformações nos modos de ação e mediação institucional, seja na prática de grupos ativistas, movimentos sociais ou mesmo em novas individuações coletivas e modos de subjetivação política que tem emergido. Nesses dois eixos (saber-poder) há dinâmicas e problemas comuns relativos à mediação das tecnologias digitais de comunicação que nos interessa analisar.

    É nesta zona de intersecção que concentramos os projetos do Pimentalab[1][2]. Mais especificamente, o programa atual de pesquisa tem como campo empírico de investigação um conjunto de práticas científicas, organizações sociais, coletivos e movimentos sociais que atuam em temas relacionados a novos modos de conhecer e se organizar mediante a utilização das tecnologias de comunicação digital. Concretamente, observamos as práticas de: grupos tecnoativistas, comunidades hackers e ciberativistas, coletivos de mídia radical/independente, pesquisadores ativistas/militantes, iniciativas de ciência cidadã/amadora e artistas que atuam sobre a relação sociedade-tecnologia.

    Ao mapearmos e analisarmos um amplo conjunto de experiências procuramos identificar elementos que possam constituir uma gramática comum, um repertório partilhado de formas de ação, organização, modos de conhecer e princípios ético-políticos. A escolha de algumas dessas experiências, justamente pela forma como enunciam e tensionam certos problemas contemporâneos, permite-nos examinar transformações sociais que possuem amplo alcance. Para isso, nossa atenção estará dirigida para alguns aspectos que identificamos como transversais a essas experiências e que possuem modulações e combinações distintas em cada caso. Tais elementos tornam-se os vetores de análise para que possamos interrogar os novos problemas (teóricos e práticos) que surgem. Neste sentido, podemos destacar as seguintes temáticas como possíveis recortes para projetos de pesquisa mais específicos:

    • tecnopolítica: tecnologia e prática politica; modos de apropriação e uso de tecnologias; disputas sobre a dimensão sociopolítica da tecnologia e os efeitos do design incorporado; relação tecnologia e democracia.
    • reconfigurações da política: poder, ativismo, resistência e criação, movimentos sociais e sociedade de controle.
    • produção de conhecimentos situados e pesquisa ativista: ciência cidadã (amadora ou ativista); co-pesquisa; conhecimento rebelde; pesquisa participativa.
    • economia da informação e do conhecimento: trabalho imaterial, tensões sobre as políticas de acesso e difusão da informação, commons, produção entre pares (p2p) e capitalismo informacional.
    • linguagens e conhecimento sensível: visualidade, tecnologias de imagem, sociologia/antropologia visual; imagem e suas epistêmes; formas de comunicar e tornar apreensivel dimensões sensíveis do conhecimento.
    • metodologias de pesquisa e educação: co-pesquisa, experiência, prototipagem, metodologias participativas, educação democrática, pedagogia radical; educação expandida.
    • micropolítica e modos de subjetivação: modos de associação, organização e ação coletiva; poder, autonomia e crítica institucional.

    Linhas de Pesquisa

    • Tecnopolítica e Ação Coletiva: tecnoativismo, movimentos sociais e internet, comunidades hackers, ciberpolítica, sociedade de controle, acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade, economia informacional, trabalho e capitalismo.
    • Conhecimentos Situados, Modos de Organização e suas Tecnologias: modos de organização social e micropolítica; modos de subjetivação; tecnologia e conhecimento; educação expandida, ciência cidadã/ativista; educação e pesquisa.

    Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada

    • Desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais: explorar as relações entre organização, relações de poder, tecnologias de comunicação e produção de conhecimento em coletivos, movimentos sociais e organizações.
    • Metodologias para ensino, pesquisa e organização social: sociologia amadora, ensino como pesquisa, sociologia prática, educação democrática.

    Projetos de Pesquisa realizados

    Tecnopolitica e Saberes Rebeldes – 2015-2016 – Apoio Ford Foundation.

    Ciencia Aberta e Desenvolvimento Local – 2015-2016 – Apoio OCSDnet – Canadá.

    Problema Macro-Teórico

    Modos de Conhecer e tecnologias de comunicação: acesso à informação e participação distribuída; sociedade de controle e invenção democrática

    A emergencia de novas formas de produção de conhecimentos e ação coletiva através das mídias digitais é um terreno em disputa. Graças às TICS há uma combinação de: participação distribuída em redes digitais; produção infinita de dados mediante rastreabilidade de toda interação em meios digitais; convergência digital; novas informações e conhecimentos produzidos. Estamos, todavia, no contexto do capitalismo informacional e da sociedade de controle.

    A lógica da participação, presente de diversas formas na experiencia politica de diversas democracias contemporaneas, manifesta-se de diferentes formas nas práticas de produção colaborativa, seja no âmbito da ciência cidadã/amadora, como nas dinâmicas sociais cotidianas cibermdiadas. Frequentemente, porém, esta participação é reduzida ou transformada num modo de governo, forma de condução da vida (biopolitica).

    Como fator complementar, não podemos perder de vista que a mediação das TICS está muito concentrada nas mãos de corporações privadas. Recentemente, observamos como a colaboração estatal-corporativa serviu para a expansao da vigilância e gestão populacional em escala planetária.

    Da mesma forma como nos séculos anteriores vimos o surgimento de novas ciencias (epidemiologia, economia politica…) que se combinaram a novas formas de governo, hoje estamos diante de novas formas de conhecer que ensejam novas formas de governo e controle social.

    Ao delinear características que possam compor uma gramática comum a este conjunto diverso de experiências, nosso objetivo mais amplo é apreender as reconfigurações entre as dinâmicas de autonomia e resistência face às novas formas de sujeição social e servidão maquínica (Deleuze & Guattari, 2005). Indiretamente, pretendemos interrogar as possibilidades e limites para a produção de conhecimento no campo das ciências humanas através das tecnologias digitais: como delinear a tênue fronteira entre as humanidades digitais, a engenharia social, o capitalismo cognitivo e a formação da sociedade de controle?

    Sub-questões e Temas

    • Relação entre tecnologias, conhecimento e prática política.
    • Nova cultura política
    • Tecnoativistas, Tecnocidadãos: novas formas de produção de conhecimento para uma nova política?
    • Relação entre ecossistema sociotécnico de comunicação (tecnologias digitais) e mudanças no regime de produção de conhecimento e de poder.
    • Tecnoativismo e acesso à informação: dilemas da abertura, segurança e privacidade.
    • Inovação Cidadã, Participação 2.0 X Coletivos tecnoativistas: tecnologias sociais entre a captura, a resistencia e a criação.
    • Ciencia cidadã, ciencia ativista, conhecimento rebelde. Qual a cultura epistêmica desses grupos? Casos de pesquisa-social, pesquisa-militante, grupos comunitários que fazem uso de TICs.
    • Movimentos sociais e uso de tecnologias
    • Educação e tecnologia: práticas inovadoras de uso de tics.
    • Participação social, democracia digital, participação cidadã.
    • Quais os repertórios, trocas de conhecimentos, modos de organização que estão fluindo de um lado para outro, dando forma a uma nova cultura política?
    • Que novas institucionalidades estão sendo gestadas?

    Recortes teóricos

    [1] Relação entre as culturas epistêmicas (em grupos tecnoativistas e coletivos experimentais) e a emergência de novas práticas políticas e institucionais.

    Os problemas:

    • relação cultura epistemica X cultura política
    • relação tecnologia X democracia: escolhas/desenhos sociotécnicos implicam em questões políticas
    • efeitos das composições sociotécnicas (TICs) na vida social (sociabilidade, política e conhecimento).
    • relação conhecimento científico X conhecimento extra-científico: ciencia e democracia.
    • privacidade X opendata: segurança X privacidade X transparência: necessidade de maior abertura e transparencia para produzir confiança e mobilização e ter mais colaboração versus, necessidade de segurança e privacidade.
    • invisibilidade, não-compreensão da complexidade dos problemas – como tornar intelegível?
    • capitalismo cognitivo

    [2] Emergência de novos atores políticos-cognitivos

    • tecnocidadãos;
    • pesquisadores ativistas, movimentos sociais engajados na produção de contra-expertise;
    • ciencia amadora, ciencia cidadã

    Característivas:

    • mobilizar diferentes atores
    • pesquisa aberta/colaboração
    • capacidade de comunicar + sensibilizar sobre o problema
    • participação do público.
    • economia da informação voltada ao commons em detrimento da propriedade intelectual exclusiva.

    [3] Novos diagramas organizacionais, novas formas políticas e suas tecnologias

    • movimentos sociais e internet
    • tecnopolíticas e novas formas de organização social
    • democracia digital, participacionismo, inovação cidadã.

    [4] Acesso ao conhecimento e os dilemas da abertura:

    • privacidade
    • controle
    • transparência
    • capitalismo cognitivo.
    • participação como governamentalidade: novos saberes X novas formas de governo.

    Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

    1. Tecnologias Digitais e Vida Social: modos de uso e efeitos das tecnologias digitais em aspectos relacionados à interação social, sociabilidade, privacidade, intimidade, visualidades, identidade, tecnoestéticas.

    2. Ação coletiva, Movimentos Sociais e Internet: quais são os usos, as tecnologias e modos de apropriação tecnológica; quais os problemas, desafios e efeitos; tecnodeterminismo X determinação sociopolítica da tecnologia; emergencia de novos atores e práticas políticas.

    3. Ecologias de comunicação e conhecimento: como determinadas comunidades/grupos acessam informação; partilham e se organizam; efeitos da mediação técnica na organização do conhecimento local.

    4. Sociedade de Controle e tecnologias: vigilância, retenção de dados, profiling, economia de vigilância.

    5. Economia da informação e do conhecimento: novas formas de trabalho e produção de valor; propriedade intelectual; acesso ao conhecimento.

    6. Metodologias alternativas de pesquisa, ensino e organização social: tecnologia e educação; pesquisa participativa; ciencia cidadã; ciencia ativista; participação social; pedagogia radical; cultura hacker.

  • Projeto de Pesquisa – fase 1 (2015-2016)

    Estrutura “Guarda-Chuva” dos Projetos de Pesquisa desenvolvidos em 2015 e 2016.

     

    Índice

    • 1 Apresentação
    • 2 Linhas de Pesquisa
    • 3 Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada
    • 4 Projetos de Pesquisa em andamento
    • 5 Problema Macro-Teórico
      • 5.1 Recortes teóricos
      • 5.2 Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

    Apresentação

    Em diferentes sociedades e em cada momento histórico, podemos estabelecer relações de interdependência entre os modos de organização social, as formas de produção/difusão de conhecimentos, as tecnologias de comunicação e as formas de exercício do poder.

    Atualmente, no campo da produção/difusão de conhecimentos observamos mudanças radicais na relação com o saber, tanto na forma de acesso quanto nas próprias formas e locais de produção de novos saberes, em parte relacionadas à crescente mediação das tecnologias digitais. Simetricamente, observamos no campo político profundas transformações nos modos de ação e mediação institucional, seja na prática de grupos ativistas, movimentos sociais ou mesmo em novas individuações coletivas e modos de subjetivação política que tem emergido. Nesses dois eixos (saber-poder) há dinâmicas e problemas comuns relativos à mediação das tecnologias digitais de comunicação que nos interessa analisar.

    É nesta zona de intersecção que concentramos os projetos do Pimentalab[1][2]. Mais especificamente, o programa atual de pesquisa tem como campo empírico de investigação um conjunto de práticas científicas, organizações sociais, coletivos e movimentos sociais que atuam em temas relacionados a novos modos de conhecer e se organizar mediante a utilização das tecnologias de comunicação digital. Concretamente, observamos as práticas de: grupos tecnoativistas, comunidades hackers e ciberativistas, coletivos de mídia radical/independente, pesquisadores ativistas/militantes, iniciativas de ciência cidadã/amadora e artistas que atuam sobre a relação sociedade-tecnologia.

    Ao mapearmos e analisarmos um amplo conjunto de experiências procuramos identificar elementos que possam constituir uma gramática comum, um repertório partilhado de formas de ação, organização, modos de conhecer e princípios ético-políticos. A escolha de algumas dessas experiências, justamente pela forma como enunciam e tensionam certos problemas contemporâneos, permite-nos examinar transformações sociais que possuem amplo alcance. Para isso, nossa atenção estará dirigida para alguns aspectos que identificamos como transversais a essas experiências e que possuem modulações e combinações distintas em cada caso. Tais elementos tornam-se os vetores de análise para que possamos interrogar os novos problemas (teóricos e práticos) que surgem. Neste sentido, podemos destacar as seguintes temáticas como possíveis recortes para projetos de pesquisa mais específicos:

    • tecnopolítica: tecnologia e prática politica; modos de apropriação e uso de tecnologias; disputas sobre a dimensão sociopolítica da tecnologia e os efeitos do design incorporado; relação tecnologia e democracia.
    • reconfigurações da política: poder, ativismo, resistência e criação, movimentos sociais e sociedade de controle.
    • produção de conhecimentos situados e pesquisa ativista: ciência cidadã (amadora ou ativista); co-pesquisa; conhecimento rebelde; pesquisa participativa.
    • economia da informação e do conhecimento: trabalho imaterial, tensões sobre as políticas de acesso e difusão da informação, commons, produção entre pares (p2p) e capitalismo informacional.
    • linguagens e conhecimento sensível: visualidade, tecnologias de imagem, sociologia/antropologia visual; imagem e suas epistêmes; formas de comunicar e tornar apreensivel dimensões sensíveis do conhecimento.
    • metodologias de pesquisa e educação: co-pesquisa, experiência, prototipagem, metodologias participativas, educação democrática, pedagogia radical; educação expandida.
    • micropolítica e modos de subjetivação: modos de associação, organização e ação coletiva; poder, autonomia e crítica institucional.

    Linhas de Pesquisa

    • Tecnopolítica e Ação Coletiva: tecnoativismo, movimentos sociais e internet, comunidades hackers, ciberpolítica, sociedade de controle, acesso à informação, liberdade de expressão, privacidade, economia informacional, trabalho e capitalismo.
    • Conhecimentos Situados, Modos de Organização e suas Tecnologias: modos de organização social e micropolítica; modos de subjetivação; tecnologia e conhecimento; educação expandida, ciência cidadã/ativista; educação e pesquisa.

    Linhas de Extensão e Pesquisa Aplicada

    • Desenvolvimento e difusão de tecnologias sociais: explorar as relações entre organização, relações de poder, tecnologias de comunicação e produção de conhecimento em coletivos, movimentos sociais e organizações.
    • Metodologias para ensino, pesquisa e organização social: sociologia amadora, ensino como pesquisa, sociologia prática, educação democrática.

    Projetos de Pesquisa em andamento

    Tecnopolitica e Saberes Rebeldes – 2015-2016 – Apoio Ford Foundation.

    Ciencia Aberta e Desenvolvimento Local – 2015-2016 – Apoio OCSDnet – Canadá.

     

    Problema Macro-Teórico

    Modos de Conhecer e tecnologias de comunicação: acesso à informação e participação distribuída; sociedade de controle e criação democrática
    A emergencia de novas formas de produção de conhecimentos e ação coletiva através das mídias digitais é um terreno em disputa. Graças às TICS há uma combinação de: participação distribuída em redes digitais; produção infinita de dados mediante rastreabilidade de toda interação em meios digitais; convergência digital; novas informações e conhecimentos produzidos. Estamos, todavia, no contexto do capitalismo informacional e da sociedade de controle.

    A lógica da participação, presente de diversas formas na experiencia politica de diversas democracias contemporaneas, manifesta-se de diferentes formas nas práticas de produção colaborativa, seja no âmbito da ciência cidadã/amadora, como nas dinâmicas sociais cotidianas cibermdiadas. Frequentemente, porém, esta participação é reduzida ou transformada num modo de governo, forma de condução da vida (biopolitica).

    Como fator complementar, não podemos perder de vista que a mediação das TICS está muito concentrada nas mãos de corporações privadas. Recentemente, observamos como a colaboração estatal-corporativa serviu para a expansao da vigilância e gestão populacional em escala planetária.

    Da mesma forma como nos séculos anteriores vimos o surgimento de novas ciencias (epidemiologia, economia politica…) que se combinaram a novas formas de governo, hoje estamos diante de novas formas de conhecer que ensejam novas formas de governo e controle social.

    Ao delinear características que possam compor uma gramática comum a este conjunto diverso de experiências, nosso objetivo mais amplo é apreender as reconfigurações entre as dinâmicas de autonomia e resistência face às novas formas de sujeição social e servidão maquínica (Deleuze & Guattari, 2005). Indiretamente, pretendemos interrogar as possibilidades e limites para a produção de conhecimento no campo das ciências humanas através das tecnologias digitais: como delinear a tênue fronteira entre as humanidades digitais, a engenharia social, o capitalismo cognitivo e a formação da sociedade de controle?
    Sub-questões e Temas

    • Relação entre tecnologias, conhecimento e prática política.
    • Nova cultura política
    • Tecnoativistas, Tecnocidadãos: novas formas de produção de conhecimento para uma nova política?
    • Relação entre ecossistema sociotécnico de comunicação (tecnologias digitais) e mudanças no regime de produção de conhecimento e de poder.
    • Tecnoativismo e acesso à informação: dilemas da abertura, segurança e privacidade.
    • Inovação Cidadã, Participação 2.0 X Coletivos tecnoativistas: tecnologias sociais entre a captura, a resistencia e a criação.
    • Ciencia cidadã, ciencia ativista, conhecimento rebelde. Qual a cultura epistêmica desses grupos? Casos de pesquisa-social, pesquisa-militante, grupos comunitários que fazem uso de TICs.
    • Movimentos sociais e uso de tecnologias
    • Educação e tecnologia: práticas inovadoras de uso de tics.
    • Participação social, democracia digital, participação cidadã.
    • Quais os repertórios, trocas de conhecimentos, modos de organização que estão fluindo de um lado para outro, dando forma a uma nova cultura política?
    • Que novas institucionalidades estão sendo gestadas?

    Recortes teóricos

    [1] Relação entre as culturas epistêmicas (em grupos tecnoativistas e coletivos experimentais) e a emergência de novas práticas políticas e institucionais.

    Os problemas:

    • relação cultura epistemica X cultura política
    • relação tecnologia X democracia: escolhas/desenhos sociotécnicos implicam em questões políticas
    • efeitos das composições sociotécnicas (TICs) na vida social (sociabilidade, política e conhecimento).
    • relação conhecimento científico X conhecimento extra-científico: ciencia e democracia.
    • privacidade X opendata: segurança X privacidade X transparência: necessidade de maior abertura e transparencia para produzir confiança e mobilização e ter mais colaboração versus, necessidade de segurança e privacidade.
    • invisibilidade, não-compreensão da complexidade dos problemas – como tornar intelegível?
    • capitalismo cognitivo

    [2] Emergência de novos atores políticos-cognitivos

    • tecnocidadãos;
    • pesquisadores ativistas, movimentos sociais engajados na produção de contra-expertise;
    • ciencia amadora, ciencia cidadã

    Característivas:

    • mobilizar diferentes atores
    • pesquisa aberta/colaboração
    • capacidade de comunicar + sensibilizar sobre o problema
    • participação do público.
    • economia da informação voltada ao commons em detrimento da propriedade intelectual exclusiva.

    [3] Novos diagramas organizacionais, novas formas políticas e suas tecnologias

    • movimentos sociais e internet
    • tecnopolíticas e novas formas de organização social
    • democracia digital, participacionismo, inovação cidadã.

    [4] Acesso ao conhecimento e os dilemas da abertura:

    • privacidade
    • controle
    • transparência
    • capitalismo cognitivo.
    • participação como governamentalidade: novos saberes X novas formas de governo.

    Sub-Projetos Específicos: outros recortes possíveis

    1. Tecnologias Digitais e Vida Social: modos de uso e efeitos das tecnologias digitais em aspectos relacionados à interação social, sociabilidade, privacidade, intimidade, visualidades, identidade, tecnoestéticas.

    2. Ação coletiva, Movimentos Sociais e Internet: quais são os usos, as tecnologias e modos de apropriação tecnológica; quais os problemas, desafios e efeitos; tecnodeterminismo X determinação sociopolítica da tecnologia; emergencia de novos atores e práticas políticas.

    3. Ecologias de comunicação e conhecimento: como determinadas comunidades/grupos acessam informação; partilham e se organizam; efeitos da mediação técnica na organização do conhecimento local.

    4. Sociedade de Controle e tecnologias: vigilância, retenção de dados, profiling, economia de vigilância.

    5. Economia da informação e do conhecimento: novas formas de trabalho e produção de valor; propriedade intelectual; acesso ao conhecimento.

    6. Metodologias alternativas de pesquisa, ensino e organização social: tecnologia e educação; pesquisa participativa; ciencia cidadã; ciencia ativista; participação social; pedagogia radical; cultura hacker.

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    É curioso como neste momento de crise, entramos em contato com as memórias de outros períodos críticos da história. Diante de algumas situações nos últimos meses, tenho uma estranha sensação de que estamos passando por um novo giro na história, e como numa espiral algumas coisas parecem uma repetição. Porém, já estamos noutro lugar, tudo é diferente.

    Nessas rememorações tenho pensado muito do final dos anos 90. Governos neoliberais e suas políticas avançavam em toda parte, mas encontravam alguma resistência social. Quem se lembra das lutas contra a ALCA? Dos primeiros Forum Sociais Mundiais (antes de se tornarem uma grande feira)? Dos diversos movimentos sociais que se multiplicavam Brasil afora…Onde foi parar toda aquela energia?

    Naquele momento, a memória da derrocada da experiência soviética ainda era um tema na pauta, fala-se muito de crise sistêmica do capitalismo e proliferavam em toda parte iniciativas de economia social, autogestão econômica, cooperativismo, entre outras. Havia todo um debate sobre alternativas práticas ao capitalismo que curiosamente parece que perderam a força diante de governos que em toda America Latina executaram uma agenda paradoxalmente “progressista” (péssimo termo). Porém, ainda que silenciosamente, tudo aquilo segue sendo feito.

    Dentre esses reencontros que tive nos ultimos meses, um deles é com as discussões sobre autogestão, economia social/solidária, moedas alternativas. Tema com o qual estive muito envolvido e que por diversas razões fui me distanciando. Acho curioso ver como ele retorna agora. Seria apenas mais um sintoma da crise? E para mim, é aqui que este reencontro dá uma reviravolta interessante pois se recombina com outros temas com os quais estou envolvido hoje em dia. Mas o vocabulário agora é outro. Falamos em soberania tecnológica, produção do comum, tecnopolíticas, ecologia de práticas e saberes…

    Só para citar um exemplo. Recentemente, comecei a acompanhar a criação de um nó-regional da FairCoop (https://fair.coop). A discussão que eles fazem sobre moedas alternativas é bem interessante. Utilizam uma criptomoeda inspirada no bitcoin porém modificada por protocolos sociais que inserem a colaboração como variável na geração de valor. Há toda uma discussão ali sobre autonomia, autogestão, desenvolvimento local/comunitário, sustentabilidade, internacionalismo.

    Em seguida, vou atrás de alguns sites antigos e redes sociais abandonadas. Numa deriva no ciberespaço, como nos tempos em que a livre navegação era possível (quem se lembra que utilizavamos o termo “navegar” e éramos internautas, antes de virarmos usuários), encontro alguns grupos interessantes, como o bom e velho Znet (https://zcomm.org). Que emoção! Site simples, wordpress com cara de puro html.

    Fiquei me perguntando, será que os outros grupos ainda estão por aí? Os meios  de comunicação entre os movimentos que pegaram o início da internet transformaram-se drasticamente nesses ultimos 10 anos (o Youtube é de 2006!). Tivemos um processo paradoxal. De um lado a mulitiplicação dos canais (email, redes sociais, sms, whatsapp, telegram, e em cada um deles grupos e subgrupos) dando a impressão que construíamos um rizoma, com arquitetura distribuída. Mas não, era pura dispersão. De outro, novas camadas de hierarquização e centralização que modulam algoritmicamente toda nossa interação, submetida a critérios mercantis e à vigilância estatal e corporativa. É o capitalismo de vigilância (Shoshana Zuboff); a sociedade de controle (Deleuze)….enfim, formas renovadas de sujeição social e servidão maquínica.

    Ao invés de nos organizarmos de maneira distribuída, somos organizados em nossa aparente dispersão pela capacidade de centralização desses serviços.
    É incrível como o Facebook destrui nosso ecossistema digital. Pra ser sintético: o Facebook e todos os condomínios digitais correlatos, destruiram a internet como uma possível cidade cosmopolita. Essas corporações são hoje parte do nosso problema.

    Por fim, neste pequeno passeio fui me dando conta de tantas coisas, de tantos mundos que foram ficando para trás. Tal sensação é reforçada por todos os acontecimentos políticos de 2016 (golpe parlamentar etc), que de maneira muito direta chamaram nossa atenção para transformações profundas que estão ocorrendo em nossas sociedades muito abaixo do nosso radar. A barbárie é só o cotidiano mesmo. Mas é ai também que surgem as criações e as longas ondas com grande capacidade de propagação. Nos ultimos tempos, apenas ficou mais visível uma nova e assustadora topografia que estava sendo lentamente construída.

    Isso me faz pensar na cozinha, no trabalho de manutenção e sustentação da vida. Talvez, a tecnologia mais necessária neste momento seja mesmo as tecnologias organizacionais e toda a lentidão necessária para fazer comunidade, para produzir o comum em comum. Mas não o antigo comunitarismo, nem os comunismos e socialismos. Serão outras criações capazes de aprender com todas essas formas, e também com o capitalismo.

    Fico com uma sensação de “back to basic”. Não confundir com “um retorno às bases”. É outra coisa, é cuidar do básico mesmo, a começar pela capacidade do encontro com o outro. Quais são as infraestruturas que precisamos para dar suporte às formas de vida que desejamos?

  • Debates sobre a ocupação do campus da EFLCH

    Como alguns emails trocados entre os professores da EFLCH/Unifesp acabam circulando para além das listas em que foram originalmente escritas, vou adotar a prática de publicizar algumas mensagens que escrevo em contextos de crise. Evidentemente, farei isso levando em conta a não exposição de terceiros que por ventura estavam envolvidos na conversação dentro da lista. A mensagem abaixo foi escrita no âmbito de uma discussão entre professores sobre a ocupação estudantil realizada no segundo semestre de 2017, durante os protestos contra a PEC241/PEC55.
    ——– Forwarded Message ——–

    Subject: Re: [Docentes.EFLCH] detalhes do processo negociação c/ ocupação
    Date: Thu, 1 Dec 2016 13:11:10 -0200
    From: Henrique Parra
    Car@s,
    
    A comunicação pela internet costuma gerar muito ruído. São diversas as
    cartas produzidas pelo Movimento de Ocupação, além de posts em
    grupos/paginas do FB etc, gerando facilmente confusão nas
    interpretações. O mesmo acontece com nossas mensagens em diferentes
    canais. A conversa presencial é sempre melhor para minimizar mal
    entendidos. Como sabem, o trabalho da escrita e interpretação textual é
    uma tarefa infinita. Ainda assim, quero compartilhar mais um relato e
    mais um ponto de vista.
    
    Pelas mensagens enviadas pelos ocupantes entendo que o campus estará
    reaberto a partir desta sexta-feira, e que nós professores poderemos nos
    reunir com nossas turmas a partir de segunda-feira. A Congregação se
    reunirá na segunda-feira de manhã para analisar a situação. Também foi
    chamada uma reunião dos professores para esta sexta-feira (pelo chamado
    entendo que não se trata de uma assembléia), efetivando a reabertura do
    campus e também criando uma possibilidade de encontro presencial entre
    nós. Este é o cenário que vejo para o curto prazo.
    
    Neste semestre ministro a disciplina do estágio supervisionado III.
    Muitos dos alunos estão com contratos firmados com museus, ONGS,
    escolas. Em razão de demandas dos estudantes (devido a dinâmica do campo
    do estágio) realizei ontem supervisão individual no CEU Pimentas,
    utilizando o espaço da biblioteca. Um bom numero de estudantes
    compareceu, conforme o agendamento que realizamos. Outros não puderam ou
    não precisaram vir (e me enviarem suas justificativas).
    
    Em um intervalo nas supervisões fui ao campus onde acontecia a reunião
    da D.A., professores e os ocupantes. Não fiquei para a reunião, mas
    queria ir lá para prestar solidariedade aos colegas professores que
    tentavam duramente construir alternativas. Fiquei alguns minutos e logo
    voltei ao CEU. Na saída encontrei com os estudantes que estavam chegando
    de onibus naquele momento de Brasília. Conversei com eles e ouvi os
    relatos sobre a experiência da manifestação e da violenta repressão
    policial que sofreram por lá. Também manifestaram preocupação com a
    busca por saídas para a ocupação.
    
    Minha impressão da situação: os problemas do nosso campus refletem
    claramente todas as dificuldades políticas que temos neste momento
    histórico. Não há grupos/posições homogênas, planos de curto ou longo
    prazo, nem canais institucionais com ampla capacidade de operação. As
    pessoas (individualmente ou em seus pequenos coletivos) estão agindo de
    maneira impulsiva e falta muita capacidade de diálogo e construção do
    comum, mesmo entre aqueles que parecem compartilhar os mesmos valores e
    princípios ético-políticos.
    
    Sigamos na busca por alternativas coletivas. Encontrar nossos estudantes
    é a melhor maneira de desconstruir o que de fora parece ser um jogo de
    posições constituídas, binárias e organizadas. Atualmente, nem
    estudantes nem professores seriam capazes de produzir, de cada lado, um
    documento capaz de sintetizar uma tomada de posição homogênea sobre a
    situação. Infelizmente, nossos espaços de representação estão todos
    corroídos (da EFLCH ao Congresso Nacional). Por isso, parece-me oportuno
    a possibilidade do encontro físico para produzir um terreno minimamente
    comum de entendimentos sobre o qual possamos reconstruir nossas
    instituições. Não será pela força, nem por mecanismos de autoridade
    externa que seremos capazes de ativar nossas frágeis instituições, muito
    menos de fazer universidade.
    
    Por fim, uma hipótese otimista diante dos problemas nacionais e locais
    que enfrentamos. Talvez, possamos apostar numa capacidade de invenção e
    confiança na busca por novas formas de organização e de construção
    institucional. Quem sabe, no meio de todo esse caos, no qual a EFLCH
    parece ser uma antena de antecipação das reconfigurações da política,
    possamos gestar outras formas de fazer política. Sempre achei que os
    conflitos de 2012 eram prototípicos dos problemas que estavam por vir no
    cenário nacional. E eles aconteceram. De repente, agora, na borda em que
    estamos, ao invés de antecipar o desmoramento (que já aconteceu Brasil
    afora), possamos inspirar outras alternativas.
    
    Há braços,
    
    Henrique Parra
    
    
  • Airbnb – capitalismo e mudança sociocultural

    A Airbnb, empresa internacional de intermediação de imóveis na web, com um portfolio de milhões de clientes e imóveis, acaba de mudar sua política de credenciamento. Achei muito interessante que ela propôs a obrigatoriedade de uma política de não discriminação (nacionalidade, gênero, religião, orientação sexual etc). Ou seja, se você quiser continuar oferecendo seu imóvel pela rede Airbnb, e fazendo business, terá que aceitar a política de “compromisso da comunidade”. Aqui, não se trata de apontar os problemas relativos a evasão de impostos, modelos de concorrência, capitalismo cognitivo, etc. Parece-me um caso relevante pra pensarmos nas relações entre ação econômica e mudança sociocultural: https://www.airbnb.com.br/help/topic/533/nondiscrimination