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  • Dilemas na crise política (parte 1)

    Estranho momento. Mistura de estado de exceção, normalidade societal e democracia operacional. Planeta feito de vários mundos e muitas temporalidades. Fico tentando juntar as peças pra sentir onde nossa energia pode criar maior potência. Difícil conciliar as batalhas quando num dia debatemos o avanço da governamentalidade algorítmica e da guerra cibernética; e noutro dia precisamos explicar a falácia do projeto Escola sem Partido. Tudo ao mesmo tempo agora.

  • Final do semestre letivo

    Hoje foi a última aula do curso que ministrei na Unifesp, disciplina do estágio supervisionado, formação de professores de sociologia para a educação básica.

    O semestre começou com significativo atraso por conta do retorno do campus para o Bairro do Pimentas (Guarulhos), no prédio recém finalizado. As disciplinas do estágio são muito afetadas quando o calendário universitário não está no cronograma normal, pois perdemos a sincronia com o ritmo das aulas nas escolas da educação básica, onde os estudantes fazem os estágios. Mas enfim, tanto nas escolas como na universidade já é raro termos um semestre normal.

    Este desencontro entre o calendário de aulas na universidade e nas escolas criou algumas dificuldades para a execução da disciplina. Mas hoje, tendo concluído o semestre, posso dizer que terminamos melhor do que começamos. No início das aulas havia um certo clima de desmobilização e preocupação com o rumo do curso, mas ao poucos, a turma foi ganhando densidade, soluções foram inventadas e no final do semestre os trabalhos realizados e apresentados pelos estudantes surpreenderam positivamente. Mesmo que muitas coisas sejam imprevisíveis em nossos cursos, na minha experiência nesta disciplina há um padrão que até agora se repete: os trabalhos finais realizados sempre superam as expectativas e dificuldades do percurso.

    Num contexto de crise política que estamos vivendo, diante das muitas tentativas de destruição da universidade pública e gratuita, face as ameaças mentirosas da “escola sem partido”, é muito gratificante ver uma nova geração de estudantes na universidade, muitos deles oriundos da escola pública sim, criando projetos educativos com temas ousados e materiais criativos para serem trabalhados com os jovens das escolas. Diante das forças autoritárias e reacionárias que agora dão as cartas, minha sensação é que elas são uma reação desesperada diante de uma revolução molecular que está acontecendo na juventude, pulsando formas de vida que por hora escapam ao radar da macropolítica. Oxalá, essa potência do novo cresça; não há lei capaz de conter essas vidas que brotam. Obrigado aos alunos pela companhia em mais este semestre.

  • Participação política: sujeição social e servidão maquínica

    prosumer

    fonte imagem: https://rahulnambiar.files.wordpress.com/2009/03/prosumer.jpg

    Hoje, é importante mas não suficiente a luta pela superação do modelo de democracia representativa em vigor, das relações personalistas e espetaculares na política, do poder das corporações e do capital financeiro, das máquinas partidárias e midiáticas, para ir além do conflito dicotômico “não vai ter golpe” X “impeachment”. Ao mesmo tempo, é igualmente necessário superar as práticas de democracia participativa que, a despeito do convite à abertura e à inclusão cidadã, já definem de antemão os lugares e funções a serem desempenhadas.

    Analogamente ao capitalismo contemporâneo, tal modelo de participação sabe muito bem conjugar os modos de sujeição social e de servidão maquínica. Na sujeição social somos sempre inscritos sob uma identidade, um “eu” a partir do qual um categoria política de pertencimento define a medida e a função que podemos estabelecer com os objetos (o limite de um direito, o valor do trabalho, o peso de nossos votos etc). Na servidão maquínica, de maneira complementar, participamos do processo como peças numa máquina em que a própria distinção sujeito-objeto, produtor-consumidor, já não faz mas sentido. Nesta segunda dimensão, nossas ações, nossos afetos, cognição, conhecimento, relações…são postas a trabalhar para a mesma máquina de produção de valor (seja de capital, seja de legitimação política), sem que sejamos propriamente “singulares”. É algo de nosso ser pré-individual e supra-individual que participa da servidão maquínica para, uma vez engajado e produtivo, ser novamente capturado (agora como indivíduo) pela sujeição social.

    Talvez o mais difícil seja justamente superar esta nova forma de poder e condução da vida.

    Produzir uma nova subjetivação política exige que sejamos capazes de reconhecer e reconfigurar este agenciamento maquínico. Se, desde o início, as ações foram inscritas na articulação dessa dupla dinâmica (sujeição social e servidão maquínica), muito dificilmente ela será capaz de transbordar. Os novos sujeitos políticos não surgem ali onde o espaço e as funções estão programadas. É por isso que nos ultimos tempos sempre fomos surpreendidos pela força política que brotava de onde ninguém esperava.

    “Desejar significa agir longe do equilíbrio” (Lazaratto). Felizmente, não somos capazes de programar onde ele irá emergir. O melhor que se pode fazer (nesta parcial perspectiva de ação) é, talvez, multiplicar as situações onde ele seja mais possível, de forma que as potências liberadas da servidão maquínica não sejam recodificadas e reterritorializadas pela sujeição social e possam, noutra direção, ensejar individuações mais emancipatórias.

    Estruturas verticais, vanguardas ou celebridades não vão convocar a multidão. No melhor das hipóteses, só as massas responderão. Claro, no contexto atual, as massas estão sendo convocadas para barrar o golpe político em curso, e isso parece ser uma parte importante do processo. Todavia, acreditar que o jogo possa se resumir a esta forma de conflito, pode significar a perda de uma oportunidade histórica de invenção democrática.

  • Ciência Aberta Ubatuba no Seminário Internacional Open Science 2015

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    O Projeto Ciência Aberta Ubatuba, integrante da Open and Collaborative Science and Development Network participou em novembro de 2015 do encontro anual do grupo de trabalho brasileiro em Ciência Aberta.

    Sobre o evento – Ciência Aberta: Novas questões na comunicação e prática científicas

    Em 2015, o encontro anual do grupo de trabalho em Ciência Aberta ocorre em parceria com a OpenCon 2015, conferência mundial de uma nova geração de acadêmicos para avançar práticas científicas. Também sediará um seminário internacional organizado pelo Núcleo de Pesquisa e Tecnologia em Produção Científica da ECA-USP. Com atividades acadêmicas de capacitação, informação e reflexão, ao longo dos quatro dias os participantes compartilharão suas práticas abertas e análises dessas dinâmicas de produção.

    Dias 25 e 26: laboratórios de capacitação na Universidade de São Paulo e Garoa Hacker Clube

    Dias 27 e 28: seminário internacional na Universidade de São Paulo

     

    Apresentamos nosso trabalho na sessão dedicada à Ciência Cidadã, junto a outros projetos muito interessantes:

    Ciência Aberta Ubatuba e desenvolvimento local – SLIDES-Ciencia-Aberta-USP-2015
    Henrique Parra (UNIFESP / OCSDNet)
    Blogs e vlogs científicos no Brasil: em que pé estão?
    Rafael Bento (Scienceblogs Brasil / NuminaLabs)
    Laboratório de ciência cidadã para o uso de drones como tecnologia social
    Pablo de Soto (ECO – Ufrj)
    A experiência de um evento entre a sabedoria coletiva e o conhecimento científico
    Nilton Bahlis dos Santos (Next – Fiocruz)

     

     

  • Grêmios escolares: entre a tutela e a invenção democrática

    O movimento dos estudantes secundaristas em 2015 foi certamente a melhor criação política do ano. Há muito o que refletir e aprender sobre tudo o que aconteceu e continua vibrando.

    A existência de centros acadêmicos nas escolas, para além de um importante direito conquistado, é um espaço relevante de aprendizado e exercício democrático. Por isso, chamou minha atenção o fato que alguns dias atrás o jornal O Estado de São Paulo publicou uma matéria intitulada “Governo de SP vai reformular grêmios de escolas estaduais” [1]. A matéria utiliza como referência um levantamento solicitado pelo MPE sobre a existência dos grêmios nas escolas da rede estadual de São Paulo. Em síntese, o estudo mostra que muitas escolas possuem um centro estudantil, porém ele é frequentemente pouco participativo ou efetivo na sua missão representativa da comunidade escolar.

    Interessante que a matéria do jornal procura estabelecer uma relação entre as ocupações das escolas e a existência frágil desses gremios estudantis. O argumento segue a seguinte premissa: se houvessem gremios estudantis ativos e bem organizados as reivindicações dos estudantes poderiam ter sido canalizadas pelas vias institucionais, e assim os problemas seriam resolvidos pela administração escolar. Na ausência de espaços de representação institucional o movimento dos estudantes torna-se alvo fácil de grupos políticos extra-estudantis, ou então as reivindicações tornam-se mais conflituosas, levando a resultados inesperados como a ocupação das escolas. Nas palavras da gestora responsável pelos gremios na Secretaria Estadual de Educação: “Uma gestão participativa mais forte cria uma relação muito importante com a comunidade, alunos, professores e família. A escola fica mais calma”.

    A reportagem funciona como ótimo recurso reflexivo sobre a natureza  ambígua desses grêmios estudantis.

    Em primeiro lugar, como muitos dos nossos espaços de representação institucional, parte dos gremios escolares acabaram convertidos em aparelhos da gestão burocrática (quando dominados pela própria administração escolar) ou em espaços dominados por grupos políticos fortemente identidários (com bandeiras e programas prontos e desconectados da vida estudantil). Os estudantes sabem disso. Por isso, eles criaram novas agremiações que escapam à tutela dos diretores, da SEE, dos partidos e das associações estudantis tradicionais. Em suma, ao contrário do que a matéria parece sugerir, as ocupações das escolas nascem de coletivos e grêmios independentes que não sofrem de um deficit democrático. Nesses casos os estudantes estão, efetivamente, fazendo invenções democráticas exatamente onde a política estava morta porque convertida em ação gestionária.

    Em segundo lugar, o que a reportagem parece esquecer é que o problema da reestruturação escolar, da forma como foi proposta, escapa à própria capacidade deliberativa de uma unidade escolar e suas instâncias internas de participação. Trata-se de uma política de Governo (G.Alckmin) muito mais ampla. Ou seja, mesmo que uma escola tivesse ótima qualidade de participação democrática, sua posição com relação à reestruturação enfrentaria a resistência das instâncias administrativas superiores. Os estudantes também sabem disso. Por isso sua luta não poderia se limitar às instâncias locais de representação.

    [1] http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,governo-de-sp-vai-reformular-gremios-de-escolas-estaduais,1814033

  • Ciência comum e laboratórios cidadãos – com Antonio Lafuente

    antonio-lafuente

    Recomendo a escuta desta apresentação do Antonio Lafuente na EACH/USP, numa  atividade organizada pela Daria Daremtchuk do Grupo de Pesquisa Entre Artes Contemporâneas. Como não pude comparecer, pedi a ela que gravasse o audio. Registro recebido, escrevi ao Antonio solicitando autorização pra compartilha-lo. Obviamente, nenhuma objeção. Publiquei-o em seguida no Internet Archive  (Disponível aqui: https://archive.org/details/20150528083352 ).

    Já faz algum tempo que acompanho sua produção. Considero-a muito inspiradora para os trabalhos que venho desenvolvendo, tanto na pesquisa como na ação política. Serei sempre grato ao colega Luis Ferla por ter me apresentado a ele na Unifesp, lá no Bairro dos Pimentas, onde mais tarde o próprio Antonio voltaria outras vezes pra participar de seminários e de uma não-aula no (des)curso “Leituras do Fora” que oferecemos (eu, Edson Teles e Fernanda Cruz) como disciplina eletiva .

    Após escutar o audio, resolvi fazer algumas anotações que compartilho aqui. Antonio Lafuente explora algumas questões sobre a produção de conhecimentos (científicos e extra-científicos) e sua relação com os coletivos humanos (instituições, Estado, academia, extra-universidade).

    Sua trajetória de historiador da ciência, soma-se ao longo trabalho de pesquisa sobre práticas alternativas de produção de conhecimentos (ciência amadora, ciência cidadã, comunidades epistêmicas, cozinhas, laboratórios de garagem…) e mais recentemente à prática de coletivos ativistas que combinam o uso de tecnologias digitais à investigação amadora para a inovação cidadã (novas modos de participação e ação política). Um exemplo disso são algumas iniciativas que ele coordena do MediaLab Prado.

    Nesta palestra ele faz um interessante caminho, partindo de algumas boas questões: o que os cientistas podem aprender com os ativistas, e o que os ativistas podem aprender com os cientistas? Como avançarmos da ciência aberta em direção à ciência comum?

    No centro das reflexões está a própria noção do que é ciência. Lafuente interroga os limites da idéia de ciencia aberta (open science) apontando como ela surge como forma de resistência aos processos de privatização de conhecimento, mas que, dado o caráter ambiguo e paradoxal do nosso ambiente sociotécnico, a Open Science também participa ativamente da própria expansão do capitalismo informacional.

    Ele confronta a idéia de Ciência Aberta com a proposta de uma Ciência Comum (Common Science). Se por um lado a ciência aberta estaria orientada pelo caráter público da ciência (a ciência para todos); a ciência comum estaria orientada por uma idéia da ciência feita “entre todos”. O “comum” teria aqui duas dimensões: enquanto recurso comum (commons no sentido econômico de bens comuns); mas também comum no sentido daquilo que é partilhado. Lafuente parece dar mais destaque a esta segunda dimensão (esta seria uma primeira pergunta para ele).

    Ao chamar atenção para esta dimensão do Comum, Lafuente faz um deslocamento interessante e recoloca esta discussão no âmbito do que alguns teóricos chamam de Pró-comum (nem publico-estatal, nem privado). Mas ele vai ainda mais longe, pois ao colocar a ciência na perspectiva do pró-comum ele interroga a idéia da ciência como instituição.

    Pra isso, ela faz uso de um artifício. As instituições, dado seu caráter relativamente objetivo e autônomo (é um conjunto de relações com regras próprias de funcionamento) funda-se num cercamento baseado na delimitação entre um dentro e um fora (o que é ou não reconhecimento como científico). Em oposição às instituições, ele usa o neologismo “extituições”. Ao invés de criar fronteiras entre o dentro e o fora, a extituição busca criar conexões entre o dentro e o fora.

    Esta ciência comum, portanto, estaria fundada naquilo que é partilhado por todos e ao mesmo tempo, é singular a cada um: a experiência. Do experimental à experiencial; todos somos experts em experiência; um conhecimento baseado na experiencia é um conhecimenho que não separa experts e leigos, é um conhecimento que todos têm.

    A impressão que dá, é que Lafuente constrói um plano de imanência onde ele cria  conceitos que sejam capazes de abrigar as novas práticas cognitivas que ele descreve. Mas será que a ciência comum, na perspectiva colocada por Lafuente, apontaria também para uma outra ordem política? Ele não fala isso diretamente; esta seria uma segunda pergunta para ele. Fiquei com esta impressão pois ao final de sua intervenção ele desenvolve um comentário sobre os novos movimentos sociais na Espanha.

    Em sua descrição os movimentos da geração 15M (em sua multiplicidade de grupos), articulam 3 características que os distinguem dos movimentos anteriores: (1) dos protestos às propostas: são movimentos que não mais se limitam a protestar contra algo. Isso os obriga a se configurarem como comunidades de aprendizagens, comunidades cognitivas que enfrentam problemas comuns; (2) do experimental ao experiencial: são esses problemas comuns, os seus modos de enfrentamento e a experiência produzida neste trabalho que estão na base na organização; (3) da reivindicação dos direitos civis (afirmação de sujeitos de direitos), a criação de infraestruturas próprias que produzem recursividade. Além de reivindicar direitos, esses movimentos inauguram soluções baseadas numa permanente abertura.

    Essas ações juntas se comportam como um Protótipo, um laboratório que não estaria destinado à produção de coisas, mas espaços destinados à criação de comunidades. Aqui a inspiração do software livre é fundamental em sua dimensão “livre”, tanto a novas agregações, quanto a novas clivagens que não perdem aquilo que foi produzido em comum. Nesta acepção, tal “comunidade” política não estaria baseada em direitos exclusivos (relacionadas à um sujeito específico de direitos), e sim na abertura à chegada de outros, obrigando-nos à permanente tarefa de criar novas formas de viver juntos.

  • Metodologias participativas: sentidos e questões

    Anotações da intervenção realizada na mesa “Refletindo e discutindo sobre as perspectivas das metodologias participativas no Brasil e no mundo” do Simpósio Internacional Metodologias Participativas

     

    1. Contexto macro-social economico

    Kismo cognitivo
    Esgotamento democracias representativas => convive lado a lado com o estado de exceção

    Esgotamento da narrativa progressista na AL => Ascenso politico conservador.
    Crise ambiental.
    Crise de legitimidade da ciencia

    Kismo cognitivo => trabalho imaterial (cuidado, educação) nova fronteira de exploração. Problema para o capitalismo: como codificar?
    Risco das metodologias => nao podem virar protocolos.

    Novas formas de exploração do trabalho: participação = mobilização total.

    Participação => mecanismo de captura na democracia representativa. Temos participação em toda parte.

    *Saude, Educaçao => fronteiras do capitalismo cognitivo => economia afetiva, comunicaciona. Como codificar controlar o intangível?

    Curso enfermagem – estão sentido com maior radicalidade este processo em curso.

     

    2. Novas tensões sobre a produção de conhecimento científico

    Anos 40-50 sec.XX => big science, ciencia&tecnologia aplicada
    Se por um lado há crise de legitimidade sobre a capacidade de solucionamento dos problemas humanos e ambientais (ciencia pra que e pra quem?).
    Por outro há uma nova hegemonia em termos da convergência NBIC – nano-bio-informatica-cognitivas.

    É possivel perceber uma tensão aqui no Simposio Metodologias Participativas face às dinamicas de:
    -institucionalização da ciencia => maior fechamento de cada campo científico (o que não é contrário a interdisciplinariedade, mas significa uma tendencia de fortalecimento de regras/protocolos internos ao campo.
    -relação com a sociedade => novas demandas de interação.

    Simposio:
    -eixo objeto e metodo => modo de fazer
    -eixo ético-politico  => emancipação, poder…

    Exemplo: reflexao critica sobre Ciencias Sociais – ultimos 20 anos.

    *Streck => participação na pesquisa X participação da pesquisa na sociedade

    *Renato Toledo: limites da ciencia diante dos novos problemas contemporaneos, crise de algumas certezas…

     

    3. Revolução Amadora, Crise da Expertise => Movimento Ciencia Aberta, Ciencia Amadora, Ciencia Cidada

    -relação com os estudos sociais em Ciencia & tecnologia
    -complexidade dos problemas reais exigem abertura da ciencia aos saberes de outros atores => emergencia de novos atores cognitivos
    -ciencia aberta – intra-campo (novos modos de participação e colaboração entre cientistas).
    -ciencia aberta – extra-campo (novas formas de relação entre universidade e sociedade.

    *Simposio: trabalhos que se relacionam de maneira distinta com a dimensao do poder institucional: lutas por direitos X crítica institucional.

    -Dimensao Politica: tensão entre:
    -luta/afirmaçao de direitos (leis) que nao estao efetivamente constituídos ou que estão ameaçados.
    -novas formas de produção de comum (pro-comum): nova politica, novas subjetividades.

     

    4. Sobre os trabalhos => questões sobre a abordagem interdisciplinar

    Apontam para necessidade da interdisciplinariedade…todavia, é importante dialogar com a experiencia disciplinar de algumas áreas. Por exemplo: como “falar em nome” do sujeito pesquisado na metodologia participativa? O problema da representação na escrita, na produção de conhecimento é um problema fundante na antropologia. Como falar deste outro desconhecido?

    Destaques Eixo Saude:
    -poucas recorrencias comuns na bibliografia
    -bibliografia em português
    -todos os projetos são reflexões sobre a implementação/execução de uma ação sobre um problema concreto: quais os saberes mobilizados e produzidos neste processo.
    -destaque para a relação com o SUS.
    -ausencia de discussões sobre Ética (um único trabalho trata mais diretamente deste problema). Nos demais a dimensão ética está dissolvida ou suas questões/dilemas são percebidas de forma imanente à própria prática da pesquisa-participativa.
    -estudos são situados-contextualizados. Pouca expressão de teorização mais ampla.

    Destaques Eixo Sociais:
    -temas e objetos são mais amplos. Reflexão sobre uma prática que é mais ampla, ao contrário do Eixo Saúde que “ataca” problemas mais específicos.
    -educação focada em temáticas da saúde.

  • Relatos, Videos e Apresentações do Tropixel Ciência Aberta

    Relatos, Videos e Apresentações do Tropixel Ciência Aberta

    Durante a primeira semana de junho de 2015, Ubatuba, cidade localizada no litoral norte de São Paulo, foi cenário da realização do Tropixel Ciência Aberta. O evento foi composto por oficinas, apresentações e debates, além de um laboratório experimental de tecnologias abertas para produção de conhecimento e soluções para questões de desenvolvimento local. Cerca de cem pessoas participaram do evento, que reuniu convidados da própria cidade, de outras regiões do Brasil e também de outros países.

    Identidade Tropixel

    Tropixel é uma rede brasileira que desenvolve eventos em formatos dinâmicos, buscando a conjunção entre arte, ciência, tecnologia e sociedade. Em anos anteriores havia organizado o Festival Tropixel em Juiz de Fora e em Ubatuba, e o Ensaio Tropixel #1 em Ubatuba. É associada à rede Pixelache, criada na Finlândia no início da década passada e responsável pela produção de dezenas de eventos e projetos de arte e ciência em países de três continentes.

    A edição de junho, batizada de Tropixel Ciência Aberta, foi concebida em parceria entre a rede Tropixel e a plataforma Ciência Aberta Ubatuba, com o intuito de promover o diálogo entre as diversas instituições, grupos e indivíduos envolvidos com a produção e difusão de conhecimento em Ubatuba e região. O principal objetivo foi propor a reflexão e a troca de experiências sobre o papel da adoção de práticas abertas e colaborativas por projetos científicos, além de dar visibilidade a iniciativas da região que já adotam práticas da ciência aberta. O evento visou ainda trocar experiências sobre soluções com ferramentas abertas e metodologias colaborativas para projetos de interesse local.

    Lab #mozsprint

    A programação incluiu dois dias de oficinas de hardware científico aberto na Etec – Centro Paula Souza de Ubatuba; um painel de apresentações e debates sobre experiências de ciência aberta com duração de uma tarde no auditório do Aquário de Ubatuba; e por fim dois dias de um laboratório experimental #mozsprint, conectado ao Mozilla Science Global Sprint, acontecendo no Jardim Cultural.

    Painel Ciência Aberta

    O Tropixel Ciência Aberta foi parte da programação da sexta edição do Festival da Mata Atlântica – Floresta, Rios e Mar. Contou com apoio institucional do IBICT, do IDRC e da OCSDNet, além da Prefeitura Municipal de Ubatuba, do Ubalab, da Rede Infoamazônia, do Pimentalab, do Liinc/IBICT-UFRJ e do Ecotrip Hostel.

    Oficina Hardware Científico Aberto

    Nos dias 1 e 2 de junho, o Tropixel Ciência Aberta recebeu uma oficina de Guima-san e Gina Leite, da Rede Infoamazônia. Trata-se de um projeto que foi finalista do Desafio Google de Impacto Social e está desenvolvendo uma rede de sensores de qualidade da água em Santarém, no coração da Amazônia. Os integrantes da equipe contaram sobre o histórico do projeto, a atuação do projeto Infoamazônia gerando e relacionando dados que servem de base para a criação de conteúdo jornalístico e informativo. Mostraram diversos tipos de sensores, desde aqueles produzidos comercialmente até outros fabricados artesanalmente. Trouxeram ainda um protótipo avançado do equipamento que irão produzir para o projeto, chamado de Mãe d’Água, que conecta vários tipos de sensores para compor um retrato da qualidade da água.

    Mãe D'Água

    Ao longo dos dois dias, os participantes – grande parte deles estudantes de ensino técnico – tiveram a oportunidade de desenvolver seus próprios sensores simples de condutividade elétrica, utilizando componentes acessíveis e de baixo custo com base em um projeto do Public Lab. A plataforma Ciência Aberta Ubatuba também aproveitou para fazer uma pequena pesquisa sobre o perfil dos participantes, cujos resultados serão publicados nos próximos dias.

    Sensores montados à mão Testes de água

    Painel Ciência Aberta

    Na quarta-feira, dia 3 de junho, o evento migrou para o auditório do Aquário de Ubatuba, onde aconteceu o painel sobre temas relacionados ao universo da ciência aberta e colaborativa, com foco especial na sua relação com o desenvolvimento da cidade e região. O painel foi organizado, em duas sessões, com a intenção de aproximar pesquisadores e instituições que já trabalham com perspectivas próximas à ciência aberta, além de trazer referências relevantes de outras partes do Brasil e do mundo.

    A abertura foi feita por Felipe Fonseca, coordenador local do evento, seguido da apresentação remota de Leslie Chan (Universidade de Toronto) sobre os objetivos da rede internacional OCSDNet, da qual faz parte a Plataforma Ciência Aberta Ubatuba.

    Painel Ciência Aberta

    A primeira mesa, coordenada por Sarita Albagli (IBICT), teve por tema “Territórios e Conhecimento” e contou com falas de Diogo Soares (Litoral Sustentável); Maira Begalli (UFABC); Thereza Dantas, Marcela e Eduardo (Fórum de Comunidades Tradicionais); Álvaro Fazenda (Forest Watchers) e Eliane Simões (Redelitoral). Gestão e construção participativas, cartografias coletivas e conhecimentos tradicionais foram temas bastante presentes.

    Cândido e o mergulhador

    Com o tema “Fronteiras abertas”, a segunda sessão, coordenada por Henrique Parra (Unifesp) trouxe as experiências de Cândido Moura (Ubatubasat); Rachel Jacobs (Active Ingredient); Jorge Machado (Colab/USP); Juliana Bussolotti (Associação Cunhambebe); Guima-san (Infoamazônia) e Luciana Fleischman (Tropixel). Os vídeos das apresentações estão disponíveis na página wiki do evento.

    Laboratório #mozsprint

    Os dois últimos dias do Tropixel Ciência Aberta tinham a proposta de abrir espaço para a troca de experiências e a realização de atividades de desenvolvimento e aplicação de ferramentas de conhecimento aberto. O lab esteve conectado a dezenas de iniciativas ocorrendo simultaneamente em diversas partes do mundo, compondoo Mozilla Science Global Sprint. Este é um evento internacional e em tempo real voltado ao desenvolvimento de projetos de ciência aberta, organizado periodicamente pela Fundação Mozilla.

    Lab #mozsprint - programação

    Em Ubatuba, o lab teve diversos eixos de atuação:

    • levantamento de dados científicos sobre Ubatuba em sistemas e acervos disponíveis na internet, mobilizado por Capi Etheriel (Transparência Hacker) e André Appel (Liinc/IBICT-UFRJ);
    • “hackeamento” dos equipamentos e sensores trazidos pela artista britânica Rachel Jacobs, que fazem parte da obra Prediction Machine, e a exploração de pontos de contato com as pesquisas de Guima-san para o Infoamazônia e outros projetos. Participaram também Leandro Ramalho e outros integrantes do Arduino Ubatuba, além de membros do Estúdio Avante;
    • entrevistas em vídeo sobre temas ligados à ciência aberta com convidados do evento, capitaneadas por Henrique Parra (Unifesp), Sarita Albagli (IBICT) e Juliana Andrade (Pimentalab);
    • oficinas de bioexperimentos elétricos, que utilizaram legumes e outros vegetais como fonte de energia, propostas por Filipe Machado e Marrytsa Melo;
    • edição colaborativa de Guias para Ciência Aberta, coordenada por Luciana Fleischman (Tropixel), Alexandre Abdo (OKBr) e Sarita Albagli (IBICT);
    • oficina de geoprocessamento utilizando o software livre qgis, oferecida pelos estudantes de gestão territorial da UFABC, sob coordenação de Maira Begalli;
    • apresentação, por Jutta Machado (Colab), de aplicativo de pesquisa de opinião de base comunitária, para empoderamento local e subsídio a políticas públicas, desenvolvido pelo MIT;
    • sessão de brainstorm e construção coletiva a partir de questões trazidas por Felipe Spina (Mosaico Bocaina), para desenvolvimento de ferramentas de produção participativa e comunitária de informações de monitoramento e alerta ambiental.

    Rachel e os sensores TV Ciência Aberta Ubatuba Bioexperimentos Mosaico Bocaina

    Ao fim da sexta-feira, dia 5 de junho, os participantes do lab reuniram-se de frente para o mar para uma última rodada de conversas. Ficou no ar o desejo de levar em frente as ideias e explorações iniciadas durante os dias do evento.

    Documentação

    Um dos elementos mais importantes em qualquer projeto de ciência aberta é o compartilhamento de dados. Tendo isso em vista, foi solicitado aos participantes do Tropixel Ciência Aberta que publicassem o material que trouxeram ou geraram durante os dias do evento. Esta lista ainda será ampliada e publicada na nossa página wiki, mas por enquanto já temos os seguintes recursos disponíveis:

  • Privacidade como um bem comum – Privacy as a commons

    Durante o Simpósio LAVITS – Territórios, Tecnopolíticas e Vigilância, realizado no Rio de Janeiro em maio de 2015, travamos discussões instigantes sobre a transformações nas formas de regulação das fronteiras entre o publico e privado nas relações mediadas pelas tecnologias digitais, as novas formas de controle e vigilância, e muitas outras coisas.

    Em uma das sessões temáticas – “Dados pessoais: proteção, prospecção, controvérsias” – provocado pelos trabalhos apresentados, lancei a reflexão descrita abaixo aos colegas Rafael Evangelista, Miguel Said e Jorge Machado. A idéia não é nova. Depois, o Márcio Ribeiro retomou a conversa no Twitter – https://twitter.com/marciomoretto/status/600383786988220416 . Agora, continuo discutindo por aqui.

    ***

    E se, ao invés de pensarmos a regulação da privacidade em meios digitais apenas em termos de nossos direitos individuais passássemos a abordá-la como um bem comum (commons), um recurso cujo usufruto depende de direitos coletivos e de uma gestão compartilhada, da mesma forma como o ar que respiramos e a água que bebemos?

    Em primeiro lugar é preciso dizer que parto de uma noção “relacional” ou “contextual” de privacidade. Entendo-a como a capacidade que um indivíduo têm de determinar quais aspectos de sua vida serão ou não conhecidas por outros. Em termos práticos, estou tomando a noção de privacidade como a capacidade de delimitar a fronteira entre aspectos privados e públicos de nossa existência.

    Quando coloco informações sobre minha vida íntima num ambiente de fácil leitura (como uma rede social online), considero que aquelas informações não ameaçam a minha privacidade. Ou seja, balizamos nossa percepção sobre nossa privacidade em função de expectativas relativas à capacidade dos outros respeitaram a fronteira que tenho estabelecido entre meu universo público ou privado.

    Em cada ambiente, em cada meio de comunicação que utilizamos, em cada interação social essa fronteira é estabelecida de maneira diferente. O surgimento de novas tecnologias (de comunicação ou de visualização) modifica radicalmente essas fronteiras. Sempre que surge uma nova tecnologia de comunicação somos surpreendidos em algum aspecto de nossas práticas culturalmente estabelecidas.

    Por exemplo, atender o telefone e falar na presença de outros, como hoje fazemos com o celular na rua, no ônibus, em qualquer lugar, exigiu mudanças significativas em nossa percepção sobre a privacidade. Outro exemplo: quando estou dentro do meu apartamento considero que as paredes são sólidas o suficiente para proteger minha privacidade do olhar do prédio da frente. Todavia, se o vizinho utilizar uma sofisticada câmera de leitura térmica poderá visualizar minha atividade dentro do meu apartamento. Agora com os drones que estão se popularizando, muitas pessoas estão utilizando essas pequenas aeronaves para vasculhar e monitorar o espaço e a vida alheia.

    Mas nesses casos, estamos falando de uma “invasão” ativa da privacidade de alguém. Ou seja, o controle que eu tinha sobre os contornos que fazem a fronteira da minha privacidade foram ultrapassados por terceiros. Mas em se tratando de nossa comunicação ou interação através das tecnologias digitais em redes cibernéticas, o problema muda de figura. Como conhecemos pouco sobre o funcionamento desses dispositivos ignoramos as profundas transformações em jogo e suas consequências.

    Quando nos comunicamos com nossos computadores, celulares/smartphones, seja para acessar um site qualquer, para falar com alguém etc, é necessário que haja um “aperto de mãos” entre nossas máquinas e aquelas que acessamos. Nossos dispositivos estão em contato, trocam dados, se “reconhecem” para que a comunicação funcione. Muitas das tecnologias que foram primeiramente desenhadas para funcionar na internet não levaram em conta essa situação que hoje temos pelo frente. Enquanto algumas dessas tecnologias são “protetoras” da privacidade por design (privacy by design/default), outras são altamente permissivas.

    O fato é que hoje, a capacidade que temos de regular as condições de privacidade em nossa comunicação em meios digitais escapa, em certa medida, ao nosso poder. Nesse sentido, ainda que eu seja cauteloso com minha privacidade online, eu posso ser surpreendido pelas configurações de algum serviço ou site, por não entender ou por não ter tido acesso à forma como aquele site/serviço/dispositivo gerencia as informações que lhe forneço para utilizá-lo.

    É neste sentido que fiquei pensando se podíamos fazer uma analogia entre a privacidade e os bens comuns, cujo usufruto depende do respeito e gestão coletiva sobre ele; recursos cuja titularidade jurídica é difusa, como o meio ambiente por exemplo. Quais as implicações disso? Como seria a regulação sobre a gestão de nossos dados pessoais em meios digitais nesta perspectiva? Enfim…a conversa segue. Como combinar os aspectos técnicos (protocolos técnicos) com aspectos jurídicos (protocolos sociais) em que a proteção à privacidade seja promovida à recurso comum e responsabilidade coletiva?

  • Comunidades de prática e comunidades epistêmicas

    O texto de Madeleine Akrich – From communities of Practice to Epistemic Communities: Health Mobilizations on the Internet, faz uma ótima revisão teórica dos conceitos de comunidade de prática e comunidades epistêmicas. Para isso, a autora analisa o processo de produção e organização de conhecimentos em listas de discussão da internet na área de saúde. Ela toma, em especial, temas relacionadas à gravidez e parto, para discutir a emergência de saberes alternativos aos conhecimentos médicos, e como há processos muitas vezes de complementariedade ou conflito entre esses saberes. A noção de experiência ganha relevância nos casos analisados, e também a discussão sobre a constituição de campos políticos, tanto entre pacientes, médicos e gestores responsáveis por políticas públicas. No centro das reflexões estão os processos de ampliação da autonomia dos “pacientes” sobre sua própria saúde em diferentes dinâmicas: tanto nos casos em que os grupos passam a se organizar politicamente para demandar mudanças nas políticas públicas, como nos casos em que os grupos de pacientes estão focados no aprendizado e apoio mútuo para o empoderamento pessoal.

    Madeleine Akrich. From communities of Practice to Epistemic Communities: Health Mobilizations on the Internet. Sociological Research Online, SAGE Publications (UK and US), 2010, 15 (2), 17 p. <10.5153/sro.2152>. <hal-00517657>

    Texto disponivel aqui: https://halshs.archives-ouvertes.fr/hal-00517657