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  • Laboratórios e Algoritmos Encarnados

    Laboratórios e Algoritmos Encarnados

    Em abril de 2017 realizei essa palestra – Laboratórios e Algoritmos Encarnados – no Medialab da UFRJ, coordenado pela Fernanda Bruno. Pretendo transformar essas notas em um artigo, mas como isso pode levar um bom tempo, resolvi já compartilhar por aqui as minhas anotações que utilizei para fazer a palestra. Elas já são praticamente um primeira versão deste futuro texto. Seguindo a premissa hacker na ciência aberta, se desejamos cooperação é preciso liberar o quanto antes o conhecimento. Seguem então as notas, algumas indicações bibliográficas, fotos do dia e logo menos o registro parcial em vídeo da palestra.

     

    Palestra realizada no Medialab – UFRJ – 13 de abril de 2018

    Título: Laboratorios, Tecnopolíticas e Algoritmos Encarnados

    Uma resposta imediata para a relação laboratórios X algoritmos

    exemplos:
    -Trackula (baseado no lightbeam)
    -Agrega.la

    Desafio de pensar outras relações possíves entre laboratórios e algoritmos. Possibilidade de me reconectar com um trabalho de quase 10 anos atrás (doutorado).
    Investigação sobre modos de conhecer X tecnologias digitais e política.
    Leviatã – como pessoa artificial.

    ==Contexto==

    -crescente digitalização do mundo
    -Ciência – convergencia NBIC, conhecimento simulacional
    -Capitalismo Informacional, Cognitivo e Financeirização.
    -Governo Biopolítico, Sociedade de Controle, Governamentalidade Neoliberal e Algoritmica

    *Contexto sociopolítico mais amplo:
    Relação entre a emergência de novas:
    -formas de produção conhecimento (tecnologias digitais, crise dos modelos centrados no sistema de expertise, emergencia de novos atores cognitivos, ciencia aberta, ciencia cidadã…).
    X
    -forma de exércicio do poder (mutações e crise nas instituições democráticas, sociedade de controle, mas também as novas formas de resistência e ativismo).

    Abertura e Controle
    Novas formas de governo: Ciencia cidadã X Cidadãos inteligentes X Cidades Inteligentes

    Graças à crescente digitalização e mediação das tecnologias cibernéticas, a expansão do codificável infiltra-se nos ínfimos interstícios da vida individual e coletiva. Com a indicialidade e rastreabilidade da interação digital, surgem novos modos de conhecer: as ciberciências, o conhecimento simulacional, a estatística preditiva, a modulação existencial. Foucault descreveu o surgimento dos saberes populacionais e a biopolítica; Deleuze anunciou a sociedade de controle. É sobre essas camadas que Antoinette Rouvroy descreve a nova governamentalidade algorítmica. No Brasil, Fernanda Bruno, Sergio Amadeu e outros pesquisadores da LAVITS examinam o mesmo problema em termos dos regimes de visibilidade, controle e economia da vigilância.

    No terreno da economia, o capitalismo informacional cria formas de extração e converte a livre interação e colaboração em rica fonte de valor. Os novos saberes e sua economia desenvolvem-se sobre o comum que produzimos de forma transindividual: simultaneamente na dimensão infraindividual (os rastros e índices da expressão pré-individual) e supraindividual (dados agregados, os perfis potenciais). Por isso, é um saber e um poder que está para além do indivíduo e da população. O conhecimento simulacional gera técnicas de modulação do ambiente de forma a alterar o horizonte dos possíveis, modificando o campo probabilístico para a ação futura, e tudo de maneira doce e imperceptível (ou sem fricção, nos termos da tecnofilia do Vale do Silício).

    ==Conhecimento Simulacional e Algoritmos==

    [Imagens HFT]

    [Discussão a partir de Herminio Martins]

    3 estágios ou tipos de pesquisa empírica, 3 formas de se fazer ciencia empírica.

    I-ciencias ou sciencing in vivo: estudar seres naturais no “mundo selvagem”, com ou sem instrumentos especiais.

    II-ciencias ou sciencing in vitro: estudar os seres naturais no laboratório (wet labs), para observação detalhada, experimentação física de forma controlada.

    III- sciencing in silico: e-sciences, cybersciences: estudo dos processos, mecanismos e dinamicas de entidades naturais, culturais, através da simulacao computacional (dry labs).

    Com as ciências do silicio, amplia-se enormemente a quantidade de “objetos” que podem ser tratados cientificamente.
    Antes, a observaçao se limitava a tudo que podia ser acessível via experiencia sensorial.
    Agora, tudo que é passível de simulação torna-se “observável”.

    Depreciaçao e abondono do conhecimento observacional ou historico-natural, etnociencia, folk psychology, experiencias “mao-na-massa”…
    Artificializacao + simulacao = substituem experiencia.

    Simulação – ao antecipar, acaba por determinar o real.
    Simulação – acaba por substituir a experiência.
    Depreciação do conhecimento prático, observacional, experimental….

    Essas dinâmicas fazem parte de um amplo processo social, descrito por Virilio (2002) como o deslocamento espaço-temporal da disputa política em direção ao virtual. Nesta perspectiva, as intervenções no “presente” visam a obter o controle sobre o que existe “potencialmente” (em estado virtual). A guerra muda de lugar! Neste contexto, os conflitos comunicacionais buscam não apenas o convencimento e a legitimação das ações em curso, mas sobretudo, o controle das imagens mentais e do pensamento do outro. Trata-se, portanto, de uma intervenção também dirigida à imaginação e ao desejo, territórios virtuais por excelência

    Com a mediação das tecnologias digitais isso é amplamente feito através dos algoritmos => Facebook.
    Perfil potencial

    Algoritmos: Exemplo: mercado financeiro HFT

    ==Ciborgue Epistêmico==

    [imagens Quantified self]

    [Discussão a partir de Herminio Martins]

    Projeto Trans-humanista: vinculado à extensão das ciências cibernitizadas da vida, da mente e do cérebro, e à permeação do nosso modo de pensar por uma metafísica informacional. Trata-se de uma perspectiva que aponta o sucessor legítimo do homo sapiens como sumidade cognitiva, cujo veículo seria um ente pós-biótico.

    Ciborgs Epistêmicos: aumentar ao máximo as capacidades cognitivas dos nossos sentidos antigos e novos, com a substituição gradual dos nossos órgãos sensoriais e dos nossos membros por sensores efectores electromecânicos.

    OGM – organismos geneticamente modificados.
    HGM – humanos geneticamente modificados.

    Maximização do conhecimento tecnocientífico como fim último e exclusivo.
    O que está em jogo é a Emergência de um novo Sujeito Epistêmico Desencarnado, que poderá deixar a Terra, já esgotada cognitivamente, para continuar a Tarefa Comum de expansão infinita do conhecimento.

    Experimentum Humanum – o Homem-como-Experimento em duas versões:
    -Megalantropia, de amplificação sem limites dos poderes naturais do Homem.
    -Trans-humanistas, misantropia ontológica radical, para superar o Humano.

    3 Estágios do Progresso Universal Ciborg:
    -homem biológico comum + aquisição de próteses.
    -interface cérebro-máquina e modificação tecnológica do sistema nervoso central.
    -desencarnação e passagem ao ens virtualissimum = pós-humano.

    Bionic senses: sentidos bionicos: torna-los a interface primária da relaçao humano-mundo externo.

    ==RESISTÊNCIA E ALTERNATIVAS==

    Pensar a resistência à sociedade de controle => poder protocolor e imperial

    **Resistencia: sensuismo (distinto de sensualismo), preservar a sinestesia, kineostesia.
    **Modos de composição com a tecnologia – ao invés do projeto trans-humanista, o manifesto ciborgue da Haraway (anos 80), e hoje as formas de composição humano-máquina que apontam para outras cosmologias, outras forma de viver coletivamente.

    Algoritmo Encarnados => como formas de mediação técnica algoritmica corporificadas.

    Duas formas de manifestação dessa idéia:
    -laboratórios de prototipado => centralidade da experiência e apropriação de tecnologias e algoritmos para “sentidos” ampliados.
    -algoritmo encarnado como protocolo social => criação de arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares.

    ==Laboratórios de Prototipado==

    [protótipo => conhecimento experiencial como forma de resistência]
    No contexto de fortalecimento da sociedade de controle e da governamentalidade algorítmica, o saber que lhes dá sustentação é o conhecimento simulacional. A capacidade de análise e de produção de cenários futuros é um dos principais campos de disputa: Como o mercado vai reagir? Como os eleitores vão se comportar? Como o governo irá modificar uma política?

    A política do protótipo intervém aí numa dupla direção: em primeiro lugar um protótipo é um novo artefato, uma nova relação ou arranjo sócio-técnico, e assim ele produz imagens, cenários que modificam o horizonte dos possíveis, interrogando as imagens disponíveis sobre o futuro; em segundo lugar, ao dar centralidade à noção de experiência, ele ativa uma potência corpórea como um importante território de disputa face aos modos atuais de sujeição social e servidão maquínica.

    Objetivo: criação de arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares.

    Essa passagem do protesto para a proposta (Lafuente e outros autores usam esta expressão) também estava presente como política pré-figurativa em movimentos sociais e contraculturais do século passado. Também encontramos isso em alguns movimentos feministas e ecologistas, em algumas iniciativas presentes no início do Fórum Social Mundial e, mais recentemente, em coletivos hackers para autonomia tecnológica, comunidades de práticas de grupos afetados, redes de agroecologia ou de economia social/solidária, moedas sociais… Essas iniciativas são importantes porque produzem formas associativas que sustentam este “comum” (o que por si só é de grande valia num mundo em que o tecido social é destruído pela governamentalidade neoliberal). E para isso elas também criam os arranjos de modo que suas práticas “funcionam” no presente, promovendo outros critérios de eficiência. Porém, isoladamente, essas experiências também têm os seus limites.

    ==Gramática dos laboratórios==

    laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo.
    Funcionam sob um complexo arranjo sociotécnico, simultaneamente simbólico e material, normativo e pragmático.

    Em síntese, um laboratório cidadão realiza-se com uma combinação de: abertura; colaboração; cuidado; mediação;
    documentação; infraestruturas; tecnologias; protocolos; comunidades e produção
    do comum. Trata-se de uma trama com muitas camadas, e para que cada um desses
    elementos se efetive ele precisa ser atravessado pelos demais.

    Há uma política cognitiva que se manifesta numa ética e num conjunto de práticas e tecnologias relacionadas ao modo de conhecer.
    Há uma tecnopolítica que se realiza nas configurações das mediações
    técnicas da interação social.
    Há uma economia política, relativa ao regime de propriedade, posse e uso dos bens e recursos produzidos.
    Há uma política experimental que se realiza através de processos instituintes de novas comunidades.

    ==Protocolo como Algoritmo Social==

    [Imagens = fair coin]

    [discussao a partir de Alexander Galloway]

    Protocolo Pré-era Digital:
    -comportamento correto ou esperado dentro de um sistema específico de convenções.
    -etimologicamente: etiqueta de papel colada sobre a frente de documentos;
    -Uso comum: sumário dos principais pontos de um acordo diplomático.

    Protocolo Era Digital:
    -padrão que governa a implementação de uma tecnologia específica.
    -convenciona os pontos essenciais que levam a uma ação acordada ou padronizada.
    -governa como tecnologias específicas são adotadas, implementadas e como podem ser utilizadas.

    Protocolo para cientistas da computação:
    -regras convencionais que governam um conjunto de comportamentos possíveis, dentro de um sistema heterogêneo.
    -técnica para alcançar regulação voluntária dentro de um ambiente contingente.

    Protocolos são altamente formais: ou seja, eles encapsulam informações dentro de um invólucro técnico. Não está muito interessado no conteúdo da informação.

    **Protocolo é um sistema de administração distribuída que permite que o controle exista dentro de um meio/ambiente material heterogeneo.

    A better synonym for protocol might be “the practical”, or even “the
    sensible”. It is a physical logic that delivers two things in parallel:
    the solution to a problem, plus the background rationale for why
    that solution has been selected as the best. […] Like liberalism,
    democracy, or capitalism, protocol creates a community of actors
    who perpetuate the system of organization. And they perpetuate it
    even when they are in direct conflict with it.(Galloway,2004,p.245).

    ==Politica do Protótipo==

    [imagens = DIY sensor ambientais]

    O protótipo é aqui compreendido como expressão da passagem de uma cultura do protesto para uma cultura da experimentação (do protesto á proposta).

    Protótipo: prototipar é uma prática que torna o laboratório o espaço de uma dupla experimentação: um modo de conhecer e um modo de intervir politicamente no mundo.

    Prototipar como forma de conhecer: significa levar a sério o fato de que todo
    processo de produção de conhecimento é também um ato de intervenção no mundo.
    Uma pesquisa que se realiza através da criação de um protótipo deve incorporar na sua análise os efeitos e as consequências do que ela está produzindo. É também uma forma de conhecer baseada na indissociabilidade teoria e prática. A noção de experiência ganha força: conheço algo que me acontece; sou partícipe e implicado com este processo de conhecer.
    O protótipo é inacabado, aberto, destaque para o processo.

    Protótipo e ação política: A realização de um protótipo envolve, primeiramente, a decisão de substituir a adesão a um projeto abstrato de sociedade futura pela decisão de experimentar construir no aqui-agora, sempre parcialmente, aquela mudança que se deseja.[…] É portanto uma política do cotidiano que busca introduzir modificações nas formas de vida existentes. Trata-se de uma ação que reconhece as forças em jogo e objetiva criar uma diferença capaz de resistir e persistir.

    Em primeiro lugar, o destaque para uma dimensão experimental e pragmática. O desafio de realização de um protótipo implica em fazer, em criar coisas, criar relações. Ela é tentativa, não tem a pretensão de ser a resposta verdadeira ou a melhor resposta. Ao invés de investir muita energia na definição de fronteiras e categorias políticas abstratas para conceber um programa de ação, ao prototiparmos somos obrigados a compreender como as coisas funcionam no mundo aqui-agora. É uma ação menos orientada ideologicamente (evidentemente há sempre valores envolvidos) e mais prática.

    Ao realizarmos o protótipo, novos problemas emergem, a realidade se torna mais complexa, colocamos o protótipo em movimento e aí já podemos experimentar as dificuldades para sua existência no mundo, e assim tornamos mais visível as forças e conflitos em jogo. Ao mesmo tempo, para fazer um protótipo temos que criar uma comunidade, e ao fazer isso aprendemos a caminhar juntos. Pode parecer banal, mas essa habilidade (fazer junto) é um recurso escasso em muitos locais.

    No centro da produção do protótipo está a experiência. E digo experiência no sentido forte do termo, “sofrer uma experiência”, “ter uma experiência”, como nos ensina Jorge Larrosa. Ao fazer um protótipo colocamos nossos corpos em ação, e ao fazer isso outros saberes, afetos e poderes entram em cena. O protótipo reforça um sentido de abertura, indeterminação, sujeito à continua transformação. Em resumo, uma política do protótipo é também a passagem de um movimento reivindicativo para um movimento propositivo e pré-figurativo, que experimenta no presente a criação de outros modos de relação e outros mundos possíveis.

    Referências:
    Henrique Parra:
    *https://pimentalab.milharal.org/2018/03/17/do-protesto-aos-arranjos-tecnopoliticos-recursividade-e-reticulacao/
    *http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3907
    *http://revista.ibict.br/liinc/article/view/3558

    Herminio Martins:
    *http://revistas.ulusofona.pt/index.php/respublica/article/view/2398

    Fotos do dia:
    *https://www.facebook.com/pg/UFRJ.MediaLab/photos/?tab=album&album_id=1792248374131965

    Videos:
    *https://www.facebook.com/UFRJ.MediaLab/videos/1786704534686349/
    *https://www.facebook.com/UFRJ.MediaLab/videos/1786675101355959/
    *https://www.facebook.com/UFRJ.MediaLab/videos/1786721951351274/

    Muito obrigado Lori Regattieri e Anna Bentes pelos registros!

  • O poder é logístico

    O poder é logístico


     

    O poder é logístico, bloqueemos tudo  [1]

    O poder é a própria organização deste mundo, este mundo preparado, configurado, designado. Aí está o segredo, de que não há segredo nenhum. O poder é agora imanente à vida, tal como a vida é agora organizada tecnologicamente e mercantilmente…Determina a disposição do espaço, governa os meios e os ambientes, administra as coisas, gere os acessos – governa os homens.

    Quem quiser empreender o que quer que seja contra o mundo existente tem que partir daí: a verdadeira estrutura do poder é a organização material, tecnológica, física deste mundo. O governo já não está no governo.

    O poder é agora a ordem mesma das coisas, e a polícia está encarregue de a defender.

    Como contestar uma ordem que não se formula, que se constrói passo a passo e sem palavra. Uma ordem que se incorporou nos próprios objetos da vida quotidiana. Uma ordem cuja constituição política é a sua constituição material.

    Daí a alegria que se agarra a qualquer comuna. Repentinamente, a vida deixa de estar recortada em pedaços conectados. Dormir, lutar, comer, curar-se, festejar, conspirar, debater, provêm de um mesmo movimento vital. Nada está organizado, tudo se organiza. A diferença é notável. Um apela à gestão, o outro à atenção – disposições em todos os pontos incompatíveis.

    Quem diz infraestrutura diz que a vida foi desligada das suas condições. Que colocaram condições à vida. Que esta depende de fatores sobre os quais já não tem controlo. Que perdeu o pé. As infraestruturas organizam uma vida suspendida, uma vida sacrificável, à mercê de quem as gere.

    O que constitui a força estratégica das insurreições, a sua capacidade de destruir a infraestrutura do adversário de forma duradoura é, justamente, o seu nível de auto-organização da vida comum.

    Bloquear estes fluxos era abrir a situação. A ocupação era imediatamente bloqueio.

    De resto, não se deve falar mais em fábricas, mas de locais, locais de produção. A diferença entre a fábrica e o local é que uma fábrica é uma concentração de operários, de saber-fazer, de matérias- -primas, de stocks; um local é apenas um nó num mapa de fluxos produtivos.

    Atacar fisicamente esses fluxos, em qualquer ponto, é assim atacar politicamente o sistema na sua totalidade. Se o sujeito da greve era a classe operária, o do bloqueio é perfeitamente qualquer um. É não importa quem, qualquer um que decide bloquear – e assim tomar partido contra a presente organização do mundo.

    Obcecados que somos por uma ideia política de revolução, negligenciámos a sua dimensão técnica. Uma perspetiva revolucionária já não tem que ver com a reorganização institucional da sociedade, mas com a configuração técnica dos mundos.

    Trata-se, enquanto tal, de uma linha traçada no presente, não uma imagem flutuante no futuro. Se queremos reaver uma perspetiva, teremos que reagrupar a constatação difusa de que este mundo não pode mais continuar desejando construir outro melhor. Pois este mundo mantém-se, antes de mais, por via da dependência material que faz de cada um, na sua simples sobrevivência, dependente do bom funcionamento geral da máquina social.

    Teremos que dispor de um aprofundado conhecimento técnico da organização deste mundo: um conhecimento que permita, simultaneamente, colocar fora de uso as estruturas dominantes e reservar-nos o tempo necessário à organização de uma desconexão material e política do curso geral da catástrofe, desconexão que não seja assombrada pelo espectro da penúria, pela urgência da sobrevivência.

    Temos de ir ao encontro, em todos os sectores, em todos os territórios que habitemos, daqueles que dispõem de conhecimentos técnicos estratégicos. É somente a partir daí que os movimentos ousarão verdadeiramente “bloquear tudo”. É somente a partir daí que se libertará a paixão de experimentar uma outra vida, paixão técnica em larga escala, que é como a inversão da situação de dependência tecnológica de todos.

    Construir uma força revolucionária, nos dias de hoje, é justamente isso: articular todos os mundos e todas as técnicas revolucionariamente necessárias, agregar toda a inteligência técnica numa força histórica e não num sistema de governo.

    Para uma força revolucionária, não faz sentido saber como bloquear a infraestrutura do adversário, se não se souber como a pôr a funcionar em seu proveito, caso seja necessário. Saber destruir o sistema tecnológico supõe experimentar e pôr em prática simultaneamente as técnicas que o tornam supérfluo.

    A relação do homem com o mundo, visto que não releva de uma adequação natural, é essencialmente artificial, técnica, para falar grego.

    E é bem por isso que não há essência humana genérica: porque só há técnicas particulares e cada técnica configura um mundo, materializando-se assim uma certa relação com este, uma determinada forma de vida. Não se “constrói” portanto uma forma de vida; não se faz mais do que incorporar técnicas, pelo exemplo, pelo exercício ou pela aprendizagem.

    Também o carácter técnico do nosso mundo vivido só nos salta aos olhos em duas circunstâncias: na invenção e no “apagão”. É apenas quando assistimos a uma descoberta ou quando um elemento familiar acaba por faltar, partir-se ou não funcionar, que a ilusão de viver num mundo natural cede face à evidência contrária.

    A dificuldade seguinte que se nos coloca é esta: como construir uma força que não seja uma organização?

    Este falso problema assenta sobre um cegueira, uma incapacidade para apreender as formas de organização que se escondem, de maneira subjacente, em tudo o que chamamos “espontâneo”.

    As verdadeiras formas são imanentes à vida e só se apreendem quando em movimento

    A atenção e a disciplina de que falamos aplicam-se à potência, ao seu estado e ao seu crescimento. Elas espreitam os sinais daquilo que a principia, adivinham o que a faz crescer. A disciplina verdadeira não tem por objeto os sinais exteriores da organização mas o desenvolvimento interior da potência.

    Nota [1]: enquanto organizo o programa da próxima disciplina a ser oferecida na pós-graduação das Ciências Sociais da EFLCH (no segundo semestre de 2018), encontro textos que vêem bem a calhar neste momento. Acima, algumas notas do livro “Aos Amigos”, do Comitê Invisível

  • Como fabricar um Leviatã com um tweet e um telejornal

    Como fabricar um Leviatã com um tweet e um telejornal

    A unidade do Leviatã é uma ficção que precisa ser fabricada continuamente. A Internet, em sua fase inicial, ampliou a possibilidade do dissenso e da agência política distribuída sem a necessidade de grandes estruturas ou de um horizonte de totalidades constituídas. Porém, em poucos anos, grande parte da internet foi colonizada para funcionar sobre o domínio de grandes corporações com alto poder de centralização e controle.

    O mais grave, no entanto, é a combinação das redes digitais com a comunicação de massa altamente centralizada nas mãos de poucas empresas. Um excelente exemplo deste pior cenário é o efeito provocado pela leitura de um tweet do comandante do exército pelo Jornal Nacional da Rede Globo na véspera do julgamento do STJ.

    Neste instante, podemos ver em operação todo o teatro de fabricação de um mundo pretensamente coerente e unitário, que coincida com a posição defendida pela Globo. Graças à transmissão homogênea em escala nacional de uma opinião pessoal, certificada duplamente pela vínculo institucional do indivíduo-general e do jornalista-televisivo, a opinião pessoal de um general transforma-se em potencial de ação coordenada de toda uma instituição (exército) supostamente alinhada com a posição da Globo. Com um tweet e mais um telejornal atualiza-se o fantasma do golpe militar e fabrica-se um Leviatã.

    Sabemos, porém, que entre os militares há posições muito distintas, e a elite que disputa o espólio do golpe contra a Dilma, está travando uma batalha interna feroz. A unidade apresentada pela Globo é sua ficção com potencial efeito de realidade sobre sua audiência. Não há vontade única do Povo, só há vontade única (dos proprietários) da Rede Globo.

    Na manha seguinte, em editorial, a Globo apressa-se a emitir uma opinião diferente. É fácil saber que ela não mudou de idéia com relação à noite anterior. Os editores sabem que o importante são os afetos que se produzem a cada enunciação. Ela sabe que a mensagem fundamental – ao utilizar os militares para chantagear o STJ – já foi enviada.

    ps: essa imagem em destaque foi produzida pelo colega Andre Mesquita para a capa da minha tese de doutorado, defendida em 2009 (quase 10 anos atrás). Ela segue disponível neste link: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/251771

  • Do protesto aos arranjos tecnopolíticos: recursividade e reticulação

    Do protesto aos arranjos tecnopolíticos: recursividade e reticulação

     

    Tomar as ruas, protestar e expressar nossa indignação é fundamental. Porém, pressionar os governos e as instituições já não parece ser suficiente para traduzir as reivindicações das ruas em novas políticas ou práticas institucionais. Essa crise não é exclusiva do Brasil, mas aqui a situação adquire formas e conteúdos específicos. E como em toda guerra, essa é também uma guerra de velocidades entre ecossistemas concorrentes. O assassinato da vereadora Marielle Franco não é apenas uma mensagem de ameaça a tod@s ativistas, é também uma tentativa de bloquear um caminho de ação política institucional (construção de mandatos populares, partidos e disputa eleitoral). É um crime racista, de gênero (feminicídio), de classe e contra todas as forças e pessoas que ela representava. Tudo parece indicar que o momento histórico exigirá uma multiplicidade de novas formas organizacionais, ferramentas, tecnologias e estratégias de luta. Não é esta ou aquela, mas a combinação de várias estratégias. Não se pode enfrentar o novo com velhas armas.

    Como transformar a energia política das ruas em ganho organizacional e novas institucionalidades? Os limites de junho de 2013 e a forma de captura pelos poderes instituídos do potencial político da multidão deveria servir de lição. Diante das configurações políticas do pós-Golpe e dos protestos multitudinários contra a execução de Marielle essas questões retornam.

    Entendo que seja muito importante disputar as eleições, as instituições etc. O assassinato de Marielle e de tantos outrx ativistas políticos no Brasil é uma clara resposta à ameaça que esta nova geração de lutadoras representa aos poderes instituídos. Ao mesmo tempo (e de forma complementar) é urgente imaginarmos e praticarmos outras formas de ação para além dessas que conhecemos e seguimos fazendo nos últimos 30 anos.

    Acredita-se demasiadamente no poder discursivo e na capacidade da mobilização ideológica. Mas, o poder é sobretudo logístico, é maquínico, funcional, pragmático. Em nossas vidas o poder se inscreve e se realiza mediante dispositivos materiais-simbólicos, humanos e não-humanos. Nossas ações realizaram-se com técnicas e artefatos sociotécnicos. Militantes e ativistas poderiam conversar mais com xs arquitetxs, xs engenheirxs, xs físicxs, biólogxs, cientistas da computação, médicxs etc. É necessário investigar uma outra camada, transbordando do protesto em direção a experimentação prática (prototipagem). Isso não é novidade, muitos coletivos e comunidades já estão fazendo isso.

    A criação da pílula anticoncepcional, o protocolo TCP/IP da internet e o telefone celular são exemplos de artefatos técnicos-científicos que produzem arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares. Sua forma de adoção e propagação vai gradativamente modificando as relações sociais através do seu uso, e os efeitos de sua adoção nas pontas (sujeito individual ou máquinas) cria mecanismos de reforço sistêmico. Também podemos citar algumas comunidades territoriais que desenvolvem formas de autogoverno sobre seus recursos e infraestruturas comuns (água, eletricidade ou da sua pequena horta). Certas ordens religiosas também são exemplos de tecnologias organizacionais capazes de criar economias de suporte e com infraestruturas (materiais e simbólicas) interdependentes. Não a toa, o controle de infraestruturas e serviços básicos pelo crime organizado em espaços da vida social coloca em funcionamento toda uma máquina social, com normas, modos de subjetivação e legitimação próprios. Em todos esses casos o problema de escala é atacado de outra forma, por reticulação.

    Há duas noções que podem contribuir para a construção de novos arranjos sociotécnicos: recursividade e reticulação.

    Recursividade: faço uma livre combinação desta propriedade da ciência da computação com a caracterização de Chris Kelty sobre as comunidades de software livre. Uma prática, uma tecnologia, uma organização que atue recursivamente está desenhada para a resolução prática de um problema, cujo modo de ação dá-se mediante a criação de sub-rotinas que atacam frações de um problema maior, e a cada movimento ela volta à sua função (missão) original, porém agregando um “aprendizado” que a torna mais eficiente. Este aumento de eficiência (ou ganho de poder) acontece também porque além de resolver partes do problema (diminuindo a força do seu oponente) ela modifica gradualmente o seu meio de ação (meio-associado), criando um ecossistema mais favorável à sua execução. Ou seja, um artefato recursivo é um dispositivo prático (material-simbólico) que executa um programa (uma ação normativamente orientada) cuja eficiência está na transformação do seu meio-associado e não apenas na realização de um objetivo final abstrato). Como efeito, a recursividade apoia-se na produção de uma “comunidade” ou de “públicos recursivos” que dão sustentação ao processo.

    Reticulação: da cristalografia e do pensamento de G.Simondon, mas também dos estudos de inovação em ciência e tecnologia. A reticulação é um processo de propagação não-linear e rizomático de uma estruturação emergente criando níveis subsequentes de estruturação de uma realidade. Quando uma prática, uma tecnologia, uma organização se reticulariza, significa que ela é capaz de tornar durável, de diferentes formas, o seu programa de ação, criando níveis crescentes de estruturação. Como efeito, ela amplia sua capacidade de determinação sobre um campo de possíveis. Ou seja, a reticulação dá maior consistência e força para seu programa de ação.

    Passar do protesto à criação de arranjos sociotécnicos recursivos e reticulares significa encontrar formas de organização, práticas e tecnologias adequadas ao novo contexto, capazes de traduzir, mediar e atualizar certos valores através desses dispositivos, para que sua adesão e utilização se propague através de crescente estruturação. Diante das novas formas de exercício do poder quais são as nossas tecnologias de contra-poder? Como nos organizamos, como criamos novas relações de suporte entre nossas práticas, qual é nosso economia, como cuidamos de nossa saúde coletiva, quais são as infraestruturas necessárias e como assumimos controle sobre elas? Investigar a fundo os problemas que enfrentamos, construir estratégias para a criação desses dispositivos e dos pontos-obrigatórios-de-passagem é um ótimo programa de pesquisa-ação.

    #Marielle&AndersonPresente!

  • Epistemologias da prática, saberes profissionais e a arte de documentar

    Epistemologias da prática, saberes profissionais e a arte de documentar

    Paralelamente às leituras preparatórias para a aula desta semana, encontrei outros trabalhos de inspiração para a disciplina Ensino de Sociologia II deste semestre: (a) o site de Tomas Sánchez Criado ; (b) a entrevista com Pelle Ehn, sobre design colaborativo a apropriação tecnológica [1]

    Quando penso no estágio supervisionado com um laboratório entendo que: (a) iremos construir e eleger um problema comum (compartilhado, que afeta a tod@s); (b) elaboraremos um percurso coletiva de investigação e aprendizagem; (c) criaremos um processo de documentação em processo e compartilhada; (d) consequentemente, teremos que produzir uma “comunidade” de aprendizagem coletiva; (e) e para isso teremos que construir e promover nossos acordos, infraestruturas, práticas e afetos.

    Iniciamos os trabalhos há 15 dias, sendo que na semana anterior os estudantes tiveram o dia de aula liberado para realizar a busca e formalização do campo do estágio. Avalio que neste período nossa comunicação, apoiada apenas numa lista de email, foi muito tímida. Precisamos criar uma prática comunicacional que contribua não apenas para a gestão do curso, mas sobretudo para que possamos intensificar as trocas entre nós e fortalecer os vínculos. A comunicação participa da produção do ambiente de aprendizagem.

    O foco das discussões da próxima aula será a noção de “epistemologia da prática profissional docente”, proposta pelo texto de Maurice Tardif [2]. As relações entre os saberes profissionais (os saberes efetivamente praticados, aprendidos e desenvolvidos durante a execução do trabalho), e os conhecimentos universitários (o conhecimento da ciência específica objeto do ensino e os conhecimentos pedagógicos) serão aí problematizadas.

    Pretendo conectar a discussão sobre os “saberes profissionais” com um trabalho de documentação do nosso percurso. Documentar não se confundi ou se reduz ao ato de registrar. Documentar é um processo complexo de produção de um conhecimento compartilhado. Como diz Antonio Lafuente [3], o conhecimento só existe nos corpos e nas diversas formas de documentação. A prática científica apoia-se sobremaneira na realização da documentação. Qualquer experiência cientifica, digna deste nome, deve ter uma documentação que permita o seu escrutínio público, o seu entendimento e inclusive a sua replicação (quando for o caso). Nas ciências humanas temos diversas formas de documentar.

    No caso da nossa disciplina, e mais especificamente em relação à esta noção de “saberes profissionais”, queremos dar destaque também (e sobretudo) para os momentos de aprendizagem, para aquelas situações em que sentimos que algo novo foi produzido, em que houve uma mudança de percepção, atitude, competência, conhecimento. É difícil descrever essas coisas. Frequentemente tudo isso é negligenciado nos processos de documentação, que acabam privilegiando apenas os “fatos” e os “feitos” capazes de serem objetivamente descritos. Inspirados aqui na ideia de “Matters of Care” de Maria Puig de la Bellacasa [4], pretendemos justamente dar existência tangível para o que está na margem, para o que é invisível e que dá forma a uma constelação de fatores (um entorno social, um meio ambiente) onde o aprendizado acontece, emerge. Em se tratando de um curso de formação de professores, isso adquire especial relevo pois os saberes profissionais possuem muitos elementos de ordem tácita, não codificada. Veja, não se trata de tentar codificar o não-codificável, mas à maneira dos artistas, encontrar formas de expressão para o que nos acontece e nos afeta. Assim comunicamos nossas experiências e por isso aprendemos.

    ==Notas==

    [1] EHN, Pelle, Farías, I., & Sánchez Criado, T. (2018). La posibilidad de que cosas del diseño puedan ser socialistas-democráticas: Entrevista a Pelle Ehn. Entrevistadores: I. Farías & T. Sánchez Criado. Diseña, (12), 52-69. Doi: 10.7764/disena.12.52-69. http://ojs.uc.cl/index.php/Disena/article/view/17

    [2] TARDIF, Maurice. Saberes Profissionais dos professores e conhecimentos universitários. Revista Brasileira de Educação, n.13, 2000, pp.5-24. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/rbedu/n13/n13a02.pdf

    [3] LAFUENTE, Antonio & GÓMEZ, David & FREIRE, Juan. A arte de documentar. Disponível em: http://www.academia.edu/33809850/El_arte_de_documentar
         LAFUENTE, Antonio et alli (equipe docART). Manual docART. Disponível em: https://www.academia.edu/36042065/manual_docART

    [4] BELLACASA, Maria Puig de la. Matters of care in technoscience: Assembling neglected things. Social Studies of Science, 41(1) 85–106. DOI: 10.1177/0306312710380301

  • Diário do curso – nota 1

    Diário do curso – nota 1

    No primeiro dia de aula cada estudante se apresentou rapidamente. O objetivo era saber o nome das pessoas, sua situação e momento no curso, campos e temas de interesse de investigação, e conhecer um pouco de suas experiências ou interesses no campo da educação. Tivemos aproximadamente 10-12 estudantes presentes em cada turno.

    Em seguida realizamos uma atividade de mapeamento ágil do imaginário instituído em torno de duas questões:
    1.O que “eu” como futuro professor, devo saber para poder exercer minha atividade?
    2.O que sinto/percebo como ameaças à realização da minha prática como docente? O que está sob ameaça?

    Tarjetas foram distribuídas para os estudantes. Eles escreveram suas respostas e depois todas elas foram lidas em sala. Na medida em que eles liam fui montando um diagrama dos termos, dando forma a dois “mapas” mentais (veja link para imagens abaixo).

    O objetivo dessa atividade era compreender melhor quais são as representações instituídas em torno dos saberes e competências que acreditamos ser necessárias para uma boa atuação docente. Com a outra pergunta, eu desejava compreender um pouco das preocupações, medos e anseios que os estudantes têm diante das transformações que afetam a sua atuação como futuros professores.

    Realizar este tipo de mapeamento é importante. Ele ajuda a tornar visível entre nós quais são as representações, o imaginário, as percepções, que participam da nossa construção de mundo. Compreender de onde partimos e quais são as influências (culturais, teóricas, emocionais, políticas etc) que compõem nossas experiências é uma estratégia importante para desenvolvermos uma reflexão e prática crítica sobre nossos percurso de formação durante o curso. Na outra pergunta, ao tornar visível coletivamente o que está “ameaçado” reconhecemos qual é nosso “comum”, relativo à atividade docente, que está sendo transformado ou destruído. Ao fazer isso destacamos a forma como as relações entre os professores, e deles com o mundo escolar, são parte constitutiva do tecido que sustenta este comum.

  • Projeto de Pós-Doutorado IBICT e CSIC-Madrid 2017

    Laboratórios Cidadãos: arranjos sociotécnicos e produção do comum

    Pesquisa de Pós-Doutorado no IBICT – Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, no LIINC – Laboratório Interdisciplinar sobre Informação e Conhecimento, sob supervisão da Profa. Dra. Sarita Albagli – http://www.liinc.ibict.br ; com período de pós-doutorado no CSIC – Consejo Superior de Investigaciones Científicas de Madrid, sob supervisão do Prof.Dr. Antonio Lafuente, com apoio da CAPES.

    • Apoio para o pós-doutorado internacional: CAPES n. 88881.119261/2016-01

    Diário de Atividades Krono-Madrid

    Relatório de Atividade Documenta

     

    Introdução

    O projeto de pesquisa tem como objetivo geral analisar, compreender, sistematizar e publicizar, um conjunto de experiências denominadas de laboratorios ciudadanos, desenvolvidas entre pesquisadores acadêmicos, ativistas, artistas e segmentos da sociedade civil, que mediante novos regimes de produção de conhecimentos e de formas alternativas de organização, objetivam fomentar uma cultura de inovação social para atuar sobre problemas e questões sociais específicas.

    O objetivo científico é analisar as configurações sociais das iniciativas aí realizadas em quadro dimensões, identificadas como eixos teóricos/metodológicos por Antonio Lafuente em sua apresentação do Laboratorio del Procomún (2008): protocolos, infraestrutura, comunidade, commons. Cada uma dessas dimensões interroga, como descreveremos adiante, problemas atuais na fronteira interdisciplinar dos estudos sociais em ciência e tecnologia com a sociologia política. Mais precisamente, iremos focalizar os problemas relativos à mediação técnica (LATOUR, 1994), para compreender os mecanismos (sociais e tecnológicos) adotados com vistas a tornar durável (formas de reprodução e propagação social) certos princípios ético-políticos inscritos, traduzidos e atualizados através dos protocolos, das tecnologias (sociais, simbólicas e materiais) e dos modos de associação/organização promovidos por essas práticas.

    Justificativa

    A relevância deste objeto teórico e empírico pode ser constatada pelas questões que ele provoca e pelos problemas que visa atacar. A busca por modelos alternativos de produção de conhecimentos e de novas formas de mediação política é um problema partilhado por muitas instituições de pesquisa, universidades e organizações políticas (estatais e da sociedade civil) preocupadas com a crescente instabilidade dos seus mecanismos de representação, produção e legitimidade dos saberes e poderes instituídos.

    Este projeto de pós-doutorado surge como o desdobramento dos trabalhos realizados nos últimos anos em duas linhas complementares de pesquisa e que agora convergem para o mesmo objeto. O desenho deste plano de trabalho responde, portanto, às exigências de aprofundamento científico provocadas pelos problemas encontrados neste percurso e que, no objeto empírico aqui selecionado, manifestam-se de maneira prototípica: as tensões entre os regimes de saber-poder emergentes e sua relação com as configurações e mediações técnicas da vida contemporânea.

    Descreveremos, primeiramente, dois eixos de questões que delimitam os problemas investigados por este projeto (os objetivos específicos serão descritos no próximo item).

    Numa linha de pesquisa investigamos o campo da ciência aberta e da ciência cidadã, termos que designam um conjunto diverso de práticas colaborativas na produção e acesso ao conhecimento, com formas heterogêneas de participação de diferentes atores sociais nas diversas etapas da produção científica. Para além das experiêncas de acesso aberto (open acess), debate mais restrito à esfera da circulação do conhecimento científico produzido, investiga-se as formas híbridas de interação entre pesquisadores/cientistas profissionais e não-profissionais, com modulações nos graus de participação, nas fases de elaboração da pesquisa, execução, análise e apropriação dos conhecimentos produzidos (PARRA, 2015; LAFUENTE, 2015). Observa-se a emergência de novos atores cognitivos – comunidades epistêmicas e comunidades de práticas (AKRICH, 2010) – que passam a disputar os regimes de autoridade dos saberes, oscilando entre a complementariedade e o antagonismo radical face aos conhecimentos instituídos (LAFUENTE, 2010, 2011, 2013; CALLON, M & RABEHARISOA, 2003).

    Nesta perspectiva, as experiências confrontam-se com novos problemas relativos às formas de reconhecimento e validação dos conhecimentos, questões epistêmicas e metodológicas, mudanças nas formas de legimitidade e reputação dos atores envolvidos, e também novos problemas relativos à economia política da informação e aos regimes de propriedade intelectual, em parte traduzidos em novas disputas sobre as tendências de comunalização do conhecimento (commons) versus as dinâmicas de “cercamento” e privatização (ALBAGLI & MACIEL, 2012; BOYLE, 2010; MOULIER-BOUTANG, 2007). Nesta perspectiva pode-se explorar as metamorfoses no ecossistema (social e tecnológico) de produção e circulação dos conhecimentos, investigando-se os efeitos da abertura (na produção e acesso de informações) e colaboração (na interação entre diferentes atores) diante das forças de fechamento e apropriação exclusiva.

    Numa direção complementar, investigamos aspectos relativos às novas formas de controle e vigilância que se desenvolvem como parte constitutiva deste mesmo processo de crescente produção de informações, graças à informatização e convergência das tecnologias digitais em diversas esferas da vida social (PARRA, 2016). Trata-se do “outro lado da moeda” dos efeitos da abertura, gestando novas formas de governo e modos de subjetivação (ROUVROY, 2014). Tal problematização emerge a luz de iniciativas promovidas por grupos e movimentos vinculados ao ciberativismo e ativismo informacional, em formas renovadas de participação cidadã através das redes digitais, gestão pública baseadas em mecanismos de interação entre cidadãos e governos. Cidadania 2.0, ciberdemocracia, democracia digital são algumas das denominações utilizadas para descrever experiências neste campo (PARRA, 2015).

    Nesta perspectiva, interessa-nos focalizar iniciativas com perfil tecnoativista, onde a relação entre tecnologia e política é problematizada de forma imanente, reconhecendo dinâmicas de tradução e mediação não dicotômica nos arranjos sociotécnicos (KELTY, 2008; LATOUR, 1998; WINNER, 1986). No plano teórico, tais iniciativas contribuem para uma reflexão aguda sobre a emergência de formas de modulação da existência e da subjetividade através do controle infinitesimal da vida tecnicamente mediada e, no plano social, o desenvolvimento da sociedade de controle (DELEUZE, 2007), ao poder protocolar (GALLOWAY, 2004) e à governamentalidade algorítmica (ROUVROY, 2014) como expressões contemporâneas das formas de governo e suas técnicas de exercício do poder.

    O projeto atual de investigação surge, portanto, com os problemas encontrados na confluência e na atualidade entre os estudos sociais em ciência e tecnologia e a sociologia política. Tanto nas comunidades epistêmicas de cientistas amadores, como nas comunidades de hackers e tecnoativistas investigadas, observamos um repertório de práticas, valores e arranjos sociotécnicos que partilham de elementos similares, produzindo uma gramática comum. O percurso de investigação atual focaliza nossa atenção para um objeto (teórico e empírico) onde investigaremos certa configuração presente na interpretação dos artefatos técnicos, nos modos de organização social, nos princípios ético-políticos e nos protocolos produzidos nas ações do Laboratorio del Procomún.

    Objetivos e delimitação do objeto teórico e empírico

    Objetivos específicos

    Investigar o fenômeno sob quatro eixos de análise: protocolos; infraestrurura; comunidade; commons. Problematizar os limites atuais da teoria sobre os efeitos da mediação técnica na vida social sob os seguintes aspectos: modos de ação e reprodução social (agenciamentos, protocolos e condições infraestruturais); produção e gestão do commons (comunidade política e conhecimento).

    Questões geradoras:

    • Como podemos fomentar experiências de produção de conhecimento situado (HARAWAY, 1995) e aplicado que sejam mais solidárias, emancipatórias, críticas, sustentáveis e recursivas? Quais os novos protocolos (LATOUR, 2004) necessários?
    • Experiências onde o conhecimento e a prática política não estejam orientadas por uma relação dicotômica e de subordinação entre sujeitos e objetos, natureza e cultura, técnica e política (LATOUR, 1998), e cujo resultado aponte para novas formas de produção do comum? Quais os sentidos em jogo sobre o commons (LAFUENTE, 2015; LAVAL, C. & DARDOT, 2015; HARDT & NEGRI, 2009; OSTROM & HESS, 2007)?
    • Se tais condições são uma virtualidade, um estado de potência não realizada, o que podemos aprender através de experiências cuja prática e episteme sejam colocar em movimento essas tensões? Como essas experiências contribuem para tornar visíveis problemas complexos relativos às mutações da relação saber-poder e aos efeitos da mediação técnica na vida social? Quais são seus limites?

    Delimitação do objeto teórico e empírico

    A escolha pelo Laboratorio del Procomún como objeto empírico de investigação apoia-se na gênese do MediaLab Prado, que resulta de uma convergência prática entre diferentes experiências e coletivos envolvidos em práticas de ciência cidadã, tecnoativismo, arte e mobilização social. No website do MediaLab encontramos a seguinte descrição dos seus objetivos:

    • To enable an open platform that invites and allows users to configure, alter and modify research and production processes.
    • To sustain an active community of users with the development of these collaborative projects.
    • To offer multiple forms of participation that allow people with different profiles (artistic, scientific, technique), levels of specialization (experts and beginners) and degrees of implication, to collaborate2.

    O Laboratorio del Procomún (LAFUENTE, 2008), mais especificamente, é uma iniciativa que visa fomentar novas práticas de pesquisa colaborativa orientadas à inovação, promoção e defesa do procomún (commons). Ele abriga os laboratorios ciudadanos, caracterizados por uma metodologia própria, com protocolos, tecnologias e arranjos materiais cujo objetivo é estabelecer um ambiente favorável à criação de protótipos de soluções inovadoras para problemas sociais específicos.

    Mas sob que condições pode a inovação acontecer? É possível fomentar a criação de comunidades autogeridas? Quais as condições (materiais e simbólicas) e quais os problemas que devem ser aí enfrentados? Não haveria aí um contradição insuperável entre a possibilidade de “programar”, arquitetar, prototipar os modos de ação e organização social, e a própria exigência de permanente abertura ao inesperado? Como evitar os riscos de sobrecodificação? Quais os desafios teóricos e políticos emergentes face às novas possibilidades de captura da participação social convertida em nova forma de governo (condução) da vida política, ou como enfrentar as novas formas de exploração do trabalho e de expropriação dos conhecimentos socialmente produzidos no contexto de expansão do capitalismo cognitivo, das tendências de modulação existencial e das formas renovadas de sujeição social?

    Para examinar essas questões seguiremos, inicialmente, uma descrição proposta por Antonio Lafuente em Laboratorios Sin Muros (2008), tomando as seguintes dimensões como balizas para nosso objeto teórico:

    a) Protocolos

    Um laboratório funciona segundo um conjunto de protocolos. Os protocolos podem ser entendidos como acordos sociais, convenções (formais ou informais) que atuam com relativo “automatismo” sobre as configurações da ação humana. Em certo sentido, os protocolos podem ser tomados como formas de mediação técnica da ação humana, uma vez que transmitem para novas relações os modos de agenciamento, princípios e orientações definidos alhures. Na medida em que lidamos frequentemente com protocolos que se realizam através de tecnologias da informação digital, capazes de avaliar, registrar e autorizar determinadas ações, também devemos levar em conta a definição de protocolo para um cientista da computação: forma de obtenção de auto-regulação voluntária num ambiente de ações contingentes (GALLOWAY, 2004).

    Os protocolos são, portanto, importantes tecnologias e mecanismos para tornar duráveis e transmitir determinadas formas de ação e organização social. Ao investigarmos a criação e as configurações dos protocolos sob esta perspectiva, dialogamos com problemas caros à teoria social e política contemporânea: formas de individuação, agenciamentos a-significantes e servidão maquínica (LAZARATTO, 2010); agência dos objetos e artefatos (LATOUR, 2005), técnicas e formas de exercicio do poder (FOUCAULT, 1997); recursividade como formas de ampliação de práticas sociais (KELTY, 2008). Quais os protocolos produzidos por determinadas comunidades de cientistas amadores e tecnoativistas? Como eles apontam para estratégias de reprodução social e para atuação sobre o ecossistema que informa seu campo de ação?

    b) Infraestruturas

    A infraestrutura de um espaço através do qual a ação se desenrola e possui uma dupla característica: é aquela dimensão mais “invisível”, menos percebida, uma quase segunda-natureza; e ao mesmo tempo é aquela dimensão com forte potencial de determinação/orientação da ação. Na análise das iniciativas promovidas pelos laboratorios ciudadanos, a infraestrutura deve ser observada como um importante componente de sua configuração, e poderá incorporar tanto as soluções tecnológicas adotadas (quais tecnologias de comunicação são selecionadas para mediar e organizar os processos do laboratório e a produção de conhecimentos?); como os arranjos institucionais construídos para abrigar o desenvolvimento das ações. Neste sentido, dialogamos com problemas caros à sociologia da tecnologia (LATOUR, 1994; WINNER, 1986; MUMFORD, 1964), e à ciência política e econômica sobre os arranjos de governança institucional (OSTROM; HESS, 2007) necessários para fomentar a produção e a manutenção de ambientes produtivos e sustentáveis, social, ambiental e economicamente.

    c) Comunidade

    Neste contexto o termo comunidade não deve ser entendido em sua acepção identitária. Pensamos, sobretudo, em devires comunitários emergentes em modos de associação capazes de abrigar novas singularidades (DELEUZE; GUATTARI, 2005; AGAMBEN, 1993) que dão existência a novos atores políticos. Neste sentido, a comunidade tratar-se-ia de formas de produção do comum (recursos materiais, conhecimentos, formas de vida, tecnologias) através dos quais a comunidade e os seus atores produzem-se mutuamente em tensão com as fronteiras que delimitam o dentro e o fora (LAFUENTE, 2015; HARDT; NEGRI, 2009). Quais os mecanismos e as condições de pertencimento e acesso ao comum produzido em comunidades abertas (e neguentrópicas)? Nesta perspectiva, interrogamos como as práticas e os saberes produzidos pelo Laboratorio del Procomún enfrentam os problemas relativos aos mecanismos de identificação e de pertencimento, ou seja, quais suas formas de “fazer” comunidade e de instituir um comum?

    Simetricamente, como tais dinâmicas produzem e dão a ver novos atores cognitivos e políticos? Como as formas colaborativas de produção de conhecimento sobre determinados problemas sociais ou populações contrastam o conhecimento instituído a partir de perspectivas não-hegemônicas – os saberes locais, ou “conhecimentos situados” como prefere D.Haraway (1995) – e neste processo produzem fatos científicos e novos sujeitos demandantes de novos direitos? Ora, como pensar na produção de comunidades sem partir de sujeitos ou actantes pré-constituídos? Problemas análogos encontramos nos debates sobre as interações de cientistas e público interessado nas experiências de comunidades epistêmicas e comunidades de práticas (AKRICH, 2010), e também nas tensões entre as política de reconhecimento e a institucionalização de direitos cidadãos (HARDT; NEGRI, 2009).

    d) Commons (Procomún)

    Nem público-estatal e nem privado, mas aquilo que é produzido entre todos, e cuja existência depende de uma comunidade que produz e mantém sua existência como recurso comum, e cujo usufruto não é passível de apropriação ou delimitação exclusiva (LAFUENTE, 2015). Além dos bens naturais, podemos agregar a esta categoria a cultura, o conhecimento, a linguagem, entre outros. O que se torna commons não é um recurso que pré-exista enquanto tal. O commons é sempre o resultado de uma “fabricação”, que surge simultaneamente à comunidade de usuários que “cuidam” da sua manutenção, das práticas, dos protolocos e da infraestrutura necessária (LAFUENTE, 2008).

    As políticas de produção e de gestão do commons são hoje objeto de intensa reflexão na teoria política e econômica contemporânea (LAVAL, C; DARDOT, 2015; HARDT; NEGRI 2009; OSTROM; HESS, 2007). Dentro deste vasto universo, nossa pesquisa focaliza as dinâmicas de produção e acesso ao conhecimento enquanto commons. Tal perspectiva reforça, portanto, a transversalidade entre os eixos anteriores: protocolos, infraestrutura e comunidade. Como o Laboratorio del Procomún enfrenta as tensões entre a abertura e o compartilhamento de dados e informações, necessário aos processos de colaboração, diante das dinâmicas de apropriação exclusiva e privatização do conhecimento? O que signfica tomar o conhecimento enquanto commons em direção à políticas de inovação aberta (KAPCZYNSKI, 2010; ALBAGLI; MACIEL 2009; BOYLE, 2010; MOULIER-BOUTANG, 2001)?

    Referências iniciais do Projeto

    AGAMBEN, G. A comunidade que vem. Lisboa: Editorial Presença, 1993.

    AKRICH, Madeleine. From communities of Practice to Epistemic Communities: Health Mobilizations on the Internet. Engaging Science, Technology, and Society. n.15 (2), 2010.

    ALBAGLI, Sarita; MACIEL, Maria Lucia. Informação, conhecimento e democracia no Capitalismo Cognitivo. In: COCCO, G.; ALBAGLI, S. (Org.) Revolução 2.0 e a crise do capitalismo global. Rio de Janeiro: Garamond, 2012. p. 40-58.

    BOYLE, James. The second enclosure movement and the construction of the public domain, 2010. Disponível em: http://scholarship.law.duke.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1273&context=lcp Acesso em 09/07/2016.

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    SODERBERG, J. Hacking capitalism: the free and open source software movement. Nova York/Londres: Routledge, 2008.

    STENGERS, Isabelle. An ecology of practices. Cultural Studies Review, vol.11, n.1, march, pp.183-196, 2005.

    STILGOE, Jack; IRWIN, Alan and JONES, Kevin (2006), The Received Wisdom: opening up expert advice. (Demos) http://www.demos.co.uk/files/receivedwisdom.pdf?1240939425

    WINNER, L. Do artifacts have politics? In: The whale and the reactor: a search for limits in an age of high technology. Chicago, University of Chicago Press, p.19-39, 1986.

  • Deve ser a Lua: outras escalas políticas

    Deve ser a Lua: outras escalas políticas

    A Lua já quase virou, cheia! Ontem jornada estendida na universidade. Início de mais um curso, experimentações. Criamos laboratórios onde o comum está sob ameaça. Formas de (r)existir, vamos investigar coletivamente! Hoje trabalho na casa. Saio pra comprar uma torneira, alicate de pressão, cesto plastico pra roupa suja, topwares…Comércio popular da região onde moro é ótimo pra barganhar. Desvio no meio do caminho. Passo numa livraria pra pegar um livro. No dia anterior eu havia recebido o pdf dele. Sincronia! “Ensinando a transgredir“, da Bell Hooks, militante, educadora, negra, feminista. Quando cheguei em casa e tirei todas essas coisas da mochila achei que era uma composição curiosa: as ferramentas, coisas de cozinha, um livro sobre educação e feminismo. Que devir é este? A noite, vou pra assembléia da escola da Mai. Segui o fluxo e acabei entrando pro conselho escolar do ensino infantil. Deve ser a Lua.

  • Inspirações de partida para mais uma disciplina de estágio supervisionado no ensino de sociologia

    Inspirações de partida para mais uma disciplina de estágio supervisionado no ensino de sociologia

     

     

    foto de Michael Wolf: http://www.hypeness.com.br/2013/02/fotografo-registra-a-vida-claustrofobica-dos-cidadaos-de-hong-kong/ 

    Amanha, 27 de março de 2018, começam as aulas da disciplina Ensino de Sociologia II e Estágio Supervisionado, na Unifesp. Nas edições anteriores em que ministrei essa disciplina fomos experienciando diferentes modos de organização e realização do curso. As disciplinas do estágio tem o desafio de combinar a formação teórica à prática, articulando essas dimensões de forma simétrica e imanente em todas as atividades realizadas.

    Diferentemente das outras disciplinas do curso, a realização do estágio depende sobremaneira de fatores exógenos com os quais temos que desenvolver formas de adaptação e negociação permanente. Por exemplo, a oferta e abertura de oportunidades de estágios pelas escolas e professores, a disponibilidade dos professores para receber nossos estudantes, os dias e os locais de oferta da disciplina de Sociologia nas escolas, a coincidência ou a desincronia entre a oferta do campo de estágio e a disponibilidade dos próprios estudantes. Enfim, é sempre uma equação complexa.

    Ademais, a disciplina de estágio também se caracteriza por ser um dos poucos momentos do curso em que, obrigatoriamente, a universidade tem que estabelecer relações de mão-dupla com o seu “fora” (escolas, organizações culturais etc). Em outros momentos do curso também existe essa interação com o “fora”, porém ele se dá principalmente através da realização de pesquisas, seminários ou projetos específicos. O estágio, por sua vez,  exige uma relação de colaboração orientada pela construção de condições de maior simetria, horizontalidade e solidariedade entre os diversos atores envolvidos no processo, sem o qual o estágio não se desenvolve.

    Por isso, gosto de pensar no estágio como uma disciplina que deve ser capaz de construir uma zona de intersecção, traduções e transducções entre diferentes práticas e saberes: as práticas e os saberes universitários, as práticas e saberes escolares, as práticas e os saberes dos professores, dos estudantes, das instituições, das disciplinas etc. Talvez, a noção de “ecologias de práticas” proposta pela filósofa Isabelle Stengers possa ser útil para tomarmos o estágio como essa situação em que experimentamos fomentar uma ecologia das distintas práticas e saberes que aí se encontram:

    “An ecology of practices may be an instance of what Gilles Deleuze called ‘thinking par le milieu’, using the French double meaning of milieu, both the middle and the surroundings or habitat. ‘Through the middle’ would mean without grounding definitions or an ideal horizon. ‘With the surroundings’ would mean that no theory gives you the power to disentangle something from its particular surroundings, that is, to go beyond the particular towards something we would be able to recognise and grasp in spite of particular appearances.” (STENGERS, p.187.)

    “Cada práctica serían una forma de producir y estar en el mundo “una perspectiva que celebra la existencia de todo tipo de seres que  plantean específicamente la cuestión de lo que cuenta para su propia forma de vida […] todo aquello para lo que la existencia implica una apuesta, un riesgo, la creación de un punto de vista sobre qué, desde ese momento, se convertirá en su medio (milieu).” [2003: 37 apud Osfa]

    Outro conceito que Stengers mobiliza (de empréstimo de Brian Massumi), e que também nos será útil no estágio, é a idéia de “tecnologias sociais de pertencimento”:

    “Social technology of belonging, as it deals with people who are not only social beings but people who belong, would then be that technology which can and must address people from the point of view of what they may become able to do and think and feel because they belong.
    […]
    “This is why technology of belonging is not a technique of production but, as Brian Massumi put it, works both as challenging and fostering. Its two main matters of concern are the question of empowering, a matter of fostering, and the question of diplomacy, a matter of challenging. Inversely, challenging as associated with diplomacy, and fostering as associated with empowering, must make explicit the cosmopolitical stance that ‘we are not alone in the world’.”

    A escolha de caminhar com esses conceitos não é trivial. Tomar o estágio como tempo-espaço de uma experiência situada na perspectiva de uma ecologia de práticas, implica num desafio simultaneamente epistemológico e político, que aposta na criação de formas de convivência entre mundos, práticas e modos de conhecer distintos. É a partir dessas referências que pretendo experimentar transformar a disciplina do estágio neste semestre em um “laboratório cidadão”, inspirado aqui nas palavras de Antonio Lafuente:

    “Um laboratório cidadão é um espaço de produção aberta do conhecimento.
    É um lugar capaz de acolher um coletivo heterogêneo de atores que almejam dar forma a um entorno social. É portanto um lugar onde nos obrigamos a identificar uma problemática, documentá-la, isolar suas características mais notáveis, contrastar os distintos pontos de vista, explorar as diferentes formas de abordagem, extrair conclusões e comunicar as descobertas, dúvidas e fracassos. Aqueles que a integram se autoconfiguram como uma comunidade de aprendizagem aberta a toda variedade de atores e a toda pluralidade de pontos de vista. De forma que sua primeira tarefa é encontrar uma linguagem comum, ou seja, um espaço que torne possível a conversação sem que ninguém imponha seu ponto de vista e sem que ninguém tenha o poder de fechar/bloquear um tema porque considera que já se discutiu o suficiente.

    Um laboratório cidadão é, portanto, um espaço para aprender a viver juntos: uma incubadora de comunidades. Um laboratório cidadão é um espaço, por antonomásia, para a política experimental, pois sendo hospitaleiro com as minorias e tratando-as como sensores de aviso antecipado de problemas porvir, estaríamos encontrando respostas situadas e inclusivas para assuntos todavia incipientes e talvez mais frequentes, gerais ou agudos no futuro.

    É um laboratório porque aposta na cultura experimental, no contraste de pontos de vista, nas práticas abertas e na comunicação pública. É cidadão porque confia na inteligência coletiva e outorga maior dignidade cognitiva ao experiencial, o que é o mesmo que dizer que um laboratório cidadão nunca dividirá o mundo entre os que sabem e os que não sabem.” [https://pimentalab.milharal.org/2017/12/12/sentidos-de-um-laboratorio-cidadao-por-antonio-lafuente/]

    Evidentemente, isso nos coloca inúmeros desafio. A principal dificuldade é superar a frequente individualização das experiências de estágio que cada estudante envereda. O desafio de transformar uma sala de aula e um grupo diverso de estudantes em um processo de aprendizagem coletiva é análogo ao desafio que cada professor enfrenta na escola diante de uma sala de aula. Como conciliar as singularidades de cada estudante e a maneira como cada um aprende, com os espaços, situações e práticas escolares que são coletivos? Podemos transformar uma sala de aula, o ensino de uma disciplina universitária ou escolar em um laboratório cidadão? Esta é uma das hipóteses que iremos investigar.

    ps: inicialmente irei documentar esta edição da disciplina nesta página wiki (ainda em elaboração): https://pt.wikiversity.org/wiki/Ensino_de_Sociologia_e_Est%C3%A1gio_Supervisionado/II-2018

     

  • Projeto Pesquisa Ciência Aberta e Desenvolvimento – 2015 a 2017

    Projeto Insterinstitucional (IBICT, Unifesp, UFRGS) Coordenado por Profa. Dra. Sarita Albagli (IBICT).

    Sintese

    This project aims to provide critical reflection and practical learning, experimenting with community-driven initiatives in OCSD, and by mapping, characterizing, and analyzing the main institutional, social and cultural issues involved in them, in Ubatuba municipality, in the State of São Paulo, Brazil. The project´s main research problem is to identify and understand how these issues affect positively and/or negatively the adoption of OCS as a potential tool to face the challenges of sustainable development in Ubatuba community, considering the different perspectives and interests of local stakeholders. Three key groups of stakeholders were initially identified: scientific research groups from diverse fields and institutions; local agents potentially interested in the scientific processes and their outcomes (from civil society and government); and open knowledge and free digital culture advocates.

    See more athttp://ocsdnet.org/grantwinnersarticles/ibict-instituto-brasileiro-de-informacao-em-ciencia-e-tecnologia-okbr-open-knowledge-brasil-participating-institution/#sthash.ZeNORdWF.dpuf

    Justificativa

    The choice of Ubatuba considered: its development challenges, and possible learning and replications to other contexts; the existence of significant local conditions favorable to a local dynamics in OCSD, and stakeholders potentially willing to participate in actions as proposed. Ubatuba´s key development challenge is how to conciliate: (a) its rich and strategic natural and cultural assets from the point of view of the local, national and worldwide socio-biodiversity; (b) the necessity to provide access to local populations to social and economic benefits derived from the use of that wealth in sustainable development; (c) political empowerment of local communities in a context of inequality of access to institutional deliberation processes; and (d) the contributions that science may make for these processes. By partnering up with the organized civil society and adopting a view of scientific diffusion based upon the open sharing of information, OCS practices would assert the social relevance of scientific production through a positive impact on public and institutional deliberation on local issues.

    Metodologia

    The project´s methodology is based on an action-research approach organized along two axes – practical learning and critical research — which means that research tools will be developed by interacting with and having inputs from the local communities integrated with their empowerment and participation in different research phases: definition of relevant issues; data collection; appropriation of research methods and techniques. In synthesis, the project will develop the following actions: (a) mobilizing an OCS multi-stakeholder working group, targeted to promoting an ongoing discussion on OCSD-related issues among the different stakeholders; (b) socio-economic characterization of Ubatuba, together with development of ethnographic data on the stakeholders aiming to know opinions, resistances, criticisms, and willingness to experiment with OCS to face the local development challenges, along the initiatives promoted by the project; (d ) promotion of a diverse set of initiatives, as test beds for possible uses of OCS in local development, such as open workshops, discussions and mentoring, in partnership with other initiatives, focused on different goals – awareness, training in specific tools and methodologies, inviting practitioners to share their own developments, etc. – which will be observed and assessed. The mid-term goal is to establish a local committee on Science, Technology and Innovation, to give long-term sustainability to open and collaborative scientific practices on the ground.

    Eixos de Analise

    This project will address 3 of OCSDNet’s key research themes, as described below:

    • Theme one (motivations): The project will contribute to understanding facilities and barriers for a pro-open environment within and between the scientific research communities, and between researchers and the social, cultural and policy framework levels. It also indicates the relevance of finding the ways to support the visibility and communication of science, especially in local communities.
    • Theme three (communities of practice): A crucial part of the project is to find the ways for how new knowledge generated by OCS methods are learned, incorporated, shared and communicated among the various stakeholders, focusing on institutional factors. Attention will also be given to activities with public schools, with a view towards the future generations.
    • Theme four (potential impacts): From an action research perspective, the project will help to foster community building and awareness-raising activities to increase uptake and participation in OCSD, while observing the mutual feedbacks between scientific community projects and findings and other social actors practices and perspectives.

    Mais informações

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    Site de construção do projeto